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Posts de março 2008

Exuberante deserto

31 de março de 2008 0

Passou meio despercebida por Porto Alegre a produção israelense Exuberante Deserto (2006), título original Adama Meshuga%27at, em inglês Sweet Mud. Mas o filme, o primeiro do diretor Dror Shaul a ganhar o circuito internacional, ainda está em cartaz no Aeroguion. E vale o ingresso.

Trata-se de um retrato de um kibutz (comunidades agrícolas muito comuns em Israel até os anos 80) pelos olhos de um menino de 12 anos, que está a uma temporada de completar o Bar Mitzvah (momento simbólico em que os jovens se tornam responsáveis por seus atos). Um retrato bastante crítico: Shaul vê a aldeia como um espaço a tolher as individualidades e a sufocar seus habitantes em nome de seus ideais coletivos - a mãe do protagonista, principalmente, mas também ele próprio, são vítimas de violência nesse sentido.

O diretor nasceu e foi criado num kibutz, o que faz relevar seu testemunho sobre a experiência representada por esse estilo de vida. Mas sua opinião é polêmica: vai de encontro aos relatos mais comuns sobre essas comunidades.

Aí está a grande questão que envolve o filme, e que o levou a sair premiado do Sundance Festival, a mais tradicional vitrine do cinema independente: se do ponto de vista formal Exuberante Deserto é bastante tradicional, acadêmico mesmo, a exposição a que o diretor se submete indica que se está diante de um filme marcadamente autoral e, no mínimo, corajoso.

O que o faz um bom filme, concorde-se ou não com seus argumentos e com o próprio debate que ele suscita, são os inúmeros momentos bonitos da aventura do protagonista, culminando com a cena final, em que ele e uma amiga cruzam os campos às voltas do kibutz de bicicleta, como quem tem pressa em encontrar o futuro, a despeito do que aconteceu no passado.

Abaixo, uma das cenas iniciais, seguida do trailer de Exuberante Deserto.

Postado por Daniel Feix

Mais um pouquinho de 3D

31 de março de 2008 0

Continuando a falar do cinema em 3D, tema de reportagem no Segundo Caderno de hoje. Segundo o gaúcho Ricardo Difini Leite, presidente da Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas, a grande discussão para fazer o 3D pegar começa por definir quem paga o alto custo da migração do sistema analógico para o digital. O 3D nem é tão caro assim diante dos mais de R$ 400 mil necessários hoje no Brasil para digitalizar uma sala com os padrões exigidos pela indústria americana. E Difini diz que só 500 das 2,1 salas do Brasil têm condições físicas e técnicas de serem adaptadas para o digital.

Mesmo nos EUA, como está lá no Segundo Caderno (veja aqui outros links da reportagem: 1 e 2), o processo é incipiente, mas ao menos se discute o rateio dos custos de implantação entre produtores, distribuidores e exibidores, algo que aqui ainda não chegou - e tem a alta carga tributaria do leão brasileiro, que morde cerca de 70% do valor do equipamento. Aqui o custo é todo do exibidor. Chegou-se à conclusão que só migrar para o sistema digital não basta. Em termos práticos, para o espectador, uma projeção digital em alta resolução é idêntica a uma boa projeção em 35mm. A vantagem do sistema digital está nos bastidores, com redução de custos operacionais como transporte e armazenagem de milhares de latas de filme, conservação das cópias, etc. Envia-se o arquivo criptografado com o filme para o servidor do cinema e pronto.

Apesar do começo lento, Difini crê que o Brasil, por ser um grande mercado, se resolver logo os impasses burocráticos, possa ter até o fim de 2009 60 salas digitalizadas, número que poderia chegar a 100 em 2010 e a 500, em 2013. Hoje o Brasil tem apenas cinco, duas no Rio, duas em São Paulo e uma em Florianópolis.

- Digo que o cinema é a sétima arte porque tem sete vidas - brinca Difini.

Assim como Marcelo Bertini, presidente do Cinemark, Difini, um dos sócios da rede GNC, não abre o jogo sobre Porto Alegre ganhar salas digitais em breve. As duas redes vão instalar novas salas aqui até o fim do ano, o Cinemark em um novo shopping na Zona Sul e o GNC, no Iguatemi. Por questões estratégicas, afirmam, isso será decidido “mais adiante”.

