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Posts com a tag "eu assisti"

Ponto Zero

06 de junho de 2016 0
Crédito: Mínima

Crédito: Mínima

Ponto Zero é um delírio, um mergulho criativo numa temática até batida: o adolescente que precisa amadurecer enfrentando um ambiente hostil.

Em seu primeiro longa solo, o diretor e roteirista Zé Pedro Goulart ( um dos fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre) constrói uma narrativa corajosa e provocativa, buscando estéticas que inquietam.
Na história, Ênio ( Sandro Aliprandini) é um garoto de 14 anos que convive com as fraquezas ao redor – a carência da mãe, a ausência do pai, a violência do colega – enquanto tenta lidar com seus próprios demônios ( um acidente vai potencializar tudo).

A solidão é um elemento crucial no roteiro, e Goulart encontra maneiras artísticas de fazer com que seja possível não só vê-la, mas senti-la.

Deste ponto de vista, Ponto Zero é desconcertante, com silêncios que sufocam.
A bela fotografia e os enquadramentos nada óbvios denunciam a experiência do diretor gaúcho.
Numa das sequências mais inteligentes do longa, Ênio aparece andando de bicicleta por ambientes onde não é notado, e em ruas onde os carros andam para trás.

Sujeitas a mil interpretações, as cenas podem denunciar a invisibilidade social do garoto, mas mais do que isso, são uma alegoria à própria adolescência: lugar de costura esquizofrênica entre o que fomos e o que seremos.

Vá ver, Ponto Zero está em cartaz no GNC Cinemas.

"Boi Neon" em Caxias

08 de abril de 2016 0
Crédito: Imovision

Crédito: Imovision

Bah, deixei vocês num vácuo gigantesco né.. Perdão, enfim, vou postar aqui pelo menos os textos sobre cinema que tenho feito para o jornal. Este é sobre a estreia da semana na Sala Ulysses Geremia, o premiado Boi Neon. De quebra, uma entrevista com o astro do longa, Juliano Cazarré.

Fugindo do brete

Boi Neon une logo no título palavras completamente distintas, de universos longínquos. É como se o diretor e roteirista Gabriel Mascaro avisasse ao espectador que a ousadia de integrar ambientes antagônicos estará presente durante toda a obra — estreia desta semana na Sala de Cinema Ulysses Geremia. Desafiando convenções de gênero, classe ou qualquer outra (ainda bem!), Boi Neon apresenta um vaqueiro aspirante a costureiro (Juliano Cazarré); uma caminhoneira que unifica doçura materna, agressividade e sensualidade (Maeve Jinkings); e ainda uma grávida (Samya De Lavor) que trabalha com uma arma na cintura — e o tabu se quebra ainda mais quando visualizamos aquela imaculada silhueta numa cena de sexo e nudez.

A história é ambientada nos bastidores das vaquejadas, eventos muito populares no nordeste brasileiro. Iremar (Cazarré) é um filho desse ambiente, mas as mesmas mãos que juntam dejetos ou escovam o rabo dos bois também lidam com as minuciosas e artesanais artes da costura e do desenho. O personagem é a síntese do indivíduo contemporâneo que tenta construir sua própria liberdade para além de qualquer fronteira social.

Mais do que lançar um olhar contemporâneo sobre o sertão nordestino e seu povo, Boi Neon é sobre sonhar com uma vida fora dos bretes que nos cercam (por isso talvez a figura do boi tão presente).

Confira abaixo uma entrevista exclusiva do ator Juliano Cazarré ao Pioneiro.

Pioneiro: Que retrato do sertão nordestino contemporâneo o filme ‘Boi Neon’ propõe?
Juliano Cazarré:
Um nordeste moderno, onde a tradição se comunica com o contemporâneo. Um lugar onde a vida é dura, mas cheia de bom humor. Mostra mulheres e homens nordestinos construindo sua identidade livremente, questionando padrões de comportamento tradicionais. Como também acontece no Sul, não por acaso.

O que esse personagem, o Iremar, ensinou para o Juliano?
A experiência mais rica desse filme foi o convívio com as pessoas. Maeve Jenkings, com quem podia conversar sobre nosso ofício com profundidade, e também trocar dicas de alimentação de esportes, etc. E Carlos e Josinaldo, os dois vaqueiros, meus companheiros no filme, cada qual com sua sabedoria. Carlos com sua manha, Josinaldo com sua fidalguia.

