Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts na categoria "cinema nacional"

Ponto Zero

06 de junho de 2016 0
Crédito: Mínima

Crédito: Mínima

Ponto Zero é um delírio, um mergulho criativo numa temática até batida: o adolescente que precisa amadurecer enfrentando um ambiente hostil.

Em seu primeiro longa solo, o diretor e roteirista Zé Pedro Goulart ( um dos fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre) constrói uma narrativa corajosa e provocativa, buscando estéticas que inquietam.
Na história, Ênio ( Sandro Aliprandini) é um garoto de 14 anos que convive com as fraquezas ao redor – a carência da mãe, a ausência do pai, a violência do colega – enquanto tenta lidar com seus próprios demônios ( um acidente vai potencializar tudo).

A solidão é um elemento crucial no roteiro, e Goulart encontra maneiras artísticas de fazer com que seja possível não só vê-la, mas senti-la.

Deste ponto de vista, Ponto Zero é desconcertante, com silêncios que sufocam.
A bela fotografia e os enquadramentos nada óbvios denunciam a experiência do diretor gaúcho.
Numa das sequências mais inteligentes do longa, Ênio aparece andando de bicicleta por ambientes onde não é notado, e em ruas onde os carros andam para trás.

Sujeitas a mil interpretações, as cenas podem denunciar a invisibilidade social do garoto, mas mais do que isso, são uma alegoria à própria adolescência: lugar de costura esquizofrênica entre o que fomos e o que seremos.

Vá ver, Ponto Zero está em cartaz no GNC Cinemas.

Pediu, levou

03 de dezembro de 2015 0
Crédito: Avante Filmes

Crédito: Avante Filmes

Aproveito para retomar o blog após um longo hiato (perdão por isso) para compartilhar uma notícia boa. Depois de muita mobilização nas redes sociais, com uma página criada no FaceBook especialmente solicitando a vinda do longa Beira-Mar para Caxias, o resultado foi positivo. A Sala de Cinema Ulysses Geremia estreia o filme na próxima quinta (dia 10), e terá sessão comentada com a dupla de diretores (Filipe Matzembacher e Marcio Reolon) e de protagonistas (Maurício José Barcellos e Mateus Almada) já na sexta (dia 11). Além disso, os primeiros 30 espectadores que comprarem ingressos para a sessão comentada vão ganhar um cartaz oficial do filme.

Beira-Mar foi gravado no litoral gaúcho e faz um retrato da relação de descobertas entre os amigos Martin e Tomaz. O filme foi premiado no Festival do Rio, Cine em Guadalajara (México) e For Rainbow (Ceará).

As sessões de quinta e sexta começam às 19h30min, na Sala de Cinema Ulysses Geremia. No sábado e domingo, a exibição é às 20h. Ingressos custam R$ 10 e R$ 5. O filme fica em cartaz até o dia 20/12.

Doc sobre Caio na TV

07 de novembro de 2015 0
Crédito: Besouro Filmes

Crédito: Besouro Filmes

Neste sábado, o ótimo documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes ganha espaço no canal pago Prime Box Brazil. O filme, dirigido por Cacá Nazario e Bruno Polidoro, lança olha poético sobre a vida e obra do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. A sessão será às 20h.

Aqui tem um textinho que escrevi na época do lançamento da produção em Caxias, em abril do ano passado.

Através de Caio

“Eu ia como sempre sair caminhando sem saber aonde ir, sem saber onde parar, onde pôr as mãos os olhos”.
O trecho de um dos textos de Caio Fernando Abreu que surge na tela em algum momento do documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes tem muito a ver com a própria estética da produção, em cartaz hoje, amanhã e quarta, na Sala de Cinema Ulysses Geremia, em Caxias. A câmera passeia por paisagens tranquilas ou bagunçadas, onde há paz em luzes brilhantes, tormento em céus cinzentos ou dúvida em densas escuridões. É como se ela agora tomasse o lugar dos olhos de Caio, e o espectador passasse a experimentar o mundo com ele. O filme dirigido por Cacá Nazario e Bruno Polidoro revela um enfoque sensível e poético sobre a obra do escritor gaúcho, morto em 1996.

