25 jun09:44

Candidata conta como recebeu cola em Xaxim

Darci Debona | darci.debona@diario.com.br

Uma candidata que recebeu a cola do gabarito em um concurso público realizado em Xaxim revelou como foi o esquema para equipes do Fantástico, Grupo RBS e Diário Catarinense. A candidata, que preferiu não ser identificada, mostra indícios de que nem sempre os candidatos que deveriam passar por mérito, são os contratados.

O inusitado nesse caso é que a denúncia foi motivada pela candidata ter recebido “cola errada”. Ela fez concurso para auxiliar de enfermagem, no dia 5 de maio, e recebeu o gabarito da prova de enfermagem. Resultado, as respostas que praticamente gabaritavam a prova de Enfermagem, geraram a nota 2.8 na sua prova.

A candidata indignada procurou o Ministério Público e denunciou o vazamento do gabarito, no dia 17 de maio. No dia primeiro de junho uma força tarefa que incluiu o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, polícias Civil e Militar, apreendeu documentos na prefeitura, na SC Cursos e Treinamentos Ltda, empresa responsável pelo concurso, e na casa dos proprietários da empresa, Sandra e Emerson Dell’Osbel. Num segundo momento foi realizada nova busca e apreensão, que encontrou papéis similares ao da cola na bolsa da assistente social do município, Eliane Perosa.

O promotor de Justiça Fabiano Baldissarelli já havia informado que a asssitente social e a primeira dama do município, Rita Vicenzi, estavam entre as suspeias de participar do vazamento do gabarito.

>> No Oeste, 15 editais de concursos para prefeituras estão sob investigação do Ministério Público

Após recomendação do Ministério Público o prefeito de Xaxim, Gilson Vicenzi, anulou o concurso no dia 5 de junho. O Ministério Público encaminhou para a juíza de Xaxim, Surami Heerdt, um pedido de suspensão das atividades da SC Cursos e Treinamentos Ltda e da Dell’Osbel & Vieira Ltda. Também foi pedido que seja impedida de contratar com o poder público qualquer empresa que tenha como sócios Sandra Dell’Osbel e Emerson Dell’Osbel. Há suspeita de irregularidades em pelo menos outros 15 concursos. Eles podem ser denunciados pelo crime de vazamento de informaçõs sigilosas.

Confira a seguir a entrevista da candidata que recebeu a cola errada.


DC: Como iniciou essa história da cola do gabarito?

Candidata: “Trabalho na saúde há 12 anos e fiz vários processos seletivos em Xaxim. Em 2010 fiz concurso para auxiliar de enfermagem mas não passei. Ouvi boatos que em 2010 algumas pessoas foram favorecidas com a entrega de gabaritos. E as médias de quem passou foram altíssimas: 8, 9, teve gente que tirou 10. Eu não iria fazer o concurso mas daí o pessoal do bairro em que trabalho me incentivaram.

Então decici procurar alguém ligado à Prefeitura. Procurei um assessor do prefeito. Disse que não estava decidida a fazer a inscrição. Disse que havia comentários de que alguns candidatos iriam ser privilegiados. Ele disse que era para me inscrever que ele iria se informar e pediu para entrar em contato na última semana. Tentei depois e não consegui mais falar com ele. Então fui procurar outras pessoas.


DC: Como você recebeu a cola?

Candidata: Na véspera do concurso a Rita Vicenzi, que é mulher do prefeito, me ligou às 10 para ás seis da tarde era para me deslocar para um local que uma pessoa iria me passar o gabarito.

Fui até o local, sem saber quem estaria lá, e encontrei a assistente social do município, a Eliane Perosa. Ela tirou uma folha de papel da agenda e foi me ditando a cola.


DC: Eles te exigiram algo em troca?

Candidata: Quando recebi o gabarito ela me falou: a gente tá te ajudando mas você sabe o que a gente quer com isso.


DC: Aí você decorou o gabarito e foi fazer a prova?

Candidata: Ela disse que era para decorar e jogar fora. Eu decorei mas segurei a cola comigo. Fiz a prova e quando fui conferir o gabatiro na internet, não batia. Fiquei revoltada. Aí conferi com a prova de enfermeiro e o gabarito batia.

Aí comecei a ficar desesperada. Me deram por engano. Pensei até que fosse uma armadilha. Comecei a ligar para as pessoas. Liguei para a Rita Vicenzi e ela demonstrou ficar apavorada. Disseram para eu ficar tranquila, que eu iria ser contratada.


DC: O que você fez então?

Candidata: No dia sete, às 15h30, estava no meu trabalho e me ligou o assessor do prefeito. Ele me chamou e disse que falava em nome do prefeito, Disse que eu iria ser contratada. Eu estava muito indignada, pois sabia que, com aquela nota, iria ficar em último lugar. Aí ele falou que iriam me passar. Disseram que eram quatro vagas e que iriam alterar minha nota.

