Amputado

07 mai09:13

Motociclista fala seis meses após sair do hospital

Darci Debona | darci.debona@diario.com.br

Seis meses após ter deixado o hospital o Diário Catarinense foi conversar com o motociclista José Valdomiro Eufrázio, 22 anos, que sobreviveu cinco dias no mato com um braço quebrado até ser resgatado. No resgate os bombeiros até achavam que estava morto, pela respiração quase imperceptível.

Eufrázio surpreendeu a todos pela resistência física e pela rápida recuperação, saindo do hospital depois de 13 dias de recuperação. Ele teve o braço amputado. Mas demonstra estar adaptado e conformado com a falta de um braço.

– Mais vale um braço vivo do que com dois no caixão – brincou, antes da entrevista.

Eufrázio mora com a mãe e mais três irmão na pequena propriedade que a família tem, no assentamento 29 de Junho, no interior de Passos Maia. Para chegar ao local, são 25 quilômetros de estrada de chão. Para sobreviver, a família cria umas galinhas e arrenda um pedaço de terra. Eufrázio ainda recebe um salário mínimo de auxílio-doença e não deve voltar para a agroindústria de Ipumirim onde trabalhava como auxiliar de produção.

– Eles querem que eu volte mas vou pedir minha rescisão – disse.

Por enquanto o que ele mais faz é passear nos parentes que tem em Xaxim, Xanxerê. Ele tem 16 irmãos no total. Mas recentemente perdeu o pai, Sebastião Gonçalves Lins. Ele ficou com o sobrenome da mãe, Maria Eufrázio.

Foi ela quem recebeu a reportagem do Diário Catarinense. José Valdomiro estava no mato catando pinhão com um amigo. Há bastante mata nativa nas proximidades da casa e ele gosta de passear pela vegetação e ver as cachoeiras.

Com a camisa do seu time do coração, o Corinthians, José Eufrázio mostra que guardou a carteira e a chave com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que usava no dia do acidente. Coincidência ou não ele foi encontrado no dia de Nossa Senhora Aparecida.

A seguir, confira a entrevista que ele concedeu ao Diário Catarinense.


Diário Catarinense: Você já voltou ao local do acidente?

José Valdomiro Eufrázio: O pessoal comenta quando passa por lá mas eu não fui nem olhar.


DC: O que você lembra?

Eufrázio: Não lembro de nada. Apagou mesmo. Só lembro que no dia anterior fui dormir em casa.


DC: E depois que você saiu do coma, qual foi a primeira lembrança?

Eufrázio: Lembro do dia que estava saído do hospital. Tinha um monte de gente.


DC: Quanto tempo você teve que permanecer em casa após sair do hospital?

Eufrázio: Fiquei um mês só dentro de casa e três a quatro meses sem sair da propriedade.


DC: Teve muita gente perguntando o que aconteceu?

Eufrázio: Agora nem tanto mas quando comecei a sair foi de cansar que não sabia de nada.


DC: Você parece não fazer questão de tentar recuperar a memória.

Eufrázio: Prefiro deixar que fique assim mesmo. Não tento imaginar. Só acredito porque não tenho o braço.


DC: O que você costuma fazer agora?

Eufrázio: Gosto de sair, jogar bola.


DC: A falta do braço direito te atrapalha muito?

Eufrázio: Estou me adaptando. Consigo comer, me vestir. Já dirigi carro e até moto já tentei, com um amigo me ajudando.


DC: Você gosta mesmo de motocicleta.

Eufrázio: Gosto, não fiquei com trauma. Mas sozinho não dá para dirigir.


DC: Parece que a única coisa que você não voltou a fazer é tocar violão?

Eufrázio: É, até tentei, mas não dá. Gostava de tocar. Sou fá do Zezé di Camargo. Agora não gosto nem de ver violão. Mas gostaria de conhecer o cantor.


DC: Você ainda sente alguma dor?

Eufrázio: Sinto uma dor no braço que foi amputado. Mas os médicos disseram que é psicológico, é uma “dor fantasma”.


DC: O que foi mais difícil nesse período?

Eufrázio: O mais difícil de encarar foi a morte de meu pai. Ele tinha 83 anos e ficou acamado sete meses devido a um câncer. Pra mim ele tinha ido me visitar no hospital. Quando voltei ele me deu força. Ele queria comemorar comigo meu aniversário, que foi no final de abril. Mas morreu há quatro meses. Ele acompanhava minha recuperação pelo rádio ouvindo as notícias. O jeito é seguir a vida.


DC: Como você se sente por ter sobrevivido cinco dias no mato?

Eufrázio: Agradeço por ter ficado com vida. Deus é mais forte.


DC: O que dizem teus amigos em relação ao que aconteceu?

Eufrázio: Tem alguns que me apelidaram de “morto-vivo”, mas eu levo numa boa. Aí pode ser que o apelido não pegue.


DC: Quais são seus planos a partir de agora?

Eufrázio: Não tenho nada, vou deixar que o tempo resolva.



A saga do motociclista

7 de outubro de 2011: José Valdomiro Eufrázio sobre um acidente no quilômetro 4,4 da SC 465, em Passos Maia, quando se deslocava de seu trabalho em Ipurumim, para sua casa em passos Maia, com uma motocicleta. Ele sai da pista e cai no barranco. A moto fica por cima dele.

10 de outubro de 2011: Família de José Valdomiro Eufrázio comunica seu desaparecimento na Polícia Civil de Passos Maia.

12 de outubro de 2011: Estudantes que voltavam de ônibus de uma atividade em Ponte Serrada avistam alguém caído no matagal ao lado da rodovia. Bombeiros vão até o local e inicialmente pensam que a vítima já havia morrido. José Eufrázio é levado ao Hospital Regional do Oeste, em Chapecó.

16 de outubro de 2010: O motociclista sai do coma e fala pela primeira vez.

18 de outubro de 2011: Sai da UTI.

25 de outubro de 2010: Deixa o hospital.


>> “Lembro que estava chovendo e fazia frio” – disse motociclista na primeira entrevista após sair do Hospital.



Comente aqui