– Não é um filme sobre o Caio, ou para o Caio, é um filme através do Caio – argumenta Polidoro, caxiense também responsável pela direção de fotografia do documentário.

Para colocar a ideia em prática, a dupla esteve em lugares como Paris, Londres, Berlim, Amsterdã, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Santiago (terra natal do escritor). Nessas cidades, Nazario e Polidoro caminharam com a câmera na mão para dar ao filme um olhar inquieto, em movimento, ainda que por vezes contemplativo. Os passeios estéticos se completam com o objeto que mais poderia falar sobre Caio Fernando Abreu: sua própria obra.

– Os textos vão sempre projetando para frente. É como se a obra do Caio fosse um mapa. Eu, que trabalho com direção de fotografia, vejo que os textos pensam cenários, propõem desenhos de luz. Foram muito estimulantes para mim – revela Polidoro, lembrando do trecho “ acendes o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte”, no conto Natureza Viva.

O roteiro foi dividido em sete momentos, ou sete ondas, que conduzem 74min. Estão presentes a onda da solidão, do espanto, do amor, da melancolia, do transbordamento, do irremediável e para além dos muros. Há poucos depoimentos na produção, mas há muita palavra. Amigos e familiares do escritor usam a proximidade com a história de Caio para conferir mais emoção aos textos e cartas que leem. Entre os escolhidos estão gente como Adriana Calcanhotto, Maria Adelaide Amaral, Marcos Breda, Grace Gianoukas, Reinaldo Moraes e Luciano Alabarse. Há ainda a participação de tradutores do escritor, provando que Caio é sempre Caio, ainda que em alemão ou francês.

A diversidade de vozes do filme versa sobre a universalidade da literatura tão íntima praticada pelo escritor.

– É como se ele escrevesse individualmente para cada um dos leitores – lembra Polidoro.

Muito mais do que simples homenagem ao escritor, Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes se transformou em mais um lugar para Caio Fernando Abreu viver. No filme, a escritora Maria Adelaide Amaral revela que, para Caio, “um novo lugar era sempre uma nova possibilidade de afeto”.

Novidades

08 de outubro de 2015 0

Dois títulos entre as muitas belezuras que me deixaram curiosa depois de desfilarem pelo Festival do Rio:

1 – Boi Neon, dirigido por Gabriel Mascaro (Ventos de Agosto), tem Juliano Cazarré no papel de um vaqueiro que sonha em ser costureiro (!). O filme foi premiado em Veneza recentemente.

2 – Califórnia é o primeiro longa da Marina Person (sou fã) e fala sobre ser jovem nos icônicos anos 1980.

Discutindo film commission

24 de setembro de 2015 0
Crédito: Fernando Nipper, Divulgação

Crédito: Fernando Nipper, Divulgação

A foto acima foi registrada no set de O Tempo e o Vento e mostra o diretor assistente do filme, Federico Bonani, em ação. Na época – 2012 – ele viu a film commission de Pelotas ser fundada e ter papel fundamental nas gravações. Nesta quinta, Bonani vem a Caxias do Sul conversar com integrantes das film commissions da Serra (o recém-fundado grupo local e os já consolidados de Bento e Garibaldi). A programação faz parte da Semana do Turismo, mas
o cineasta explica que a importância de grupos que fomentam a produção audiovisual ultrapassa os limites do setor.

– É um assunto mais de desenvolvimento industrial do que de turismo. O fomento da atividade cinematográfica afeta um município em muitas instâncias, movimenta toda uma rede de serviços, cria mão de obra, desenvolve o mercado, gera carreiras – aponta.

Além da experiência com a film commission de Pelotas, Bonani coleciona outros exemplos positivos sobre o assunto. Quando esteve na Irlanda gravando a novela Eterna Magia para a Globo, a movimentação da equipe só foi possível graças ao contato com a comissão local.

– Tivemos acesso a todos os serviços que estavam disponíveis, escolhemos ruas, monumentos onde iríamos gravar. Tudo é possível desde que seja combinado – diz.

Para Bonani, a film commission do Rio de Janeiro é o exemplo mais relevante no cenário brasileiro. No Rio Grande do Sul, profissionais da área tentam viabilizar a criação de uma comissão estadual e outra em Porto Alegre. O cineasta aponta ainda para o protagonismo da Serra e suas três comissões.

