Crônica

23 set13:49

Crônica: Eu não tenho pressa para que meus filhos saiam de casa

Viviane Bevilacqua | viviane.bevilacqua@diario.com.br

Encontrei na rua uma antiga colega de faculdade, que fazia séculos que não via. Papo vai, papo vem, acabamos falando dos filhos. É simplesmente impossível duas mães se encontrarem e o assunto não acabar nos pimpolhos, independente das crianças terem um, 10, 20 ou 50 anos. Para as mães, são sempre os filhinhos. E, invariavelmente, contamos as suas gracinhas. Coisa de mãe…

– E aí, como vão os meninos? – Ela me perguntou, puxando o assunto.

– Vão bem, estudando, namorando, fazendo estágio. Estão aí, aprendendo a virar gente grande.

– Ah, isso é bom. Eles não moram mais com vocês, né?

– Claro que moram. Os dois ainda não têm condições de se sustentarem, e nem eu quero que eles saiam de casa tão cedo. Pra quê? É tão bom ter eles por perto.

Minha amiga me olhou de um jeito estranho. Será que eu falei alguma bobagem? Com um tom professoral, ela me olhou bem séria e disse:

– Vivi, você tem que deixar de ser tão coruja. Proteção demais só estraga. Deixa esses meninos voarem com as próprias asas – ela recomendou.

Confesso que senti uma pontinha de raiva. Quem é ela para tentar me ensinar a criar meus filhos? Não gostei. Expliquei que eu não os prendo a mim, como ela disse. Apenas não vejo sentido em incentivá-los a sair de casa só porque são maiores de idade e precisam provar ao mundo que já são adultos. Ambos estão estudando e fazendo estágio, ganham pouco. Não há porque forçá-los a procurar um emprego – seria a única forma de eles bancarem o aluguel de um apartamento – enquanto lá em casa eles têm cama, comida e tudo o que precisam.

Sei de muitos jovens que só esperam completar a maioridade para sair correndo da casa dos pais. Acho que isso acontece por dois motivos: pais e filhos não se dão muito bem e falta diálogo em casa, ou quando o jovem sonha em ter um espaço só seu, para manter a individualidade. Lembrei de mais uma situação: quando o pai, a mãe ou ambos começam a jogar na cara que o jovem já tem 18 anos e precisa se virar.

Lá em casa não acontece nem uma coisa nem outra. Claro que de vez em quando rola uma discussão, mas nada que dure mais do que algumas horas. Há respeito mútuo, amizade, carinho, preocupação com o outro e respeito à liberdade de cada um. A casa não é minha, nem do meu marido. É nossa, é da família.

Quer trazer a namorada? Claro que pode. Reunião com amigos? Sempre foi liberado. Privacidade? Todos têm direitos iguais. Eu sei que um dia eles vão embora de casa, e eu juro que quero que isto aconteça. Sonho em vê-los constituir suas próprias famílias, nos visitarem nos finais de semana, trazendo os netinhos para brincarem na casa dos vovôs…

Mas tudo tem seu tempo e sua hora. E tenho certeza que esta hora ainda não chegou. Dei um abraço na minha amiga e disse que precisava ir embora. Era sábado, e meus filhos estavam me esperando para a tradicional pizza em família. Ela me olhou e disse:

– Que saudade do tempo em que jantávamos todos juntos na minha casa. Hoje, somos só eu e o João. Comemos quase sempre assistindo TV. Meus filhos raramente aparecem por lá.

Pois é. Viu só?


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01 set18:25

Bem mais que um dia de inverno

Juliano Zanotelli | juliano.zanotelli@rbsonline.com.br

Era um daqueles dias, bem frios. Dias que não temos a mínima vontade de sair debaixo do cobertor, e muito menos de casa. Porém, muita gente acredita que são nestes dias que acontecem as situações mais surpreendentes. Uma delas pode ser encontrar o amor da vida. Será? Marina se tornou uma dessas pessoas.

Tudo começou numa sexta-feira, após um logo dia de trabalho. A jovem tinha acabado de chegar em casa quando o telefone tocou. Era uma amiga convidando-a para um show de rock mais tarde. Mesmo reticente e afim de curtir o frio em casa, ela não conseguiu dizer não e topou a balada. Afinal, no outro dia estaria de folga.

