14 set08:41

Papagaios estão de volta ao lar no Oeste

Darci Debona  | darci.debona@diario.com.br

Um som que não era ouvido há 20 anos, o barulho de papagaios-de-peito-roxo no meio da floresta, voltou a ecoar no Parque Nacional das Araucárias, área de 12,8 mil hectares entre Passos Maia e Ponte Serrada, no Oeste Catarinense.

Graças a um projeto do Instituto Carijós, que nesta semana completou a segunda etapa de reintrodução dos animais na floresta, os moradores puderam novamente observar os voos da espécie que estava ameaçada de extinção. Em janeiro eles trouxeram para o local 13 animais e, neste mês, foram mais 30.

— Este é o primeiro projeto de reintrodução de psitacídeos do Brasil em unidades de conservação federal — destacou a coordenadora do projeto e doutora em Comportamento e Bem Estar Animal, na Purdue University, nos EUA, Vanessa Tavares Kanaan.

A equipe composta por Vanessa, a mestranda em Agrossistemas da UFSC, Joice Reche, e a voluntária Ligia Jahn, encerrou ontem o período de monitoramento da adaptação dos animais, que durou 10 dias. Antes de chegarem na floresta, os papagaios passaram por dois meses de testes e exames no Refúgio das Aves, um local mantenedor de fauna em Itajaí, que é da voluntária Lígia Jahn. O objetivo é identificar se os papagaios estão livres de doenças.

Depois ficaram quatro meses em treinamento num viveiro na Escola Sarapiquá, em Florianópolis. Uma das técnicas era servir comida aos bichos e em seguida espantá-los, para que eles não virem presas fáceis dos humanos.

Os animais que foram reintroduzidos na floresta são provenientes do tráfico de animais e estavam acostumados a viver em cativeiro. Por isso, todo esse trabalho de reeducação. Os últimos 30 papagaios foram transportados de Florianópolis para o Oeste no dia 3, numa viagem de nove horas, em caminhão refrigerado, da Polícia Ambiental.

No primeiro dia foram colocados em viveiros no meio da floresta. No segundo, foram abertas as portas dos viveiros e eles começaram a sair. Boa parte ainda voltou ao viveiro à noite, para dormir. A partir do terceiro dia, a maioria já pernoitou fora do cercado. Alguns pontos com comida fora do viveiro foram espalhados na floresta. Inicialmente, a comida era dada diariamente e, depois de alguns dias, foram reduzindo a oferta, para que os animais buscassem seu alimento. Os papagaios do peito roxo se alimentam de frutos, com pinhão, além de folhas e até broto de bambu. Houve um cuidado para que o local de soltura tivesse árvores ocas, que possam servir como ninhos. A expectativa é que ocorra a reprodução já neste ano.


Animais possuem equipamentos para serem monitorados

Alguns casais já se formaram no bando. Cada animal foi identificado e possui um colar para ser localizado por radiofrequência. Com isso, as pesquisadoras conseguem identificar os hábitos dessa população. O projeto tem o patrocínio da População Boticário até março do ano que vem. O dinheiro é só para bancar as despesas, já que a mão-de-obra é voluntária. Outras instituições como a UFSC, Polícia Ambiental, Instituto Chico Mendes e Ibama, também contribuem com o projeto.

Vanessa Kanaan disse que a reintrodução do papagaio roxo é importante para o ecossistema da floresta, pois eles disseminam sementes e também acabam sendo alimento de outros predadores, como o falcão relógio. Mas o maior perigo é mesmo o homem. Por isso, os moradores da região receberam orientações de educação ambiental. O capataz de uma das fazendas que tem parte da área no parque, Sérgio Alves, conta que já sabe o que fazer.

— Eu nem me aproximo deles e não converso — contou, explicando que, assim, pode evitar que as aves sumam novamente da região.


DIÁRIO CATARINENSE

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