– Estou indo a Caxias para incentivar o desenvolvimento de um banco de dados para que as produtoras possam acessar. Esse é o papel da film commission, favorecer as informações que as produtoras precisam saber, listando as belezas arquitetônicas, naturais, a diversidade humana, a infraestrutura logística – opina.

O encontro, com entrada franca, é aberto a interessados e começa às 17h, na Sala de Cinema Ulysses Geremia.

Sobre "Que Horas Ela Volta?"

27 de agosto de 2015 0

Em Caxias, infelizmente, nem sinal do filme nacional mais comentado do momento: Que Horas Ela Volta?. Eu assisti no Festival de Gramado e fui arrebatada. Abaixo, falo um pouco sobre o longa de Anna Muylaert. A Regina Casé, estrela da produção, também conversou com o blog. Dá uma olhada…

Crédito: Pandora Filmes

Crédito: Pandora Filmes

A tua piscina tá cheia de ratos

Falar sério sem ser didático ou propor reflexão sem perder a leveza, eis uma das tarefas mais difíceis do cinema ou das artes em geral. Justamente por isso, essa é a característica mais importante do longa Que Horas Ela Volta?. Dirigido por Anna Muylaert (do premiado Durval Discos), o filme cativa pelo humor irresistível, pela construção engenhosa de cada personagem, pelos diálogos realistas e, de quebra, faz um tratado sobre as relações de poder cotidianas. Colecionando prêmios desde que iniciou o circuito de festivais internacionais, o longa chega nesta quinta-feira às telonas do Brasil, país que serve justamente como um dos objetos de estudo de seu roteiro.

Na trama, Val (Regina Casé) é uma doméstica pernambucana que mora na casa dos patrões em São Paulo. Longe da família há mais de 10 anos, ela recebe uma ligação inesperada da filha, Jéssica (Camila Márdila), que pretende prestar vestibular na capital paulista, justamente para a mesma instituição que o filho dos patrões de Val, Fabinho (Michel Joelsas). A presença da garota no ambiente de trabalho da mãe vai estremecer a base de todos os moradores da casa.

Foi Val quem criou Fabinho enquanto a mãe dele, a fashionista Barbara (Karine Teles), trabalhava fora. O afeto entre a empregada e o menino fica visível desde a primeira cena. Aliás, a família inteira é dependente dos cuidados da empregada: os patrões não levantam da mesa nem para buscar um copo de água, ao mesmo tempo que o menino corre para o quartinho de Val em busca de cafuné quando não consegue dormir. A muitos quilômetros dali, Jéssica acabou sendo criada sem a presença da mãe, e desenvolveu uma personalidade muito diferente da dela. Val mostra-se completamente submissa aos donos da casa, mas a filha traz uma alma curiosa e libertária. “Eles não são meus patrões”, sentencia a menina num emblemático diálogo com a mãe.

A câmera quase sempre imóvel dá um proposital ar de retrato ao filme. Parece que a diretora quer mesmo que o espectador possa se colocar naquelas situações _ muitas tão corriqueiras, afinal. O longa vai desenhando um documento, uma espécie de RG de nós mesmos. As humilhações pelas quais Val e a filha são submetidas envergonham também o espectador, que sai do cinema mergulhado em reflexões sobre temas grandiosos como liberdade, autonomia, igualdade, etc.

Mas em meio a essa enxurrada de sentimentos, também brotam gargalhadas fáceis. A simplicidade e espontaneidade de Val garantem ótimos momentos. É hilária, por exemplo, a cena em que ela teoriza sobre as pessoas que guardam a forma do gelo vazia no congelador. Na cadeira do cinema, nos sentimos como cúmplices silenciosos da vida dessa simples mulher e suas inquietações. A construção da personagem é competente: sem exageros no tom cômico e abusando de detalhes (muitos silenciosos) que aproximam o espectador.