Você lida muito naturalmente com a nudez artística, mas cenas com nu (principalmente masculino) sempre causam muito barulho, como as de ‘Boi Neon’ causaram. É possível naturalizar esse olhar “assustado” do espectador frente ao nu? Como?
É só ficar tranquilo e conviver com aquela imagem com a naturalidade de um banheiro de academia, ou uma imagem num livro de ciências. A gente não precisa se ofender com a nudez. Claro que há, e muito, nudez de mau gosto. Mas não é o caso de Boi Neon. Nada é feito para chocar ou ofender. É com simplicidade e beleza.

Você vem conquistando espaço cada vez mais amplo nas novelas, ao mesmo tempo que não abandona a carreira no cinema, seu “palco” de origem. Que tipo de necessidades artísticas cada um desses ambientes alimenta em você?
E agora acabo de estrear no teatro em São Paulo na peça Um Bonde Chamado Desejo. A TV, o cinema e o teatro são diferentes entre si e cada um tem sua delícia. Na TV, a dificuldade é a velocidade, mas a recompensa é o imenso alcance de público. No cinema, tudo é menor, mais natural ainda que a TV, e demora muito, tem que viajar pra longe da família, grava tudo picotado. Mas a recompensa é que um belo filme pode durar décadas. Séculos, talvez? Não sei se o mundo dura tanto… E o teatro onde o ator faz chover, é ele quem manda, com seu corpo, sua voz e sua presença.

Como lida com a popularidade que um MC Merlô (da novela A Regra do Jogo) te traz?
Fico muito feliz de ver que tem gente que se divertia muito com o personagem. É gratificante trazer o sorriso para as pessoas no momento em que o país naufraga numa crise moral, ética, política e econômica. O Brasil está assim, rir pra não chorar…

"O Regresso" é uma experiência

04 de fevereiro de 2016 2
Crédito: Fox Filmes, Divulgação

Crédito: Fox Filmes, Divulgação

Celebrar a sobrevivência em condições adversas é um mote recorrente no cinema — que já rendeu importantes títulos como Gravidade, Náufrago,127 Horas, entre tantos outros. Não dá para dizer, no entanto, que o premiado diretor mexicano Alejandro González Iñárritu vá apresentar algo que você já tenha visto em O Regresso. O longa, que estreia em Caxias nesta quinta, vem amparado em 12 indicações ao Oscar e com três Globos de Ouro na bagagem (diretor, ator e filme).

O burburinho se justifica não tanto pela história, mas pela embalagem impressionante que ela ganha na telona. Apenas acredite, cada uma das 12 indicações fará sentido assim que você perder o fôlego dentro do cinema.

Inspirado numa história real (a Academia adora!), o longa acompanha uma expedição de caçadores em busca de peles de animais, em pleno século 19. O mais experiente deles é Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que além de guiar os parceiros, precisa garantir a integridade física do filho, que carrega a descendência indígena da mãe visível na pele e é discriminado por isso.

Os rumos da expedição ficam confusos quando Glass é atacado por um urso — numa sequência incrivelmente visceral — e sobrevive. Imóvel e sem poder falar, ele ficará sob os “cuidados” de seu principal rival, o cruel John Fitzgerald (numa atuação apaixonante de Tom Hardy).

Mas nem urso, nem Fitzgerald, nem frio, nem fome, nem nada vai vencer Hugh Glass. Ele quase morre umas sete vezes (é sério). O protagonista permanece vivo, guiado quase que inconscientemente por uma voz interior: “se conseguir respirar, continue lutando”. Mas não é só isso que mantém Glass de pé, e aí entra a parte divertida da história. O caçador está vivo porque tem um propósito, vingança.

Assim, a obscuridade vai tomando conta do personagem, e o contato com a selvageria da floresta só contribui para tal. Difícil falar da atuação quase animalesca de DiCaprio, que parece realmente ter ultrapassado muitos limites nesse trabalho.

O contato profundo entre o homem e o ambiente (nesse caso, maravilhosas e gélidas paisagens do Canadá e da Argentina) é orquestrado com empenho pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (Birdman, A Árvore da Vida). Taí um profissional que merece o mesmo destaque que Iñárritu (cotado para receber seu segundo Oscar consecutivo de direção) ou DiCaprio (que está com a estatueta de melhor ator quase em mãos depois de quatro outras indicações na categoria). O olhar naturalista de Lubezki faz o espectador praticamente sentir o ar gelado que vem das colinas em tomadas muito abertas e quase se engasgar com o sangue e saliva que literalmente respingam na lente em planos muito fechados.

