23 set13:49

Crônica: Eu não tenho pressa para que meus filhos saiam de casa

Viviane Bevilacqua | viviane.bevilacqua@diario.com.br

Encontrei na rua uma antiga colega de faculdade, que fazia séculos que não via. Papo vai, papo vem, acabamos falando dos filhos. É simplesmente impossível duas mães se encontrarem e o assunto não acabar nos pimpolhos, independente das crianças terem um, 10, 20 ou 50 anos. Para as mães, são sempre os filhinhos. E, invariavelmente, contamos as suas gracinhas. Coisa de mãe…

– E aí, como vão os meninos? – Ela me perguntou, puxando o assunto.

– Vão bem, estudando, namorando, fazendo estágio. Estão aí, aprendendo a virar gente grande.

– Ah, isso é bom. Eles não moram mais com vocês, né?

– Claro que moram. Os dois ainda não têm condições de se sustentarem, e nem eu quero que eles saiam de casa tão cedo. Pra quê? É tão bom ter eles por perto.

Minha amiga me olhou de um jeito estranho. Será que eu falei alguma bobagem? Com um tom professoral, ela me olhou bem séria e disse:

– Vivi, você tem que deixar de ser tão coruja. Proteção demais só estraga. Deixa esses meninos voarem com as próprias asas – ela recomendou.

Confesso que senti uma pontinha de raiva. Quem é ela para tentar me ensinar a criar meus filhos? Não gostei. Expliquei que eu não os prendo a mim, como ela disse. Apenas não vejo sentido em incentivá-los a sair de casa só porque são maiores de idade e precisam provar ao mundo que já são adultos. Ambos estão estudando e fazendo estágio, ganham pouco. Não há porque forçá-los a procurar um emprego – seria a única forma de eles bancarem o aluguel de um apartamento – enquanto lá em casa eles têm cama, comida e tudo o que precisam.

Sei de muitos jovens que só esperam completar a maioridade para sair correndo da casa dos pais. Acho que isso acontece por dois motivos: pais e filhos não se dão muito bem e falta diálogo em casa, ou quando o jovem sonha em ter um espaço só seu, para manter a individualidade. Lembrei de mais uma situação: quando o pai, a mãe ou ambos começam a jogar na cara que o jovem já tem 18 anos e precisa se virar.

Lá em casa não acontece nem uma coisa nem outra. Claro que de vez em quando rola uma discussão, mas nada que dure mais do que algumas horas. Há respeito mútuo, amizade, carinho, preocupação com o outro e respeito à liberdade de cada um. A casa não é minha, nem do meu marido. É nossa, é da família.

Quer trazer a namorada? Claro que pode. Reunião com amigos? Sempre foi liberado. Privacidade? Todos têm direitos iguais. Eu sei que um dia eles vão embora de casa, e eu juro que quero que isto aconteça. Sonho em vê-los constituir suas próprias famílias, nos visitarem nos finais de semana, trazendo os netinhos para brincarem na casa dos vovôs…

Mas tudo tem seu tempo e sua hora. E tenho certeza que esta hora ainda não chegou. Dei um abraço na minha amiga e disse que precisava ir embora. Era sábado, e meus filhos estavam me esperando para a tradicional pizza em família. Ela me olhou e disse:

– Que saudade do tempo em que jantávamos todos juntos na minha casa. Hoje, somos só eu e o João. Comemos quase sempre assistindo TV. Meus filhos raramente aparecem por lá.

Pois é. Viu só?


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