Regina Casé e Camila Márdila, que dividiram prêmio de melhor atriz em Sundance, estão completamente entrosadas em cena e é a relação entre as duas, afinal, que mais emociona no filme. Destaque também para as belíssimas participações de Karine Teles e Lourenço Mutarelli como os patrões de Val (ambos retratam de maneira muito especial os traços de rejeição de seus personagens). Mas o elenco talvez seja somente a cereja desse bolo doce e e indigesto (no melhor sentido que esse termo possa ganhar ao se falar de arte). O comovente roteiro de Anna Muylaert traz reflexões universais sem obviedades, e fala de abismo social sem eleger mocinhos e bandidos. Como se não bastasse, o filme ainda faz uma interpretação simbólica e poética do verso “a tua piscina tá cheia de ratos”, de Cazuza.

Entrevista: Regina Casé

Cinecessário: O que foi mais complicado ou delicado na composição da Val?
Regina: O meu maior desafio foi ter que abrir mão de toda e qualquer vaidade e me colocar numa situação de total abandono físico e emocional para viver a personagem.

Há uma carga materna muito forte na personagem, e esse é um papel que você também desempenha na vida real. É possível reconhecer traços da mãe Regina na Val?
Muitos. Desde o carinho, até a canção de ninar que eu canto no filme, que é a mesma que eu canto para os meus filhos e que é a mesma que a minha mãe e a minha avó cantavam pra mim.

Como atriz, a escolha por personagens periféricas, pessoas simples, reflete sua histórica conexão com esse público?
Não foi uma escolha minha, foi algo que aconteceu naturalmente, o que muito me honra. Representar as pessoas do povo, aquelas que trabalham duro, é muito importante principalmente por saber que nesses anos todos elas praticamente me elegeram como sua porta-voz.

“Que Horas Ela Volta?” foi vendido para mais de 20 países, que tipo de retrato do Brasil você acredita que o filme está levando para fora?
Acho que eles se interessaram tanto pelo filme, porque mesmo num contexto muito diferente, essas mudanças profundas nas relações inter classes estão acontecendo no mundo todo.

E aqui no Brasil, qual das reflexões de “Que Horas Ela Volta?” você gostaria que fosse melhor absorvida pelo público?
Gostaria que pensassem que apesar de complexa, essa relação mesmo que permeada por muito afeto sempre esconde muita coisa atrás de frases como: “Ela foi uma segunda mãe para os meus filhos” ou “Ela é praticamente da nossa família”. Eu mesma durante o filme refleti o tempo todo sobre essa questão.

Você tem carreira premiada no cinema, nos palcos e na tevê. Em qual desses formatos se sente mais realizada?
Há muitos anos, tenho me dedicado de corpo e alma à TV. Atuar nesses dois filmes, “Made In China” e “Que Horas Ela Volta”, fez crescer uma vontade avassaladora de voltar a ser atriz, me dedicar mais aos trabalhos de atuação. Ai meu Deus! Não sei como vou resolver isso. kkkk

Conversa com Cuoco

13 de agosto de 2015 0
Crédito: Fabio Rebelo

Crédito: Fabio Rebelo

O último grande papel de Francisco Cuoco no cinema foi ainda nos anos 1990 (no longa Gêmeas, de Andrucha Waddington). O veterano ator é muito mais conhecido no Brasil por conta de sua extensa carreira televisiva (e pelo icônico vozeirão), mas agora está de volta às telonas no filme Real Beleza, de Jorge Furtado (em cartaz em Caxias, no GNC, e em Bento, no Movie Arte).

Do alto de seus 81 anos, Cuoco está naquela fase em que os trabalhos precisam lhe tocar a alma para valerem a pena. Foi o que aconteceu com o longa gaúcho, filmado em partes na Serra.

– É um cinema de gente grande, que leva a uma reflexão sem ser chato. A gente acaba tendo muitas comédias sem consequências, só pra desopilar, pra rir, mas eu prefiro não fazer. Esse é um filme que você eventualmente leva com você, em pensamentos, interrogações, questionamentos e sai melhorado depois de ver – justificou o ator, em conversa com a coluna por telefone.

Em Real Beleza, Cuoco vive Pedro, um apaixonado pelas artes (música, literatura, fotografia, etc.) que está lidando com a cegueira e outras perdas mais lentas.

– Era impossível recusar um personagem que, através da leitura, da idade e tudo, criou uma sabedoria, uma certa coisa que se aproxima da genialidade. É um pouco como um pedacinho da alma de um García Márquez, de um Saramago. Um personagem lindo – disse.

