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"Ida" estreia na Ulysses Geremia

17 de março de 2015 2

A salvadora Sala de Cinema Ulysses Geremia estreia nesta quinta o premiado filme polonês Ida, vencedor do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mais que tudo, o longa é um deleite aos olhos. Eu escrevi sobre…

Crédito: Zeta Filmes

Crédito: Zeta Filmes

Poesia sem cor

Trata de fé e religião, com uma jovem prestes a confirmar votos para se tornar freira. Também trata das devastadoras consequências da Segunda Guerra Mundial, com ênfase no massacre ocorrido na Polônia. Mas não são essas as temáticas responsáveis por guardar a maior força do premiado longa Ida — estreia desta quinta-feira na Sala Ulysses Geremia (Luiz Antunes, 312). A produção polonesa, vencedora do Oscar 2015 de Melhor Filme em Língua Estrangeira, se sustenta pelo visual preto e branco comovente e pela ênfase da trama ao elemento humano. Com duas mulheres antagônicas como personagens centrais, a obra do diretor Pawel Pawlikowski alterna com talento suavidade e aspereza (essa em doses maiores, é bom avisar).

O silêncio é uma característica importante da personagem título vivida pela atriz estreante Agata Trzebuchowska. Nas primeiras cenas do filme, a jovem noviça que acredita se chamar Anna aparece em sua rotina de convento sufocantemente introspectiva, se vista com olhos dos nossos dias. Num dos takes bem iniciais, as noviças carregam uma grande estátua de Jesus e abre-se a deixa para uma analogia emblemática. É o peso da fé que Anna vai aprender a medir mais adiante.

A trama começa a se desenvolver assim que a jovem descobre que, antes de realizar seus votos para tornar-se freira, precisa passar uns dias com sua única familiar viva, uma mulher que nunca quis conhecê-la antes. Ao entrar em contato com a tia Wanda (vivida com entrega por Agata Kulesza), a garota encarna uma busca calada por sua própria história. A tia aparenta experimentar intensidade em tudo que a sobrinha não conhece. Wanda relaciona-se com vários homens, bebe, fuma e questiona autoridades. O encontro entre as duas começa torto, mas o laço de sangue vai falar mais alto.

Quando Anna descobre que, na verdade, se chama Ida e é filha de judeus, o longa se transforma numa espécie de roadmovie emoldurado em beleza e drama. Tia e sobrinha protagonizam a partir daí a construção cruel — e ao mesmo tempo cativante — de uma memória delas mesmas. Nesse percurso, a noviça também encontrará suas primeiras tentações, ao som de John Coltrane.

Quase não há movimentos de câmera em Ida. Cada cena é pensada e desenhada como uma fotografia. Há lentidão em boa parte delas, para o deleite do espectador. O uso sensível da linguagem P&B transforma em poesia estética, por exemplo, simples pés que dançam num piso quadriculado. O enquadramento das personagens também é interessante. Pawlikowski quase nunca centraliza os rostos. Ida e Wanda surgem às beiradas do quadro, e os cinzas que compõem as cenas passam uma sensação quase esmagadora de melancolia. A câmera estática só desestabiliza no final, tremulando enquanto acompanha Ida em suas escolhas definitivas.

Comentários (2)

  • Saulo José diz: 19 de março de 2015

    Esse parece imperdível, Siliane!
    Porém, confesso que estou ansioso pra conferir ”Timbuktu”. Deve ser DEMAIS!

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