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Posts de dezembro 2007

O bruxo do Zé do Caixão

30 de dezembro de 2007 0

Zé do Caixão está de volta/Divulgação
Nesta segunda-feira, a capa do Segundo Caderno traz uma matéria sobre a adaptação para o cinema de O Dobro de Cinco, história em quadrinhos policial do escritor e desenhista Lourenço Mutarelli, autor que deixou de brilhar apenas no underground por conta do sucesso recente do filme baseado em seu romance O Cheiro do Ralo. Quer saber mais? Leia o jornal amanhã, no papel ou em www.zerohora.com

Pois no papo com o cineasta gaúcho Dennison Ramalho, diretor de O Dobro de Cinco – na verdade ele nasceu em São Paulo, mas é daqueles que leva o Rio Grande no peito –, ele adiantou uma série de novidades sobre outro projeto seu que deve chegar aos cinemas em 2008. Baita projeto, diga-se. Quem conhece o Dennison sabe que ele adora e é pós-doutorado em filmes de terror, e é um dos raros cineastas brasileiros a investir no gênero – é autor dos premiados curtas Nocturnu (1999), filme de vampiro que ele fez aqui no Estado antes de se bandear de vez para São Paulo, onde vive há nove anos, e do sangrento Amor só de Mãe (2003). Por conta dessa paixão, Denison ficou amigo de José Mojica Marins, o grande e único Zé do Caixão, e se tornou seu pupilo.

 - Nossa amizade começou quando ele veio a Porto Alegre para uma homenagem e pedi para dar uma olhada no Nocturnu,que eu estava montando e não conseguia encontrar uma final. Ele deu umas dicas e pronto. Ficou perfeito - lembra Dennison. 

Resumindo, ao se mudar para São Paulo a amizade virou parceria. Foi Dennison, junto o produtor Paulo Sacramento (diretor do ótimo documentário O Prisioneiro da Grade Ferro) quem botou pilha para Mojica ressucitar o Zé do Caixão e filmar Encarnação do Demônio, longa que finalmente fecha a trilogia iniciada em 1964 com À Meia-Noite Levarei sua Alma, seguido por Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver (1967) - clássicos que fizeram a fama do Zé do Caixão mundo a afora. Mas Mojica achava que o personagem tinha de ser adaptado para o mundo contemporâneo, e aí Dennison entrou na jogada como roteirista.

- O Mojica sempre estreve na frente do seu tempo e disse que não podia ficar pra atrás agora, numa era em que o terror abusa dos efeitos especias e da tecnologia. Ele trabalhava no roteiro desde os anos 60. Pequei uma quinta versão, dos anos 80 e trabalhei com ele outras nove, até chegarmos à versão final. Eu me atrevo a dizer que Encarnação do Demônio vai chocar o mundo. Dennison, que trabalhou também como diretor assistente do mestre, diz que o filme não é para platéia sensíveis, tampouco para os adolescentes acostumados com psicopatas marcarados e espíritos vingativos.

Encarnação do Demônio, cuja trama dá seguimento à saga de Zé do Caixão para encontrar a parceira ideal para gerar seu filho endiabrado, é bastante explícito nas cenas de violência, sexo e horror subrenatural. Realizado com orçamento e recursos técnicos antes impensáveis para o cinema artesanal e em mutirão praticado por Mojica, Encarnação do Demônio terá distribuição nacional e internacional da Fox – em fase de finalização da trilha, o longa deve ser lançado no final do ano. 

Postado por Marcelo Perrone

Pérolas do Maranhão

28 de dezembro de 2007 0

Divulgação
A quem leu no Segundo Caderno de hoje o texto do Daniel Feix sobre o lançamento em DVD de Down by Law, o cultuado filme de Jim Jarmusch, vale enaltecer o esforço da Lume Filmes para brindar os cinéfilos com pérolas como essa. É digno de aplausos calorosos o esforço que essa pequena distribuidora de São Luís do Maranhão (!) tem feito para colocar no mercado títulos como esse e mais Felicidade, de Todd Solondz, Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai, e Exótica, de Atom Egoyan, entre outros.

E os próximos lançamentos da Lume, sempre com tiragem limitada, dão continuidade ao alto nível da seleção. Além de Eraserhead, filme de 1977 que revelou o cinema genialmente bizarro de David Lynch, estão na lista para sair até março três clássicos do cinema japonês: Pai e Filha, de Yasujiro Ozu, O Anjo Embriagado, de Akira Kurosawa, e Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi.

Postado por Marcelo Perrone

Império dos Sonhos

28 de dezembro de 2007 0

Laura Dern dentro e fora da casinha/Divulgação
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Roger Lerina

Quem é minimamente familiarizado com o cinema de David Lynch sabe que o diretor americano busca emular em seus filmes a lógica do inconsciente e dos sonhos, blindando as histórias a interpretações racionais reducionistas - tramas que magicamente se abrem à compreensão, no entanto, caso o espectador encontre uma chave de leitura para a obra. Assim é com títulos como Estrada Perdida (1997) e Cidade dos Sonhos (2001), cujos enredos circulares e lacunares possuem entretanto uma lógica interna ao mesmo tempo conseqüente e fascinante.

