
Só pra variar, enviei o texto para a capa do Segundo caderno desta segunda-feira, 29/10, com o dobro do tamanho do espaço da página - logo, quase metade do meu texto original foi cortado na edição...
Então, se você quiser me dar uma segunda chance pra ver se o meu texto realmente faz algum sentido, dá uma lida aqui na íntegra do meu comentário a respeito do projeto Grindhouse, da dupla Quentin Tarantino e Robert Rodriguez.
Por Roger Lerina
Enviado Especial/São Paulo
Entre os cerca de 400 filmes em exibição na 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dois títulos mobilizaram a atenção dos festivaleiros não pela relevância do tema, pela raridade do país do origem ou pelo sucesso de bilheteria.
%22À Prova de Morte%22 e %22Planeta Terror%22 têm lotado as sessões porque mostram ataques de zumbis nojentos, perseguições de carangas envenenadas, gostosonas de shortinho e uma dançarina go-go com um pernão de matar o velho.
A razão dessa expectativa está nos nomes por trás desses filmes: Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, diretores declaradamente fãs de produções comerciais de baixo orçamento dos anos 60 e 70, os chamados %22exploitations%22 (%22de exploração%22), cujos códigos e características são constantemente citados nas filmografias de ambos. A dupla de realizadores decidiu juntar-se outra vez em %22Grindhouse%22 - a colaboração entre Tarantino e Rodriguez vem desde que o primeiro apadrinhou a estréia do amigo com o ótimo %22El Mariachi%22 (1992). O projeto homenagearia os cinemas americanos que exibiam antigamente sessões duplas de filmes B, entremeadas com a projeção de trailers. A idéia era replicar a experiência da época: Tarantino rodou %22À Prova de Fogo%22 e Rodriguez filmou %22Planeta Terror%22, longas distintos interligados por trailers de filmes fictícios - que foram dirigidos por nomes como Eli Roth (da série %22O Albergue%22) e o roqueiro Rob Zombie.
A proposta, porém, não colou nos Estados Unidos, fracassando quando estreou em abril. O jeito encontrado pela produtora foi dividir as mais de três horas de %22Grindhouse%22 em dois filmes para o lançamento internacional, estragando a brincadeira original - mas acrescentando mais tempo de duração, permitindo a Tarantino, por exemplo, adicionar uma ótima dança erótica inexistente na primeira versão. %22À Prova de Morte%22 deve entrar em cartaz no Brasil apenas em 21 de março de 2008; já %22Planeta Terror%22, cuja estréia estava marcada para a próxima sexta-feira, foi adiado para uma nova data ainda não divulgada. Mais do que apenas celebrar o cinema de entretenimento, a dobradinha de filmes cultua um modo de produção cinematográfica cuja precariedade e baixa expectativa de retorno comercial permitia a diretores mais ambiciosos arriscarem ser criativos com relativa liberdade. Para lembrar apenas alguns desses casos: os americanos Francis Ford Coppola, George Lucas e Brian de Palma começaram dirigindo fitas de terror e policiais de quinta categoria, o italiano Sergio Leone notabilizou-se com os %22spaghetti western%22, o brasileiro Carlos Reichenbach exercitou-se na pornochanchada, Steven Spielberg surgiu com o filme de perseguição %22Encurralado%22 (1971).
O tributo de Tarantino é justamente para o subgênero %22filme de perseguição de carros%22. Citando explicitamente clássicos como %22Corrida Contra o Destino%22 (1971), %22À Prova de Morte%22 acompanha os passos de Stuntman Mike (Kurt Russell, perfeito no papel), um dublê maníaco que adora matar garotas bonitas com seu carrão especial. O clímax do filme, obviamente uma corrida maluca de automóveis, talvez seja a mais empolgante seqüência do tipo jamais filmada, com destaque para a temerária performance de Zoe Bell - dublê de verdade que impressionou Tarantino encarnando Uma Thurman nas cenas de ação dos dois %22volumes%22 de %22Kill Bill%22. Mas o mais bacana de %22À Prova de Morte%22 são as conversas entre as várias personagens femininas, espécie de versão para mulheres daqueles papos sem propósito entre homens dos filmes anteriores do diretor, que revelam às vezes mais a respeito dos protagonistas do que fariam diálogos pretensamente densos.
Já o filme de zumbis %22Planeta Terror%22 homenageia o gênero com uma trama típica, ambientada em uma cidadezinha texana infectada por um gás que transforma todos em mortos-vivos carniceiros. Rodriguez adiciona um toque político à história na figura do comandante militar (Bruce Willis) e sua tropa - que inclui um estuprador interpretado por Tarantino cujo pinto literalmente vira mingau, em uma das cenas mais bizarras e engraçadas do filme. A galeria de personagens esquisitos tem ainda um mocinho latino baixote, um excêntrico casal de médicos, um xerife durão (Michael Biehn, de %22O Exterminador do Futuro%22) e uma dançarina cuja perna arrancada é absurdamente substituída por uma metralhadora (Rose McGowan, que também está no elenco de %22À Prova de Morte%22). Para além do mero pastiche, %22À Prova de Morte%22 e %22Planeta Terror%22 revisitam com sincero entusiasmo e mesmo carinho o mundo dos filmes trash, evocado em aspectos como direção de arte (os longas parecem que foram rodados na década de 70), fotografia, movimentos de câmera, montagem, trilha sonora e mesmo nos %22defeitos especiais%22 - riscos na imagem, som abafado, erros de continuidade e até avisos de %22rolo faltando%22.
Postado por Roger Lerina




