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Posts de fevereiro 2016

Trintões

15 de fevereiro de 2016 0
Crédito: Divulgação

Crédito: Divulgação

Me rendendo àquelas tradicionais listas de filmes que envelhecem, mas permanecem intactos na nossa memória, resolvi homenagear algumas películas dos anos 1980 que estão completando 30 aninhos em 2016. O destaque vai para o sensacional Conta Comigo, que em meio a todo exagero da década do neon conseguiu fazer um recorte cheio de poesia sobre a passagem da infância para a adolescência. Claro que ambientar a história em 1959 contribuiu para torná-la um respiro de sutileza perdida num mar de bonecos e figurinos fakes (não pense que eu não amo eles também, veja abaixo).

Dirigido por Rob Reiner e adaptado de um conto de Stephen King, o filme tem uma das frases de aberturas mais legais dos longas juvenis: “aos 12 anos, vi um cadáver pela primeira vez”. A história, vocês já sabem, acompanha um grupo de amigos numa jornada em busca do corpo de um menino desaparecido. Por fim, o bendito corpo é o menos importante numa história com personagens tão apaixonantemente problemáticos. Um perdeu o irmão e lida com a indiferença dos pais, o outro teve a orelha queimada pelo pai ex-soldado e alcoólatra, o outro é irmão de ladrão de carros, e o líder é um garoto inteligente à margem das oportunidades. É linda a maneira como o filme constrói cada um deles e os coloca em situações de provação da amizade.

No mais, amo todas as cenas nos trilhos do trem, sou apaixonada pela trilha, tenho medo de sanguessugas por causa desse filme e ainda morro de saudade de River Phoenix.

Abaixo, mais aniversariantes deste ano que povoam o cinema dos 1980.

Curtindo a Vida Adoidado

John Hughes foi um dos principais nomes da década, diretor responsável ainda por clássicos como O Clube dos Cinco e Gatinhas e Gatões. É dele mais essa lindeza sobre ser um adolescente zoeiro em plenos anos 1980. O filme até ensaia certa seriedade em alguns momentos, mas o que ficou inesquecível mesmo foram as cenas de diversão – tipo, dar banda de Ferrari, cantar Twist and Shout no meio de um desfile cênico e, claro, inventar engenhocas que simulam que você está doente na cama.
Personagem preferido: o pobre diretor Ed Rooney.

A Garota de Rosa-Shocking

Molly Ringwald era um dos rostos mais requisitados dos filminhos de high school oitentistas. Em A Garota de Rosa-Shocking, ela fica desfilando seu cabelo ruivo embaixo de um estiloso chapéu e usa modelitos “chocantes” com ombreiras (óbvio). A história é a mais batida possível: uma menina comum se apaixona por um mocinho rico e popular. A graça está na trilha totalmente trash e as cenas com o melhor amigo da protagonista, o irritante Duckie’ Dale (boa chance para ver como o Alan, de Two and a Half Men, era quando teen).

Labirinto

E aqui chegamos na essência mais maquiada, de mangas bufantes e mullets dos anos 1980. Se você não viu esse filme, poderia tentar convencê-lo apenas dizendo que David Bowie vive o rei de uma legião de duendes esquisitérrimos. Se você ainda assim resistir, minha última cartada é dizer que o longa de Jim Henson serviu de inspiração (pra não dizer cópia mesmo) para o nosso clássico Super Xuxa contra o Baixo Astral (1988).

Na história, uma menina (Jennifer Connelly bem guriazinha) precisa salvar seu irmão bebê que foi raptado pelo rei dos duendes. Para chegar até eles, ela precisa enfrentar um labirinto e contar com a ajuda das criaturas mais legais do mundo. Entre elas, o monstro Ludo e sua queridice sem tamanho (“friend?”).

"O Regresso" é uma experiência

04 de fevereiro de 2016 2
Crédito: Fox Filmes, Divulgação

Crédito: Fox Filmes, Divulgação

Celebrar a sobrevivência em condições adversas é um mote recorrente no cinema — que já rendeu importantes títulos como Gravidade, Náufrago,127 Horas, entre tantos outros. Não dá para dizer, no entanto, que o premiado diretor mexicano Alejandro González Iñárritu vá apresentar algo que você já tenha visto em O Regresso. O longa, que estreia em Caxias nesta quinta, vem amparado em 12 indicações ao Oscar e com três Globos de Ouro na bagagem (diretor, ator e filme).

O burburinho se justifica não tanto pela história, mas pela embalagem impressionante que ela ganha na telona. Apenas acredite, cada uma das 12 indicações fará sentido assim que você perder o fôlego dentro do cinema.

Inspirado numa história real (a Academia adora!), o longa acompanha uma expedição de caçadores em busca de peles de animais, em pleno século 19. O mais experiente deles é Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que além de guiar os parceiros, precisa garantir a integridade física do filho, que carrega a descendência indígena da mãe visível na pele e é discriminado por isso.

Os rumos da expedição ficam confusos quando Glass é atacado por um urso — numa sequência incrivelmente visceral — e sobrevive. Imóvel e sem poder falar, ele ficará sob os “cuidados” de seu principal rival, o cruel John Fitzgerald (numa atuação apaixonante de Tom Hardy).

Mas nem urso, nem Fitzgerald, nem frio, nem fome, nem nada vai vencer Hugh Glass. Ele quase morre umas sete vezes (é sério). O protagonista permanece vivo, guiado quase que inconscientemente por uma voz interior: “se conseguir respirar, continue lutando”. Mas não é só isso que mantém Glass de pé, e aí entra a parte divertida da história. O caçador está vivo porque tem um propósito, vingança.

Assim, a obscuridade vai tomando conta do personagem, e o contato com a selvageria da floresta só contribui para tal. Difícil falar da atuação quase animalesca de DiCaprio, que parece realmente ter ultrapassado muitos limites nesse trabalho.

O contato profundo entre o homem e o ambiente (nesse caso, maravilhosas e gélidas paisagens do Canadá e da Argentina) é orquestrado com empenho pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (Birdman, A Árvore da Vida). Taí um profissional que merece o mesmo destaque que Iñárritu (cotado para receber seu segundo Oscar consecutivo de direção) ou DiCaprio (que está com a estatueta de melhor ator quase em mãos depois de quatro outras indicações na categoria). O olhar naturalista de Lubezki faz o espectador praticamente sentir o ar gelado que vem das colinas em tomadas muito abertas e quase se engasgar com o sangue e saliva que literalmente respingam na lente em planos muito fechados.

Tudo é grandioso em O Regresso. Os diálogos são relevantes, os personagens convincentes (o espetacular trabalho de maquiagem ajuda), os dilemas profundos. A maneira como esses elementos ganham forma lembra uma sinuosa coreografia entre a dramaticidade dos atores e a magnitude da natureza. E o melhor: a câmera está sempre no lugar certo para captar a dança.