Sobre talento e trabalho
Um dos principais problemas do Brasil, a meu ver, é o culto exagerado ao talento, ao improviso, à espontaneidade. Em minha opinião, esse exagero gera um desequilíbrio com consequências devastadoras para a nossa sociedade.
Em primeiro lugar, a desvalorização da educação. Para que estudar, se o Presidente da República nunca estudou? Para que desenvolver valores, se eles não trazem dinheiro ou status a curto prazo?
A partir daí, fica fácil explicar, por exemplo, os péssimos salários dos professores, o desinteresse cada vez maior dos alunos, a falta de estrutura da grande maioria das escolas.
A partir daí, também, outras coisas começam a fazer sentido. A corrupção dos políticos, tão combatida pela mídia, é apenas um dos reflexos dessa cultura, da nossa eterna vocação para o oportunismo.
Os políticos são os representantes do povo, ou seja, eles agem de acordo com os valores da nossa sociedade. Muitos daqueles que se dizem revoltados com a corrupção fariam a mesma coisa se tivessem a mesma oportunidade.
E que tal a violência, que não para de crescer? No final das contas, o que os "criminosos" buscam é simples: "dinheiro fácil". Mas não é exatamente isso o que todos querem?
Ou seja, sem educação, sem valores, cada um acaba fazendo uso do próprio talento da maneira mais "espontânea" e "oportuna" possível, seguindo apenas as leis de seu meio.
Considero importantíssimo combater a corrupção e a violência, mas se não formos capazes de entender as origens dos problemas, passaremos o resto de nossas vidas "chocados" com o que assistimos diariamente nos noticiários.
Obviamente, o esporte também está dentro deste contexto cultural. A começar pela grande paixão nacional, a seleção brasileira de futebol.
Depois de 24 anos sem vencer uma Copa, veio o título em 1994. Ao invés de exaltar-se as grandes virtudes daquela seleção, como a disciplina e organização tática, o espírito de equipe, preferiu-se dizer que o talento e a genialidade de Romário carregaram nas costas um time limitado.
Em 2002, foi a vez de Ronaldo ser transformado em herói nacional. Ou seja, o brasileiro tende a atribuir o sucesso sempre ao talento, e o fracasso, simplesmente, à falta dele.
O que ninguém disse ou diz é que os talentos de Romário e Ronaldo só puderam aparecer porque atrás deles havia equipes altamente competitivas, disciplinadas e comprometidas com a vitória.
E também que, além da habilidade com a bola, ambos, quando no auge, eram dotados de força e velocidade incríveis, acima dos zagueiros que os marcavam. E força e velocidade são propriedades físicas que têm muito mais a ver com o treinamento do que com qualquer outra coisa.
No tênis é igual. Quando a carreira de Guga decolou, não faltaram adjetivos que tentassem reduzir tudo a seu talento natural. O "manezinho da ilha", o "surfista dourado", o "gênio da raquete", quem não lembra?
As virtudes pessoais, físicas, e os valores que moldaram o seu sucesso passaram quase despercebidos em meio à euforia generalizada.
A consequência foi que nosso tênis não evoluiu em nada naquele período. Todos se preocuparam apenas em aproveitar aquele momento, "tirar uma casquinha" do ídolo.
Quando tudo acabou, não sobrou nada, pois nada havia sido plantado - pra que plantar, se é o talento, no final das contas, que determina tudo?
Como sempre, é preciso encontrar um equilíbrio. Precisamos equilibrar melhor essa relação entre trabalho e talento, disciplina e espontaneidade.
Peguemos os melhores tenistas do mundo como exemplo.
Nadal é 90% trabalho, 10% talento. Percebe-se claramente que ele é um jogador muito mais "construído" do que qualquer outra coisa, desde seu comportamento dentro e fora da quadra, até a maneira como ele joga tênis.
Nadal é puro trabalho, disciplina, comprometimento, com uma "pitada" de talento natural.
Já Federer, sem dúvida, é mais talentoso e espontâneo do que Nadal. Mas não teria chegado a lugar algum se não fosse tecnicamente quase perfeito. E a técnica é algo que se aprende, que se ensina, que está nos livros.
Isso significa dizer que Federer só se tornou o melhor de todos os tempos porque teve excelentes professores e treinadores durante sua formação, porque foi capaz de abrir mão de sua juventude para ser atleta, e também porque aprendeu a controlar as próprias emoções, já que, quando adolescente, ele era tão conhecido pelas raquetes quebradas quanto pelas vitórias.
Ou seja, mesmo Federer, de certa forma, foi construído.
Não nos enganemos. O talento, sem uma boa educação, sem muito trabalho, é inútil.
Sábia mesmo é a nossa bandeira, cada vez mais esquecida. Ela diz, simplesmente, "Ordem e Progresso".
Ou seja, para que haja um progresso real e duradouro, é preciso haver, em primeiro lugar, ordem.
Aqueles que tentam progredir sem valores, sem educação, sem trabalho, estarão apenas se iludindo, pois o sucesso acabará lhes trazendo, a médio e longo prazo, mais problemas do que benefícios.
Vale para cada indivíduo, e vale também para o conjunto.
Postado por Francisco Costa