Entre as diferentes formas de belezas que o filme de Furtado aborda, Cuoco aponta as abstratas como suas preferidas.

– Quando o ser humano tem a capacidade de enxergar os seus semelhantes de uma maneira a aceitar os modos, aceitar os pensamentos, as propostas, acho uma forma de beleza estupenda. Isso, de uma maneira direta ou indireta, aparece no filme – refletiu.

Em Real Beleza, Pedro parece buscar na arte o combustível para manter a jovialidade da alma. Para o intérprete, esse é um exercício constante e bastante ligado à inquietude:

– Nesta atividade ou em qualquer outra é importante ter essa chama que não se apaga, continuar trabalhando, buscando e achando que você é uma obra-aberta, acho isso bonito e é assim que me sinto, uma obra aberta para aprender. Aprender e tentar ser a condução de coisas que eu seja capaz.

Conversa com Furtado

06 de agosto de 2015 0
Crédito: Fabio Rebelo, Divulgação

Crédito: Fabio Rebelo, Divulgação

Sou fã do Jorge Furtado e sua inventividade cinematográfica, sua inquietude de temas, seus roteiros, seus personagens.. Com Real Beleza, que chega aos cinemas nesta quinta, conheci mais sobre sua poesia… e fiquei mais fã, hehe.

Aqui tem trechos da conversa que tive com o diretor e roteirista:

Num momento onde as comédias dominam o cenário nacional, você, conhecido pelas comédias, escolhe fazer um drama. É um desafio?
É um desafio auto imposto, te confesso que também tem um pouco de diversão e prazer. Eu li uma frase uma vez que dizia que o artista deve fazer o que não sabe, e eu acho um pouco isso. Se vou fazer uma comédia romântica de dois casais… eu já fiz tanto isso na televisão, tantas vezes no cinema que para mim quase não me divirto mais tanto, já sei como é. Eu tento que meus filmes sejam sempre muito diferentes um do outro. E acho que eles são mesmo. O último, O Mercado de Notícias era um longa documentário, o que foi novidade total. Agora, um drama romântico.
Gosto de comédias, tô fazendo de novo uma comédia na televisão, mas existe uma certa inflação de comédias porque as pessoas estão considerando o cinema um pouco “vamos sair pra ver um filme e depois comer uma pizza, vamos pro shopping lá a gente vê”. Fica um negócio meio simples demais. O problema não nem é ser comédia, é ser muito descartável. Acho que o cinema tem que ser um pouco mais durável, gosto de ver filmes antigos, tem filmes que melhoram com o tempo. Tem alguns filmes que tu pensa daqui um ano ninguém vai querer ver esses filmes, são muito descartáveis. Aquelas piadas muito fáceis apelando para preconceitos, piada de gay, de gordo, de feia, de vibrador. Pode ser até engraçado, mas amanhã já esqueci desse filme. Gostaria que os filmes fossem mais duráveis, pelo menos eu tento que eles sejam.

Você já filmou muitos trabalhos na Serra. O que chama atenção aqui?
O cinema brasileiro é tão carioca e paulista, tanta praia, tanto trópico… Lembro de uma sessão do Saneamento Básico (filmado em Bento) na beira da praia em Ipanema, tem uma cena do Wagner Moura andando de moto na Serra tocando uma música italiana, foi incrível ver aquilo, a Serra gaúcha assim em Ipanema (risos). Quando passou em Paris, as pessoas perguntavam “onde tu filmaste”, elas não acreditavam que era no Brasil. Não é só Amazônia, nordeste e praia.
A luz na Serra é muito bonita também porque ela nunca chega exatamente a pino, o sol tá sempre um pouquinho inclinado mesmo perto do meio-dia e isso é muito bonito pra filmar. E tem outra coisa, eu gosto de ir com a equipe para um lugar onde fica todo mundo concentrado. Isso envolve todos em torno do projeto, a gente acaba tomando café falando do filme, indo jantar falando do filme. Ao contrário de Porto Alegre, ou Rio, onde acabam as gravações às seis horas e vai todo mundo para casa.