Mas parece que Lynch transcendeu inclusive a brincadeira de decifração: Império dos Sonhos (2006) é irredutível à análise totalizante, só se deixa apreender em partes, elege o mistério como experiência que prescinde de desvelamento. No novo longa do cineasta, nenhuma chave abre a porta - resta procurar pela fechadura e espiar pelo buraco. Como sempre acontece no universo lynchiano, tatear no escuro não significa frustração: as três horas de projeção podem se transformar em um prazer sensorial caso o espectador se deixe levar pelo concerto de imagens e sons proposto em Império dos Sonhos.

O interesse cada vez maior de Lynch por conceitos como meditação transcendental, carma e reencarnação podem ser responsáveis pela ênfase ainda maior em Império dos Sonhos de recursos como a multiplicação e a sobreposição de personalidades, a indistinção entre passado, presente e futuro - características constantes nos mais recentes trabalhos do realizador. Novamente, a vertigem provocada pelo mundo do cinema - e pela ficção, em última análise - está no centro do último longa do Lynch. Atraídos pela sedução de um mundo glamouroso que seja diferente de suas vidas comuns, os personagens de Império dos Sonhos embarcam em uma viagem onírica que dissolve as fronteiras de tempo, espaço e identidade.

Em uma ponta do filme está Nikki (Laura Dern, em excelente atuação), atriz de Hollywood escolhida para protagonizar a refilmagem de uma antiga história amaldiçoada, cuja primeira versão não foi finalizada porque os protagonistas foram assassinados. Casada com um homem possessivo (Peter J. Lucas), Nikki envolve-se com o ator Devon (Justin Theroux), repetindo fora da tela o adultério de seus personagens. Aos poucos, realidade, ficção e vidas passadas se misturam: tanto Nikki quanto o público não sabem mais se estão acompanhando a trajetória da atriz, a trama do filme que ela interpreta ou a provável tragédia acontecida décadas antes na Polônia com as pessoas envolvidas com a produção maldita.

Na outra ponta de Império dos Sonhos está uma mulher - chamada nos créditos de %22garota perdida%22 - que parece estar assistindo a tudo isso na TV de um quarto de hotel, depois de ter se entregue a um homem. Ao final, descobre-se que essa personagem tem uma família e que o pesadelo vivido por Nikki talvez tenha servido como lição moral para ela. Como uma espécie de Alice no País das Maravilhas perverso - com direito a aparições surrealistas de humanos com cabeça de coelho - , Lynch lembra outra vez que o cinema é um espelho mágico ao mesmo tempo encantador e perigoso. Poder resumido pelo bordão dito por um locutor de TV cafona, referindo-se a Hollywood: %22Onde estrelas fazem sonhos, e sonhos fazem estrelas%22.

Postado por Roger Lerina

Grandes momentos do cinema

27 de dezembro de 2007 0

Realizado em meio aos escombros de uma Viena ainda devastada pela II Guerra, O Terceiro Homem (1949), de Carol Reed, é o somatório das qualidades pontuais que constroem um grande clássico. O roteiro é de Graham Greene, autor que como poucos teceu intrincadas tramas de espionagem – ele foi um espião de fato; a fotografia é assinada por Robert Krasker, que abusou de luzes e sombras, ângulos oblíquos e distorções visuais inusitadas, numa das mais originais fusões do expressionismo com o noir; a trilha sonora, composta e executada por Anton Karas, é, na definição do grande crítico americano Roger Ebert, o mais perfeito ajuste entre som e ação obtido no cinema; e o soberbo elenco reúne Joseph Cotten, como o escritor americano que chega a Viena para encontrar um amigo, e Orson Welles, o tal amigo, numa aparição relâmpago das mais impactantes – e essa busca se dá em meio a uma perigosa rede de crimes, mistérios e romance, ocultos na permanente escuridão da cidade.

As duas seqüências abaixo são amostras da beleza deste filme. Uma é o primeiro contato entre Holly (Cotten) e Harry (Welles), então tido como morto, em meio às sombras gigantes que cortam as paredes de Viena. A outra é o plano final, no qual o diretor dilata o tempo para além do convencional e usa com maestria a profundidade de campo.

 

Postado por Marcelo Perrone

Uma Salma de palmas para os Beatles

21 de dezembro de 2007 2

Uma Salma Hayek cura até defunto, imagina cinco/Divulgação
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já pode ser conferido neste fim de semana por aqui, em pré-estréia, o filme que não tem como ser ruim Across de Universe - mesmo sabendo que as mais de 30 músicas dos Beatles que estão na trilha não são as versões originais, mas sim interpretadas pelo elenco. Bom, e ainda tem a Salma Hayek, um monte delas na verdade, vestida de enfermeira (a Singing Nurse) numa das pirações psicodélicas encenadas. No musical dirigido por Julie Taymor, os personagens têm seus nomes tirados de clássicos beatlemaníacos, como Jude, Lucy, Prudence, Sadie, Jo-Jo, Mr. Kite e Dr. Robert, este vivido por Bono, do U2. Olha só o repertório que pinta durante o filme:

 %22Girl%22 ,  %22Helter Skelter%22,  %22Hold Me Tight%22, %22All My Loving%22,  %22I Want To Hold Your Hand%22 , %22With A Little Help From My Friends%22, %22It Won%27t Be Long%22 , %22I%27ve Just Seen A Face%22,  %22Let It Be%22, %22Come Together%22 ,%22Why Don%27t We Do It In The Road%22, %22If I Fell%22, %22I Want You (She%27s So Heavy)%22 , %22Dear Prudence%22,  %22Flying%22  %22Blue Jay Way%22, %22I Am The Walrus%22,  %22Being For The Benefit Of Mr. Kite, %22%22Because%22, %22Something%22, %22Oh Darling%22 , %22Strawberry Fields Forever%22,  %22Revolution%22,  %22While My Guitar Gently Weeps%22 , %22Happiness Is A Warm Gun%22 , %22Blackbird%22,  %22Hey Jude%22, %22Don%27t Let Me Down%22, %22All You Need Is Love%22, %22Lucy In The Sky With Diamonds%22,  %22A Day In The Life%22, Across the Universe%22 , %22She Loves You%22 .

