Não sei quanto a vocês, mas eu, mesmo sem ter visto os filmes, achei estranha a premiação do 40º Festival de Brasília. E isso que não acredito, como tanta gente, que a pulverização dos troféus seja sempre um problema, signifique que o júri foi excessivamente político ou medroso. O que às vezes me parece injustificável é a divisão dos dois prêmios mais importantes, o de Melhor Filme e o de Melhor Diretor. Às vezes. Quando em 2001 Gladiador ganhou o Oscar de Melhor Filme e Ridley Scott perdeu a estatueta de Melhor Diretor para Steven Soderberg, por Traffic, até deu para entender. Embora eu não goste de nenhum dos dois filmes, e ache que o trabalho do Soderberg às vezes é supervalorizado, sendo Traffic o melhor exemplo disso, a divisão fez sentido: Gladiador é uma produção grandiosa, toda bem acabada, com a cara do principal prêmio da Academia americana, e Traffic é uma proposta pessoal do diretor, mais ousada, que combina mais com uma lembrança que não envolva a produção como um todo. Outro exemplo: também faria sentido se em 1994 Forrest Gump recebesse apenas o Oscar de Melhor Filme, deixando o de Melhor Diretor para Tarantino, por Pulp Fiction. E ainda outro, mais próximo de nós: O Filho da Noiva, de Juan José Campanella, dividiu os principais Kikitos do Festival de Gramado de 2002 com o mexicano A Perdição dos Homens, de Arturo Ripstein. Este último acabou levando os dois prêmios mais importantes, mas seria perfeitamente compreensível, pelo perfil dos dois filmes, o primeiro uma produção impecável e o segundo esteticamente mais ousado, se ficasse apenas com o de Melhor Diretor, deixando o troféu de Melhor Filme para o grande sucesso argentino. Tudo isso para dizer que, numa observação à distância, faria mais sentido se Júlio Bressane ganhasse o prêmio de Melhor Diretor e, para a alegria geral de quem estava no festival, Chega de Saudade, da Laís Bodanzky, levasse o de Melhor Filme. No mínimo isso. Porque, quando se concede um troféu de Melhor Filme para uma produção como a Cleópatra de Bressane, me parece incabível não conceder junto o de Melhor Diretor. Como pode Bressane, com um projeto tão pessoal, tão arriscado, tão %22de autor%22, fazer um filme melhor que o de Laís e não ser o melhor diretor? E como pode Laís não ter feito o melhor filme mas ter sido a melhor diretora, na comparação com Bressane? De longe, parece algo completamente sem cabimento. De longe. Porque, na verdade, o que nos resta é aguardar a chegada dos filmes para poder falar melhor. Especialmente Cleópatra, tão aplaudido no Festival de Veneza, tão vaiado no de Brasília. Se for como Filme de Amor, o anterior do Bressane, maravilhoso. Agora, se for como o penúltimo dele, Dias de Nietzsche em Turim...
Postado por Daniel Feix














