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Conflitos na mansão

15 de outubro de 2015 0
Crédito: Califórnia Filmes

Crédito: Califórnia Filmes

Minha Querida Dama — estreia desta semana na Sala de Cinema Ulysses Geremia — é daqueles filmes que começa de um jeito, mas muda de clima e surpreende o espectador positivamente a partir da segunda metade. A história escrita pelo roteirista profissional e diretor estreante Israel Horovitz começa de leve, narrando a chegada do americano Mathias (vivido pelo ótimo Kevin Kline) em Paris. Ele vai à França tomar posse de uma mansão, único bem herdado após a morte de seu milionário pai. Só que Mathias encontra o lugar habitado pela antiga moradora, a idosa Mathilde (Maggie Smith) e sua filha, Chloé (Kristin Scott Thomas). A dupla não tem planos de deixar a residência, já que é protegida por um contrato de viager — documento comum na França que garante ao proprietário do imóvel permanecer nele até o fim da vida, mesmo depois de tê-lo vendido.

Mathias logo deixa transparecer sua arrogância de americano marrento em terras francesas, e fica possesso com o fato de não poder chutar as antigas moradoras da mansão, fazer fortuna com a venda do imóvel e ir embora da cidade que não lhe traz boas lembranças. Mas há ainda mais um detalhe quanto ao contrato viager: o comprador (Mathias, nesse caso) tem que pagar uma espécie de aluguel ao vendedor até que ele morra. Assim, soam muito engraçadas cenas como a do brinde entre Mathias e a velhinha de 92 anos, que deseja “saúde e vida longa” com um sorriso irônico nos lábios. Piadinhas sutis e saborosas como essa ditam o ritmo inicial de Minha Querida Dama.

Falido, Mathias decide bisbilhotar nas velharias guardadas na mansão com o intuito de vender algo em brechós e antiquários. É assim que ele encontra uma fotografia que dará outro rumo à história. Mesmo com um ritmo inicial leve, o filme demora um pouco até engrenar de vez na trama que realmente interessa. Antes da importante descoberta de Mathias, o espectador acredita que o roteiro vai se resumir a narrar as dificuldades de uma convivência forçada entre pessoas de personalidades muito diferentes (algo nada original, convenhamos). Parece que a forte carga dramática do longa estava apenas esperando para dar as caras definitivamente. Na segunda metade do longa, as atuações do trio protagonista passam a ser o ponto alto (Kevin Kline é o destaque) e a história toca em temas ríspidos como depressão, arrependimento e limites morais.

Apesar dos belíssimos cenários parisienses à disposição, o diretor elege o interior da mansão e suas luzes amareladas para dar o tom dos momentos derradeiros da história. A escolha está relacionada ao passeio pelo interior conflitante dos próprios personagens. Amparado em diálogos intensos — com doses certeiras de humor negro —, o filme também tem várias frases de efeito. E a principal delas é de Samuel Beckett, só para deixar o leitor com vontade de ir ao cinema.

>> O filme fica em cartaz até o dia 25 de outubro, com sessões quintas e sextas, às 19h30min, e sábados e domingos, às 20h. Ingressos a R$ 10 e R$ 5 (estudantes e idosos). A duração é de 107 minutos e a classificação 12 anos.

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