20 abr10:33

Pela preservação da cultura familiar

Seu pai foi um imigrante judeu alemão que queria muito ser brasileiro. Ele pedia ao filho, o futuro cineasta brasileiro Cao Hamburger, que pusesse nomes de índios em seus netos. Cao não realizou o desejo, mas, hoje, ele admite que, consciente ou inconscientemente, esteja levando adiante sua busca, ou desejo, de brasilidade.

Em suas produções audiovisuais, ele já falou de duas grandes paixões do povo brasileiro: o futebol, em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, e o Carnaval, na minissérie Os Filhos do Carnaval. E, claro, sem esquecer do público infantil, no programa Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura, e do filme de mesmo nome.

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Cao vem agora com Xingu, que estreia hoje no Arcoplex, no Shopping Pátio Chapecó, em Chapecó. O filme conta uma epopeia brasileira no início do século 20 no Brasil: a luta dos irmãos Villas Bôas para criar o Parque Nacional do Xingu, uma vasta área de reserva das culturas da Amazônia, em que os últimos remanescentes das tribos selvagens podem viver com liberdade, em meio a espécies animais e vegetais.

Foi uma longa luta, documentada num livro que está sendo lançado simultaneamente com o filme, A Marcha para o Oeste, de Orlando e Cláudio Villas Bôas. No filme, eles são interpretados por Felipe Camargo e João Miguel, respectivamente. O exemplar é de 1994 e foi reeditado pela Companhia das Letras. O livro é o diário dos irmãos durante a expedição Roncador/Xingu, quando eles ainda investigavam território inóspito e contactavam os índios.

Dessa aventura, nasceu em Cláudio, o utópico do trio, o desejo de criar o parque. Se o irmão sonha, Orlando, que tem os pés firmemente encravados na terra, é o negociador que, em contato com políticos e governantes, esculpe os movimentos que resultaram na criação do parque. Porém, não tão grande quanto sonhavam, porque não abarca as nascentes do Rio Xingu. Tudo isso faz uma grande diferença na preservação das espécies, mas, ainda assim, um marco referencial no estabelecimento de fronteiras para preservar o ancestral brasileiro.


Intimista

Xingu integrou a seleção do Panorama no Festival de Berlim, em fevereiro. Como O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, que Cao também levara à Berlinale, o filme trata do exílio interno, o tema que mais atrai o diretor/autor. A história traz ainda um terceiro irmão, Leonardo, interpretado por Caio Blat. É ele o responsável pelo resgate de uma tragédia familiar. Em um determinado momento, Leonardo, atraído pela beleza das índias, enamora-se de uma delas. Com isso, a imprensa da época passa a explorar o fato, ameaçando o projeto do Xingu.

Ele é afastado e morre cedo, o que cria um vazio e um sentimento de acusação e de culpa nos irmãos sobreviventes. Segundo Cao Hamburger, o filme nasceu do desejo de narrar, para o povo brasileiro, essa história ainda pouco conhecida.

Mais do que uma obra de encomenda, o filme nasceu de um convite da O2, a produtora do também diretor Fernando Meirelles, para Cao. Meirelles havia sido contactado pela família Villas Bôas. Quando assumiu Xingu, Cao impôs algumas condições. Uma delas era a de que a família não interferisse nem opinasse no roteiro. E parece que o diretor trabalhou bem, porque não houve reclamações da família, e o resultado é de encher os olhos.


AGÊNCIA ESTADO

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