Ainda bem que existe o Barcelona para contrariar tudo aquilo que pregam os nossos 'especialistas' e para provar que existe, sim, uma maneira correta de se fazer as coisas no futebol.
Ontem, antes do clássico entre o Barça e o Real, li uma matéria no site da Globo que, pra variar, falava em 'cifras mirabolantes', reduzindo todo o sucesso futebolístico dos dois times ao seu poderio financeiro.
É óbvio que, sem muito dinheiro, não se faz nada em esporte nenhum, especialmente no futebol atual, mas é um erro grotesco pensar que a vida é um cifrão. Pior ainda é sair afirmando isso aos quatro ventos como se fosse a 'verdade do universo'. Além de nociva, esta é uma idéia superada.
Aliás, nunca é demais lembrar o que aconteceu com os clubes que, incentivados pela mídia, apostaram tudo na parceria com a ISL. Além de terem ido parar na segundona, estão pagando as contas até hoje. Ou seja, não é bem assim que as coisas funcionam.
Da mesma forma, falar sobre a necessidade de uma gestão profissional e competente, de se traçar boas estratégias de marketing para gerar recursos, hoje em dia, é refletir sobre o óbvio. Todos já sabem disso, mesmo no Brasil, onde a maioria dos clubes ainda são mal administrados.
Pra começar, é preciso dizer que Barcelona e Real Madrid, apesar da rivalidade histórica, são clubes completamente diferentes, que pensam o futebol de maneiras quase opostas. Diferenças que vêm se acentuando nos últimos anos e desequilibrando a balança a favor do Barça.
Enquanto o Real, considerado o principal clube de futebol do século passado, aposta tudo em 'nomes' como Kaká, Cristiano Ronaldo e o técnico Mourinho, o Barça - grande vencedor deste início de século - acredita em uma filosofia de trabalho, em uma cultura de futebol.
Para se ter uma idéia, no clássico de ontem, o Barça entrou em campo com nada menos do que oito jogadores oriundos das categorias de base - entre eles o argentino Messi. Eu disse oito de onze! O próprio técnico, Pep Guardiola, é prata da casa.
Ou seja, a filosofia do Barcelona é a de manter no time, no elenco, e na instituição o maior número possível de pessoas identificadas com o clube e sua cultura de futebol. Assim, ao invés de fazer contratações 'por atacado', contrata-se apenas para suprir alguma deficiência específica.
Outro ponto importante: ao contrário da grande maioria dos clubes, o Barça se recusa a servir de 'asilo para veteranos', sejam craques ou não. Quando o jogador, seja ele quem for, começa a dar sinais claros de decadência física ou falta de motivacão, é imediatamente passado adiante.
Foi assim com Romário e, mais recentemente, com o Ronaldinho Gaúcho. Quando eles começaram a fazer mais festas do que gols, foram vendidos, ainda a peso de ouro, política que acaba abrindo um importante espaço para os jovens que estão em ascensão.
Por último, o time catalão aposta em uma maneira clara e específica de jogar futebol: o futebol coletivo, também chamado de 'futebol total', onde todos devem atacar e defender com qualidade. No Barça não existe mais espaço para o zagueirão tosco, o centroavante paradão, muito menos o craque individualista.
Quem realmente acompanha o futebol mundial e assiste os jogos do Barcelona com frequência não chegou a se surpreender totalmente com os 5x0 - fora o baile - de ontem. Afinal, o Barça de hoje representa justamente a evolução do futebol, um exemplo que deveria ser seguido por todos os clubes do planeta.