Postado por Marcelo Perrone

Musa do dia (2)

21 de dezembro de 2007 0

Julie em Antes do Pôr-do-Sol/Divulgação
Outra das queridas da turma aqui também faz festa hoje: Julie Delpy, 38.

Postado por Marcelo Perrrone

Musa do dia (1)

21 de dezembro de 2007 0

Jane em Barbarella (1968)/Divulgação
Nosso forte e caloroso upa e um grande beijo para Jane Fonda, eterna Barbarella, que hoje chega aos 70 anos.

Postado por Marcelo Perrone

Os melhores de 2007

19 de dezembro de 2007 2

Nesta quinta sai no Segundo Caderno (capa e central) a retrospectiva dos filmes e fatos cinematográficos relevantes de 2007, avaliação coletiva que sempre corre – e assume – o risco de deixar algo bom de fora. Como complemento ao nosso balanção, adiantamos aqui nossas listas pessoais (os 10 mais com 11 ou 12), algumas sem ordem de preferência, com a sempre valiosa contribuição do Carlos André Moreira, titular do blog literário Mundo Livro. Noves fora, o suspense policial Zodíaco, a dobradinha da II Guerra A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, o visceral Tropa de Elite e o transgressor Santiago podem cantar vitória.

 

Carlos André Moreira

Os meus, com justificativa mas sem ordem. Ah, sim, lembrem-se de que eu não sou um cinéfilo e sim um cara que vai às vezes ao cinema.

Apocalypto - Fale-se de Mel Gibson o que quiser, mas ele sempre consegue imaginar maneiras cinematograficamente impactantes de matar, decapitar, torturar ou flagelar alguém em cena.

Zodíaco - Filme sobre serial killer no qual o serial killer não é pego e ainda assim mantém a tensão e o interesse, e com um trabalho de boas interpretações de Jake Gyllenhaal e do ressuscitado Robert Downey Jr.

Saneamento Básico, o Filme - Este está aqui mais porque eu achava que tinha de ter um nacional, e este foi o melhor que vi este ano. Jorge Furtado faz uma comédia sobre cinema que tem graça. Já é o bastante.

Quebra de Confiança - Eu ia botar O Bom Pastor, mas me lembrei deste que também é um thriller de espionagem em agências federais e que tem um ritmo mais vigoroso.

O Despertar de Uma Paixão - Título ridículo para um bom filme, com uma Naomi Watts linda como sempre.

Sunshine: Alerta Solar - Tirando o fato de que levar ogivas nucleares para o sol parece a idéia mais estúpida da história do cinema, o filme é muito bacana. Para lembrar que ficção científica não precisa ser arminha laser e espadinha brilhante.

Mais Estranho que a Ficção - Minha memória de histórias metalingüísticas no cinema é traumática, já que achei Adaptação horrível, mas esta tem originalidade, uma boa história e Maggie Gyllenhaal.

Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra - Vou considerar os dois em separado, embora sejam complementares. Clint Eastwood faz dois necessários filmes com jeitão antiquado sobre valores antiquados, como honra, coragem e responsabilidade.

300 - O Roger vai me matar por esta, mas num ano em que Homem-Aranha 3 foi uma decepção, sobrou para o fã de quadrinhos berrar: %22This is Spaaarta!%22

 

Daniel Feix

SANTIAGO - João Moreira Salles investiga seus próprios métodos e suas próprias escolhas: poucas vezes o cinema brasileiro foi tão autoral e tão profundo na manipulação da linguagem documental.

TROPA DE ELITE - José Padilha fez o filme mais contundente sobre o Brasil de hoje desde Cidade de Deus.

TARNATION - Um mergulho na vida de um personagem (no caso, o próprio diretor, Jonathan Caouette) como o cinema poucas vezes viu.

VIAGEM A DARJEELING - Wes Anderson se livra dos maneirismos e nos apresenta um filme ao mesmo tempo delicado e cheio de vitalidade.

A CONQUISTA DA HONRA/CARTAS DE IWO JIMA - A visão de Clint Eastwood sobre valores como heroísmo e patriotismo é absolutamente única;

MARIA ANTONIETA - O tom pop e contemporâneo adotado por Sofia Coppola foi o mais adequado possível para a cinebiografia da rainha francesa

CARTOLA - Um dos melhores inícios de filme do cinema brasileiro. Com sua visão extremamente pessoal sobre o personagem, Lirio Ferreira multiplica o interesse naturalmente despertado por ele.

AS LEIS DE FAMÍLIA - O melhor filme de Daniel Burman, um dos diretores latino-americanos mais promissores de sua geração.

ZODÍACO - O bom do thriller de suspense de David Fincher não é o fato de ele ser cheio de detalhes, mas sim o fato de que todos esses detalhes fazem sentido e são elementos importantes para a trama.

