04 jun09:03

Crise leva suinocultores a desistirem da atividade

Darci Debona | darci.debona@diario.com.br

O baixo preço do suíno aliado ao alto custo de produção está levando produtores de Santa Catarina a abandonar a atividade que exerciam há décadas. A Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS) estima que 240 suinocultores desistiram da atividade neste ano.



Lino Mayer já reduziu a criação pela metade e pretende parar de criar suínos até setembro.



Um dos produtores que está abandonando a atividade é Lino Mayer, morador da linha Santa Fé Baixa, em Itapiranga. –Está bem difícil, a maioria dos produtores está no vermelho- declarou. Mayer lembra que o preço por quilo caiu de R$ 2,40 no ano passado para os atuais R$ 1,90, o que não cobre os custos de produção. De acordo com cálculos da ACCS hoje o custo de um suíno é de R$ 2,65 por quilo.

Mayer já reduziu o plantel de fêmeas de 160 para 80 e, até. Ele é dono das matrizes e, até agosto ou setembro, pretende terminar com a criação. Com a venda dos suínos ele vai comprar mais vacas e dobrar a produção de leite.

Ele disse que pretende parar antes de perder capital, como já aconteceu com outros produtores. Mayer disse que nos últimos anos só conseguiu manter o capital que tinha, sem nenhuma sobra. –Tenho o mesmo capital que tinha há 20 anos- comentou.

Além da crise outro fator que o fez desistir é a necessidade de reforma e ampliação do chiqueiro. A agroindústria da qual é integrado solicitou que ele dobrasse a produção, o que geraria um investimento de R$ 300 mil. Mayer acha que não vale a pena o investimento.

No entanto é com dor no coração que ele vê as baias vazias. –Sempre gostei, trabalho com isso há 30, 40 anos- lembrou. No entanto ele considera que não dá para pagar para trabalhar.

O presidente da Associação Catarinense dos Criadores de Suínos, Losivânio de Lorenzi, disse que nos últimos anos as crises vem sendo frequentes e com poucos meses bons, o que acabou descapitalizando os produtores. No início deste ano houve uma retração no consumo, restrições na venda para a Argentina e aumento do custo de produção que agravaram a situação. Outro problema citado pelo presidente da ACCS foi ou aumento de produção de outros estados, que tomaram espaço da suinocultura catarinense. Tudo isso gerou um excedente de carne suína no mercado que derrubou o preço.

-O produtor não tem mais perspectiva- afirmou, citando que 25% a 30% dos 800 suinocultores independentes desistiram ou estão desistindo da atividade.

>> Governo anuncia isenção do ICMS Interestadual na venda de leitões até 30 quilos

Os suinocultores fizeram um protesto na Feira Agropecuária de Braço do Norte (Feagro), na sexta-feira, onde colocaram cruzes no lugar onde deveriam ser expostos os suínos.

Lorenzi afirmou que mercados como China, Japão e Estados Unidos ainda não efetivaram as compras, o que deixa os produtores apreensivos. Ele sugere que o Governo do Estado auxilie com medidas para que Santa Catarina não perca o esforço de conseguir status sanitário de Zona Livre de Aftosa Sem Vacinação. Senão pode ser que quando os mercados se abrirem muitos produtores já não poderão usufruir do benefício. Na sexta-feira passada o Governo do Estado anunciou uma medida que foi a isenção de ICMS interestadual para leitões até 30 quilos. Lorenzi disse que é uma medida que ajuda a tirar o excesso de produção no estado mas não resolve a crise.


Perspectiva é de melhora

A crise na suinocultura é cíclica e atinge mais os produtores independentes na visão do diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de Santa Catarina (Sindicarne), Ricardo Gouvêa. Ele afirmou que o momento é de retração de consumo no mercado interno que afeta todos os setores. E até citou que o Governo Federal reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados dos carros, quando também poderia estender esse benefício para a indústria de alimentação.

Ele lembrou que Santa Catarina está habilitado para vender para os Estados Unidos e falta apenas uma documentação de requisitos técnicos ser aprovada. A partir disso ele também acredita que podem começar as vendas para o Japão. Outro mercado que estaria próximo é o da Coréia do Sul. Além disso a Argentina prometeu retomar as compras.

O presidente da Companhia Integrada para o Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de Santa Catarina (Faesc), Enori Barbieri, também está otimista. Mas não para os produtores independentes. Ele considera que esse setor arca com custos muito altos que a indústria acaba diluindo na agregação de valor.

Barbieri também espera o início das vendas para o Japão até o final do ano. –Infelizmente muitos produtores vão abandonar mas há boa perspectiva para quem continuar, dentro do sistema de integração-concluiu.


Preço do suíno por quilo vivo

2011:

Janeiro: R$ 2,40

Fevereiro: R$ 2,21

Março: R$ 2,16

Abril: R$ 2,20

Maio: R$ 2,09

Junho: R$ 1,83

Julho: R$ 1,96

Agosto: R$ 2,06

Setembro: R$ 2,04

Outubro: R$ 2,10

Novembro: R$ 2,18

Dezembro: R$ 2,30


2012

Janeiro: R$ 2,28

Fevereiro: R$ 2,20

Março: R$ 2,08

Abril: R$ 1,91

Maio: R$ 1,90

Custo de Produção: R$ 2,65 por quilo

Fonte: ACCS


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