As pessoas vão identificar Garibaldi na telona?
A cidade aparece bastante, as ruas. Tem o Vladimir (Brichta) fotografando em mais de uma praça. Sem dúvida, quem conhece Garibaldi vai reconhecer totalmente. A cidade que aparece no filme é Garibaldi. A casa da personagem da Adriana (Esteves) é em Três Coroas. O colégio onde a modelo estuda é Garibaldi também. Tem também a sequência de uma ponte, que é naquela estrada entre Canela e São Francisco.

No filme, o personagem do Vladimir busca a beleza com o olho treinado de fotógrafo, enquanto o personagem do Francisco Cuoco está justamente perdendo a visão…
O filme fala disso bastante, fala sobre a busca da beleza, mas a beleza não só é muito subjetiva como existem muitas formas de beleza. Existe a beleza do gesto, da palavra, da memória. As formas diferentes de beleza é que são investigadas, Esse personagem do Vladimir aprende que a beleza se apresenta de muitas maneiras.

Queria que você comentasse sobre o trânsito entre cinema e TV. Você foi um dos pioneiros no formato telefilme…
Gosto muito do formato, ocupa a noite inteira, depois da novela até o jornal. É um filme, mas já estreia com grande público, que é o público da televisão, e que assiste de forma muito atenta, porque é um único episódio. Estamos sempre lutando por mais espaço.

XXX

Sobre Adriana Esteves: “é atriz de uma intensidade dramática impressionante. Ela me lembra muito a Fernanda (Montenegro), no jeito de atuar, na maneira de se dedicar ao personagem. As duas se envolvem muito”.

Sobre Cuoco: “faz parte da história do cinema e da tevê. Ele tem 80 e poucos anos e começou com 18, então fez de tudo. Tem uma voz impressionante. É um grande ator. Essa história é uma história de beleza, ele é um homem muito bonito, sempre foi um galã.”

De volta à comédia: “escrevi uma série de 14 episódios que vai estrear dia 15 de setembro, se chama Mr. Brau. É uma comédia com Lázaro Ramos e Taís Araújo. Ele é um músico que fiou rico, se muda para um condomínio luxuoso, e transforma o lugar”.

Dia de "Real Beleza"

06 de agosto de 2015 2

Estreia nesta quinta o novo filme de Jorge Furtado, com cenas gravadas em Garibaldi. Real Beleza está em cartaz no GNC e Cinépolis.

Crédito: Fabio Rebelo

Crédito: Fabio Rebelo

O título é Real Beleza, e no enredo há aspirantes a modelo e um fotógrafo de moda. Mas, longe do que possa parecer logo de cara, a beleza não é tratada com obviedades no novo filme de Jorge Furtado. O tema assume papel fundamental na história, e se projeta em diferentes e tocantes formatos. Ao espectador cabe o delicioso exercício de encontrar esses pequenos exemplares de sublimação envoltos num drama romântico competente.

Furtado lembra que Saneamento Básico (2007), seu último longa de ficção, terminava justamente com uma frase de Dostoiévski contendo a deixa perfeita para o filme que chega nesta quinta aos cinemas: “a beleza salvará o mundo”. Longe da comédia, seu ambiente mais confortável, o diretor porto-alegrense busca agora novos elementos dramáticos para construir um filme calcado na maturidade dos diálogos — e dos silêncios.

Leia as últimas notícias de Cultura e Tendências

A história acompanha o fotógrafo João (Vladimir Brichta), que viaja ao Rio Grande do Sul buscando um novo rosto capaz de “salvar” sua carreira decadente como fotógrafo de moda. Ele encontra na adolescente Maria (vivida pela estreante Vitória Strada) o perfil de modelo que procurava, e logo se depara com a beleza inesperada da mãe da garota, Anita (Adriana Esteves, em delicada atuação). João aguarda o pai da menina, Pedro (Francisco Cuoco), voltar de viagem para tentar convencê-lo de que a carreira de modelo é a mais acertada para Maria. Enquanto espera, acaba se envolvendo com Anita.

