13 jan08:43

Rios estão secos no Extremo Oeste

Darci Debona | darci.debona@diario.com.br

O prolongamento da estiagem no Oeste vai consumindo a água até dos rios, agravando a situação de milhares de agricultores. Em Belmonte um dos principais rios, o Lajeado Tabajara, já não tem mais água correndo no seu leito. Até parece uma estrada cheia de pedras. O agricultor José Luís Borges dos Santos caminha pelo local e mostra onde normalmente ficava o leito. –Tinha mais de meio metro de água- explicou.

O rio servia para abastecer as quatro vacas, que agora recebem água da rede de um poço artesiano, que é servida num bebedouro. –Nossa rotina é tratar os bichinhos e esperar a chuva- disse Dair dos Santos, mulher de José.



Rio tabajara, que corta três comunidades em Belmonte, está seco. O agricultor José Luis Borges dos Santos tem que dar água para o gado em bebedouros.



Até o peixes morreram. Sobraram apenas algumas poças Dair utiliza para lavar algumas roupas. É uma forma de economizar o precioso líquido. –Nunca vi o rio tão seco- diz. A família Santos teme ficar sem alimento para o gado, já que a lavoura de milho foi perdida e a pastagem do campo está secando. –O sol está matando tudo- lamentou José.

O extensionista da Epagri em Belmonte, Evandro Carlos Decol, disse que outro rio importante do município, o Belmonte, também está ficando sem água. E os afluentes já secaram. Cerca de 50 famílias dependem do transporte de água da Prefeitura.

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As maiores perdas são na lavoura de milho, que em média oscilam entre 70 e 75% segundo Decol. O agricultor Carlinhos Godóe teve perdas que superam 90%. Ele pretendia colher 1,5 mil sacas de milho em 10 hectares. –Não vai dar 100 sacas- lamenta. Ele até está tentando fazer silagem para o gado e assim aproveitar o que sobrou das espigas e da palha. A junta de bois tenta aproveitar para comer as plantas secas. Godóe tem R$ 7,9 mil em financiamento e espera ser isentado pois não tem como pagar. Ele aguarda o laudo da Epagri para encaminhar o pedido do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro). –Vamos ver se a gente ganha alguma coisa- explicou.

Na residência da família, a água da fonte só chega à noite. Sua mulher, Judite Godóe, armazena o que pode num reservatório, para utilizar no dia seguinte. E economiza ao máximo. Ela primeiro lava as roupas mais limpas e reutiliza a água para lavar as mais sujas.

O gerente regional da Epagri em São Miguel do Oeste, João Carlos Biasibetti, disse que as perdas maiores são na agricultura familiar, onde a quebra é de 60% no milho e 30% no leite. O laticínio Terra Viva teve uma redução de 20% na captação de leite.


Pastagens estão morrendo

A falta de chuva pode ser observada nas pastagens do Extremo Oeste, que estão morrendo. O gado tenta encontrar algum broto verde no meio das folhas de grama que já estão brancas. A costelas dos animais já começam a aparecer.



A costelas dos animais já começam a aparecer.



–Eles perderam 30% do peso- lamenta o agricultor José Mayer.

A fonte modelo Caxambu já secou. E no rio Lajeado Tabajara, que serve para os animais beberem, restam só poças. Se não chover nos próximos dias ele vai ter que tirar água do consumo humano, que vem por uma rede comunitária, para dar aos animais.

Mayer tem 19 bovinos, quatro cavalos e duas ovelhas. Como não tem mais pasto ele está cortando o milho que não serve mais para a produção de grãos.-A lavoura se foi, não vai mais produzir- sentenciou. O problema é que ele perdeu os R$ 2.780 que investiu na lavoura e não tem cobertura de seguro. Além disso está devendo R$ 1,3 mil. Para piorar, a renda com a produção de leite caiu cerca de 20%. Ele tirava 1,2 mil litros por mês e agora estão em mil litros, o que garante um ganho de apenas R$ 780, sem contar as despesas.

–Não sei como vamos passar o ano- refletiu. Ele investiu todas suas economias na lavoura e perdeu tudo. Mayer espera algum auxílio, nem que seja divino. –Nem que seja Deus que dê uma mão pra gente- concluiu.


Dois meses sem chuva

-A última chuva boa foi no dia 21 de novembro- lembra o agricultor Egídio Volpato, de Belmonte.

O poço que abastecia a casa já secou e ele depende agora do transporte de caminhão pipa da prefeitura. Sua mulher, Inês, não lava mais a louça com a torneira aberta.

–Lavo tudo dentro de uma bacia para economizar- disse.



Dair dos Santos lava roupa no rio por falta de água.



O açude da propriedade, lembra o nordeste brasileiro. –Sobrou só 5% da água- calculou Volpato. Na borda do reservatório, o solo está todo rachado. E a pastagem em volta, está morrendo. –Não tem mais pasto- mostra o agricultor. Ele teme ficar sem alimentação e sem água para as 26 cabeças de gado que tem na propriedade. A lavoura de milho, nem sabe se vale a pena colher. –Não sei se vai cobrir o custo- explicou.

Em São Miguel do Oeste choveu um pouco mais, mas não muito. Em dezembro a Epagri registrou 53 milímetros. De acordo com o gerente regional da Epagri, João Carlos Biasibetti, isso representa 1/3 do normal. Em janeiro, a situação é ainda pior. Foram apenas 16,4 milímetros até ontem. As nuvens rondavam a região ontem mas até o final da tarde haviam caído apenas alguns pingos em pontos isolados. A previsão era de 5 milímetros de chuva.

–Isso não dá pra nada, é chuva para um dia- calculou Biasibetti. Volpato disse que seriam necessários 50 milímetros para recuperar os pastos. E com chuvas regulares a cada semana. Caso contrário a estiagem vai ficando cada vez pior.



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Um Comentário »

  • Juliana disse:

    Infelizmente, mais uma imagem nítida refletindo que a maioria dos prolemas ambientais são consequencias da ação humana….Vejam a foto do “rio seco”, ele foi condenado a morte quando derrubaram toda sua mata ciliar. Está na hora de enchergarmos estas nossas ações e procurar reverter a situação para não piorar ainda mais.

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