CÃO SEM DONO - Beto Brant consegue transformar os poucos recursos de produção e de seu elenco em uma experiência cinematográfica marcante.

 

Marcelo Perrone

 A Conquista da Honra / Cartas de Iwo Jima – Clint Eastwood reflete um filme no outro e mostra que estilhaços de guerra abatem não apenas os que lutam no front.

O Ultimato Bourne – O thriller de espionagem tem no registro quase documental de Paul Greengrass sua mais inventiva leitura no cinema contemporâneo.

Ratatouille – Quando o mundo do desenho animado parecia sem graça e repetitivo, Brad Bird revigorou o alto padrão da inimitável Pixar num filme com cheiro e gosto.

Zodíaco – David Fincher constrói uma trama policial que prescinde de ação e torna a solução de mistério secundária diante obsessão que move e corrói seus ricos personagens.

Tropa de Elite – Polêmicas sociais e mercadológicas de lado, o Brasil mostra que sabe fazer filme de ação e apresenta um personagem desde já clássico graças a um grande ator.

Santiago – Pode-se entrar no documentário de João Moreira Salles por diversas portas, sob impacto tanto da técnica quanto da narrativa inovadoras, guiado tanto por um audacioso cineasta quanto por um personagem tão excepcional que a melhor ficção não conseguiria desenhar.

 C.R.A.Z.Y. – Famílias disfuncionais pipocam a toda hora no cinema, mas Jean-Marc Vallé tira leite de pedra com uma trama peculiar sobre intolerância e respeito às diferenças, embalada por uma espetacular trilha sonora.

Maria Antonieta – A rainha da França, nessa inventiva releitura pop, se junta às jovens heroínas de Sofia Coppola que compartilham o desconforto diante do ambiente opressor, seja no subúrbio americano, em Tóquio ou no palácio de Versailles.

O Despertar de uma Paixão – Sob aparecência do cinemão romântico dos bons tempos, destaca dois grandes atores (Edward Norton e Naomi Watts) em ardorosa entrega a seus personagens. De John Curran.

O Hospedeiro - Ficção científica, terror, melodrama e humor pastelão. Improvável e criativa mistura de gêneros que deu liga graças à habilidade do sul-coreano Bong Joon-ho.   

Na reserva: Conduta de Risco – Estréia e já entra na lista dos melhores de 2007. O novato diretor Tony Gilroy, além da trama envolvente de lavra própria, obtém um trabalho coletivo do elenco em nível que poucas vezes se vê.

 

Roger Lerina

1) Tropa de Elite - Thriller empolgante sob um ponto de vista inédito no cinema brasileiro

2) Lady Vingança - Perturbador desfecho da trilogia da vingança do coreano Park Chan-wook

3) Inferno - O bósnio Danis Tanovic mantém vivos os dilemas morais do mestre polonês Krzysztof Kieslowski

4) Amantes Constantes - O francês Philippe Garrel filma a ressaca existencial deixada pelo Maio de 68

5) O Hospedeiro - O coreano Bong Joon-ho provou ser possível juntar terror, humor, drama e política em um mesmo filme

6) Zodíaco - No curioso policial de David Fincher, a obsessão não é exclusividade do serial killer

7) Ventos da Liberdade - O vigoroso trabalho do inglês Ken Loach segue sendo uma ave rara no cinema engajado contemporâneo

8) A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima - Clint Eastwood emociona com seu díptico sobre a verdadeira essência do heroísmo, do patriotismo e da amizade

9) Maria Antonieta - Sofia Coppola ousa com um perfil alienado e entediado da rainha francesa teen

10) Santiago - João Moreira Salles segue os passos do mestre Eduardo Coutinho e vira a mesa do documentário nesta obra auto-expiativa

 

Ticiano Osório

Uma vez que são 12 meses no ano, que num dia de 24 horas daria para ver 12 filmes, que são 12 os condenados e 12 os cavaleiros da Távola Redonda, resolvi montar uma lista com os 12 melhores filmes do ano. Quer dizer, fui forçado a, em um ano tão rico em bom cinema. É uma lista mais emotiva do que crítica, ou seja: valeu mais o quanto o filme me deixou empolgado, tenso, triste, felicíssimo, intrigado, mesmerizado, e menos o que o tempo dirá deles _ quase nenhum há de se tornar um clássico, mas aqui estão a minha dúzia de 2007 (sem ordem de preferência):

1) Borat, de Larry Charles

2) Perfume, de Tom Tykwer

3) C.R.A.Z.Y., de Jean-Marc Vallé

4) No Vale das Sombras, de Paul Haggis

5) Os Simpsons, de David Silverman

6) Babel, de Alejandro González Iñárritu

7) O Passado, de Hector Babenco

8) Tropa de Elite, de José Padilha

9) Conduta de Risco, de Tony Gilroy

10) Santiago, de João Moreira Salles

11) Apocalypto, de Mel Gibson

12) Pecados Íntimos, de Todd Field

 

Postado por Marcelo Perrone

Blade Runner ao extremo (4)

18 de dezembro de 2007 2

 Continuando. Não se pode desassociar em Blade Runner a imagem do som. Pois até a inesquecível trilha sonora do filme tem versões diferentes. O autor da trilha é o músico grego Vangelis. Por estar na época envolvido com o longa Carruagens de Fogo (que lhe valeu o Oscar por um dos temas mais conhecidos da história do cinema), ele deixou suas partituras a cargo da The New American Orchestra, que executa música que está no filme. Posteriormente, Vangelis lançou sua prórpria versão, com novos temas e leves mudanças nas faixas conhecidas.  

