Tornado

30 mai14:41

Guaraciaba é reconhecida com trabalho pós-tornado

A forma como Guaraciaba conduziu os trabalhos em prol das famílias atingidas pelo tornado e a eficiência com que aplicou os recursos públicos para reabilitar os espaços e dar dignidade às pessoas, tornou o município referência nacional. Esta experiência da Administração Municipal será apresentada por Tarcisio Hanauer no Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, que acontece em Brasília.

O convite foi feito pelo Governo Federal, através da Comissão Nacional de Afetados por Desastres Socioambientais. Esta é a segunda vez que representantes do município de Guaraciaba vão a Brasília apresentar a experiência com o tornado.

Conforme o Prefeito Ademir Zimmermann o interesse em conhecer o trabalho feito em Guaraciaba, se deve ao fato de que em pouco tempo as famílias atingidas foram restabelecidas. A preocupação foi dar dignidade, reconstruindo a casa, retomando o setor produtivo, oferecendo atendimento psicológico e buscando todas as formas possíveis de auxílio para minimizar as perdas. Para o prefeito essa experiência torna-se exemplo, porque em muitos outros municípios brasileiros, também atingidos por catástrofes climáticas, centenas de pessoas ainda estão em abrigos e em situações precárias.

A experiência de Guaraciaba será apresentada nesta quinta-feira, dia 31, em audiência com representantes da Secretaria Nacional da Presidência, da Casa Civil e dos Ministérios das Cidades, da Integração Nacional e do Ministério do Meio Ambiente. A partir da experiência de Guaraciaba, o fórum tem a finalidade de elaborar políticas públicas nacionais de atendimento e reabilitação das famílias em casos de desastres naturais.

Segundo Zimmermann, Guaraciaba será representada por Tarcisio Hanauer, que viaja nesta terça-feira para a capital federal, representando também as Cáritas Brasileiras da Regional da Diocese de Chapecó. Ele já representou o município em outra oportunidade, juntamente com Elói Voigt, que em 2009 coordenou as ações de auxílio aos atingidos.


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08 set13:20

Cicatrizes do tornado em Guaraciaba

Darci Debona | darci.debona@diario.com.br


A cicatriz nas costas do jovem Douglas Ludwig, de 18 anos, é apenas um dos sinais que permanecem do tornado que arrasou o município de Guarciaba na noite de 7 para 8 de setembro de 2009. Naquela noite ventos entre 120 e 180 quilômetros por hora causaram a morte de quatro pessoas, deixaram 89 feridos e cerca de nove mil pessoas foram atingidas de alguma forma pelo fenômeno.

Na zona urbana a passagem do tornado é praticamente imperceptível. O ginásio da Escola Sarah Castelhanho Kleinkauf foi reconstruído. Nos telhados é possível observar algumas telhas mais novas, que foram trocadas na época.


Mas o impacto maior foi no interior, onde 86 famílias tiveram mais de 50% de suas propriedades destruídas e tiveram que reconstruir as casas, galpões, estrebarias e chiqueiros.


Em algumas comunidades, como Sede Flores, é possível observar as construções novas. Algumas famílias até fizeram casas melhores do que tinham. De acordo com o prefeito em exercício, Nelson Hüning, 453 famílias receberam valores que variavam de R$ 3 mil a R$ 30 mil para reconstrução das residência, conforme as perdas, totalizando R$ 4,5 milhões, repassados pela Defesa Civil.


Apenas dois moradores ainda não reconstruíram as casas, mas estão com material. Mas o maior impacto não foi o material, já que a maioria das construções foi recuperada.


– O maior problema é o psicológico- afirmou o prefeito. Essa é uma cicatriz mais difícil de sarar.


A geladeira de um vizinho ainda está no meio do campo.



O próprio Douglas Ludwig, acordou duas vezes na segunda-feira, quando ocorreu o temporal que atingiu vários municípios catarinenses, entre eles Anchieta, que fica próximo a Guaraciaba. –A gente se aperta mais quando arma o tempo de noite- explicou.


Na noite do tornado os relâmpagos lhe chamaram a atenção. Ele ainda lembra dos papéis rodando no quarto e uma parede caindo. Depois apagou e acordou perto de um rio, que ficou seco após o tornado, a 50 metros de sua casa. Douglas ainda guarda a lanterna que ajudou a família a encontrar os destroços da moradia naquela noite.


A mãe, Melita Reichert Ludwig, guardou a Bíblia


A geladeira de um vizinho ainda está no meio do campo, a mais de 200 metros da casa que já não existe mais. A família Ludwig pegou os R$ 30 mil que ganharam de indenização e reconstruíram a casa, maior. Só que gastaram o dobro e parte ainda está para pagar. Do tornado ficaram alguns objetos, as cicatrizes, algumas dívidas e o medo a cada vez que o tempo fica nublado.


Resta só entulho da casa onde morreram duas pessoas


Da casa onde moravam Adalice Schwab, 45 anos, e Edvino Schwab, 94, duas vítimas fatais do tornado, restam apenas alguns escombros amontoados perto da estrada. O marido de Adalice e filho de Edvino, Pedro Paulo Schwabe, mudou-se para São José do Cedro, junto com os filhos. A propriedade foi vendida.


O secretário de agricultura de Guaraciaba, Jair Henkes, lembra que no local um cachorro foi encontrado morto em cima de uma árvore. Nem a vegetação ainda não se recuperou. Há ainda muitas árvores tortas, caídas e sem folhas. Nos matagais da região os moradores às vezes encontram panelas, chaleiras, sofás e outros utensílios das antigas casas que foram destruídas pelo vento.