Assim que desligou o telefone começou a correria. Escolher roupa, calçado, tomar banho, dar um tapa na maquiagem, fazer um cabelo legal, e , ainda nesse meio tempo , comer alguma coisa. O relógio batia 22 horas e Marina estava quase pronta, só faltava o toque final, passar o perfume preferido. Pronto , agora sim.

Nem bem terminou de passar o perfume, já ouviu a buzina do carro da amiga. Pegou sua bolsa, trancou a porta e chamou o elevador. Chegando na portaria ouviu um comentário questionador do porteiro.

– Vai sair mesmo com esse frio dona Marina? Bom , a senhorita é nova, está solteira, quem sabe não encontra o amor da sua vida esta noite, hein?

A jovem apenas sorriu e desejou boa noite ao porteiro.

Ainda envergonhada com o ocorrido, cumprimentou a amiga . Não conseguia esquecer as frases que tinha acabado de ouvir. Ela nem escutava os comentários e gargalhadas que a amiga dava enquanto dirigia pelas ruas agitadas da cidade.

A música que tocava no rádio ajudou a distrair os pensamentos sem sentido que estavam a mil na cabeça de Marina. No entanto, foi só estacionar na frente do bar que as frases ditas pelo porteiro voltaram na mesma intensidade das batidas do som que tocava dentro do bar.

As duas deram uma última conferida no visual e entraram , para curtir aquela que deveria ser uma noite inesquecível. O bar ainda não estava cheio e por sorte conseguiram uma mesa bem na frente do palco. Sentaram e pediram uma bebida para brindar a amizade, e é claro, esquentar, afinal o termômetro marcava 3 graus.

Estavam na segunda rodada quando a banda começou a se arrumar no palco. Assim que o baterista passou, Marina sentiu algo que nunca tinha sentido antes. Os olhos se encontraram, as pernas tremeram e , sem que pudesse controlar , um sorriso brotou em seu rosto. E o melhor : tudo foi correspondido.

O show começou e as batidas do coração dela e do baterista entraram no mesmo compasso. Ela teve uma hora de aflição, onde os mais improváveis pensamentos invadiram sua mente, desde como seria o beijo dele, até como seria a casa onde morariam juntos.

Chegou a hora do bis e o frio na barriga aumentou. A galera aplaudiu, agradeceu e o show acabou. E desde aquele, que foi bem mais que um dia de inverno, eles estão juntos e felizes.

E você? Aproveite que ainda é inverno e descubra o final da sua própria história.


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21 ago12:41

Crônica de Viviane Bevilacqua: O mico que deu certo

Ana Maria, uma amiga, está casada há um ano com Pedro, mas sofre um dilema: não sabe até hoje se aceitou o pedido de casamento porque realmente ama o cara ou se foi por sentir-se coagida. Eu explico. Pedro é um homem super romântico. Sempre foi. Muito mais do que a Ana.

Desde o início do namoro ele fazia questão de dizer o quanto ela era especial. Não saíam uma vez sem que ele lhe desse flores, nem que fosse uma rosa roubado de algum jardim da vizinhança. Também copiava poesias que achava bonitas e mandava para a namorada. E nunca se cansava de elogiá-la, mesmo quando a garota estava ajudando a mãe na faxina semanal da casa, de cabelo preso e avental na cintura.

— Ana, você é a mulher mais linda do mundo. Nem que a Juliana Paes viesse me pedir de joelhos para eu ficar com ela eu aceitaria. Você é a única mulher da minha vida.

— Menos, Pedro, menos.

Era sempre assim. Ele, um romântico inveterado. Ela, um pouco avessa às demonstrações excessivas de carinho. Talvez justamente pela fama de “durona” dela, Pedro tenha fica tão encantado. Amolecer o coração da jovem seria um desafio, e Pedro adorava se sentir desafiado.

O namoro seguia assim, equilibrando-se entre as duas personalidades tão diferentes. Pedro tinha arroubos de paixão, e Ana só pedia: menos, Pedro, menos.

Um belo dia, ele falou em noivado. Ela desconversou, achava que era cedo ainda, precisava mais tempo para ter certeza de que ele era realmente o homem certo. Pedro ficou desapontado e não tocou mais no assunto.