Importante lembrar uma coisa nesse papo sobre sala de cinema digital. Não confunda com as exibições que cinemas como o Arteplex costumam fazer. O digital “quente” usa um sistema de projeção em altíssima resolução chamado 2K (com compressão jpeg), padronizado por Hollywood. Esse do Arteplex tem qualidade inferior (1.3, em mpeg) e parte de um projetor originalmente destinado para exibição de comerciais. Em telas pequenas como a da sala 8, fica aceitável, ainda mais se o “filme” for captado em vídeo. Mas na tela grande da sala 1, por exemplo, fica aquela imagem lavada muito a desejar. Como não é o padronizado pelos grandes estúdios, nesse digital só passa filmes brasileiros, europeus e americanos independentes.

Postado por Marcelo Perrone

Paul e os irmãos Coen na terra do sol

30 de março de 2008 2

O melhor duelo cinematográfico sob a terra árida é o de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Nesse filme, o baiano Glauber Rocha (1939 -1981) revela a vida desgraçada do sertão, mostrando de beatos a matadores de aluguel. Mas que raios Deus e do Diabo na Terra do Sol tem a ver com os oscarizados Sangue Negro e Onde os Fracos Não Têm Vez (vencedor de quatro estatuetas, incluindo melhor filme)?

Tudo! Absolutamente tudo, diria o cineasta brasileiro, em tom debochado.

No filme de Glauber, Santo Sebastião e Corisco representam Deus e o diabo. Na cola deles, segue Antônio das Mortes, uma figura sinistra. Quem viu Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen, já matou a charada. Esqueça a metáfora religiosa e rebatize os personagens. Então teríamos Anton Chigurh (Javier Bardem) como Antônio das Mortes. Ambos são impiedosos e cumprem o que prometem. Sem dó.

No outro extremo, Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, revela a epopéia de um zé-ninguém que arrisca a vida para enriquecer. Daniel Plainview (interpretado por Daniel Day-Lewis, Oscar de melhor ator) passa o filme todo duelando com o jovem pastor Eli Sunday (Paul Dano, de Pequena Miss Sunshine). Rapidamente, dá pra identificá-los como Corisco e Santo Sebastião, o diabo e Deus, respectivamente. No entanto – e aí reside o grande trunfo de Sangue Negro –, Daniel e Eli mostram-se ao mesmo tempo homens canalhas e bem intencionados, ainda que sutilmente, e por isso fica difícil rotulá-los.

A situação é totalmente diferente de Onde os Fracos Não Têm Vez, em que Llewelyn Moss (interpretado por Josh Brolin) é o tempo todo o homem de bem que pegou um dinheiro que não era seu, e Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), um xerife à beira da aposentadoria, que retarda o que pode as investigações para sair de fininho e tranqüilo, rumo aos dias intermináveis de lazer. Sem esquecer, é claro, de Anton, matador de aluguel sempre pronto a riscar do mapa gente sem princípios. Porque ele, ao contrário dos demais personagens, é homem de palavra. E o rastro de sangue que deixa para trás confirma isso.

No filme de Glauber, Antônio das Mortes acredita que ao eliminar Deus e o diabo, enfim o sertão será livre. Pensamento descaradamente anarquista. E aqui reside a divergência entre Glauber, os irmãos Coen e Paul Thomas Anderson. Sangue Negro e Onde os Fracos Não Têm Vez são filmes individualistas (para não dizer capitalistas) até o pescoço. Não há sequer uma luz de coletividade. Daniel Plainview, o sedento por petróleo, quer enriquecer a todo custo, assim como Eli, o pastor que deseja aumentar seu rebanho. Ou ainda Llewelyn Moss, que escapa como uma galinha de um lobo para ficar com um dinheiro que não é seu.

