19 jul09:52

Sistema de informática da Polícia Militar completa um ano sem alcançar todo o Estado

Diogo Vargas | diogo.vargas@diario.com.br

Adquirido e inaugurado há um ano, num pacote de tecnologia de R$ 3,9 milhões, o Sistema de Atendimento e Despacho (Sade) de ocorrências da Polícia Militar ainda não alcançou o Estado todo e passará por correções.

A sua eficiência foi colocada em xeque pelo Centro de Informática e Automação do Estado de Santa Catarina (Ciasc), empresa pública que cuida do sistema de informática, numa polêmica que nos bastidores também revela o racha com a Polícia Civil.

O Sade foi implantado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) em julho de 2011. Está em operação hoje apenas na Capital, sendo que a previsão era de já estar funcionando em pelo menos mais sete cidades. Sozinho, teria custado R$ 500 mil, mas outras tecnologias que vieram junto elevaram a soma para cifras milionárias.

Os recursos foram dos governos federal e estadual. As licitações ocorreram de forma fatiada. A compra foi direta pela SSP e não passou pelo Ciasc. E é justamente o Ciasc que elaborou agora um parecer técnico colocando em dúvida a capacidade do Sade. O relatório está com o secretário da SSP, César Grubba.

O coordenador da central de emergências da SSP, tenente-coronel Vânio Luiz Dalmarco, afirma que ainda não leu o documento. Ele disse que houve problema com a empresa vencedora da licitação, que não teria cumprido todos os requisitos do edital e, por isso, será multada em R$ 200 mil.

De acordo com ele, uma nova licitação foi feita para a manutenção do sistema. Ele informou que uma nova versão do Sade corrigirá os problemas e enfim chegará ao resto do Estado. Dalmarco garantiu que o maior resultado do Sade é, que, atualmente, não se perdem mais ligações aos serviços de emergência como acontecia no passado.

- Hoje ele perde de 10% a 15% das ligações apenas em Florianópolis, coisa que no passado nós perdíamos até 80% das ligações. É uma situação confortável – destacou Dalmarco.

Das outras tecnologias no pacote, há notícia que apenas o rastreamento da frota de viaturas estaria em pleno funcionamento – 3,2 mil carros das polícias Civil e Militar são monitorados.

O DC apurou que em setores de inteligência da segurança circulam documentos internos questionando a situação do Sade. Num deles, as informações figuram em consultas feitas pela SSP com o Ciasc, a empresa pública do Estado que executa políticas de tecnologia.

Como sugestão de melhorias, o Ciasc sugeriu o desenvolvimento de um novo sistema, haja vista a situação crítica do Sade. O Ciasc teria entendido que a sua operacionalidade deveria ficar apenas em até 30% da capacidade permitida em Florianópolis para não se ter problemas.

Consultado a respeito, o vice-presidente de Tecnologia do Ciasc, Paulo Ricardo Corrêa Bonifácio, minimizou o assunto. Ele afirma que todo sistema passa por adaptação, requer novos moldes e que não poderia falar com propriedade sobre os atendimentos, pois entende ser atribuição do usuário final.

- O que posso dizer é que, inicialmente, o Sade enfrentou muita resistência por parte de alguns tipos de usuários porque em determinadas épocas apresentava ainda funcionalidade que não atendia a todas as necessidades – resume Paulo Ricardo.

No Samu, há dificuldades operacionais para pesquisar ocorrências e para obter estatísticas específicas exigidas pelo Ministério da Saúde. As correções estariam sendo providenciadas na segunda versão do Sade.


Os pontos polêmicos do parecer do Ciasc:

A codificação do sistema foi feita de modo pobre, com erros primários de codificação e de arquitetura, com um número extremamente elevado de acessos ao banco de dados.

A base de dados foi criada a partir de um gerador baseado nas classes de persistência e não está de modo algum otimizada, sendo que nem ao menos possui índices.

O sistema é utilizado a “duras penas” pela central de atendimento de Florianópolis, mal conseguindo suportar 20 usuários simultâneos sem ficar excessivamente lento ou travar.