Eu disse que nunca ninguém tinha me ajudado e se fosse assim que tirasse meu nome da lista pois é muito humilhante ficar em último lugar.


DC: Quando você decidiu denunciar o vazamento do gabarito?

Candidata: Eu fiquei sabendo que meu nome não estava na lista no dia 17 pela manhã, quando uma colega ligou para perguntar quem passou e disseram que eu tinha tirado 2.8. Às 6h05 (da tarde) fui até o Fórum dizendo que tinha uma dúvida. Eu sabia que também tinha sido cúmplice de algo errado. Sei que o que eu fiz é ilegal e grave.

No dia 18 conversei com um assessor do prefeito e ele falou que era para deixar tudo quieto que eu iria ficar trabalhando contratada. Mas aí já tinha decidido contar tudo.


DC: O que você achou de tudo isso?

Candidata: Achei uma grande injustiça. Participei disso mas sou contra esse tipo de coisa. As pessoas ajudadas dessa forma depois não tem desempenho bom no serviço público. Acabam sendo colocadas pessoas não capacitadas. Eu trabalho com saúde há 12 anos e preferia continuar contratada. Reconheço que errei. Muitas pessoas que passaram em 2010 não estão executando um bom trabalho.


DC: Está sendo ameaçada depois desse episódio?

Candidata: Muitas pessoas ligadas à prefeitura disseram que eu deveria ter saído do município. Estou em tratamento psicológico pelo desprezo da própria equipe. Estou tomando medicamento controlado. Tenho chorado muito. O trabalho que venho fazendo é com amor.


DC: Você pediu licença do trabalho?

Candidata: Estou com atestado médico desde o dia 19 até o dia 19 do mês que vem?


DC: Você considera que denunciando o caso está reparando o erro que fez no início?

Candidata: Estou ciente que cometi um crime junto mas não era a minha vontade. Também não estou denunciando por questão política pois me filiei ao partido do prefeito no ano passado. Gostaria que as pessoas que passassem que fosse por mérito. Não faria mais isso. Se alguém tiver que ser contratado que seja por sua qualidade.


CONTRAPONTOS

O que diz a empresa

Os sócios das empresas SC Cursos e Treinamentos LTDA e da Dell’Osbel e Vieira Ltda, Sandra Dell’Osbel e Emerson Dell’Osbel, não foram encontrados na quarta-feira, quinta-feira e ontem para falar sobre as suspeitas em relação aos outros 15 contratos que estão sob suspeita. Mas, na terça-feira, Sandra Dell’Osbel divulgou uma nota informando que a empresa aguara da conclusão das investigações do Ministério Público. Ela coloca que tudo não passa de suspeita por enquanto e que, se os fatos forem comprovados, tomará as providências para responsabilizar quem cometeu algum ilícito.

A nota cita que as gerentes não contribuíram para nenhuma fraude em concurso público e que a aplicação do concurso em Xaxim aconteceu na mais absoluta lisura.

Em relação a carimbos de outras empresas encontradas nas ações de busca e apreensão do Ministério Público, ela disse que pertenciam a empresas antigas de seu marido.


O que diz o prefeito

O prefeito de Xaxim, Gilson Vicenzi, foi procurado várias vezes nas duas últimas semanas, inclusive em sua casa, mas não foi encontrado. Ontem, em sua residência, familiares disseram que tinha ido numa festa junina no interior, onde não pegava celular. Quando alguém atende o celular ou dá retorno geralmente é outro familiar.

Mas na segunda feira ele se manifestou através da assessoria de imprensa afirmando que, tão logo soube da suspeita de irregularidade, mandou anular o concurso realizado em maio. Ele não foi encontrado para falar sobre a suspeita de envolvimento de outros funcionários em irregularidades do concurso.


O que diz a primeira dama

A primeira dama de Xaxim, Rita Lunardi Silveira Vicenzi, foi procurado várias vezes nas duas últimas semanas, inclusive em sua casa, mas não foi encontrada. Ontem, em sua residência, familiares disseram que tinha ido numa festa junina no interior, onde não pegava celular.

No dia 16 de junho a primeira dama foi contactada por telefone pelo Diário Catarinense e, inicialmente, disse estranhar a denúncia. Depois questionou como estariam sendo divulgados dados de uma investigação. Em seguida disse que o que deveria falar já tinha falado para o Ministério Público e que eles teriam que provar o que estavam divulgando.


O que diz a assistente social

Eliane Regina Evangelista de Marco Perosa foi localizada apenas na segunda-feira passada, para comentar sobre a suspeita de ter entregue a cola do gabarito.

Ao ser questionada sobre a suspeita ela afirmou apenas: “Não, não sei”. Após nova pergunta, ela desligou o telefone.


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