As duas produções de Hollywood caem na armadilha de beber da fonte inesgotável de Glauber Rocha, autor do clássico Deus e o Diabo..., produzido há quase 50 anos. Mas como, se é improvável que Paul Thomas Anderson e os irmãos Coen tenham assistido ao filme de Glauber? Isso Freud não explica, mas Carl Jung, sim. O psiquiatra suíço diria que se trata de um rico exemplo de como o inconsciente coletivo conecta pensamentos aparentemente dispersos. E pensar que toda essa ficção tem lá seu fundamento com a realidade parece um absurdo. Mas, no cinema, é assim mesmo. É quase realidade, mas sempre invenção.

Por Marcelo Mugnol

 

Postado por Marcelo Mugnol

Uma noite em Buenos Aires

29 de março de 2008 1

Você já viu esse filme/Buena Vista
 Falando no Coppola em Buenos Aires, segue, com atraso, o comentário sobre o longa argentino O Sinal.

 

Seguir à risca convenções narrativas e visuais de um gênero clássico deve trazer alguma segurança ao diretor estreante. Se cumprir tudo o que o público espera, por hábito e por prazer, pode ter no horizonte meio caminho andado. O ator argentino Ricardo Darín, com apoio do amigo cineasta Martin Hodara, realizou O Sinal (La Señal, 2007) com as bem manjadas regras básicas do policial noir embaixo do braço: o detetive com rosto e coração de pedra, a dissimulada mulher fatal, as falsas aparências, as sombras e as neblinas do cenário, o desejo, o grande golpe, a reviravolta.

A trama é ambientada numa impecavelmente reproduzida Buenos Aires de 1952, onde o detetive particular Corvalán (Darín) mantém com o sócio Santana (Diego Peretti) uma agência de investigação ocupada com casos rotineiros de maridos e esposas infiéis. Quem dá o sopro no tédio é a sedutora Gloria (Julieta Díaz), que contrata Corvalán para seguir um homem. A missão leva o detetive ao submundo da cidade, a uma intrincada rede de crimes e aos braços da cliente. A estas alturas, ensina o manual da femme fatale - ainda mais quando ela é casada com um sujeito rico e perigoso - , esta já fisgou o trouxa para ajudá-la a se dar bem.

Lidar com gêneros e clichês consagrados no imaginário do público não são impeditivos para se fazer filmes bons. Aos talentosos, é um estimulante desafio. Pode-se, para citar só dois exemplos, radicalizar em nome de uma marca autoral inconfundível, como Quentin Tarantino fez com os filmes de artes marciais e os faroestes espaguete em Kill Bill, ou realizar um decalque com tamanho empenho e ousadia que ganharia o selo de qualidade da matriz original, como Todd Haynes em Longe do Paraíso, belo melodrama à Douglas Sirk. O Sinal faz referência à situação política e social da Argentina diante da iminente morte da primeira dama Evita Perón, que agoniza enquanto Corvalán se enreda nos labirintos de violência e paixão, como se o país, tal qual ele, estivesse com um pé à beira do abismo. Esse viés histórico integrado à surrada trama, assim como ser uma rara investida do cinema argentino em filmes de época, são destaques positivos do longa. Mas ficam literalmente à sombra da empreitada, mais braçal que cerebral, que trata clichês apenas como tijolos a serem empilhados sem reboco algum.

Postado por Marcelo Perrone

Coppola em La Boca

27 de março de 2008 0

O diretor encontrou-se nesta quinta-feira com a presidente argentina Cristina Kirchner/Casa Rosada, EFE
O cinéfilo com viagem marcada para Buenos Aires na próxima semana tem boa chance de cruzar com o literalmente grande Francis Ford Coppola, nas ruas ou nos bons restaurantes que ele gosta de freqüentar. O cineasta americano começa a filmar por lá, segunda-feira, seu novo longa, Tetro, que traz no elenco o americano Vincent Gallo, ídolo do cinema indie, e a espanhola Maribel Verdú - com uma ponta do agora oscarizado Javier Bardem.

