
Acontece quando a gente escreve mais do que cabe na página . Por falta de espaço e excesso de texto, a capa do Segundo Caderno de hoje, sobre o fime O Passado e seu protagonista, Gael García Bernal, ficou beeeem resumida. A quem interessar possa, segue o texto na íntegra.
Na troca do português pelo espanhol, de São Paulo por Buenos Aires, ficou com Gael García Bernal o papel de bendito fruto entre as mulheres desesperadas que em torno dele gravitam em O Passado. A entrada em cena do mexicano no filme de Hector Babenco é creditada àquelas conjunções que colocam no colo dos bons atores os grandes personagens.
Quando planejou filmar no Brasil a adaptação do romance O Passado, do escritor argentino Alan Pauls, Babenco tinha em mente Rodrigo Santoro. Mas ao mesmo tempo em que Santoro ficou inacessível por seu compromisso como seriado americano Lost, o diretor se deu conta de que o filme não iria funcionar em português e chamou Gael.
- A ambientação do livro é muito portenha, e percebi que o filme falava o tempo todo em castelhano - diz Babenco. São personagens mais próximos do temperamento passional do argentino do que do brasileiro.
O Passado foi o destaque da abertura da Mostra Internacional de São Paulo, quinta passada, e pelo que se viu no final de semana, Babenco acertou em convocar aquele que é hoje, aos 28 anos, o mais bem-sucedido ator latino-americano no cinema internacional. E teve sorte de Gael ter uma brecha na preenchida agenda. Prova do carisma do mexicano é o assédio que sofreu na maratona de promoção de O Passado no evento. Gael, mirradinho que é, praticamente sumia dentro do cerco de jornalistas e fãs.
Gael interpreta Rímini, um jovem tradutor que enfrenta uma crise emocional e existencial por conta dos vínculos que cria com três mulheres: Sofia (Analía Couceyro), a primeira namorada, com quem ficou 12 anos e acaba de romper, Vera (Moro Anghileri), modelo com quem vai morar, e Carmen (Ana Celentano), colega de trabalho por quem se apaixona. Sem jamais aceitar separação, Sofia passa os anos seguintes infernizando a vida de Rimini e o leva à ruína física e profissional, enquanto as outras duas também protagonizam crises e destemperos movidos a ciúme. Manifestações de amor e ódio alternam-se à velocidade de um beijo estalado e imprimem ao filme, que tem o registro do melodrama clássico, pitadas de suspense e humor.
- Por isso filmei em Buenos Aires. É como um tango, tem paixão, ciúme, separação, volta, morte - explica Babenco, que prefere ser chamado de brasileiro nascido na Argentina, onde viveu 17 de seus 61 anos.
Gael tem rodado o mundo e falado várias línguas em cena. Mas sempre, destaca, buscando projetos que lhe entusiasmem. Além de O Passado, ele tem em exibição na Mostra de SP Sonhando Acordado, dirigido pelo francês Michel Gondry (de Brilho Eterno de mente Mente sem Lembranças) e Déficit, que também marca a estréia do ator como diretor e executivo, à frente da produtora que abriu como amigo Diego Luna, seu companheiro de cena no longa E Sua Mãe Também (2001).
Mas o prestígio que aumenta a cada filme não tem nada a ver com associá-lo ao time de jovens astros de Hollywood, como alguém chegou citar na entrevista coletiva (veja trechos abaixo):
- Hollywood, eu? Que nada! O mais perto que cheguei de Hollywood foi quando filmei Babel em Tijuana, que fica a três horas de carro.
O Passado estréia no Brasil na próxima sexta e traz a última participação de Paulo Autran no cinema, numa ponta como um conferencista francês. Babenco, que teve seu longa anterior, Carandiru, visto por 4,6 milhões de espectadores, tem expectativa mais modestas para esse.
- Sei que não é um filme paras as massas, não é Carandiru nem Tropa de Elite. Mas gostaria que os brasileiros dedicassem a ele o mesmo carinho que têm pelos filmes do Almodóvar - brinca.
Trechos da entrevista com o ator Gael García Bernal
Revelado em produções mexicanas que ganharam o mundo, como Amores Brutos (2000) e E Sua Mãe Também (2001), Gael Carcía Bernal hoje escolhe com quem o onde trabalhar. Seus personagems falam espanhol, inglês e francês e estrelam tramas de diferentes gêneros, dos politicamente engajados aos dramas românticos.
Com o cinema brasileiro de viés internacional Gael tem uma relação especial. Encarnou o jovem Ernesto Guevara antes de virar Che em Diários da Motocicleta, de Walter Salles, filma Ensaio Sobre a Cegueira com Fernando Meirelles e estréia, sexta que vem, à frente de O Passado, de Hector Babenco, tema da breve entrevista a seguir:
Pergunta - Você tem rodado filmes em difrentes países, em difrentes idiomas e também estréia como diretor. O que lhe atraiu em O Passado?
Gael García Bernal - Primeiro, aceitei porque admiro muito o Hector Babenco desde o dia que vi Pixote, filme que me marcou muito. Outra razão foi filmar na Argentina, país que considero minha segunda pátria. E também por ser uma história de compreensão universal.
Pergunta - Como foi construir um personagem que passa por tantas transformações ao longo da trama, físicas e emocionais?
Gael - O processo de preparação às vezes se dá com prazo curto. Em O Passado pude trabalhar pelo menos um mês com o Hector antes de filmar. Mas a principal diferença que vejo em relação a meus papéis anteriores é que nesse, pela primeira vez, eu, que não tenho filhos, interpreto um pai. Foi uma experiência interessante.
Pergunta - Muitas mulheres enxergam no filme uma leitura machista, misógina, pelo fato de seu personagem, além se se relacionar com três mulheres, manter uma postura um tanto superior e impassível diante dos destemperos e das crises delas. Você concorda?
Gael - Não creio que o filme defenda a virtude de um %22boludo%22 (risos) . Vejo o Rímini mais como um autista emocional. É ao mesmo tempo herói e anti-herói, um homem que caiu em um rio que se move rápido e forte e é tragado por ele. É um personagem inocente, embora seja rotulado como %22boludo%22.
Postado por marcelo Perrone