30 ago15:30

A onda em Hollywood é repaginar franquias lucrativas

Daniel Feix | daniel.feix@zerohora.com.br

O final de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge indica que a série, nos moldes em que foi projetada pela Warner e o diretor Christopher Nolan, acabou. Mesmo que acontecimentos vistos neste último longa da trilogia desafiem a lógica do realismo, é difícil imaginar um quarto filme com fatos posteriores aos que encerram o filme em cartaz nos cinemas. Ainda assim, já surgiram especulações de que um “reboot” (ou “reinício”) da série sobre o Homem-Morcego estaria sendo planejado para 2016. Cedo demais? Nada disso. Ao menos conforme a nova prática dos estúdios de Hollywood.

Na onda do reboot, a regra é começar do zero franquias que já se mostraram lucrativas e têm apelo junto ao público. E que ainda estão frescas na memória.  O Legado Bourne traz de volta o universo das histórias de Robert Ludlum apenas cinco anos após o fim da trilogia estrelada por Matt Damon. Sem o astro e seu personagem, Jason Bourne, o protagonismo recairá sobre Jeremy Renner (de Guerra ao Terror), que interpretará um agente que passou pelo mesmo experimento do herói da trilogia original. Paul Greengrass, diretor do segundo e do terceiro filme da série, também está fora — será substituído por Tony Gilroy, roteirista dos três títulos anteriores e diretor de Conduta de Risco (2007).

Neste caso, a insistência da Universal se justifica pelo culto à franquia, que cresceu ao longo de sua carreira, refletindo-se num lucro progressivamente maior: A Identidade Bourne faturou US$ 214 milhões em 2002; A Supremacia Bourne, US$ 288 milhões em 2004; O Ultimato Bourne, US$ 442 milhões em 2007.

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Mas e quanto ao Homem-Aranha, que ganhou este ano um reboot, para muitos num longa inferior à trilogia lançada entre 2002 e 2007? O Espetacular Homem-Aranha (2012) foi lançado com muito barulho (foram 4,3 mil cópias só nos cinemas dos EUA), mas arrecadou US$ 213 milhões a menos do que Homem-Aranha 3, de cinco anos atrás (US$ 677 milhões contra US$ 890 milhões). Teriam os produtores de Hollywood perdido o receio de piorar uma série, mesmo com perspectiva de lucro menor?

— Mesmo que o faturamento seja inferior, há a perspectiva de ganhar um bom dinheiro. Isso é suficiente — diz Marcelo Forlani, editor do site Omelete, referência em cultura pop. — Os contratos já são feitos imaginando-se várias adaptações, porque os resultados indicam que a máquina de fazer dinheiro não para tão cedo. Séries como Star Wars e De Volta para o Futuro se tornaram cult a partir da constituição de trilogias.

A ideia de dar corda para o imaginário das pessoas só faz a expectativa em torno dos filmes aumentar e, consequentemente, crescer o lucro e o status de culto. Crítico e editor do site Filme B, especializado no mercado cinematográfico, Pedro Butcher recua até Walt Disney e Branca de Neve e os Sete Anões (1937), para analisar a lógica de Hollywood:

— É daquela época a ideia de que o retorno do filme estava mais no seu licencia­mento do que no longa em si. No caso das franquias, investe-se muito no primeiro filme, para apresentar a sua mitologia. Os títulos seguintes vão na carona. É por isso que A Bússola de Ouro (2007) e John Carter (2012) constituem investimentos mais arriscados do que um Superman, um Lanterna Verde. Hoje a indústria aposta mais no marketing de um projeto, na sua apresentação e nos produtos paralelos, do que no filme em si.

Não à toa os reboots são recorrentes nas franquias adaptadas do universo das HQs, em que um mesmo personagem morre e renasce, vivendo diferentes fases. No caso das adaptações do Batman, o alto lucro veio apenas com O Cavaleiro das Trevas (2008). Seus cinco filmes anteriores, lançados entre 1989 e 2005, arrecadaram entre US$ 238 milhões e US$ 411 milhões, contra US$ 1,01 bilhão de O Cavaleiro das Trevas — até ontem, O Cavaleiro das Trevas Ressurge somava US$ 733 milhões. Ou seja: além de estar fresquinha na cabeça do público, a mitologia está em alta.

— Isso conta muito – prossegue Butcher. — A preocupação, em Hollywood, é fazer o público se dispor a ir ao cinema. Mais seguro do que vai assistir, o espectador fica mais propenso a sair de casa.

Mas nem tudo está perdido. A busca pela originalidade também tem espaço em meio à lógica do mercado. Afirma Butcher:

— A indústria persegue o lucro imediato, mas isso não exclui o foco num futuro distante. Investir alto em projetos em 3D de Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret, 2011) e Ang Lee (As Aventuras de Pi, que estreia em dezembro) indica que há, também, a busca por inovações estéticas.

É o caso de dizer que, por trás da infantilização aparente, Hollywood não esqueceu da pesquisa artística que é o motor para o avanço da linguagem. Neste cenário sombrio, trata-de se uma perspectiva de luz.


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