Coppola, diretor de clássicos como a trilogia O Poderoso Chefão e Apocalypse Now, está há tempo devendo um filme a sua altura. Desde Drácula, na verdade, que é de 1992. Depois de dois filmes fraquinhos, Jack e O Homem que fazia Chover (esse eu quero rever para ver se melhora), ficou 10 anos sem assinar um longa, preferindo ganhar muita grana com sua produção de bons vinhos. Ele voltou à ativa no ano passado com Youth Without Youth, produção autoral com reflexões sobre a velhice e a passagem do tempo que dividiu público e crítica no seu lançamento, no Festival de Roma.

Tetro aborda rivalidades e tragédias numa família de imigrantes italianos que vive em Buenos Aires, é o que se sabe por enquanto. Coppola diz que falar do filme %22perde toda graça%22. Afirma que é um projeto pessoal mas não autobiográfico, realizado em co-produção entre Itália, Argentina e Espanha.

As filmagens devem durar 11 semanas. A principal locação é o bairro portenho de La Boca, tradicional reduto italiano da cidade, com cenas também em Bariloche, na Patagônia e na cidade espanhola de Alicante.

- Gosto de aprender sobre novos lugares e quería aprender espanhol - disse o mestre. - Me interessava por Buenos Aires por sua boa comida e sua boa gente. A Argentina tem uma grande tradição cultural, literária, musical e cinematográfica.

Com informações da DPA.  

 

 

Postado por Marcelo Perrone

A Coragem do Preço

26 de março de 2008 2

Lamentável o que a projeção do Guion Center fez com o filme O Preço da Coragem - pelo menos na sessão das 20h15min do último sábado. Bem que eu estava achando estranho a opção do talentoso diretor Michael Winterbottom de contar à la Amnésia a história do jornalista americano Daniel Pearl (Dan Futterman, que também foi o roteirista de Capote), seqüestrado em Karachi (Paquistão) no pós-11 de Setembro.

Pois qual seria o sentido de, depois de revelar o trágico destino do repórter e a dor lancinante de sua mulher, grávida de seis meses (Angeline Jolie, em desempenho superestimado), criar toda uma tensão investigativa? Não entendia por que, depois de entregar o ouro a quem ainda não conhecia esse episódio real e recente, o cineasta resolvera adotar a bem-sucedida fórmula do docudrama de suspense, na linha de O Caminho para Guantánamo (do próprio Winterbottom) e de Vôo United 93 (de Paul Greengrass) - neste último, por exemplo, a gente chega a torcer para que o avião não caia. Ainda na sala do Guion Center, fiquei encucado. Ainda mais que as datas da narrativa - supostamente cronológica - surgiam fora de ordem cronológica.

Disse para minha mulher, Beatriz: esse filme foi mal projetado, houve algum problema com os rolos. Na segunda-feira, passei a limpo O Preço da Coragem com o Roger e o Perrone, que haviam assistido na Mostra Internacional de São Paulo. O grito da personagem de Jolie, que vi, sem dúvida, na primeira meia hora de filme, na verdade só deveria aparecer a 10 minutos do final. Conclusão: sim, o Guion Center projetou mal o filme, houve problema com os rolos. Mas o pior estava por vir: o Perrone falou com o Carlos Schmidt, dono do Guion, relatou o que eu havia presenciado, e o Schmidt ficou de %22investigar%22.

Hoje é quarta-feira, 16h55min, e não tivemos resposta. Portanto, se você foi assistir a O Preço da Coragem%22 e viu Angelina Jolie gritar antes de estar perto do fim, saiba que não é este o filme que Michael Winterbottom dirigiu, mas o filme que o Guion Center projetou. Nós avisamos.

Postado por Ticiano Osório

É Tudo Verdade em Caxias

25 de março de 2008 0

No ano passado, a etapa de Porto Alegre do É Tudo Verdade exibiu em primeira mão preciosidades como Santiago, de João Moreira Salles. Em 2008, o maior e mais importante festival de documentários da América Latina, que amanhã começa a maratona em São Paulo e no Rio, deixou a Capital de fora das mostras itinerantes. Mas não o Rio Grande do Sul. Uma pequena seleção de docs de vários países poderá ser conferida em Caxias, de 24 a 27 de abril. Confira a programação. Mais informações em www.etudoverdade.com.br

Loca: UCS Cinema - Cidade Universitária Galeria Central - Rua Francisco Getúlio Vargas, 1130