 

Postado por Marcelo Perrone

Blade Runner ao extremo (3)

18 de dezembro de 2007 0

Rachael (Sean Young) quase engana a máquina/Reprodução
Quem já viu o clássico Blade runner, do qual o Perrone falou com tanta propriedade abaixo, já deve ter se descoberto confuso imaginando qual é, afinal de contas, o funcionamento daquele teste que é aplicado logo na primeira cena para se verificar quem é ou não um andróide. Vê-se o dispositivo apontado para o olho do andróide, o entrevistador faz algumas perguntas, e a gente sabe porque nos é dito que aquilo ali ajuda a identificar os andróides no meio das pessoas comuns, mas não se fica muito por dentro do que está acontecendo até que o andróide mata o entrevistador.

O funcionamento da máquina fica claro no romance de Philip K. Dick que deu origem à história e que está sendo lançado agora em português pela Rocco com o nome de O caçador de andróides, aproveitando o título do filme em vez do original Do Androids dream of electric sheep? (Andróides sonham com carneiros elétricos?), uma medida que já havia sido tomada pela mesma editora com O homem duplo (A scanner darkly).

O teste, entende-se ao ler o livro, é baseado em demonstrações psico-fisiológicas de empatia. Os andróides, por terem uma mente absolutamente lógica, ainda que apta a aprender, não compreendem conceitos da psicologia humana associados à idéia de solidariedade. Podem simular as reações corretas, mas sempre demoram alguns centésimos de segundo a mais do que o cérebro humano quando lhes são feitas perguntas que tocam em pontos cruciais do pensamento moral e que disparam reações musculares automáticas na pupila e na bochecha (no filme isso não aparece, mas o teste, chamado Escala de Voigt-Kampff, consiste de um exame de luz na pupila e de um disco adesivo que, colocado na bochecha, monitora reações musculares). E aqui vem a explicação para a insistência do entrevistador na pergunta sobre a carteira de couro legítimo. No futuro retratado no livro, a Terra foi arrasada ao fim de uma guerra termonuclear. Centenas de espécies animais foram extintas, o que deu origem a um entendimento moral de que a morte de animais para consumo humano em qualquer circunstância é algo horrível.

Por isso as perguntas que vemos no filme, decalcadas do livro, falam sobre carteira de couro, sobre uma vespa pousando no braço de alguém, sobre uma mulher nua sentada em um tapete de urso. Os andróides não conseguem manifestar empatia moral ao horror de animais mortos – ao menos não de forma espontânea o bastante para que sua reação seja tida como verdadeira.

Essa é só uma das diferenças entre livro e filme, um dos raros casos em que duas obras, uma surgida a partir da outra, são ambas obras-primas. No futuro imaginado por Ridley Scott, as ruas estão sempre apinhadas de gente e chove o tempo todo. No de Philip K. Dick, a Terra de 2021 é atingida por uma ininterrupta chuva de pó radiativo e tornou-se praticamente despovoada depois das guerras. Quem não morreu foi incentivado pelo governo a emigrar para as colônias planetárias como as de Marte – e naquele ambiente inóspito os andróides são fundamentais para o trabalho braçal, o trabalho agrário, a construção em planetas cuja atmosfera seria letal para trabalhadores humanos. Só ficou na Terra a escória humana, os que nasceram com capacidades intelectuais prejudicadas pela radiação, chamados %22especiais%22. A radiação também anula a capacidade reprodutiva de muitos, que são classificados pelo Estado como incapazes. O que torna o personagem de Rick Deckard ainda mais melancólico do que no filme. Ele mantém a ordem numa Terra que já não interessa a mais ninguém, nem ao próprio governo, e da qual não consegue fugir por não ter dinheiro para a cara passagem de imigração. Ele também caça formas de vida artificial e as destrói numa época em que a religião dominante, o Mercerismo, que ascendeu depois da catástrofe nuclear, considera toda forma de vida sagrada _ e portanto sua empatia com a andróide Rachael, pertencente à corporação responsável pelos modelos Nexus-6, é algo que pode atrapalhar seu trabalho. Os caçadores de recompensa só conseguem matar os andróides porque não os imaginam vivos, caso contrário viveriam a crise de consciência que Deckard enfrenta a certa altura da narrativa.

Há outras divergências entre livro e filme, mas são minúcias. No livro, Deckard caça seis andróides de um total de oito fugitivos. No filme, são quatro de seis. O inesperado auxílio aos andróides na película vêm de um engenheiro com uma doença degenarativa que provoca envelhecimento acelerado. No livro, de um motorista de ambulância para atendimento de animais elétricos, ele próprio um %22especial%22 de QI deficiente. No livro, Rachael, vivida no filme por Sean Young, e a andróide Pris, a loiraça Daryl Hannah na produção, são máquinas do mesmo tipo e modelo de produção, e portanto são quase gêmeas, algo descartado no filme. Ah, sim, e %22replicante%22 é uma palavra inventada para o filme, já que %22andróide%22 parecia muito batido naquele início de anos 1980.