Como o tempo passava e nada dela se decidir, Pedro resolveu fazer-lhe uma “grande surpresa”. Contratou um “love car”, estes carros com caixas de som potentes e um locutor que fica lendo mensagens ao som de músicas melosas de amor e dirigiu-se até o trabalho de Ana. Chamou também toda a família para participar deste momento tão especial. Em frente à loja onde Ana é gerente, ele começou: “Amor da minha vida, minha existência só tem sentido se você estiver ao meu lado, blá…blá…blá… Ao fundo, o toque romântico da música “É o amooooooor, que mexe com a minha cabeça e o meu coraçãoooooooo…”.

Até que veio a hora que Ana mais temia: o pedido de casamento. Pedro estava ajoelhado à sua frente, com uma caixinha de veludo nas mãos, onde brilhavam duas grossas alianças de ouro. A plateia toda gritava em coro: aceita, aceita, aceita.

Ana aceitou. Não tinha como dizer não, ali, naquela hora. Todos aplaudiram.

Ela havia decidido que o casamento seria simples, íntimo e barato. Preferia gastar o dinheiro numa bela viagem de lua-de-mel. Mas Pedro, romântico como sempre, queria que fosse um dia muito especial, com tudo a que tinham direito: cerimônia na igreja, ela de branco e ele de smoking preto com um cravo vermelho na lapela, aias, padrinhos, violinos e uma festa para entrar na história da cidade onde moravam. Não abria mão do bolo de três andares com o casal de noivinhos no topo e bem-casados como lembrança do enlace. Ana foi voto vencido.

O casamento foi uma superprodução, e a lua-de-mel numa praia catarinense. Eles estão casados há cinco anos e Ana está grávida de gêmeos, que nascem em outubro. São felizes, com altos e baixos no casamento, como qualquer casal. Mas ela não para de pensar nisso: “será que casei só porque tinha uma multidão em volta, quando paguei aquele mico no trabalho?

Ela estava justamente comentando sobre isso quando Pedro chegou, com um lindo ramalhete de flores e uma caixa de bombons.

—Oi amor. Passei aqui só pra te desejar um bom dia. Lembra que hoje completamos cinco anos de casamento? Desde aquele dia sou o homem mais feliz do mundo.

Ana olhou para mim e sorriu. Ela sabe que acabaria casando com Pedro de qualquer jeito. Quem é louca de dispensar um homem desses?


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31 jul16:03

Dizer o quê? - crônica de Viviane Bevilacqua

Viviane Bevilacqua | viviane.bevilacqua@diario.com.br

Receber e-mails e telefonemas dos leitores sempre é bom, mesmo quando eventualmente se trata de uma crítica. Sinal de que o que você escreve desperta alguma reação nas pessoas, e sugestões de como melhorar o trabalho são sempre muito bem vindas. Às vezes a mensagem surpreende, como a que recebi dias atrás, de uma leitora de 16 anos. Sem mencionar o nome dela, vou descrever o conteúdo da cartinha.

“Será que você pode me ajudar? Conheci um menino na minha escola há cinco semanas. Somos namorados há duas semanas e meia. Ele tá querendo vir aqui em casa falar com meus pais. Será que tá na hora já? Tenho um pouco de medo-, já tive vários namorados, mas nenhum que meus pais tenham conhecido. E aí, o que devo fazer? OBS: minha mãe já sabe dele, somente meu pai que não. Fico no aguardo, agradeço desde já”.

Eu li, reli, mostrei para algumas colegas e perguntei: e aí meninas, o que eu respondo?

Sou jornalista, não psicóloga, e não tenho filhas, só filhos, que já passaram da adolescência. Expliquei para a menina que eu não me achava a melhor pessoa para responder a sua dúvida, pois não sou psicóloga. Mas eu não podia simplesmente abandoná-la, sem pelo menos tentar ajudá-la.

Então, fui sincera. Disse que eu poderia dar a minha opinião como mulher — alguém que também já teve 16 anos e que igualmente ficava em dúvida se já era hora ou não de apresentar o namorado para os pais. Se eu pudesse ajudá-la com a minha própria experiência, ótimo. Caso contrário, ela só teria que deletar o e-mail e pedir opinião para pessoa mais abalizada no assunto.

