Não faz muito tempo escrevi sobre as duas 'correntes do atraso' que, através do futebol, contaminam todo o esporte brasileiro.
De um lado estão os saudosistas, os defensores do talento puro e do futebol arte. São 'aristocratas' que pertencem ao século XIX.
Do outro estão os fanáticos por resultados, os adoradores de nomes e números que, no fundo, são também defensores do 'neoliberalismo' e gostariam que ainda estivéssemos nos anos 80.
Lá de vez em quando, essas duas correntes convergem e acaba ocorrendo uma perigosa e contagiosa 'unanimidade' na imprensa esportiva brasileira, que obviamente acaba se refletindo nas ruas.
É assim: sempre que nossa crônica se torna unânime sobre alguma coisa, é bom abrir bem os olhos e ficar atento. Nessas ocasiões, costumamos dar um salto gigantesco. Só que para trás. É mais ou menos como Bush e Saddam fazendo as pazes e decidindo juntos o melhor destino para a humanidade.
Todos, sem exceção, louvaram a partida Santos 4x5 Flamengo como 'o jogo do ano', e as atuações dos craques Neymar e Ronaldinho como 'fenomenais'. Muitos, inclusive, já defendem a volta do veterano gaúcho para a seleção.
A verdade é que Santos e Flamengo jogaram futebol 'à moda antiga': ninguém marcou no meio campo. Sobrou espaço. Paraguaios e venezuelanos, por exemplo, não jogam nada, mas não costumam ser tão generosos com os adversários.
É verdade que Neymar fez dois belos gols, mas também exagerou no individualismo, perdeu dezenas de bolas e gerou contra ataques perigosos. Seu time levou cinco gols em casa.
Já Ronaldinho fez três gols: no primeiro, o goleiro falhou e a bola sobrou limpa; no segundo, arriscou bater a falta por baixo da barreira, algo que já havia tentado fazer mil vezes em vão; no terceiro, ele chutou mal, mas a bola desviou no zagueiro e entrou.
Em 2006, Ronaldinho estava no auge e fez uma Copa medíocre - ele e o quarteto mágico; Neymar acaba de fazer uma Copa América medíocre, junto com Ganso, Pato e Robinho. Outro quarteto. Jogadores individualistas tem algo em comum: costumam fracassar quando são bem marcados. Mas, é claro, eu sou apenas um ex-tenista que não entende nada de futebol.
Então, viva o craquismo, viva as vedetes, viva a unanimidade.
Viva o passado - o tal do Barcelona é uma mentira.
Ronaldinho, Neymar, Ganso, Pato, Robinho e Kaká juntos na seleção já.
E, por que não, viva também a festança com dinheiro público.