Mas são ambos, livro e filme, abordagens densas e prazerosas sobre seu tema: o valor da vida, a capacidade humana para o melhor e o pior, os dilemas éticos da evolução tecnológica.  E o amor como elemento subversivo, algo que a grande ficção científica, do 1984 de George Orwell até o Alphaville de Godard, sempre retratou.

Postado por Carlos André Moreira

Blade Runner ao extremo (2)

18 de dezembro de 2007 0

Harrison Ford na Los Angeles de 2019/Warner
Continuando o papo sobre esse grande presente de Natal para os fãs de Blade Runner - O Caçador de Andróides que é o lançamento da caixa/maleta com as quatro versões do filme, tema da capa do Segundo Caderno de hoje e do post abaixo.

Aqui seguem um pouco mais detalhadas as principais diferenças entre as quatro versões. Mais ao longo do dia, comento outras curiosidades de bastidores que estão nos extras - não muito, para não estragar o prazer da descoberta de quem pretende ganhar ou se dar esse presentão.

Versão original (1982) Após uma conturbada produção, estreou nos cinemas com grande expectativa, mas não fez o sucesso de público e crítica previstos. Por imposição dos produtores, que consideram o filme sombrio e confuso, além de assumirem o controle do filme quando prazo e orçamento estouraram, o diretor Ridley Scott adicionou a narração do ator Harrison Ford em várias cenas (algumas até estavam previstas no roteiro original, para acentuar e clima noir) e criou um %22final feliz%22, com Deckard e a replicante Rachel partindo à luz do dia – imagens captadas e não usadas por Stanley Kubrik para a abertura de O Iluminado. Sessões de meia-noite e o posterior lançamento em VHS tornaram Blade Runner filme de culto. Seu visual arrojado influenciou a emergente produção de videoclipes para a MTV, a moda e comerciais dos mais variados produtos. Com tempo, além da aproximação da realidade com temas abordados no longa (clonagem, engenharia genética, caos e degradação social das metrópoles, sociedades multiétnicas, Blade Runner consolidou sua posição com clássico do cinema. Essa versão nunca havia sido lançada em DVD.

Versão internacional (1982)  Em alguns países circulou essa cópia com três cenas violentas cortadas da versão original exibida nos EUA: a que o replicante Roy (Rurger Hauer) perfulha os olhos de seu criador ao matá-lo, outra em que a replicante Pris (Daryl Hannah) arrasta o policial Deckard (Harrison Ford) pelas narinas e uma terceira que mostra a mão de Roy sendo perfurada por um prego.

Versão do diretor (1992)Em 1989, um funcionário da Warner, procurando a cópia de Blade Runner para uma sessão especial, encontrou uma versão do filme tal qual Scott pretendia lançá-la 10 anos antes. A exibição dessa versão então inédita fez grande sucesso e estimulou o diretor a relançar o filme, sem a narração e sem o final feliz – o que proporcionou uma nova leitura da obra. A principal mudança, no entanto, foi a inclusão de uma cena em que Deckard sonha com um unicórnio, referência ao fato de ele próprio talvez ser um replicante. Ridley Scott diz que é. Harrison Ford diz que isso é bobagem, que o tira é bem humano.

Versão definitiva (2007) Além de melhorias de som e imagem, foi corrigida com a cena da morte da replicante Zhora (percebia-se claramente que era uma dublê quebrando as vidraças). A atriz Joanna Cassidy foi chamada filmar  novos takes. Agora ficou perfeito. Outra correção feita foi em relação o número de replicantes a serem mortos por Deckard. Um erro de continuidade informa dois números, Primeiro o correto, quatro. Depois, quando lhe explicam que seis replicantes rebeldes fugiram para Terra e um já havia sido morto, fica claro que restam cinco. Isso porque as cenas da quinta replicante, Mary, não foram feitas por falta de tempo e grana (a atriz mostra seus desconsolo nos extras, primeiro por perder o papel de Pris para Daryl Hannah e depois por ver Mary limada). A cena com o número errado foi redublado e agora dizem a Deckard que dois deles já morreram em uma tentativa de invadir o prédio do engenheiro genético que os criou

Versão 5Surpreso? Sim, existe uma quinta versão do filme, raríssima, que vem junto apenas nas caixas americanas. Na verdade, é a primeira, um copião exibido em sessões internas da Warner e em sessões para testar a receptividade do público. Tem uma seqüência de abertura diferente e narração em off em apenas poucas cenas, como indicava o roteiro original.

Postado por Marcelo Perrone

Blade Runner ao extremo (1)

17 de dezembro de 2007 0

Rutger Hauer em cena antológica/Warner
Finalmente saíram no Brasil a caixa e a maleta com três DVDs e quatro versões de Blade Runner, tema da capa do Segundo Caderno de amanhã, terça-feira - e assunto adiantado nesse blog num post no início de novembro. Pronta a capa, claro que a gente se dá conta das coisas que poderia ter dito e não disse, por falta de espaço ou porque na hora outras informações pareceram mais importantes. Vou tentar priorizar aqui o que não está escrito na versão impressa. Começando por mais detalhes sobre os extras, em um disco com de três horas de entrevistas atuais com elenco, técnicos e produtores e imagens raríssimas de bastidores - é um dos mais completos e interessantes garimpos sobre a construção de um filme que já vi.