Tudo é grandioso em O Regresso. Os diálogos são relevantes, os personagens convincentes (o espetacular trabalho de maquiagem ajuda), os dilemas profundos. A maneira como esses elementos ganham forma lembra uma sinuosa coreografia entre a dramaticidade dos atores e a magnitude da natureza. E o melhor: a câmera está sempre no lugar certo para captar a dança.

Mergulho em "Beira-Mar"

09 de dezembro de 2015 0

O longa gaúcho Beira-Mar estreia nesta quinta, na Sala de Cinema Ulysses Geremia. Os diretores e a dupla de protagonistas estarão em Caxias na sexta, a partir das 19h30min, para uma sessão comentada. O filme fica em cartaz até o dia 20 de dezembro. Ingressos a R$ 10 e R$ 5 (estudantes e idosos).

Mergulho em águas revoltas

O mar faz as vezes de personagem onipresente no longa gaúcho que estreia quinta, na Sala de Cinema Ulysses Geremia. Ouve-se seu som e sabe-se de seus movimentos revoltos – já que é inverno em Capão de Canoa, principal cenário de Beira-Mar – mas os diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon optam por mantê-lo longe dos olhos do espectador. É que o mar serve como ferramenta para aguçar os sentidos do outro lado da telona e para desenhar relações com o estado de espírito dos protagonistas do filme.

Beira-Mar (não confundir com À Beira Mar, novo filme de Angelina Jolie e Brad Pitt, que ainda não estreou em Caxias) narra um fim de semana na vida dos amigos Martin (Mateus Almada) e Tomaz (Maurício José Barcellos). Os dois viajam de Porto Alegre ao litoral porque Martin precisa pegar um documento com familiares que não encontra há tempos. Tomaz decide acompanhá-lo e os dois ficam hospedados sozinhos na casa dos pais de Martin, numa avenida à beira-mar. A narrativa deixa logo claro que Tomaz é gay, mas Martin parece ignorar a informação. Uma bolha de desejo reprimido vai ficando cada vez mais densa à medida que a história avança.

Estreante em longa-metragem, a dupla de diretores e roteiristas perde um pouco de tempo com perfumarias até que a história engrene de fato. A narrativa paralela sobre os problemas familiares de Martin, por exemplo, poderia ser melhor explorada – o espectador fica com vontade de conhecer mais sobre aqueles laços rachados pelo abismo social. Já os amigos que se juntam à dupla protagonista numa festinha regada à bebida parecem contribuir pouco para a trama.

Um acerto do longa é o trabalho de câmera, que ganha tom confessional participando das cenas como se fosse um terceiro personagem. Quando o olhar se afasta um pouco mais, valorizam-se as belas locações externas do longa e a direção de fotografia competente assinada por João Gabriel de Queiroz.

Beira-Mar foi exibido no Festival de Berlim e premiado no Festival do Rio, Cine em Guadalajara (México) e For Rainbow (Ceará). A temática das descobertas da adolescência vai na carona de produções nacionais como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho – ambos os filmes, aliás, foram alvo de mobilização de caxienses nas redes sociais para que a sala Ulysses Geremia garantisse as estreias na cidade. O viés de abordagem do longa gaúcho, no entanto, é um pouco mais melancólico, e a ligação com o mar entra justamente aí. O quebrar nervoso das ondas no inverno parece revelar a alma de Martin e Tomaz, seja com relação às descobertas que surgem entre eles, ou às incertezas comuns da adolescência. Mas o mar também ganha simbologia positiva, a sugerir um necessário e derradeiro mergulho em si mesmo.

PLUS: ouça essa música massa que integra a trilha do longa

Depp está demais em "Aliança do Crime"

11 de novembro de 2015 2
Crédito:  Warner, Divulgação

Crédito: Warner, Divulgação

É quase um fetiche para o espectador a possibilidade de ver seus atores preferidos em bons filmes de gângster. Johnny Depp já deu canjas aos fãs do subgênero — como em Donnie Brasco (1997) e Inimigos Públicos (2009) — mas nenhuma de forma tão peculiar, esteticamente falando, como em Aliança do Crime. O longa estreia nos cinemas de Caxias nesta quinta.