Sugeri que ela esperasse um pouco mais para apresentar o garoto para os pais dela, primeiro porque eles só estão namorando há duas semanas. Havia também o fato deles só se conhecerem há cinco semanas. Será que o namoro não rolou cedo demais? Disse, ainda, que ela me parecia estar insegura em relação aos seus sentimentos. Ressaltei, entretanto, que o fato do menino querer conhecer o sogro e a sogra me parecia positivo, sinal de que ele estava interessado em levar o romance adiante. Só sugeri que ela tivesse um pouco mais de cautela, porque senão fica naquela lenga-lenga de apresenta aos pais, termina o namoro, apresenta outro, termina de novo…No fim, corre o risco de ninguém mais levá-la a sério.

Mandei a resposta por e-mail, com uma pergunta no final: será que te ajudei?

Ela me mandou outro e-mail, muito sincero: “Você me ajudou. Um pouco. Agora vou atrás de um psicólogo para ver se consigo uma opinião de quem realmente entende do assunto.

Será que escrevi alguma besteira? Ou as coisas mudaram tanto assim nas últimas três décadas e eu nem me dei conta? Acho melhor eu desistir de opinar sobre a vida dos outros.

Tomara que a minha leitora tenha conseguido esclarecer suas dúvidas, e que o namoro lhe traga muita felicidade.



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23 jul17:59

Crônica Procura-se um amor, de Viviane Bevilacqua

Viviane Bevilacqua | viviane.bevilacqua@diario.com.br

Quando menina, eu gostava de ler os “correios sentimentais” que eram publicados nas revistas, e ficava imaginando: será que aquela moça, que se chama “rosa encantada” encontrará o seu par perfeito? E o pobre “cavalheiro solitário”, viúvo há muitos anos, vai enamorar-se novamente? Como toda romântica, achava que estas cartinhas podiam, sim, unir as pessoas, e que as “metades da laranja” existem de verdade, só que às vezes precisam de uma mãozinha do destino para se encontrarem.

Havia anúncios muito especiais, nos quais dava para sentir que o remetente tinha se esmerado na tentativa de encontrar as palavras certas. “Procuro a outra metade da minha alma”, dizia uma delas. Quer coisa mais poética?

Tinha, também, aquelas cartinhas que iam direto ao ponto: “procuro homem para futuro compromisso, idade entre 30 a 50 anos, sem vícios e com boa situação financeira. Favor mandar foto na primeira carta”. Assim, simples e prático. A mulher não devia ser de muita brincadeira. Se não tinha as características exigidas, melhor nem perder tempo escrevendo.

Outros anúncios eram — aos meus olhos e imaginação de menina – completamente enigmáticos: “procuro alguém para amizade sincera ou algo mais”. Se não era para namorar ou casar, era para o quê, então? Acho que hoje sei a resposta.

Eu gastava um tempão tentando imaginar como seriam, fisicamente, as pessoas, autoras dos anúncios.

“Moreno, alto, bonito, porte atlético, 30 anos…”. Nossa, devia ser um gato!

“Loura, olhos azuis, corpo escultural, muito simpática e inteligente”, dizia uma moça. Que casal incrível daria essa dupla, coisa de colocar muito casalzinho global no chinelo, pensava eu.

Muitas vezes senti vontade de escrever uma cartinha e enviar para um desses correios sentimentais, que eram moda nas revistas, jornais e até nos programas de rádio. Não que eu precisasse de um namorado — até porque naquela época eu tinha uns 10 ou 11 anos, e nem pensava (seriamente) nisso ainda — mas porque eu sempre fui muito curiosa, e queria saber se alguém me responderia.

Uma das minhas grandes alegrias sempre foi receber cartas. Sim, naquele tempo ainda se recebia cartas em casa, entregues pelos carteiros. Eu costumava me corresponder com as amigas de escola, durante viagens nas férias. Mas carta de amor devia ser muito mais legal, ainda que fosse a resposta a um anúncio publicado em uma revista…

Mas fiquei só na intenção, nunca enviei.

