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Posts do dia 29 outubro 2007

É ruim, mas é bom

29 de outubro de 2007 1

Tarantino de olho podre e Rodriguez no set/Europa Filmes/Divulgação

Só pra variar, enviei o texto para a capa do Segundo caderno desta segunda-feira, 29/10, com o dobro do tamanho do espaço da página - logo, quase metade do meu texto original foi cortado na edição...

Então, se você quiser me dar uma segunda chance pra ver se o meu texto realmente faz algum sentido, dá uma lida aqui na íntegra do meu comentário a respeito do projeto Grindhouse, da dupla Quentin Tarantino e Robert Rodriguez.

Por Roger Lerina

Enviado Especial/São Paulo

Entre os cerca de 400 filmes em exibição na 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dois títulos mobilizaram a atenção dos festivaleiros não pela relevância do tema, pela raridade do país do origem ou pelo sucesso de bilheteria.

%22À Prova de Morte%22 e %22Planeta Terror%22 têm lotado as sessões porque mostram ataques de zumbis nojentos, perseguições de carangas envenenadas, gostosonas de shortinho e uma dançarina go-go com um pernão de matar o velho.

A razão dessa expectativa está nos nomes por trás desses filmes: Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, diretores declaradamente fãs de produções comerciais de baixo orçamento dos anos 60 e 70, os chamados %22exploitations%22 (%22de exploração%22), cujos códigos e características são constantemente citados nas filmografias de ambos. A dupla de realizadores decidiu juntar-se outra vez em %22Grindhouse%22 - a colaboração entre Tarantino e Rodriguez vem desde que o primeiro apadrinhou a estréia do amigo com o ótimo %22El Mariachi%22 (1992). O projeto homenagearia os cinemas americanos que exibiam antigamente sessões duplas de filmes B, entremeadas com a projeção de trailers. A idéia era replicar a experiência da época: Tarantino rodou %22À Prova de Fogo%22 e Rodriguez filmou %22Planeta Terror%22, longas distintos interligados por trailers de filmes fictícios - que foram dirigidos por nomes como Eli Roth (da série %22O Albergue%22) e o roqueiro Rob Zombie.

A proposta, porém, não colou nos Estados Unidos, fracassando quando estreou em abril. O jeito encontrado pela produtora foi dividir as mais de três horas de %22Grindhouse%22 em dois filmes para o lançamento internacional, estragando a brincadeira original - mas acrescentando mais tempo de duração, permitindo a Tarantino, por exemplo, adicionar uma ótima dança erótica inexistente na primeira versão. %22À Prova de Morte%22 deve entrar em cartaz no Brasil apenas em 21 de março de 2008; já %22Planeta Terror%22, cuja estréia estava marcada para a próxima sexta-feira, foi adiado para uma nova data ainda não divulgada. Mais do que apenas celebrar o cinema de entretenimento, a dobradinha de filmes cultua um modo de produção cinematográfica cuja precariedade e baixa expectativa de retorno comercial permitia a diretores mais ambiciosos arriscarem ser criativos com relativa liberdade. Para lembrar apenas alguns desses casos: os americanos Francis Ford Coppola, George Lucas e Brian de Palma começaram dirigindo fitas de terror e policiais de quinta categoria, o italiano Sergio Leone notabilizou-se com os %22spaghetti western%22, o brasileiro Carlos Reichenbach exercitou-se na pornochanchada, Steven Spielberg surgiu com o filme de perseguição %22Encurralado%22 (1971).

O tributo de Tarantino é justamente para o subgênero %22filme de perseguição de carros%22. Citando explicitamente clássicos como %22Corrida Contra o Destino%22 (1971), %22À Prova de Morte%22 acompanha os passos de Stuntman Mike (Kurt Russell, perfeito no papel), um dublê maníaco que adora matar garotas bonitas com seu carrão especial. O clímax do filme, obviamente uma corrida maluca de automóveis, talvez seja a mais empolgante seqüência do tipo jamais filmada, com destaque para a temerária performance de Zoe Bell - dublê de verdade que impressionou Tarantino encarnando Uma Thurman nas cenas de ação dos dois %22volumes%22 de %22Kill Bill%22. Mas o mais bacana de %22À Prova de Morte%22 são as conversas entre as várias personagens femininas, espécie de versão para mulheres daqueles papos sem propósito entre homens dos filmes anteriores do diretor, que revelam às vezes mais a respeito dos protagonistas do que fariam diálogos pretensamente densos.

