Outro dia escrevi sobre a importância dos torneios futures para o tênis brasileiro, não apenas nas questões óbvias - a distribuição de pontos no ranking e a grande diminuição de despesas para os que estão iniciando a carreira profissional.
Mas principalmente sobre algumas mudanças que essa nova realidade está começando a impor. O fim da cultura de "puxa-saquismo", por exemplo, à medida que o binômio "patrocínio/convites nos torneios" está deixando de ser determinante para uma carreira de sucesso. Felizmente.
Mas e o tênis feminino?
Já faz muito tempo que o Brasil não tem uma grande jogadora no circuito WTA. A nossa última top-50 foi a gaúcha Niége Dias, na segunda metade dos anos 80. A partir dos anos 90, apenas promessas que não se concretizaram. Atualmente, ninguém sequer no top-300.
Se pararmos para pensar um pouco, perceberemos que esse quadro não poderia ser diferente.
Quantos torneios WTA tivemos no Brasil nos últimos anos? Nenhum.
Quantos challengers temos atualmente? Apenas um, em Campos do Jordão.
Quantos futures? Em 2008, tivemos um número recorde: meia dúzia de eventos.
A questão é simples: como desenvolver o tênis feminino, se não há oportunidades para as que sonham em se tornar profissionais?
Alguém poderia me dizer - como já disseram - que não há torneios exatamente por não haver jogadoras de destaque. Que não há interesse. Pois eu me arrisco a dizer exatamente o contrário. Enquanto não houver um bom número de eventos no Brasil, jamais teremos um bom número de tenistas de qualidade.
Até poderíamos ter alguma jogadora de exceção, resultado de um enorme esforço pessoal e familiar. Uma espécie de "Guga de saias" - embora o próprio Guga sempre tenha contado com uma estrutura diferenciada, com grande apoio financeiro para as viagens, e um ótimo e experiente treinador para acompanhá-lo.
Mas sem torneios fica impossível de se criar uma cultura de tênis feminino, o que, no fundo, é o que realmente precisamos - o próprio tênis masculino já deixou isso bem claro. Assim como no masculino, o importante, em um primeiro momento, é a quantidade. Não só de jogadoras, mas também de técnicos competentes.
E as dificuldades encontradas no início da carreira são ainda maiores para as meninas, em todos os sentidos, a começar pela falta de apoio financeiro.
Se para um jovem de 17 ou 18 anos é complicado viajar sozinho para o exterior, imaginem para uma menina de 15 ou 16, idade comum para se iniciar uma carreira profissional no tênis feminino.
A falta de torneios deixa nossas meninas absolutamente sem perspectivas. Elas se "agarram", inutilmente, ao circuito juvenil até o último suspiro dos 18 anos e acabam, com isso, limitando seus horizontes para sempre. Pior ainda, vendo um número cada vez maior de "adolescentes" russas, sérvias e americanas se destacarem nos grande torneios. Só pode ser frustrante e desanimador.
Nossa falta de visão é tanta que, quando leio opiniões de especialistas a respeito desse assunto, observo, além do já tradicional discurso "sarcástico-machista", que todos criticam a "falta de atitude" das nossas meninas.
Mas que atitude podemos cobrar delas? Que saiam para viajar sozinhas pelo mundo aos 16 anos, sem jogo, sem dinheiro, sem treinador, sem experiência, apenas com uma mochila nas costas e um sonho? E se fosse sua filha?
A verdade é que temos de aplaudir as poucas meninas que ainda tentam jogar tênis profissional no Brasil.
Postado por Francisco Costa