Lembrei disso hoje porque encontrei na internet uma espécie de correio sentimental eletrônico. Um anúncio dizia: “baiana, 56 anos, divorciada, íntegra, amiga e companheira, que gosta da natureza, quer conhecer senhor livre e atencioso, entre 65 a 70 anos, para compromisso sério. Dispensa aventureiros e dá preferência para orientais”.

Isso significa que as pessoas continuam procurando suas almas gêmeas. Só o que mudou com o passar do tempo foi a forma de fazer contato.

DIÁRIO CATARINENSE

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12 jun15:15

Crônica de Viviane Bevilacqua: O melhor do frio

Viviane Bevilacqua | viviane.bevilacqua@diario.com.br

O frio nem começou ainda e só o que se fala é nas delícias gastronômicas que apetecem no inverno.

— Gente, já está funcionando aquele café colonial maravilhoso lá do bairro Kobrasol — avisa uma colega.

— E o mocotó do Zequinha, lá no Centro, também!

— A feijoada da turma, lá na praia, sai quando?

— Ah, com esse tempo, nada melhor do que bolinho de chuva e chocolate quente, e um bom filme no vídeo…

— Já combinamos: no próximo fim de semana a pizza é lá na nossa casa. E vocês se encarregam dos vinhos…

Vocês já perceberam que a gente só pensa em comida, no inverno?

É impressionante, mas só de pensar em frio já vem à mente uma xícara de café fumegante e uma mesa cheia de delícias super calóricas…

Se combinamos de sair, é para ir a um restaurante. Ou ao cinema e depois a um barzinho. Ou uma reunião na casa de amigos, onde a mesa é o ponto de encontro. Festa sem comida e bebida não é festa.

Se ficamos em casa, já pensamos logo em abastecer a geladeira e a despensa para o fim de semana.

Aí, lembramos que gula é pecado e, pior do que tudo: engorda!

Invariavelmente, fazemos a mesma promessa de todos os anos: desta vez vou me controlar. Não quero engordar e depois não ter mais uma roupa que sirva!

Que atire a primeira pedra quem consegue passar o inverno inteiro sem engordar um quilinho sequer. Duvido que exista alguém, a não ser aqueles sortudos que têm o tal “metabolismo acelerado” e que não engordam nem querendo. Mas essa é uma minoria, que não entra nas minhas estatísticas.

O que se vê, na maioria das vezes, é gente que engorda no inverno correndo atrás do prejuízo, lá na primavera, para chegar mais alinhada no verão. Não à toa, as academias ficam superlotadas a partir de setembro…

Para aliviar minha consciência, procuro uma explicação científica para esta vontade de comer mais nesta época do ano. E encontro: “No inverno, em função das temperaturas mais baixas, nosso organismo gasta mais energia para se manter aquecido. Esse aumento no metabolismo basal varia em torno de 20 a 30%. Por isso, nossa fome aumenta”.

Ufa, que alívio! Já me sinto menos culpada!

Encontro outra explicação também: “A verdade é que os brasileiros não gostam do inverno, então se deprimem e a produção de serotonina, um neurotransmissor que promove a sensação de bem-estar, diminui. Para suprir esta sensação de tristeza e desânimo, as pessoas, principalmente as mulheres, acabam descontando na comida e engordam”.

Essa já não serve pra mim. Adoro frio, amo o inverno.

Já me disseram que a melhor maneira de resistir à tentação da gula é não ter alimentos “engordativos” em casa. Ou seja: nada de pães especiais, bolos, tortas, bolachinhas, pipocas, chocolates, empadinhas, pastelões…

Já tentei fazer isso. Enchi a geladeira de frutas, verduras, legumes e sucos, para aguentar o fim de semana, que seria de chuva e frio.

Comi bergamota. Uma, duas, três. Muita água, para encher a barriga. Café com adoçante. Chá. Biscoito água e sal.

Funcionou por algumas horas.

Acabei a noite numa casa de massas e, confesso, recuperei minha alegria de viver!

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04 jun14:02

Ai se eu te pego...

Viviane Bevilacqua | viviane.bevilacqua@diario.com.br


Ah, não. Até o André Rieu?