Já o filme de zumbis %22Planeta Terror%22 homenageia o gênero com uma trama típica, ambientada em uma cidadezinha texana infectada por um gás que transforma todos em mortos-vivos carniceiros. Rodriguez adiciona um toque político à história na figura do comandante militar (Bruce Willis) e sua tropa - que inclui um estuprador interpretado por Tarantino cujo pinto literalmente vira mingau, em uma das cenas mais bizarras e engraçadas do filme. A galeria de personagens esquisitos tem ainda um mocinho latino baixote, um excêntrico casal de médicos, um xerife durão (Michael Biehn, de %22O Exterminador do Futuro%22) e uma dançarina cuja perna arrancada é absurdamente substituída por uma metralhadora (Rose McGowan, que também está no elenco de %22À Prova de Morte%22). Para além do mero pastiche, %22À Prova de Morte%22 e %22Planeta Terror%22 revisitam com sincero entusiasmo e mesmo carinho o mundo dos filmes trash, evocado em aspectos como direção de arte (os longas parecem que foram rodados na década de 70), fotografia, movimentos de câmera, montagem, trilha sonora e mesmo nos %22defeitos especiais%22 - riscos na imagem, som abafado, erros de continuidade e até avisos de %22rolo faltando%22.

 

 

Postado por Roger Lerina

O sentido do amor

29 de outubro de 2007 2

Banco de Dados

por MARCELO MUGNOL

O senhor que é homofóbico e não consegue imaginar o amor entre dois homens, não assista ao filme Felizes Juntos. Porque se depois dos primeiros minutos o senhor suspeitar que esse universo lhe é mais próximo do que pensava, vai sair por aí culpando o cineasta chinês Wong Kar-Wai. E o pobre diretor não tem culpa de nada. Ele vive do ofício de contar histórias de amor. Sem pudor, porque assim são as verdadeiras histórias de amor.

Felizes Juntos faz parte da Coleção Lume, organizada pela empresa maranhense Lume Filmes, que pretende lançar dois DVDs por mês de filmes contemporâneos, sucessos de crítica nos cinemas do Brasil, mas ainda inéditos em DVD. O filme chinês é o terceiro da coleção, que tem ainda Felicidade (1998), de Todd Solondz, Na Companhia de Homens (1997), de Neil LaBute, e Reconstrução de um Amor (2003), de Christoffer Boe.

A trama de Felizes Juntos é simples e nada original. É centrada em dois homossexuais, Yui-Fai (Tony Leung Chiu-Wai) e Po-Wing (Leslie Cheung), que viajam de Hong Kong a Buenos Aires à procura das Cataratas do Iguaçu, uma espécie de quimera para uma nova vida. Até aí, nada de incomum, porque tem uma penca de filmes parecidos. O grande lance do filme é a maneira como Kar-Wai desenvolve a história. O nome do filme, Felizes Juntos, é, na verdade, uma armadilha para o espectador, que pode ficar ansioso em ver Fai e Po felizes e juntos.

E é justamente a inconstância, a incomunicabilidade e os encontros arredios que jogam com o sentimento do espectador. Mais ainda porque os movimentos de câmera, os cortes das cenas, a alternância fugaz de música (ora Piazzolla, ora Zappa) e silêncio reforçam essa relação fragmentada e incompleta de Fai e Po. Porque no final de tudo, mais do que um filme de amor, Felizes Juntos trata do sentido do amor na vida de cada um dos personagens.

Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai

Coleção Lume, drama, 93min, 1997.

Postado por Marcelo Mugnol