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Novo do Paul Thomas Anderson

06 de outubro de 2014 0

Paul Thomas Anderson sempre deixando nossos coraçõezinhos nervosos. Depois do ótimo O Mestre, ele volta a trabalhar com Joaquin Phoenix (uma certa overdose dele aqui no blog né, hehe) em seu novo filme, Vício Inerente. A Los Angeles dos anos 1970 serve de cenário para a história de um detetive trabalhado na costeleta (Phoenix) que se envolve numa trama misteriosa ao investigar o desaparecimento de uma ex-namorada.

O elenco tem ainda grandes nomes como Owen Wilson (nem tão grande assim), Josh Brolin, Reese Whiterspoon e Benicio Del Toro. E a trilha tem Radiohead.

O longa estava previsto para estrear no último sábado, no Festival de Cinema de Nova York. Aqui no Brasil, deve chegar só em janeiro de 2015. Por que tanto tempo???

Só para lembrar de O Mestre, aqui ai um textinho que escrevi na época da estreia.

O professor e o louco

Numa entrevista sobre O Mestre, o diretor Paul Thomas Anderson disse que sua intenção não era fazer um fi lme provocador.
Desculpe, Mr. Anderson, você falhou nesse objetivo. O longa, vencedor do Leão de Prata em Veneza ( melhor direção), é do tipo que atinge graus de beleza e perturbação como somente grandes obras-primas essencialmente humanas conseguem.
A declaração do diretor, contextualizemos, fazia relação com o surgimento da cientologia, tema que o filme aborda. Nesse caso, ele tem razão.

Fica visível que a intenção não foi a de “ provocar” uma discussão sobre o assunto – ele se confi gura apenas como um pano de fundo para que a complexidade brilhante dos personagens se revele. O espectador é, primeiramente, apresentado ao marinheiro selvagem Freddie Quell ( Joaquin Phoenix), no fi nal da II Guerra Mundial. As atitudes iniciais do personagem – tipo beber óleo de motor com coco e simular uma transa com uma mulher feita na areia – causam certo desconforto.

O longa segue acompanhando a trajetória do ex-combatente e suas tentativas de se encontrar em diferentes empregos.
A cada registro dos instintos de Freddie, fica a certeza: não há chances para ele de ter uma vida normal e se encaixar no american way of life que começava a se delinear nos anos 1950. A trama tem uma reviravolta quando o ex-marinheiro conhece Lancaster Dodd ( Philip Seymour Hoffman), escritor, físico e propagador de uma doutrina religiosa inovadora chamada de A Causa ( inspirada nos primórdios da cientologia, que arrebanha fi -éis como Tom Cruise e John Travolta).

A partir daí, a história fica ainda mais perturbadora, focada na relação de aprendizado e cumplicidade entre os dois. O filme valeria só pela atuação da tríade indicada ao Oscar: Phoenix, Hoffman e Amy Adams ( que vive a mulher de Dodd). Num primeiro momento, a ruivinha Amy parece muito jovem e angelical para encarnar a controladora companheira do mestre.
Mas não demora para a atriz surpreender e transbordar sensações antagônicas pelo límpido olhar. A escolha de Hoffman foi outro tiro certeiro. O personagem dele tem um carisma diferente, de quem é aclamado e perseguido ao mesmo tempo. As cenas compartilhadas com Phoenix parecem melhorar à medida que o fi lme se desenvolve. Não é demais dizer que se trata de um show de interpretação – fi que atento para a primeira entrevista que o mestre faz com Freddie.

Joaquin Phoenix, conhecido por sua personalidade um tanto polêmica, entregou-se ao personagem de uma forma quase assustadora. Asqueroso poético talvez seja a definição que mais se aproxime do personagem e do que ele provoca no espectador. Cada surto psicótico, cada olhar desamparado, cada passo cambaleante é um espetáculo.

Se o elenco já garantiria o filme, Paul Thomas Anderson e sua lucidez acerca de tramas e personagens pouco convencionais (já demonstrada em longas como Sangue Negro) completam o pacote. É ele o verdadeiro mestre, com o perdão do trocadilho. O diretor abusa do plongée ( tipo de enquadramento), desafia os atores em planos-sequência e dá um sentido ao conceito de fotografia em cada enquadramento. Enfim, Anderson fez um filme para se contemplar e digerir aos poucos. Ou, tão somente, para sentir que ninguém permanece o mesmo depois de certos encontros.

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