Aprendi com meu pai a admirar este grande maestro holandês, que mistura pop com erudito como ninguém. E agora que está fazendo uma série de shows no Brasil, ele e sua grande e brilhante orquestra seguidamente aparecem em programas de televisão.

Dia desses vi André Rieu fazer uma homenagem especial ao nosso país. Ele tocou Aquarela do Brasil (tá, tá, não tem nada de original em estrangeiro tocar essa música, mas ficou bonito). E reservou para o final a grande surpresa: os músicos tocaram — e o coro feminino da orquestra cantou e dançou — uma música ainda mais “típica” brasileira: Nossa, nossa, assim você me mata, ai, ai se eu te pego, delícia, delícia, assim você me mata, ai, ai…se eu te pego…

Ah não, Rieu, até você?

Claro que o público, no auditório, delirou. Cantou junto, dançou, gritou…Michel Teló também deve ter adorado a homenagem, se bem que ele já está acostumado a ouvir sua música sendo cantada por muita gente famosa. Mas, convenhamos, temos tantas músicas brasileiras — e bem populares — mais bonita do que essa… De quem será que foi a ideia de escolher justo esta para o repertório?

Nunca fui fã do Michel Teló, mas também não pertenço ao grupo dos que ficam malhando o cara o tempo todo. Cada um na sua, esse é o meu lema. Só que esta música parece ser onipresente. É incrível, ela tem o dom de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Quando você menos espera, lá vem o nossa… nossa… assim você me mata, ai, ai…

Ai Ai digo eu. Chega!

Estávamos no Peru, em abril. Depois de um dia inteiro de visita a Machu Picchu, a van nos deixou próximo ao hotel. Era só atravessar uma praça. Exaustos e com muito frio, caminhávamos rápido, loucos para chegar no quarto quentinho. Aí, uma menina se aproximou, devia ter uns 10 anos, no máximo. Na sacola, várias bonequinhas de pano, vestidas com roupas típicas peruanas.

— Compra uma senhora?

— Não, obrigada. Estamos com pressa — respondi, em português.

— Vocês são brasileiros?

Respondi afirmativamente, e aí começou a minha surpresa. A menina sabia mais sobre o Brasil do que muita gente nascida e criada aqui.

— O Brasil é o maior país da América do Sul. A população é de 194 milhões de habitantes. Todos lá falam português. Pela primeira vez na história o Brasil tem uma mulher presidente. O nome dela é Dilma.

Ah, me apaixonei pela menina, claro.

— Como você aprendeu tudo isso?

— Na escola. E decorei, pra poder conversar com os turistas brasileiros. Agora a senhora compra a boneca?

Comprei, lógico. Duas.

Antes de dar tchau, a menina me sai com essa:

— Sei mais uma coisa sobre o Brasil. Lá, existe um cantante muito famoso…

Puxa, ela sabe até sobre o Roberto Carlos… Pensei.

E ela me sai com essa:

— Ele canta assim ó: nossa, nossa, assim você me mata, ai, ai, delicia….

Me deu vontade de pedir meu dinheiro de volta.

Chegamos finalmente no hotel. Ligo a TV, na esperança de encontrar alguma coisa diferente pra ver. Começa um programa de auditório, que passa no país todo. Nem lembro o nome. Meninos e meninas competem para ver quem canta melhor. Era o dia da final da competição.

O apresentador cumprimenta o público, os telespectadores e anuncia:

E agora, os finalistas nacionais da competição “Ai se eu te pegooooo”. Juro. Era a música do Michel Teló, em diversos ritmos e danças diferentes. Mas era ela.

Isso já é perseguição.


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08 abr14:54

Amigo (in)visível

Viviane Bevilacqua | viviane.bevilacqua@diario.com.br

Há quase um ano recebi um e-mail de um leitor que me deixou intrigada. Muito bem escrito por sinal, mas não era uma linguagem usual. Ele inseria termos que, mais de uma vez, tive que procurar o significado no dicionário. O primeiro e-mail respondi educadamente, mas com poucas palavras. Aí, veio o segundo e-mail, o terceiro, o quarto… Todos respondidos. Não passava um dia sequer sem pelo menos uma correspondência dele na caixa de entrada do meu correio eletrônico. Em todas, ele assinava: Seu leitor e amigo invisível. Virou uma brincadeira.