Não é novidade que Depp tem certo carinho por personagens de aparência um tanto bizarra, mas desta vez o ator investe pesado no quesito “figuras estranhas” encarnando o mafioso Jimmy “Whitey” Bulger, personagem real que fez história no crime organizado de Boston entre as décadas de 1970 e 1980. É quase como se o semblante doido de Willy Wonka tivesse se misturado à frieza de Sweeney Todd — acrescido ainda de um par de terríveis olhos azuis, de uma careca de respeito, e de um dentinho amarelo que “abrilhanta” o sorriso. Certamente, você nunca viu Johny Depp assim.

A performance do protagonista é o ponto alto do filme orquestrado pelo diretor Scott Cooper (de Coração Louco). Até uma possível indicação ao Oscar se desenha ao ator a partir da mutação no visual (a Academia adora!) e, claro, do minucioso trabalho de interpretação. O Bulger de Depp tem um jeito compassado de falar que contrasta diretamente com sua natureza extremamente violenta. Num momento ele pode estar discursando sobre amendoins, e no outro pode estar esmagando sua cabeça exatamente como um. Mas há algo que diferencia o personagem dos gângsters mais conhecidos do cinema: ao longo da trama, ele vai ficando cada vez mais sombrio.

Além da ótima dupla de protagonistas, o elenco tem ainda boas entregas de Kevin Bacon, Corey Stoll e Peter Sarsgaard. O roteiro, baseado no livro de uma dupla de repórteres do jornal Boston Globe, trabalha bem com os diálogos, revelando os bastidores de uma aliança improvável entre o FBI e o criminoso Jimmy Bulger. Daí entra o papel fundamental do investigador da polícia John Connelly (vivido com talento por Joel Edgerton). Os dois são amigos de infância e Connelly propõe uma troca de favores a Bulger: o contraventor fornece detalhes sobre os negócios de um mafioso italiano que a polícia deseja prender, enquanto fica protegido no papel de informante. A comunhão sai do controle e acaba se convertendo em violência desenfreada pelas ruas de Boston.

Termos como honra e lealdade são muito presentes na trama, que vai ficando mais séria do meio para o fim. Dá até para sentir falta dos momentos de escape cômico, como os hilários ensinamentos de Bulger para o filho criança (“se ninguém ver, não aconteceu”). A trilha é um pouco “scorsesiana” — tem títulos como Slave, do Rolling Stones —, mas é utilizada com moderação. Parece que o diretor prefere dar um tom mais sóbrio ao longa, preocupando-se também em não glamourizar (muito) o uso da violência na telona. Em Aliança do Crime, a história é bem contada e a direção de atores é muito competente, mas há mais espaço para tensão do que para as tradicionais tiradas divertidas dos filmes do estilo. Escolha corajosa do diretor.

Doc sobre Caio na TV

07 de novembro de 2015 0
Crédito: Besouro Filmes

Crédito: Besouro Filmes

Neste sábado, o ótimo documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes ganha espaço no canal pago Prime Box Brazil. O filme, dirigido por Cacá Nazario e Bruno Polidoro, lança olha poético sobre a vida e obra do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. A sessão será às 20h.

Aqui tem um textinho que escrevi na época do lançamento da produção em Caxias, em abril do ano passado.

Através de Caio

“Eu ia como sempre sair caminhando sem saber aonde ir, sem saber onde parar, onde pôr as mãos os olhos”.
O trecho de um dos textos de Caio Fernando Abreu que surge na tela em algum momento do documentário Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes tem muito a ver com a própria estética da produção, em cartaz hoje, amanhã e quarta, na Sala de Cinema Ulysses Geremia, em Caxias. A câmera passeia por paisagens tranquilas ou bagunçadas, onde há paz em luzes brilhantes, tormento em céus cinzentos ou dúvida em densas escuridões. É como se ela agora tomasse o lugar dos olhos de Caio, e o espectador passasse a experimentar o mundo com ele. O filme dirigido por Cacá Nazario e Bruno Polidoro revela um enfoque sensível e poético sobre a obra do escritor gaúcho, morto em 1996.

– Não é um filme sobre o Caio, ou para o Caio, é um filme através do Caio – argumenta Polidoro, caxiense também responsável pela direção de fotografia do documentário.

