
Paranoid Park talvez não seja o filme pelo qual o diretor Gus Van Sant será lembrado - esse posto combina mais com Elefante (2003), pela contundência com que tratou o célebre massacre de Columbine, com Gênio Indomável (1997), que revelou Matt Damon e Ben Affleck, ou com seus primeiros trabalhos, que deflagraram um grande estudo sobre a juventude, marcante pela abordagem amoral de assuntos como homossexualismo (Mala Noche, de 1985), drogas (Drugstore Cowboy, 1989) e prostituição (Garotos de Programa, 1991).
Mas Paranoid Park, em cartaz na Capital, é o seu título que melhor conjuga a complexidade do tema - de novo a adolescência - com a linguagem do cinema. É o seu filme mais maduro e, por isso, talvez o seu melhor filme.
Como os personagens de Mala Noche, Drugstore Cowboy e Garotos de Programa, Van Sant parecia ter se perdido pelo caminho. Quem sabe traumatizado pelas interferências dos produtores, que remontaram Até as Vaqueiras Ficam Tristes (1993) a sua revelia, ele assinou, entre outras produções esquecíveis, um inexplicável remake de Psicose (1998). Procurando Forrester (2000) foi tão visto quanto Gênio Indomável, mas ambos disseram nada além do que o cineasta já havia dito - e apelando para uma gramática mais óbvia, pobre.
A recuperação veio justamente quando ele voltou a focar o desajuste juvenil, sobretudo a partir de Gerry (2002). Elefante foi sensação no Festival de Cannes, onde ganhou a Palma de Ouro de melhor filme, por apresentar um assunto espinhoso a partir de uma narrativa incomum. Paranoid Park segue o mesmo caminho: o tema é o envolvimento do garoto Alex (Gabe Nevins) com um crime, mas o que chama a atenção é a forma com que a história é contada.
Intercalando presente e passado, num ritmo que segue a confusão na cabeça do protagonista, Van Sant não se limita a contar o tal crime. Prefere provocar o espectador, usando recursos que acentuam o suspense e a ambigüidade das situações.
O filme todo é movido por perguntas - teria Alex participado do crime?, como?, quando? Mas o que importa não são suas respostas objetivas, e sim o sentimento do público em relação às questões. Elefante seguia a mesma lógica, mas Paranoid Park não fala de um criminoso. Alex é um garoto comum, envolvido naquilo tudo por acaso. Entendê-lo, assim, é ainda mais difícil. O desafio maior fez crescer as possibilidades do cinema de Van Sant - e o resultado é o melhor possível.
Postado por Daniel Feix