24/04 quinta-feira

 20h00 Abertura - Vencedor da Competição Brasileira Longa/Média Metragem

25/04 sexta-feira

16h00 Porta 12 / Door 12 / Pablo Tesoriere / 90min

18h00 American Psyche / American Psyche / Paul van den Boom / 55min

20h00 Também Queremos as Rosas / We Want Roses Too / Alina Marazzi / 85min

26/04 sábado

 16h00 Descrição de uma Memória / Description of a Memory / Dan Geva / 80min

18h00 Um Segundo Olhar - Social Club Buena Vista / At second glance - Social Club Buena Vista / Carsten Möller / 85min

20h00 Paulo Gracindo - O Bem-Amado / Paulo Gracindo - The Well Beloved / Gracindo Junior / 84min

27/04 domingo

16h00 Palavras de Conselho - Na Estrada com William S. Burroughs / Words of Advice - William S. Burroughs on the Road / Lars Movin. Steen Moller Rasmussen / 74min 

18h00 De Braços Abertos / With Open Arms / Bel Noronha / 52min

20h00 Geração 68 / Generation 68 / Simon Brook / 53min

Postado por Marcelo Perrone

Cadê Manda Bala?

24 de março de 2008 0

Cena do documentário de Jason Kohn
Você já deve ter ouvido falar de Manda Bala (Send a Bullet, 2007). Trata-se do documentário sobre corrupção política e violência urbana no Brasil que ganhou a competição de docs e o prêmio de melhor fotografia no Festival de Sundance do ano passado, lembra? Pois o filme dirigido por Jason Kohn foi o maior vencedor do Cinema Eye Honors (CEH), premiação entregue nos Estados Unidos na semana passada.

O CEH é uma premiação criada para se contrapor às escolhas de outros eventos, como o Oscar, na categoria de melhor documentário de longa-metragem. %22Os melhores documentários não são necessariamente os de maior valor jornalístico ou de ativismo%22, disse AJ Schnack, um de seus fundadores, na cerimônia na qual se destacou Manda Bala, explicando o propósito do Cinema Eye Honors. %22O CEH existe porque nós, como cineastas, reconhecemos que, desde os primeiros tempos, gente como (Dziga) Vertov e (Robert) Flaherty fizeram escolhas criativas%22.

Pois se o Sundance e, agora, um evento como esse consagra o filme de Jason Kohn, é de se perguntar quando nós, brasileiros, vamos poder ver Manda Bala. O Docblog, do jornal O Globo, voltou a falar da polêmica em post recente. Mas explica mais detalhadamente o que pode emperrar a exibição do filme no Brasil neste post aqui.

Um trechinho:

%22Por aqui, um manto de silêncio caiu sobre o filme. O pessoal do Festival do Rio bem que tentou incluí-lo na programação, mas deparou-se com a alegação de que Manda Bala não pode ser exibido no Brasil por causa de um processo movido pelo deputado e ex-senador paraense Jader Barbalho. No filme, Jader é acusado de desviar dinheiro público para uma criação de rãs em nome da sua mulher.

(...) Entre os que já viram o filme, há quem elogie o estilo à Errol Morris e a fotografia da curitibana Heloísa Passos. Mas há também quem critique as generalizações e o sensacionalismo de Jason Kohn. As cópias de Send a Bullet circulam no exterior com uma cartela inicial pespegada pela produção, que diz: %27Este filme não é para ser exibido no Brasil%27. A afirmação ambígua trai uma intenção de baixo marketing, sugerindo ao mesmo tempo um banimento e uma presunção de gravidade.