Para colocar a ideia em prática, a dupla esteve em lugares como Paris, Londres, Berlim, Amsterdã, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Santiago (terra natal do escritor). Nessas cidades, Nazario e Polidoro caminharam com a câmera na mão para dar ao filme um olhar inquieto, em movimento, ainda que por vezes contemplativo. Os passeios estéticos se completam com o objeto que mais poderia falar sobre Caio Fernando Abreu: sua própria obra.

– Os textos vão sempre projetando para frente. É como se a obra do Caio fosse um mapa. Eu, que trabalho com direção de fotografia, vejo que os textos pensam cenários, propõem desenhos de luz. Foram muito estimulantes para mim – revela Polidoro, lembrando do trecho “ acendes o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte”, no conto Natureza Viva.

O roteiro foi dividido em sete momentos, ou sete ondas, que conduzem 74min. Estão presentes a onda da solidão, do espanto, do amor, da melancolia, do transbordamento, do irremediável e para além dos muros. Há poucos depoimentos na produção, mas há muita palavra. Amigos e familiares do escritor usam a proximidade com a história de Caio para conferir mais emoção aos textos e cartas que leem. Entre os escolhidos estão gente como Adriana Calcanhotto, Maria Adelaide Amaral, Marcos Breda, Grace Gianoukas, Reinaldo Moraes e Luciano Alabarse. Há ainda a participação de tradutores do escritor, provando que Caio é sempre Caio, ainda que em alemão ou francês.

A diversidade de vozes do filme versa sobre a universalidade da literatura tão íntima praticada pelo escritor.

– É como se ele escrevesse individualmente para cada um dos leitores – lembra Polidoro.

Muito mais do que simples homenagem ao escritor, Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes se transformou em mais um lugar para Caio Fernando Abreu viver. No filme, a escritora Maria Adelaide Amaral revela que, para Caio, “um novo lugar era sempre uma nova possibilidade de afeto”.

Do bar para a telona

29 de outubro de 2015 0
Crédito: La Fábrica

Crédito: La Fábrica

Foi num livro com receitas de drinks – assinado por um autor de nome Michael Jackson (?) – que Joe Pieta viu pela primeira vez algumas fotos de pubs europeus. Foi fisgado de cara e resolveu reproduzir aquelas ambientações na tranquila e pacata Garibaldi. Aconteceu que, a partir de 1984, a cidade passou a ser conhecida como “lá onde fica o Bar Joe”. Essa história de mais de três décadas é contada no documentário Paredes que Falam, do diretor Éverton Rigatti. A estreia será no encerramento do festival CineSerra, em sessão gratuita às 16h deste domingo, na Sala de Cinema Ulysses Geremia.

Joe é daquelas figuras que seguram o ritmo num filme documental, e Rigatti explora bem a faceta falante (e humorada) do dono do bar. As histórias são contadas em tom muito espontâneo, valorizando o clima de conversa entre personagem e diretor. Sorridente e gesticulando como um legítimo gringo, Joe aparece em cena quase sempre emoldurado pelas belas luzes e garrafas atrás do balcão – ambiente, aliás, onde a maior parte das pessoas está acostumada a vê-lo. “Sou bodegueiro, não sou star”, Joe faz questão de salientar.

Mas o filme não se resume a ouvir a história de um dos bares mais queridos da região pela boca do próprio dono e seus familiares. Rigatti e a equipe da produtora caxiense La Fábrica foram buscar outros personagens que ajudam a dimensionar a importância da existência do espaço. Há desde um remember de um dos hits mais tocados no bar – Fotografia, da banda Rebeldes – até a volta proposital da primeira banda que ocupou aquele palco – a Casa de Fundos. Para quem não está acostumado com o universo do bar, há ainda descobertas como o hilário barman Valdemar.

Rigatti sabe que contar a história do Bar Joe é remeter à juventude de boa parcela dos roqueiros da Serra. Na verdade, é remeter à juventude dele mesmo. Por isso o texto em off que abre o documentário é muito bem-vindo: “volto para entender quem eu sou e, nessa arqueologia pessoal, vou resgatando um pouquinho do meu passado, na história de tanta gente que fez do Bar Joe o seu lugar no mundo”. Além disso, o relato também combina com a frase de François Truffaut que fecha a produção “faço filmes para realizar meus sonhos de adolescente”.