Entre as cenas recuperadas, estão ensaios com o elenco e uma, entre tantas curiosas, muito peculiar. Lembram da bela cena em que o replicante Roy (Rutger Hauer), ao morrer, deixa escapar de sua mão uma pomba branca, que voa em direção ao infinito e além? Pois a tal pomba, encharcada pela chuva constante característica do filme, não conseguia voar nada, devido ao peso da água, mostra o making of. A solução foi inserir a cena de outra pomba (ou a mesma sequinha, sei lá). Falando no Rutger Hauer, ele se dedicou com tanto empenho ao papel que o crédito pela seqüência final do filme é todo dele. Foi do ator a idéia da pomba e foi ele que escreveu, no set, o antológico e emotivo discurso final de Roy, que termina com %22todos esses momentos serão perdidos, como lágrimas na chuva. Hora de morrer%22 - a fala original prevista no roteiro era muito piegas, lembra Hauer. 

Essa passagem é um contraponto interessante ao rigor obsessivo com que o diretor inglês Ridley Scott comandou as filmagens, se indispondo com a equipe americana e com o astro Harrison Ford, que reclamava da pouca atenção que o cineasta lhe dedicava, por ficar mais tempo lapidando a direção de arte e os efeitos especiais que tornaram Blade Runner um marco visual do século 20. O clima do set era péssimo e ficou ainda pior quando os produtores, já sem paciência diante do orçamento e dos prazos estourados, fizeram uma intervenção e assumiram o controle da montagem - insatisfeitos com o clima sombrio e cerebral da narrativa e com a recepção fria nas sessões testes, acrescentaram, à revelia de Scott, o %22final feliz%22 e a narração em off que marcaram a primeira versão do filme.

Os DVDs trazem esta versão, que muitos fãs, entre eles eu, não desprezam, porque foi assim que conheceram Blade Runner e também pelo fato de o off estar em sintonia com o clima noir futurista evocado pelo filme. Embora se reconheça que a %22versão do diretor%22 de 1992 - melhorada com os ajustes desse novo %22final cut%22 de 2007 - seja dramaticamente superior e tenha mais a ver com o conjunto da narrativa.

Novos posts na seqüência darão continuidade ao dossiê Blade Runner. Até lá reveja a cena citada acima. Aproveitando, na nova versão de Blade Runner, de 2007, a definitiva jura Scott, entre outros ajustes digitais e correções de erros que veremos a seguir, o céu azul foi coberto com nuvens negras - o que, sinceramente, achei uma frescura do senhor diretor, pois, mais que uma falha de continuidade, como sugerem os depoimentos, a aurora pode ser interpretatada como uma significativa mudança do tom do filme, o momento em que o policial caçador de andróides Deckard (Ford) se ilumina e percebe o valor que os replicantes têm por suas vidas fugazes - e ainda por cima tem o fato de essas releituras do filme por Scott indicarem ser mesmo Deckard também um replicante (já achei que não, mas agora...).

Postado por Marcelo Perrone

Fica pra próxima

17 de dezembro de 2007 3

Essa é Gemma, a nova Bondgirl/Reprodução
Como para ser Bondgirl não é exigido nenhum telento dramático excepcional, basta ser bonita e gostosona (na mitologia da série, gurias), achei meio sem graça essa britânica que escolheram para ser a nova companheira de James Bond. A aspira Gemma Arterton, de 22 anos, foi a selecionada entre mil e quinhentas candidatas. Na fila para contracenar com Daniel Craig e pegar a vaga de Eva Green, que morreu nos braços do herói em Cassino Royale, tinha um time de brasileiras, entre elas as muito mais tuuudo a ver Juliana Paes e Cléo Pires. A informação foi divulgada pela revista Marie Claire inglesa e confirmada pela Eon Productions - produtora de Bond 22 (título provisório), que tem início de filmagens previsto para janeiro.

 

 

 

 

 

Postado por Marcelo Perrone

Berlim 2008

15 de dezembro de 2007 3

Day-Lewis: grande concorrente para Wagner Moura
Exatos dez anos depois da vitória triunfal de Central do Brasil, de Walter Saller Jr., o Brasil volta ao Festival de Berlim, que ao lado de Cannes e Veneza fecha a trinca dos mais importantes festivais de cinema do planeta. O anúncio da inclusão de Tropa de Elite na primeira leva de concorrentes (foram anunciadas oito produções, normalmente concorrem cerca de 20), em primeiro lugar explica por que o filme de José Padilha não vai mais concorrer em Sundance, como havia sido anunciado previamente: fará muito melhor à campanha internacional de Tropa uma premiére mundial na Berlinale do que no evento independente dos EUA, por mais cool que seja estar em Sundance.

Padilha acertou ao privilegiar Berlim. As chances de fazer história erguendo o Urso de Ouro, no entanto, talvez não sejam lá muito grandes. Ainda é cedo para fazer qualquer tipo de previsão, mas já há dois indícios de que a competição será dura para o filme brasileiro.

O primeiro é a presença de Constantín Costa-Gavras como presidente do júri que vai distribuir os troféus. Apesar de ter uma carreira marcada essencialmente por filmes políticos como Estado de Sítio (1973) e Missing - Desaparecido (1981), entre muitos outros, o cineasta grego não tem o gosto muito afeito a produções com cenas de violência mais explícitas - ele já declarou não ter gostado de Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, por exemplo. E, sobretudo, acredito eu, Costa-Gavras não deverá ver com empolgação a transformação de um personagem como Capitão Nascimento em verdadeiro herói, como ocorre, sim, em Tropa de Elite, e como ocorre por que os autores do filme assim quiseram.

