
Se na categoria melhor atriz a disputa está parelha, com Cate Blanchett e Julie Christie levando um certo favoritismo mas com Ellen Page, Marion Cottilard e Laura Linney com totais condições de levar a estatueta, na categoria melhor ator parece pouco provável que Daniel Day-Lewis não ganhe seu segundo Oscar - o primeiro foi por Meu Pé Esquerdo, no longínquo 1989.
A atuação do genial intérprete de 50 anos que já se destacou em filmes de Martin Scorsese (A Idade da Inocência e Gangues de Nova York), n%27O Último dos Moicanos de Michael Mann e em filmes de Jim Sheridan (além de Meu Pé Esquerdo, ele protagonizou Em Nome do Pai), foi saudada como %22a melhor do século%22 por diversos críticos e levou absolutamente todos os prêmios prévios - que, como já se disse em post anterior, representam a Academia norte-americana, em última instância.
Não se pode deixar de ressaltar, no entanto, as performances absolutamente irretocáveis que levaram Viggo Mortensen, Johnny Depp, Tommy Lee Jones e George Clooney à indicação na categoria. Mortensen deu continuidade a uma das parcerias mais profícuas do cinema recente com o diretor David Cronenberg - ele já havia feito com brilhantismo Marcas da Violência, e agora está ainda melhor no papel ambíguo de um mordomo, ou mafioso, ou agente policial infiltrado (só vendo para saber) no crime organizado russo que habita as ruas de Londres. O filme, aliás, é o maior injustiçado do Oscar - deveria estar ao menos entre os cinco concorrentes à principal estatueta em disputa.
Outro injustiçado é No Vale das Sombras, de Paul Haggis, melhor filme entre os vários sobre a guerra do Iraque que foram lançados recentemente. O veterano Tommy Lee Jones atingiu um nível de interpretação raro neste filme tocante - aquele em que o ator ganha o corpo do personagem de tal forma que parece que nenhum outro, em nenhuma circunstância, poderia fazer melhor. No nível de Jones, dos atores vivos, só Clint Eastwood, Robert de Niro, Jack Nicholson e Al Pacino. E alguns mais jovens chegando, sobretudo... Daniel Day-Lewis.
Johnny Depp ganhou, com o barbeiro Sweeney Todd, um dos papéis de sua vida. E George Clooney encarou com maestria o brilhante Michael Clayton construído por Tony Gilroy no filme que em português virou Conduta de Risco. Ainda assim, se Mortensen e Jones já seriam grandes surpresas, esses dois seriam outras ainda maiores. Não devem vencer.
Aqui ainda vale lembrar outras interpretações dignas de premiação que acabaram ficando de fora das indicações: a de Denzel Washington em O Gângster e a de Christian Bale em O Sobrevivente são talvez as duas melhores de suas carreiras, o que por si só já significa muito. Mereciam ser lembrados, também.
Na categoria ator coadjuvante, também parece evidente apontar que chegou a hora de Javier Bardem. Aliás, entre todos os prêmios do Oscar, não há outros que apresentem tanto favoritismo quanto os de interpretação masculina. Também entre as atrizes a estatueta de coadjuvante parece parelha, com novamente Cate Blanchett assumindo um certo favoritismo, desta vez ao lado de Tilda Swinton, de Conduta de Risco, e Saoirse Ronan, de Desejo e Reparação. O prêmio para Ruby Dee, de O Gângster, seria incompreensível - ela mal aparece no filme - somente justificado como uma homenagem à atriz que já leva quase 90 anos de idade.
Conduta de Risco, por sinal, é o único filme dos cinco que concorrem à principal estatueta, a emplacar mais de uma indicação por interpretação. O excelente Tom Wilkinson concorre a ator coadjuvante com, além de Bardem, Casey Affleck, por O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, que já passou em todos os lugares do planeta menos em Porto Alegre, com Philip Seymour Hoffman, de Charlie Wilson%27s War, novo filme do veterano Mike Nichols muitíssimo elogiado lá fora mas ainda inédito por aqui, e com Hal Holbrook, de Into de Wild, outro filme que o escriba aqui não pôde ver - por enquanto.
De qualquer maneira, só Wilkinson já teria totais condições de tirar o prêmio de Bardem - mas não deve fazê-lo porque o assassino criado pelo ator espanhol para a produção dirigida por Joel e Ethan Coen que aparece como favorita ao prêmio de melhor filme tem sido considerado um dos personagens mais marcantes da história recente do cinema. Com toda a razão - não é toda hora que se vê uma construção de personagem tão bem-sucedida como esta.
Não esqueça: o Oscar é amanhã à noite, nos canais Globo (depois do Big Brother) e TNT (às 22h30min).
Postado por Daniel Feix