Conflitos na mansão

15 de outubro de 2015 0
Crédito: Califórnia Filmes

Crédito: Califórnia Filmes

Minha Querida Dama — estreia desta semana na Sala de Cinema Ulysses Geremia — é daqueles filmes que começa de um jeito, mas muda de clima e surpreende o espectador positivamente a partir da segunda metade. A história escrita pelo roteirista profissional e diretor estreante Israel Horovitz começa de leve, narrando a chegada do americano Mathias (vivido pelo ótimo Kevin Kline) em Paris. Ele vai à França tomar posse de uma mansão, único bem herdado após a morte de seu milionário pai. Só que Mathias encontra o lugar habitado pela antiga moradora, a idosa Mathilde (Maggie Smith) e sua filha, Chloé (Kristin Scott Thomas). A dupla não tem planos de deixar a residência, já que é protegida por um contrato de viager — documento comum na França que garante ao proprietário do imóvel permanecer nele até o fim da vida, mesmo depois de tê-lo vendido.

Mathias logo deixa transparecer sua arrogância de americano marrento em terras francesas, e fica possesso com o fato de não poder chutar as antigas moradoras da mansão, fazer fortuna com a venda do imóvel e ir embora da cidade que não lhe traz boas lembranças. Mas há ainda mais um detalhe quanto ao contrato viager: o comprador (Mathias, nesse caso) tem que pagar uma espécie de aluguel ao vendedor até que ele morra. Assim, soam muito engraçadas cenas como a do brinde entre Mathias e a velhinha de 92 anos, que deseja “saúde e vida longa” com um sorriso irônico nos lábios. Piadinhas sutis e saborosas como essa ditam o ritmo inicial de Minha Querida Dama.

Falido, Mathias decide bisbilhotar nas velharias guardadas na mansão com o intuito de vender algo em brechós e antiquários. É assim que ele encontra uma fotografia que dará outro rumo à história. Mesmo com um ritmo inicial leve, o filme demora um pouco até engrenar de vez na trama que realmente interessa. Antes da importante descoberta de Mathias, o espectador acredita que o roteiro vai se resumir a narrar as dificuldades de uma convivência forçada entre pessoas de personalidades muito diferentes (algo nada original, convenhamos). Parece que a forte carga dramática do longa estava apenas esperando para dar as caras definitivamente. Na segunda metade do longa, as atuações do trio protagonista passam a ser o ponto alto (Kevin Kline é o destaque) e a história toca em temas ríspidos como depressão, arrependimento e limites morais.

Apesar dos belíssimos cenários parisienses à disposição, o diretor elege o interior da mansão e suas luzes amareladas para dar o tom dos momentos derradeiros da história. A escolha está relacionada ao passeio pelo interior conflitante dos próprios personagens. Amparado em diálogos intensos — com doses certeiras de humor negro —, o filme também tem várias frases de efeito. E a principal delas é de Samuel Beckett, só para deixar o leitor com vontade de ir ao cinema.

>> O filme fica em cartaz até o dia 25 de outubro, com sessões quintas e sextas, às 19h30min, e sábados e domingos, às 20h. Ingressos a R$ 10 e R$ 5 (estudantes e idosos). A duração é de 107 minutos e a classificação 12 anos.

Sobre "Que Horas Ela Volta?"

27 de agosto de 2015 0

Em Caxias, infelizmente, nem sinal do filme nacional mais comentado do momento: Que Horas Ela Volta?. Eu assisti no Festival de Gramado e fui arrebatada. Abaixo, falo um pouco sobre o longa de Anna Muylaert. A Regina Casé, estrela da produção, também conversou com o blog. Dá uma olhada…

Crédito: Pandora Filmes

Crédito: Pandora Filmes

A tua piscina tá cheia de ratos

Falar sério sem ser didático ou propor reflexão sem perder a leveza, eis uma das tarefas mais difíceis do cinema ou das artes em geral. Justamente por isso, essa é a característica mais importante do longa Que Horas Ela Volta?. Dirigido por Anna Muylaert (do premiado Durval Discos), o filme cativa pelo humor irresistível, pela construção engenhosa de cada personagem, pelos diálogos realistas e, de quebra, faz um tratado sobre as relações de poder cotidianas. Colecionando prêmios desde que iniciou o circuito de festivais internacionais, o longa chega nesta quinta-feira às telonas do Brasil, país que serve justamente como um dos objetos de estudo de seu roteiro.

