11 jan13:39

A República do Haiti

Darci Debona | darci.debona@diario.com.br

Numa casa azul de seis cômodos no bairro Cristo Rei, em Chapecó, onde normalmente moraria uma família de quatro pessoas, serve de residência para nove haitianos. É uma República do Haiti em Chapecó. Das nove pessoas, sete trabalham na Fibratec, que banca o aluguel. Apenas não trabalham lá a única mulher da casa, Amonise Pierre, e seu filho Kenyowen Pierre. Ela é prima de Emmanuel Pierre, que trabalha na Fibratec. Quem chega na casa logo ouve um proliferar de “oui” pra cá e “oui” pra lá, que significam “sim” em francês, língua oficial do Haiti.

Eles são muito receptivos e convidam para entrar. Na a entrada da casa foi criada uma espécie de varanda, cercada por grades, com brita no piso, onde estão a máquina de lavar roupa, varal, sofá e mesa, que serve para jogar dominó entre outras coisas.

Claunaire Almonnoyd se diz o campeão da turma no jogo. Já no violão, o melhor é Filibert Monestime. Ele canta e toca canções em espanhol e francês. Os haitianos vivem como se fossem uma única família. Cozinham juntos, vão trabalhar juntos, fazer compras juntos. Até os que já saíram da Fibratec em que moram em outra casa seguidamente vão visitar os conterrâneos. Na segunda-feira os visitantes trouxeram três sacolas de “cueca virada”, acompanhados do pastor da Igreja Evangélica Bola de Neve. A missa aos domingos é um dos programas dos haitianos em Chapecó.

Eles procuram economizar ao máximo para mandar dinheiro para o Haiti. Filibert Monestime deixou cinco filhos em sua terra natal. Ele veio para o Brasil para tentar reconstruir sua casa, que foi destruída com o terremoto. -Muitos ficaram sem casa, sem nada, e por isso estão vindo pra cá- disse. Além da perda material, Monestime ficou sem um tio, uma prima e um primo que morreram na tragédia.

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Os haitianos gostaram do Brasil. -É o único país que se importa com o Haiti- afirma Emmanoel Pierre. Eles lembram que, quando chegaram no país, muitas pessoas ofereceram comida e roupa. -Os brasileiros são pessoas boas que tratam nós como irmãos- completa Filibert Monestime.

O que deixa os haitianos um pouco frustrados é o salário, que consideram baixo. A maioria ganha cerca de R$ 850 por mês. E precisam converter o dinheiro em dólar. -De R$ 200 chega lá US$ 86- lamenta Monestime. Alguns também reclamam do cheiro forte de fibra na fábrica de piscinas e caixa de água. A empresa fornece as máscaras, mas os funcionários sentem-se sufocados com ela. Eles também reclamaram de alguns descontos e da insegurança em relação a problemas de saúde.

Por estarem num país estrangeiro, sentem-se um pouco perdidos e sem ciência de seus direitos.

Um dos diretores da empresa, Érico Tormen, diz que o único desconto dos haitianos é os 8% do INSS e que eles recebem todos os direitos de um trabalhador brasileiro de carteira assinada. Quem trabalha em local insalubre ganha 10 a 20% a mais. No entanto a assistência de saúde fica por conta do Sistema Único de Saúde mesmo, realidade que não é diferente para muitos brasileiros.


Polícia Federal orienta para registro

Antes da contratação de estrangeiros as empresas precisam comunicar a Polícia Federal. No caso dos haitianos eles precisam informar a mudança de endereço. Na delegacia da Polícia Federal de Chapecó a informação é de que os haitianos que fizeram essa comunicação estão legais. Não há informação de clandestinos na cidade.

A Polícia Federal informou ainda que os imigrantes do Haiti entraram no Brasil com solicitação de refugiados. O Brasil aceitou por questões humanitárias. Essa imigração está sendo analisada pelo Comitê Nacional para os Refugiados.



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Um Comentário »

  • Julherme disse:

    Muito boa a reportagem, Juliano! Parabéns pelo trabalho.

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