09 mar12:26

Filme "Reis e Ratos" reúne Selton Mello, Rodrigo Santoro e Cauã Reymond

À sombra de Roger Corman. Foi assim que tudo começou, numa conversa entre o diretor Guel Arraes, a produtora Paula Lavigne e Mauro Lima, no set de O Bem Amado. O trio estava no set construído para reproduzir a cidadezinha de Sucupira, na adaptação do original de Dias Gomes que já havia feito sucesso como novela, série e até peça de teatro. Mauro Lima é o diretor de Meu Nome não é Johnny, com Selton Mello. O filme nacional está em cartaz no cinema de Chapecó em dois horários.

– Eu observei que, se houvesse uma indústria de verdade no cinema brasileiro, aquele set, tão grande, poderia ser usado para abrigar outra produção, para contar outra história. Começamos a falar sobre o Roger Corman, que fazia isso no cinema norte-americano.

E foi assim que surgiu o filme Reis e Ratos, mas é bom voltar a Roger Corman.

– Ele se orgulhava de nunca ter perdido dinheiro, porque reciclava sets e filmava rapidamente, aproveitando atores. A Paula me desafiou – e se a gente fizesse a mesma coisa? Eu tinha esse roteiro que havia escrito como exercício, muitos anos antes. Sempre quis fazer alguma coisa sobre o golpe de 64 e escrevi o roteiro numa época em que ser diretor era meu sonho de estudante.

Paula leu, gostou – e resolveu arriscar.

– Mas para que a coisa funcionasse, do jeito que imaginávamos, tudo teria de ser feito rapidamente – prossegue Mauro Lima. Foi assim que surgiu Reis e Ratos, como um desafio, ou uma brincadeira. Não foi difícil para Lima cooptar seu amigo Selton Mello, com quem havia feito Johnny.

– Estava jantando com um grupo que incluía Rodrigo (Santoro), falei do projeto e ele me pediu que enviasse o roteiro. Mandei e o Rodrigo me disse sim, imediatamente. Cauã foi outro que embarcou sem vacilar.

Como a urgência estava na essência do filme, não poderia haver muito tempo para preparação. Mauro Lima confiava no taco de seus atores. Eles corresponderam.

– O Selton, que havia sido dublador, propôs a voz fake do seu agente da CIA que participa do golpe militar e quer ficar no Brasil. ê uma voz de canastrão que ele faz muito bem, com uns olhares que são irônicos – avalia o diretor.

– Cauã também trabalhou a voz, mas o que ele propôs foi essa coisa física que serve bem ao personagem. Rodrigo embarcou tanto que pediu ao dentista dele que criasse a prótese que torna seu personagem tão bizarro.

Mauro Lima sabe que seu filme não se assemelha a nenhum outro do cinema brasileiro, recente ou não. Pelas peculiaridades da produção, não houve tempo de inscrever Reis e Ratos nas leis de patrocínio.

– A Paula bancou, com cheque dela.

Quando a Warner entrou no projeto, a pós-produção ficou um pouco mais elaborada, “mas a gente já pensava que o filme deveria ter um acabamento mais elaborado.” Reis e Ratos ganhou efeitos que lhe dão ares de superprodução e até foi colorizado. Numa entrevista com o repórter, no set de Meu País, de André Ristum, Rodrigo Santoro e Cauã Reymond, já haviam cantado essa coisa da colorização e, depois, em outro encontro, Cauã revelara:

– Gostei.

A rigor, se poderia pensar em Reis e Ratos como uma chanchada na tradição da Atlântida, celebrando a estética da paródia que fez a glória do estúdio (e de diretores como Carlos Manga e Watson Macedo). Mas Reis e Ratos não é uma chanchada nem mesmo uma comédia.

- Tem elementos de comédia e de filme noir, mas acho que não se enquadra em nenhuma classificação de gênero. Eu confesso que tenho dificuldade para colocar um filme nessa coisa de gênero. A vida mistura tudo, tem comédia, drama, romance, suspense. Prefiro não catalogar.

Falar do golpe militar desse jeito – reafirmando a aliança de empresários e políticos com os gringos – pode ser arriscado.

– Sempre achei interessante essa história do porta-aviões dos EUA que deveria apoiar o golpe, mas não chegou a tempo.

Algum historiador poderá reclamar do imbróglio envolvendo CIA e KGB, capitalistas e comunistas.

– Mas era o que havia de divertido. E, depois, é tudo uma questão de tom.

O público, como fica nisso tudo?

– Cara, eu não sei como o público vai receber Reis e Ratos. Mas também não sabia no caso do Meu Nome não é Johnny. O que eu acho é que não dá para fazer filme pensando no público, como ele vai reagir. Eu quero que o público veja meus filmes, mas quem eu vou escolher como espectador e tentar atingir? Não dá. O Roger Corman diz que chegou ao público fazendo os filmes que gostaria de ver. ê mais ou menos como estou me sentindo, com um friozinho na barriga, aqui.

Ainda resta a atriz Rafaela Mandelli, que faz a cantora. Quando o repórter diz que a achou sensacional, Mauro Lima dá um risinho, do outro lado da linha – a entrevista foi feita por telefone. O quê?

– Ela é minha mulher.

Tá bem na parada, hein Mauro?


AGÊNCIA ESTADO

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