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Sobre 'Olho Nu'

04 de julho de 2014 0
Crédito: Vitrine Filmes

Crédito: Vitrine Filmes

Neste sábado e domingo, às 20h, ainda é possível conferir o documentário Olho Nu, sobre Ney Matogrosso, na Sala de Cinema Ulysses Geremia. Ingressos a R$8 e R$ 4 (estudantes e idosos).

Seguem aqui minhas impressões sobre o longa de Joel Pizzini.

Olhos de Ney

O Olho Nu do título já domina a tela logo na primeira cena, mas aparece recebendo grossas linhas de lápis preto. Maquiagem que virou ícone de um estilo, de um tempo, de um personagem. A verdade é que no documentário que estreou esta semana, na Sala de Cinema Ulysses Geremia, o olhar que conduz a narrativa é do diretor Joel Pizzini, responsável por recortar e entrelaçar Ney Matogrosso homem e Ney Matogrosso artista. Personas completamente distintas, de acordo com o próprio protagonista do longa.

O filme é entrecortado por valiosas imagens de arquivo (shows, entrevistas, participações), declarações atuais de Ney e momentos íntimos do músico com a natureza. Há muito som de pássaros, de água, muito pé descalço, interação e observação animal. A característica naturalesca que marca visual e performance artística também acompanha a maior parte das imagens de Ney fora dos palcos. “Sou muito primário, sou muito pé no chão, osso em cima de mim, pele e terra” declara o cantor na abertura do documentário.

O filme propõe um encontro interessante do espectador com a história de Ney Matogrosso. Há ótimas declarações do músico, como “dei sorte, ser filho de militar já me colocou transgressor”, ou, “só sei ser subversivo, em todos os governos que passarem, serei sempre subversivo”, e “em mim, tudo está como é”. Mesmo assim, o filme parece não aprofundar em nenhum viés, fala do que se espera que fale – família, começo na música, carreira com e sem Secos & Molhados – mas não foca em questões mais polêmicas. O próprio Ney chegou a declarar que sentiu falta de ter sido mais exposto na telona. Amor, sexo e drogas não são recorrentes. Cazuza, uma das paixões de Ney, aparece rapidinho, em dois momentos apenas. Já a libido rende uma das melhores declarações do músico no documentário: “tinha desejo sexual pela plateia, queria transar com aquela gente toda”.

Mas esse possível distanciamento não impede que Olho Nu cumpra o papel a que se propõe. Trata-se de uma visão poética sobre as diferentes texturas da personalidade de Ney. As passagens musicais são quase um golpe baixo, costurando cenas lindamente. O olhar compenetrado na tela (seja com mais ou menos maquiagem) e a belíssima voz fazem de cada interpretação de Ney memorável. Outro bom momento são as imagens do cantor gravadas sob o forte sol, dançando dentro de uma roupa dourada e brilhante, olhando o mundo por trás de uma máscara, com grandes penas na cabeça: praticamente uma metáfora sobre a organicidade do homem e do artista.

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