05 jun09:21

Temporal no Oeste

Darci Debona* | darci.debona@diario.com.br

As rachaduras e pedaços quebrados na imagem de Nossa Senhora da Saúde revelam que nem a santa escapou do vendaval que atingiu São José do Cedro e Campo Erê na madrugada de domingo. Cerca 100 famílias foram atingidas nas duas cidades, que até hoje vão decretar situação de emergência.

Na igreja onde a imagem estava, na linha Derrubada Baixa, em São José do Cedro, o telhado veio abaixo com a força do vento. Uma parede chegou a entortar e parte de outra parede caiu. –Diz que onde mora santo não estraga mas aqui estragou- disse Roque Gerelli, que foi ajudar a filha a cobrir a casa na tarde de ontem. O presidente da comunidade, Élcio Zatti, disse que nem a igreja, nem o pavilhão, tinham seguro. –O pessoal até fazia piada que em casa de santo não aconteceria nada- lembrou. Agora a comunidade terá que gastar cerca de R$ 70 mil para recuperar a igreja e o pavilhão. –É triste, cheguei a desanimar no começo, mas agora vamos fazer uma rifa e em 60 dias vamos reconstruir tudo- disse Zatti.

Em volta da igreja era possível ver as árvores quebradas pelo vendo. Logo abaixo, o agricultor Nediro Bavaresco tentava reconstruir o telhado da casa com a ajuda de vizinhos. Ele lembrou que na madrugada de domingo chegou a ir no vizinho Renato Maldaner para pedir ajuda e, viu que seu vizinho estava em situação ainda pior.

Cerca de 30 pessoas auxiliavam ontem a família Maldaner a retirar as árvores caídas, limpar o pátio e recolocar as telhas na casa e galpão. O chão estava cheio de frutas que caíram com o vento. Um açude ainda estava com nível baixo em virtude da estiagem, que destruiu os nove hectares de milho. Ao lado, as pontas de árvores quebradas mostravam que a chuva veio não da forma que eles esperavam. –Vamos levar dois a três meses para arrumar o que o vento estragou- disse. Eles não tinham dormido desde domingo, quando acordaram com o barulho do vento que levou o telhado da casa. A primeira coisa que fizeram foi cobrir a moradia com lona até amanhecer, quando viram tudo destruído em volta. Até ontem eles nem energia elétrica tinham.

Na linha Santo Antônio, Neodi Rigo ainda tinha o curativo na testa resultado de três pontos de um ferimento durante o temporar. –Nem vi como foi, só notei quando estava saindo sangue- contou. Ele acordou com o barulho do vento e a filha dizendo que estava com medo. O agricultor, a mulher e os dois filhos tentaram ir para o banheiro se proteger e a porta da sala emperrou. Foi a sorte porque naquilo caiu a caixa de água de mil litros que ficava acima do banheiro. Rigo disse que foi tudo muito rápido. –Quando vimos o céu ficou aberto- explicou. O telhado de 90 metros quadrados foi parar no outro lado da rua, a 20 metros da casa. Mas algumas folhas de zinco voaram a 200 metros. O prefeito Renato Broetto disse que 25 propriedades tiveram prejuízos. O município já tinha um decreto de emergência por estiagem e agora terá outro pela chuva. O presidente da Defesa Civil do município, Ataídes Ottobelli, disse que as perdas já ultrapassam R$ 1 milhão. Em Campo Erê, onde pelo menos 70 casas foram destelhadas a estimativa é de um valor similar.

O meteorologista da RBS, Leandro Puchalski, analisou algumas imagens e disse que os indicativos são de um tornado ou micro-explosões. Há algumas árvores cortadas na Copa como se fosse um golpe de machado o que indica um tornado, que é uma espécie de funil que desce da nuvem até o solo, em diferentes pontos. Já a micro-explosão é um vento muito forte que desce da nuvem em um único sentido, mas pode provocar a queda de árvores em diferentes direções, uma para a esquerda e outra para a direita. Em São José do Cedro foram encontradas árvores com essa descrição. Puchalski disse que não há previsão de novos ventos fortes pois isso ocorre quando uma massa de ar frio choca-se com uma massa de ar quente, como no domingo, quando chegou a frente fria ao estado.


*Colaborou Juliano Zanotelli



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