Na trama, Val (Regina Casé) é uma doméstica pernambucana que mora na casa dos patrões em São Paulo. Longe da família há mais de 10 anos, ela recebe uma ligação inesperada da filha, Jéssica (Camila Márdila), que pretende prestar vestibular na capital paulista, justamente para a mesma instituição que o filho dos patrões de Val, Fabinho (Michel Joelsas). A presença da garota no ambiente de trabalho da mãe vai estremecer a base de todos os moradores da casa.

Foi Val quem criou Fabinho enquanto a mãe dele, a fashionista Barbara (Karine Teles), trabalhava fora. O afeto entre a empregada e o menino fica visível desde a primeira cena. Aliás, a família inteira é dependente dos cuidados da empregada: os patrões não levantam da mesa nem para buscar um copo de água, ao mesmo tempo que o menino corre para o quartinho de Val em busca de cafuné quando não consegue dormir. A muitos quilômetros dali, Jéssica acabou sendo criada sem a presença da mãe, e desenvolveu uma personalidade muito diferente da dela. Val mostra-se completamente submissa aos donos da casa, mas a filha traz uma alma curiosa e libertária. “Eles não são meus patrões”, sentencia a menina num emblemático diálogo com a mãe.

A câmera quase sempre imóvel dá um proposital ar de retrato ao filme. Parece que a diretora quer mesmo que o espectador possa se colocar naquelas situações _ muitas tão corriqueiras, afinal. O longa vai desenhando um documento, uma espécie de RG de nós mesmos. As humilhações pelas quais Val e a filha são submetidas envergonham também o espectador, que sai do cinema mergulhado em reflexões sobre temas grandiosos como liberdade, autonomia, igualdade, etc.

Mas em meio a essa enxurrada de sentimentos, também brotam gargalhadas fáceis. A simplicidade e espontaneidade de Val garantem ótimos momentos. É hilária, por exemplo, a cena em que ela teoriza sobre as pessoas que guardam a forma do gelo vazia no congelador. Na cadeira do cinema, nos sentimos como cúmplices silenciosos da vida dessa simples mulher e suas inquietações. A construção da personagem é competente: sem exageros no tom cômico e abusando de detalhes (muitos silenciosos) que aproximam o espectador.

Regina Casé e Camila Márdila, que dividiram prêmio de melhor atriz em Sundance, estão completamente entrosadas em cena e é a relação entre as duas, afinal, que mais emociona no filme. Destaque também para as belíssimas participações de Karine Teles e Lourenço Mutarelli como os patrões de Val (ambos retratam de maneira muito especial os traços de rejeição de seus personagens). Mas o elenco talvez seja somente a cereja desse bolo doce e e indigesto (no melhor sentido que esse termo possa ganhar ao se falar de arte). O comovente roteiro de Anna Muylaert traz reflexões universais sem obviedades, e fala de abismo social sem eleger mocinhos e bandidos. Como se não bastasse, o filme ainda faz uma interpretação simbólica e poética do verso “a tua piscina tá cheia de ratos”, de Cazuza.

Entrevista: Regina Casé

Cinecessário: O que foi mais complicado ou delicado na composição da Val?
Regina: O meu maior desafio foi ter que abrir mão de toda e qualquer vaidade e me colocar numa situação de total abandono físico e emocional para viver a personagem.

Há uma carga materna muito forte na personagem, e esse é um papel que você também desempenha na vida real. É possível reconhecer traços da mãe Regina na Val?
Muitos. Desde o carinho, até a canção de ninar que eu canto no filme, que é a mesma que eu canto para os meus filhos e que é a mesma que a minha mãe e a minha avó cantavam pra mim.

Como atriz, a escolha por personagens periféricas, pessoas simples, reflete sua histórica conexão com esse público?
Não foi uma escolha minha, foi algo que aconteceu naturalmente, o que muito me honra. Representar as pessoas do povo, aquelas que trabalham duro, é muito importante principalmente por saber que nesses anos todos elas praticamente me elegeram como sua porta-voz.

“Que Horas Ela Volta?” foi vendido para mais de 20 países, que tipo de retrato do Brasil você acredita que o filme está levando para fora?
Acho que eles se interessaram tanto pelo filme, porque mesmo num contexto muito diferente, essas mudanças profundas nas relações inter classes estão acontecendo no mundo todo.

