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Cinema e fotografia

20 de agosto de 2015 0

Lembrando a semana da Semana da Fotografia, a Sala de Cinema Ulysses Geremia, em Caxias, estreia o documentário O Sal da Terra. Indicado ao Oscar de melhor documentário e premiado no Festival de Cannes, o filme mostra a trajetória biográfica e profissional do fotógrafo Sebastião Salgado. A produção entra em cartaz nesta quinta e fica até o dia 30 de agosto na sala Ulysses Geremia, com sessões às quintas e sextas, às 19h30min, e sábados e domingos, às 20h. Ingressos custam R$ 8 e R$ 4 (meia-entrada). A duração é de 110min e a classificação de 14 anos.

Crédito: Imovision

Crédito: Imovision

Retrato do retratista

Nem precisava da grife Wim Wenders para tornar O Sal da Terra visualmente irresistível. A verdade é que a mão do consagrado diretor alemão de Asas do Desejo (1987) não fica muito visível, já que aproximadamente 80% do documentário é mesmo composto pelos impressionantes registros fotográficos do brasileiro (e isso está longe de ser um demérito).

O longa, que estreia nesta quinta na Sala de Cinema Ulysses Geremia integrando a Semana da Fotografia, mostra a história de vida de Salgado emoldurada pelos grandiosos trabalhos do mineiro. A narração (em francês, é bom avisar) é quase toda do próprio Salgado, mas há participações de Wenders e também de Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotógrafo e co-diretor da produção.

Para os que conhecem pouco da biografia de Salgado, é interessante descobrir que ele se formou em Economia (apesar do sonho do pai de que “tirasse” Direito) e só descobriu o gosto pela fotografia depois que a mulher, arquiteta, comprou uma câmera. Porém, o mais cativante do filme é mesmo entender como cada ambiente visitado durante longas expedições fotográficas impactou na alma de Salgado. Alguns relatos do personagem principal chegam a ser tão sensíveis quanto as fotos que levam sua assinatura.

Constantemente criticado por ganhar dinheiro explorando a estética da pobreza, Salgado deixa evidente no longa que não saiu ileso de experiências como as vividas em Ruanda (onde flagrou dezenas de corpos sendo amontoados por um trator, entre outras barbáries). O fotógrafo chegou a acreditar que aquela seria sua última viagem, tamanha desesperança conquistada ao longo do trabalho. Para mostrar como ele encontrou um novo sopro de vida, o filme deixa de ter uma estética predominantemente P&B e permite que as cores transbordarem a telona. A decisão reflete o próprio espírito de Salgado, que encontrou a luz (fundamental ao seu trabalho) depois de um período profundamente obscuro.

A presença de Juliano Salgado no filme ensaia uma aproximação bem pessoal entre o primogênito e o pai “aventureiro”, mas o filme acaba não explorando isso. Wim Wenders parece chegar mais perto do fotógrafo do que Juliano — as cenas em que Salgado comenta algumas de suas fotos ao lado do cineasta são muito interessantes, preste atenção na reflexão sobre o macaco que se enxerga na lente da câmera.

O Sal da Terra é uma compilação competente ao estilo “vida e obra”. O documentário enche os olhos do início ao fim e é também uma boa chance de acompanhar um dos mais expressivos fotógrafos de nosso tempo em campo, trabalhando. Entretanto, a produção não consegue revelar por completo a figura de Salgado que — como numa boa foto — ainda permanece enigmática sob alguns aspectos.

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