O roteiro se aproxima um pouco de As Pontes de Madison (dirigido e estrelado por Clint Eastwood em 1995), por conta do fotógrafo da cidade grande que se encanta pela dona de casa e pelos cenários do interior. Mas Real Beleza transcende o foco da paixão fugaz entre um casal para criar um triângulo onde cabem temas mais universais (a certeza da finitude é apenas um deles). Furtado se afasta dos enredos espetaculares — como de O Homem que Copiava ou Saneamento Básico — para se debruçar sobre uma história aparentemente simples, com narrativa mais lenta e suave.

O roteiro envolve os personagens em amostras de beleza que vão da música (clássica) à literatura (poesia). Outra esperteza da história é colocar o personagem de Francisco Cuoco na condição de um homem praticamente cego. Enquanto João sobrevive justamente do olhar clínico de fotógrafo, Pedro está num processo inverso, de guardar apenas na memória toda as belezas que já viu ou sentiu. Adriana Esteves mostra interpretação competente, longe de qualquer exagero ou afetação. Há ainda um nu frontal completamente corajoso por parte dela e do filme.

Real Beleza usa a metáfora da busca pelo que é bonito — aliás, tão emergente nos nossos dias — para conduzir o espectador ao prazer da descoberta, seja passeando por uma foto de Cartier-Bresson ou por um poema de Fernando Pessoa.

Em Garibaldi: As cenas ambientadas na casa onde João e Anita vivem um rápido romance foram gravadas em Três Coroas. Já as sequências que mostram a cidade onde o fotógrafo está hospedado foram todas captadas em Garibaldi. A escola mostrada no filme também é na cidade. Ivane Favero, secretária de Turismo e presidente da film commission de Garibaldi, inclusive aparece numa das cenas de Maria em sala de aula. O público daqui também vai reconhecer a bela ponte de ferro que liga os munícipios de Canela e São Francisco de Paula, no Passo do Inferno. As gravações por aqui ocorreram em 2013.

Liberdade pede carona

30 de julho de 2015 0
Crédito: Reprodução

Crédito: Reprodução

As “regrinhas” da Good Machine, produtora que levantou o cinema independente americano na década de 1990, vieram bem a calhar durante o processo de criação do longa Dromedário no Asfalto. Atuante nome do cenário audiovisual gaúcho, o diretor Gilson Vargas vem a Caxias falar sobre essa experiência e exibir o filme que chega hoje aos cinemas do país (depois de circular por festivais no ano passado). Um desses importantes preceitos colocados em prática por ele foi “o orçamento é a estética”.

– Tem muita gente querendo fazer cinema hollywoodiano com orçamento de cinema independente uruguaio, não dá certo. Dromedário é o resultado do que a gente queria que ele fosse desde o início – comenta Vargas, cineasta influenciado por nomes como Jim Jarmusch e Hal Hartley.

O diretor também vai falar sobre os conceitos gerais de um road movie, ou os chamados filmes de jornada. No caso de Dromedário, a jornada na tela é do personagem Pedro (Marcos Contreras), que sai de Porto Alegre em busca do pai no Uruguai.

– Esse gênero seduz demais. Até brinquei dizendo que vou pegar o carro e sair de Porto Alegre numa pequena jornada até Caxias (risos), para entrar no clima – diz ele.

Brincadeiras à parte, Vargas e equipe pegaram mesmo muita estrada para filmar Dromedário. Foram mais de 10 mil quilômetros rodados em lugares como Cidreira, Pinhal, Mostardas, Chuy, Punta del Diablo. Com um grupo enxuto formado por amigos, o diretor também aprendeu com esse filme umas regrinhas – para além da Good Machine – que vão de encontro com o tema do longa: afeto.

– Vejo que é cada vez mais importante fazer cinema com pessoas que a gente gosta e admira. Cinema autoral tem a ver com trabalhar com as pessoas certas, que vão além do vínculo profissional – ensina.

A sessão do filme seguida de bate-papo com Gilson Vargas é na sala Ulysses Geremia, às 15h30min do sábado. Ingressos custam R$ 15, à venda na hora.

Com calma

Liberdade foi também conceito guia para Dromedário.

– Filme de estrada tem que absorver o entorno, o que não está previsto pode ser muito melhor do que você imaginou na frente do computador – diz Vargas.
A autonomia artística foi tão grande que, mesmo depois do primeiro corte na montagem, a equipe decidiu voltar para a estrada e filmar mais.