Eu não tinha ideia de quem ele era. Aos poucos, fui recebendo informações: está na casa dos 80 anos (o que eu já imaginava, pelo teor das cartas), foi um profissional com uma bem-sucedida carreira (o que eu também já suspeitava), é de uma família tradicional, viúvo há muito tempo e praticamente não sai de casa. Passa o tempo lendo livros, vendo filmes e, principalmente, escutando músicas das décadas de 1950 e 1960, uma época da qual demonstra sentir muita saudade.

Tudo isso ele me conta nos e-mails, que muitas vezes se tornam desabafos. Encantada, leio e releio os elogios que ele faz à mulher da sua vida, com quem viveu um amor sem limites, da juventude à velhice, até a morte dela, após uma longa doença. A partir de então, achando que nada mais valia a pena, ele se fechou pro mundo. Ou melhor, fechou-se em seu próprio mundo.

No começo do ano passado, convencido por um dos netos, fez um cursinho básico de computação e aprendeu a mexer no notebook. “Só sei mandar e-mail”, ele diz. E foi assim, através do mundo virtual, que nos conhecemos. Nossa troca de correspondências e impressões sobre o mundo, tenho certeza, ajuda a aplacar um pouco a melancolia do meu amigo. Uma vez, ele escreveu:

“Etta James, ontem falecida nos Estados Unidos, grande dama do soul, jazz e blues, tinha mais de 70 anos… Eu sou mais velho do que ela era, mas o meu caso é um caso perdido… Sem retorno! Não podes imaginar como é melancólica a sensação de quem quase está por completar cem anos de idade…”. (Ele está na casa dos 80, mas gosta de exagerar um pouco).

Outro dia, comentou: “Quando vou fazer exames no Laboratório Santa Luzia e ganho ticket para atendimento privilegiado e entro na fila da turma do reumatismo, olho para a assistência em volta e quase desabo de tristeza… A vida é de tão breve duração… Seria tão bom se as coisas boas passadas pudessem ser chamadas ao presente, como se fossem músicas colocadas nos CDs ou imagens repetidas em DVD…”.

Ele faz brincadeira com tudo, mas todas as suas frases têm muito de verdade. E me aconselha:

“Quem tem um futuro a cumprir, usufruindo das coisas boas e dos bons momentos, deve saudar o dia desde o aparecimento do crepúsculo, sabendo que logo chegará o sol. E quando começar a anoitecer, deve fixar os olhos e a mente naquele entardecer, que mostra, de forma inquestionável, que a vida é bela e merece ser bem vivida…”.

Gosta de me mandar presentes, entre eles livros e CDs, novos e antigos. Coisas que ele aprecia e que quer me apresentar. Muitas biografias de gente famosa do Brasil e do mundo conheci assim, através dele. Numa bela tarde, há alguns meses, me chamaram na portaria do prédio. Surpresa! Ele estava lá, cheio de sorrisos e presentes, acompanhado de um dos netos. Outra vez, chegou a “comitiva da alegria”, como chama: ele, a fiel secretária e o motorista de táxi que sempre o atende, desde que decidiu não mais dirigir o próprio carro. A partir de então, meu amigo invisível se tornou um amigo de carne e osso.

No sábado passado, fui visitá-lo na UTI de um hospital, onde se recupera de uma grave infecção. E enquanto conversava e fazia um carinho na mão dele, fiquei pensando: como as pessoas entram na vida da gente assim, de repente, e se tornam importantes. Nunca imaginei ter amigos de mais de 80 anos. É enriquecedora esta experiência. Aprendo muito com eles, e me divirto também. Outro dia, tive o prazer de revisar um livro escrito por uma amiga escritora octogenária, uma doce pessoa. E mais outra que entrevistei dia desses, e mais outra que vou visitar em seu sítio…

Não sei como estará a saúde do meu amigo quando você estiver lendo este texto. Não sei nem mesmo se ele poderá ler esta pequena homenagem, pois não há como prever o futuro. Só me resta torcer e esperar. Mas fica aqui registrado todo o meu carinho e admiração, por ele e por toda esta turminha de cabelos brancos – incluindo aí meus pais – que dão mais sabor e significado à minha vida.

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