por MARCELO MUGNOL Paulo Autran (1922-2007) amou o teatro como poucos, menosprezou a televisão e fez menos cinema do que desejou. Sua estréia ocorreu na Vera Cruz, com Veneno e Apassionata, ambos de 1952. Na carreira atuou em cerca de 20 filmes. Seu mais recente é El Pasado, de Hector Babenco. O filme abre a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dia 18. Quem viu Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, não esquece de um sem fim de cenas impressionantes e delirantes. Nem por isso, Paulo Autran se perdeu nessa profusão de desejos vertiginosos. Ele interpreta o Senador Porfírio Diaz, um tecnocrata que apoiou o presidente da República d%27Eldorado. E lógico, prepara o terreno para suceder o %22amigo%22. Autran externaliza a ira daquele Glauber em transe, como poucos. Seja dentro da igreja, envolto pelas imagens sacras, seja no alto de um morro tremulando uma bandeira, em meio a uma forte ventania. Autran dizia que Terra em Transe era um dos melhores filmes da história do cinema brasileiro. Não à toa, era uma linguagem que se aproximava do teatro. Da cinematografia recente, destacam-se A Máquina (2005), de João Falcão, e O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006), de Cao Hambuger. Em A Máquina, Autran parece buscar uma certa inspiração naquele transe de Glauber. O texto é voraz, o movimento de câmera impressionante, e Autran, como de costume, deixou a sua marca. O filme não seria o mesmo sem ele. Em O Ano, escolhido para concorrer a uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro, o ator faz apenas uma pontinha. Interpreta o avô do menino Mauro. Não há a eloquência, nem a sombra do transe de Glauber. E nem precisa. Em poucos minutos Autran nos conquista com aquele aura do avô que todo mundo idealiza. A morte do personagem é mais do que mis en scène. Reveja O Ano e perceba o quanto dolorosa é a ida daquele avô. Ainda parece um transe. Mas é morte.
Postado por Marcelo Mugnol






