Eu respeito muito jogador que faz coisas extraordinárias. Ou melhor, explicando com mais detalhes, é o cara diferenciado em ações de alta complexidade técnica o dono de credenciais que me levam brilhar os olhos, a ter expectativa, a cultivar esperança.
Sim, porque o sujeito pode “jogar para a torcida” e, taticamente, não ajudar em nada.
Mas Julinho, neste jogo, protagonizou uma pintura, um golaço, uma bicicleta clássica que, além de resultar em gol, o primeiro do 2 a 0 sobre o América-MG, foi um recurso técnico inteligente para ganhar tempo no lance. Um milésimo de segundo que o cérebro decide por brilhar e que poucos conseguem perpetuar nos gramados.
E Julinho não jogou “para a torcida”. Jogou para o time. Uma equipe que, no primeiro tempo, mandou no jogo. Um duelo truncado, sim; de pouca plasticidade tática, sim. Mas só um grupo de jogadores, e este foi o avaiano, desejou o gol, tentou o tento e, por este motivo, colecionou algumas chances.
E, convenhamos, de que interessa a beleza tática quando ganhamos um presente como o golaço de Julinho?
Veja, na primeira etapa falamos de um Avaí melhor que um América que aqui na nossa bela Ilha chegou com crachá de líder.
Na segunda etapa, um Avaí competitivo, precavido, um pouco daquele time consciente que ganhou o Estadual desfilou na grama pesada e em mutação para adequar-se ao inverno.
Então Hemerson Maria merece, nesta noite, mérito por articular um conjunto consistente, com compreensão do adversário, com ímpeto e se impondo psicológica, física e taticamente.
E o estreante Diogo Acosta, no meio deste cenário, se movimentou, tentou, e foi premiado com um gol de persistência, o segundo avaiano. Vislumbra-se qualidade nesta peça, por seu posicionamento inteligente, por alguma qualidade no cabeceio e, principalmente, pele espírito de participação.
Uma menção mais que honrosa ao jogador Mika, tático, vertical, simples e perigoso nos arremates.
E, claro, à movimentação engenhosa e cadenciada de Cléber Santana. Este, aliás, arquitetou a jogada do segundo gol.
Também não dá para deixar de mencionar o rodízio de marcação que fez Gilberto capengar no meio e Fábio Júnior não mais que passear por Floripa. Jogar futebol, estes dois bons jogadores não o fizeram, muito por mérito da leitura feita por Hemerson de como neutralizá-los.
Não foi uma noite memorável do Avaí, um show de bola, um mergulho num futebol vistoso. Decididamente, não. Mas foi uma jornada na Ressacada em que, quem pagou o ingresso, teve seu dinheiro devolvido com juros e correção monetária por intermédio de um golaço, de atuações individuais de destaque e de um time honesto na aplicação e no respeito pela camisa que vestem.
Aliás, pequenos regozijos como o da noite de hoje constroem uma campanha forte em séries B. Dão combustível para uma equipe se sentir capaz, almejar voos maiores. Oxalá seja um abandono daquele início de campeonato insosso que fazia o Avaí e o início de um torneio mais dinâmico e inclusivo para o campeão catarinense.
Definitivamente, um jogo que merecia o dobro de torcedores, no mínimo, que os parcos e decepcionantes 4,8 mil presentes à Ressacada.