De acordo com as reuniões com membros da PMSC, que conhecem bem o problema proposto, o Sade não soluciona nem 30% do necessário, e que foi passado a empresa o desenvolveu, necessitando alterações em quase todas as funcionalidades atuais.

A integração do sistema com o Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp) não foi implementada corretamente.

O sistema não possui histórico de alterações de atendimentos, solicitações, guarnições e demais informações do banco de dados, sendo impossível rastrear alterações realizadas.

O login do sistema não possui segurança alguma, visto que, como a integração com o Sisp está mal feita, é possível logar apenas com o número de usuário, sem senha.

Fonte: Ciasc


A polêmica com a Polícia Civil

O Sade é a ferramenta da Polícia Militar no Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp). Nele, os PMs inserem os dados de ocorrências atendidas, além do cadastro que é feito das ligações aos números de emergência.

Ao implementá-lo, a segurança pública propagandeou o ganho da integração entre as polícias na troca de informações. Abriu-se então uma polêmica com a Polícia Civil. Até hoje há resistência entre delegados, que entendem que o Sade burocratizaria a atividade dos PMs, os quais poderiam estar inteiramente dedicados ao policiamento ostensivo.

Na prática, segundo as autoridades da SSP, o sistema não chega a gerar duplicidade de informações ou problemas de acesso a dados com os dos policiais civis. Há um ano, houve manifestações de que os passariam a registrar Boletim de Ocorrência (BO), o que foi negado pela SSP.

A reportagem apurou que um conselho dos órgãos da segurança criado para discutir esse tipo de situação não estaria operando mais. A Associação dos Delegados de Polícia (Adepol), principal questionadora do Sade no seu lançamento, não quis se manifestar.


ENTREVISTA: Tenente-coronel João Ricardo Busi da Silva, diretor de Tecnologia e Sistemas de Informação da PM/SC:

“Está nos atendendo”

Por telefone, o diretor de tecnologia da PM disse que o Sade atende ao proposto, mas que receberá correções e dificilmente será estadualizado este ano.


Diário Catarinense – Como está funcionando o Sade?

João Ricardo Busi da Silva - É claro que todo sistema precisa receber a customização e estamos customizando algumas rotinas que foram revistas. Para aquilo que ele tinha a pretensão está nos atendendo. Mas ainda está recebendo as customizações adequadas para superar o que tem a fornecer.


DC – Que correções são essas?

Buzi - Por exemplo, quando você constrói um sistema e coloca em operação sempre tem uns ajustes, o que a gente chama de refinamento. Para isso você tem que programar o desenho e a programação.


DC – Além da Capital, quais são as outras regiões que ele está atendendo? Tem previsão para outras regiões?

Buzi - Por enquanto só a Capital. A previsão para o resto do Estado é início do ano que vem, mas este ano não temos previsão para expandir.


DC – Qual seria o motivo?

Buzi - Isso tudo você tem que fazer por etapas. A etapa de preparar a customização vence daqui a uns 30, 35 dias. E aí estamos preparando um cronograma. Porque vem aí a operação Veraneio e fazer mudança é complicado. Não se muda rotina nessa época porque o número de ocorrências pode aumentar e trazer alguns transtornos. O que está sendo implantado a nível de Estado é o Sisp (Sistema Integrado de Segurança Pública). Esse até o final de novembro essa atividade estará pronta.


DC – Existe um parecer técnico do Ciasc questionando um pouco a operacionalidade do Sade, falando que ele apresentaria uma situação crítica…

Buzi - Justamente, esses ajustes é que estão sendo tratados.


DC – Esse sistema custou quase R$ 4 milhões e ainda não está 100% na íntegra…

Buzi - Não, há um equívoco aí. Esse sistema não foi R$ 4 milhões. Ele saiu na sua totalidade R$ 550 mil no máximo. Quando ele foi adquirido estava num conjunto de outras tecnologias, geoprocessamento, sistema de câmeras.


DIÁRIO CATARINENSE



Por

Comentários