E aqui no Brasil, qual das reflexões de “Que Horas Ela Volta?” você gostaria que fosse melhor absorvida pelo público?
Gostaria que pensassem que apesar de complexa, essa relação mesmo que permeada por muito afeto sempre esconde muita coisa atrás de frases como: “Ela foi uma segunda mãe para os meus filhos” ou “Ela é praticamente da nossa família”. Eu mesma durante o filme refleti o tempo todo sobre essa questão.

Você tem carreira premiada no cinema, nos palcos e na tevê. Em qual desses formatos se sente mais realizada?
Há muitos anos, tenho me dedicado de corpo e alma à TV. Atuar nesses dois filmes, “Made In China” e “Que Horas Ela Volta”, fez crescer uma vontade avassaladora de voltar a ser atriz, me dedicar mais aos trabalhos de atuação. Ai meu Deus! Não sei como vou resolver isso. kkkk

Nova (ou nem tanto) roupagem

20 de agosto de 2015 0

A animação O Pequeno Príncipe entrou em pré-estreia nos cinemas de Caxias no último fim de semana, mas só agora chega oficialmente à programação das salas. Eu chorei rios (mas não sou muito parâmetro nesse aspecto), hehe. O filme está bem bonito, principalmente nas cenas que recriam a história do livro.

Crédito: Paris Filmes

Crédito: Paris Filmes

Apenas um narrador sem rosto no clássico da literatura O Pequeno Príncipe, o aviador agora é um velho que, além dos cabelos e barba brancos, carrega valiosos ensinamentos que um dia aprendeu ao lado de um viajante nascido num asteroide. Esse aviador serve de elo condutor entre a antiga história escrita por Antoine de Saint-Exupéry (em 1943) e a nova versão cinematográfica assinada pelo diretor Mark Osborne que entra oficialmente na programação dos cinemas de Caxias esta quinta. A animação carrega a mão na carga emocional e promete agradar crianças e adultos — assim como o próprio livro que referencia.

O velho aviador é agora vizinho de uma recém-chegada garotinha, que se muda com a mãe na tentativa de ingressar numa concorrida instituição escolar da cidade. O filme traça um paralelo muito interessante entre a vida da menina e a do aviador. Enquanto a pequena está inserida num ambiente totalmente controlado pela mãe (apaixonada por planilhas e cronogramas de horários), o idoso vive numa bolha colorida e lúdica. Na casa da garota, e em todas as outras da vizinhança, até as árvores têm formato pré-determinado: quadrado. O velho cultiva flores, guarda objetos antigos e, claro, gosta de contemplar as estrelas para não esquecer de um tal B612.

A amizade entre os dois é impulsionada justamente pela curiosidade da menina em saber mais sobre a história do Pequeno Príncipe. É aí que entram os momentos mais belos do longa, visualmente falando. Ao contrário da tradicional técnica de animação em 3D utilizada na história da criança com o velho, as partes que fazem referência direta ao livro foram feitas em stop-motion. O trabalho que mistura texturas como papéis e tecidos na criação dos cenários ficou tão bonito que, cada vez que o príncipe aparece na tela, causa 50 tipos de suspiros no espectador. Numa forma de manter a aura clássica do livro, o diretor decidiu manter o visual do príncipe tal qual as conhecidas aquarelas do próprio Saint-Exupery. Esse cuidado minucioso com a imagem universal do personagem é um dos maiores acertos do longa.

O texto traz uma síntese dos principais ensinamentos do príncipe, agora sendo absorvidos e colocados em prática pela garotinha. As frases de efeito que todos conhecem (“o essencial é invisível aos olhos” ou “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”) são inseridas de maneiras doces. O roteiro vai além e “imagina” o príncipe crescido, trabalhando numa cidade tomada pela automaticidade. Foi a forma encontrada por Osborne para tocar numa importante questão do livro: a “adultização” do mundo.

Além de se emocionar com os ensinamentos do longa (é inevitável), prepare-se para se apaixonar pela recriação da raposa, que tem papel importante no livro e no filme. O bichinho aparece tanto no mundo da menina, quanto no do príncipe, ambos em versões irresistíveis. A trilha sonora é outra doçura, totalmente conectada com o clima do filme. Ah, e não saia da sala logo que o “the end” aparecer. O diretor preparou uma referência (bem rápida) para os fãs do livro em meio aos créditos finais.