O segundo indício é a presença de Sangue Negro (There Will Be Blood), pelo menos para mim um dos filmes mais aguardados dos últimos tempos. Já li que é uma espécie de filme da maturidade de Paul Thomas Anderson (de Magnolia e Boogie Nights). Também já li que é a melhor interpretação de Daniel Day-Lewis, um dos grandes atores de sua geração. Já li que até favorito ao Oscar Sangue Negro é. Em se tratando de P.T. Anderson, que não costuma fazer filmes clássicos, acadêmicos, aqueles que agradam à Academia americana, isso significa, talvez, quem sabe, que ele realmente tenha dado um passo adiante na sua já para lá de promissora carreira - um dos grandes méritos de Sangue Negro, ao que tudo indica, seja a capacidade de agradar a todos os tipos de público.

De qualquer forma, a simples exibição em Berlim já fará um bem gigantesco à Tropa de Elite. A exposição que o filme de José Padilha terá e os debates que ele deve originar certamente transformarão a disputa pelo Urso de Ouro em algo secundário. Só o fato de estar nessa vitrine já é uma baita vitória para o filme estrelado por Wagner Moura. Não vejo como Tropa de Elite, pelas suas qualidades e pelas discussões que provoca, não sair badaladíssimo de Berlim.

O festival começa no dia 7 de fevereiro. A lista completa dos concorrentes deve sair até o final de dezembro.

Postado por Daniel Feix

O mundo em preto-e-branco

14 de dezembro de 2007 0

Clotilde Hesme e Louis Garrel: Amantes Constantes/Imovision

 
Por Marcelo Mugnol
 
O mundo do cineasta francês Philippe Garrel é em preto-e-branco. Seus personagens não se deleitam na diversidade de cores do arco-íris, mas transitam entre o claro e o escuro, conduzidos pela sinuosa trilha entre a exaltação e a tristeza profunda. Parece dramático demais, mas assim é a vida. Ou alguém ainda acredita que a vida é algo parecido com aquele vôo de helicóptero através de um túnel de trem, cena de uma das mirabolantes seqüências de Missão Impossível, com Tom Cruise?
 
Seja em Amantes Constantes (lançado em DVD pela Imovision) ou mesmo em O Nascimento do Amor (1993, inédito no Brasil, leia post abaixo), Garrel disseca as relações amorosas. Dois filmes bem distintos, mas com o mesmo teor e a mesma câmera que não invade o espaço dos atores, muito menos irrompe o silêncio sem pudor. Garrel sabe como poucos, atualmente, ponderar necessidade e desejo; amor e vaidade; cólera e vaguidão. E o melhor, Garrel sempre deixa pistas falsas ao longo dos filmes. Entre uma cena e outra imprescindível, representativa para o enredo principal, o diretor arma uma porção de arapucas.

Amantes Constantes inicia com um bando de jovens metendo o pé na porta do sistema político burocrático, atrasado e centralizador da França, em 1968. Aquela virulência juvenil, desprovida de conseqüências, os coquetéis molotov que voam sobre a muralha de soldados, a fuga por entre os prédios esguios de uma Paris ainda com resquícios provincianos não é nada mais do que o pano de fundo. De todas as pistas, a única verdadeira é a de que o espectador conhece a partir daí o protagonista, François (Louis Garrel).

Os planos lentos, contemplativos, a música que aparece sutilmente, mas raramente, sem atropelar as cenas e os diálogos, tudo isso emoldurado sob uma harmônica estética, que fuzila a vigente necessidade de corroer o tempo. Porque em última análise, o tempo é o protagonista dos filmes de Garrel. Sua obsessão é transpor ao cinema o tempo da vida, o tempo de nascer o amor ou mesmo o tempo de perder o amor. Parece loucura, mas é só uma extensão do cinema idealizado por gente como Andrei Tarkovsky (1932-1986), que escreveu um livro para explicar essa pretensão: Esculpir o Tempo. Infelizmente, Tarkovsky anda esquecido pelo nosso tempo.

Amantes Constantes, no entanto, aos poucos, com a mesma incidência de encontros e desencontros da vida, acaba por colocar François diante de Lilie (Clotilde Hesme). Já passa da metade do filme, e não sabemos muito bem ainda se eles são de fato os amantes constantes que o título sugere ou são mais uma das pistas falsas. François e sua poesia parecem cada minuto mais em consonância das esculturas de Lilie. Assim como na vida, eles estão ligados pela arte em profusão naquele ano, já posterior aos confrontos de 1968.

É só um ano depois, mas muito da vida parece ter se esvaído. É porque o amor de Lilie e François perdeu-se no tempo. Não querem arriscar um amor que ainda nem parece consumado, mesmo depois da cama, mesmo depois da traição consentida. É como se a história de Lilie e François fosse a tentativa de reviver o amor de Antes da Revolução (1964), parafraseando o filme do italiano Bernardo Bertolucci, citado no filme de Garrel. No entanto, em Amantes Constantes tem o Sono dos Justos, que estabelece a antítese entre o antes e o depois da revolução, a de maio de 1968. E na vida de Lilie e François: antes e depois do amor.
 
 

Postado por Marcelo Mugnol