Da família Schwab, só vai ficar a lembrança. Assim como das famílias de Irene Lazzari, 86 anos e Ana Paula Tersi, de 10 anos, as outras duas vítimas fatais do tornado. Para estas famílias, o 7 de setembro será sempre um segundo Finados.


Família Carossi ainda está sem os aviários



Izair chora ao lembrar dos seus dois aviários que foram destruídos.


A produção de 240 mil frangos por ano,o equivalente a 120 toneladas de carne, era uma atividade que garantia a renda da família Carossi, que se orgulhava da boa produção. Eles faturavam cerca de R$ 100 mil por ano. O tornado derrubou os dois aviários com 126 metros de comprimento cada, além de destelhar a casa. O telhado da residência os Carossi arrumaram, com o dinheiro da Defesa Civil.


Mas os aviários ainda não foram reconstruídos. Eles ganharam apenas o telhado dos aviários e pré-moldados de um. Mas não tem dinheiro para reconstruir as paredes e colocar os equipamentos automatizados. –Cada aviário custa R$ 200 mil- afirmou Izair Carossi.


Ele tinha seguro das construções mas ainda não recebeu a indenização. Segundo o avicultor a seguradora alega que o seguro não cobria tornado e, por isso, entrou na justiça. Carossi chega a chorar ao lembrar que perdeu cerca de R$ 1 milhão em construções. Os aviários eram o que garantia a renda da família. Um dos filhos, Ivonei, foi trabalhar numa propriedade no Mato Grosso para ter alguma remuneração. Segundo a mãe, Neiva Carossi, é ele que manda R$ 300 por mês para a família se manter. Para eles, a vida ainda não voltou ao normal.


Do contêiner para a casa nova



Olímpio Carossi feliz na casa nova.


Durante seis meses Olímpio Carossi morou com a esposa num contêiner. Depois, foi para um paiol. A filha caçula, Letícia, não agüentou e foi morar com a irmã, na cidade.

No final do ano passado, Olímpio conseguiu terminar a casa nova, de dois pisos. Ele ganhou R$ 30 mil da Defesa Civil, doações de portas e janelas e, com mais algumas economias, fez uma casa de R$ 70 mil.


Olímpio Carossi agora está feliz pois tem uma casa bonita em que a filha vem lhe visitar a cada final de semana. A única coisa que lhe incomoda é quando começa a ventar e o tempo ameaça chover. –A gente sofre muito- diz. Pelo menos ele fez uma casa “reforçada” que é bem mais difícil do vento derrubar.


Silo continua no chão


Os entulhos de dois silos comunitários que foram derrubados no tornado ainda dão uma dimensão do poder destrutivo do vento ocorrido há dois anos. Até uma parte das paredes de tijolo foram abaixo quando o telhado foi arrancado. A família de Ivan Zili era uma das 12 sócias do silo da Linha Welter, no interior de Guaraciaba. Eles tinham investido cerca de R$ 5 mil na obra. Além disso perderam 40 sacas de milho que estavam armazenadas no local.


Ivan mostra o que sobrou de um silo do qual era sócio.



Atualmente, a família Zili tem que pagar para um silo particular secar e armazenar a produção. Enquanto isso tentam recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário para reconstruir os armazéns.


Indenização aos criadores


Na semana passada a Assembléia Legislativa aprovou a lei 248/2011, de autoria do deputado Pedro Baldissera, que prevê a indenização dos criadores que perderam animais durante o tornado.


A lei ainda deve ser sancionada pelo Governador Raiumundo Colombo. De acordo com o secretário de Agricultura de Guaraciaba, Jair Henkes, os prejuízos foram de R$ 300 mil somente com a morte dos bovinos.


Ele afirmou que a indenização vai ajudar a recompor a produção das famílias. Henkes disse que alguns produtores não conseguiram reconstruir sua estrutura com o valor da indenização.


Ele citou o exemplo do suinocultor Amélio Barth, que tinha dois chiqueiros com cerca de 200 fêmeas, que atualmente estão abandonados. O agricultor foi trabalhar na cidade. Outro suinocultor, Valdir Fontana, reconstruiu apenas parte dos chiqueiros. O restante ainda está parecido com a cena de dois anos atrás.


Psicóloga afirma que população ainda vai levar anos para superar o medo


O medo da população de Guaraciaba a cada ameaça de chuva ainda vai continuar por um bom tempo, segundo a psicóloga do município, Ceres Fátima Lago. –Ainda vai alguns anos para que o cérebro perceba que é algo normal- explicou.


Ceres lembrou que a experiência que as pessoas passaram foi muito forte e ficou marcado. Por isso tanto uma ameaça de temporal ou a proximidade com a data já mexe com a população. Toda vez que chega próximo de Sete de Setembro os comentários sobre o tornado se tornam um dos assuntos prediletos na cidade.


Para a psicóloga Ceres Fátima Lago o medo da população a cada ameaça de chuva vai continuar ainda por um bom tempo.



–São resquícios que ficam na memória- afirmou Ceres.


Ela lembrou que logo após o tornado a cada chuva lotava de gente buscando atendimento psicológico. Na época foram feitos 28 grupos com o auxílio de psicólogos voluntários da região e até de outros estados. Em 2010 foi contratada uma psicóloga especificamente para trabalhar pessoas ainda sob efeito do fenômeno.


Atualmente o serviço oferecido pelo município foi encerrado. Mas é visível que as pessoas ainda se emocionam e choram quando começam a lembrar daquela noite.


Para Ceres, é até normal que isso aconteça. Para ela, nada melhor que o tempo para cicatrizar também essa ferida.




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