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12 abr15:24

Silêncio em Preto e Branco

O Artista, vencedor de cinco Oscar 2012, é encantador, mas exige paciência do espectador: trata-se de um longa em preto e branco, sem diálogos e com música onipresente – um objeto estranho em meio à produção do Século 21.

A produção é francesa, mas O Artista foi rodado nos estúdios de Los Angeles, e as cartelas nas quais se leem os diálogos são em inglês. A história é a do romance entre um astro decadente dos filmes mudos (Jean Dujardin, Oscar de Melhor Ator) e uma estrela em ascensão do cinema falado (Bérénice Bejo, ótima). Metáfora banal, porém, que veio a calhar para a Academia de Hollywood em tempos de 3D e IMAX: ou você se adapta às novas tecnologias ou perde o trem da história. A sacada do oscarizado diretor Michel Hazanavicius foi falar sobre o futuro recorrendo a um formato que remete ao passado mais remoto.

Para “entrar” em O Artista é preciso fazer uma limpeza no HD, esquecer efeitos especiais e registros contemporâneos e se permitir um encantamento mais primitivo. O trabalho de Hazanavicius não aspira profundidade: seu charme está nas associações claras com clássicos de Hollywood (leia ao lado), nos personagens facilmente decifráveis (mas muito sedutores) e em inserções apelativas como as do cãozinho Uggie.

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O personagem de Dujardin se chama George Valentin. Além da referência a Rodolfo Valentino, grande nome da então incipiente indústria cinematográfica, foi inspirado em atores como Douglas Fairbanks – assim como Peppy Miller (Bérénice), teve sua composição moldada a partir da imagem como de Mary Pickford. Não é preciso conhecê-los para se comover com seus encontros e desencontros: até pela falta de costume do público com o formato – o último longa sem diálogos a ganhar status semelhante foi A Última Loucura de Mel Brooks, de 1976 –, Hazanavicius fez um filme acessível, que diverte facilmente quem se permitir embarcar em sua proposta.


Limitações dramáticas

Os figurinos maravilhosos, a reconstituição de época impecável e a trilha sonora excessiva porém cheia de boas sacadas – preste atenção aos ruídos na cena da conversa na escadaria – enriquecem a fruição. Mas não escondem as limitações dramáticas do filme.

A ausência de camadas de compreensão evidencia o quanto O Artista é calcado numa moral óbvia, apesar da redenção ao final – que também é o oposto de surpreendente.


Referências

- Cantando na Chuva (1952): conta a história de amor entre atores de Hollywood, em meio à transição do cinema mudo para o falado. A sequência final de O Artista foi gravada no estúdio em que Debbie Reynolds e Gene Kelly ensaiaram para Cantando na Chuva.

- Nasce uma Estrela (1954): outra história quase idêntica de ascensão da jovem estrela (Judy Garland) e decadência do astro que a ajudou (James Mason).

- Grande Hotel (1932): Numa de suas “falas”, Peppy Miller repete frase marcante da bailarina vivida por Greta Garbo.

- Crepúsculo dos Deuses (1950): Norma Desmond, estrela decadente da obra-prima de Billy Wilder, foi inspiração na composição de George Valentin.

- O Picolino (1935): um número de dança emula o filme com Fred Astaire e Ginger Rogers.

- Cidadão Kane (1941): a cena do café da manhã tem planos idênticos aos do maior clássico de ascensão-e-queda.


DANIEL FEIX | JORNAL DE SANTA CATARINA


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