O diretor já andou declarando que não quer mesmo que seu filme passe no país a que se refere e onde foi filmado. A razão? %27Meu pai mora no Brasil e seria perigoso%27. Sendo assim, adensa-se o mistério. Manda Bala está interditado ou deliberadamente negado ao público brasileiro?%22

Abaixo, o trailer do filme:

Postado por Daniel Feix

A odisséia de Kubrick (2)

22 de março de 2008 0

Júpiter, lá vamos nós!/Warner
(continuando)

Da primeira questão, o que todos ressaltam é que o talento perfeccionista de Stanley Kubrick encontrou uma feliz parceria com outro gênio, o escritor Arthur C. Clarke, que morreu na terça passada. Clarke tinha acesso a dados privilegiados da Nasa, a agência espacial americana, e escreveu o roteiro de 2001 com Kubrick municiado pelo que de mais novo havia no campo da  exploração espacial, então na feroz disputa entre EUA e URSS para ver quem subia mais alto - as naves do filme seguiram esboços de projetos reais da Nasa, entre outros preciosismos.

Kubrick, por sua vez, estimulou a criação de novas lentes e câmeras, criou cenários espetaculares, como a incrível centrífuga para simular efeitos da gravidade - que exigiu grande esforço físico dos atores -, e bolou inovadores truques ópticos, admiráveis ainda na era da computação gráfica. Tem quem garanta que se Kubrick tivesse os recursos digitais de hoje, os efeitos visuais de 2001, de tão avançados, seriam praticamente os mesmos.

Sobre o que de 2001 filme virou verdade no 2001 ano. É importante lembrar que o futuro previsto em meados dos anos 60 tinha por base aquela realidade – portanto, natural que o design do filme tenha linhas %22sixties%27. Especialistas garantem: se os avanços da ciência espacial seguissem nas décadas futuras o ritmo daqueles primeiros anos de disputa entre americanos e soviéticos, poderiam haver, sim, sete anos atrás, naves tripuladas rumando por outros planetas e estações espaciais habitáveis. O ritmo daquela disputa foi espetacular, com cada feito de um respondido por feito ainda maior do outro. Em menos de uma década, vôos supersônicos evoluíram para arriscadas missões na órbita terrestre e, finalmente, o primeiro passo do homem na Lua. A inteligência artificial, grande fixação de Kubrick, virou realidade. No filme também se vê um tipo de intercomunicação audiovisual hoje bastante comum. Mas pousar na Lua logo deixou de ser façanha e virou rotina, os investimentos militares se tornaram prioritários e os EUA, ao ficarem sozinhos na corrida, estabeleceram seu próprio ritmo.

Em resumo, ir ao infinito e além perdeu a graça sem a concorrência e é muito, muito caro.

Uma coisa é apontada como “furo” de 2001. Sem prever os avanços da microeletrônica, Hal, o computador genioso que sabota a missão, é, como eram os supercomputadores de antanho, um trambolhão que ocupa uma sala e tem placas de memória do tamanho de tijolos.

Você sempre ficou boiando tentando saber que raios o monólito negro tem a ver com a história e o que é aquele final com o astronauta no quarto ficando cada vez mais velho? E aquele bebê? Não se preocupe, muitos dos famosos fãs de 2001 também não entenderam patavinas. Dizem que não é um filme para ser %22entendido%22. É para ser %22sentido%22 como experiência única e eternamente fascinante.

Falando em Arthur C. Clarke, o blog vizinho Mundo Livro fez uma bela homenagem ao autor que agora vê mais de perto as estrelas, os planetas e as galáxias que tanto amava. E o Carlos André Moreira, titular do Mundo Livro, escreveu sobre o Clarke no caderno Cultura deste sábado.

  

 

Postado por Marcelo Perrone

A odisséia de Kubrick (1)

22 de março de 2008 1

Ao infinito e além/Warner
Quem freqüenta esse blog viu, tempinho atrás, que falamos da tentação que é para um colecionador de filmes ver seus favoritos ganharem um nova e turbinada edição em DVD. Listamos algumas dessas versões obrigatórias. Tem mais uma agora: 2001: Uma Odisséia no Espaço, a obra-prima de Stanley Kubrick. Do cineasta, aliás, a Warner já havia relançado, com a irresistível fartura de extras, Laranja Mecânica, O Iluminado e De Olhos Bem Fechados.

O DVD duplo comemorativo aos 40 anos do lançamento de 2001 foi tema de comentário nesta sexta em ZH (leia aqui). Mas o espaço e o tempo nunca parecem suficientes para dar conta da importância de uma preciosidade dessas. Sempre parece que coisas mais importantes poderiam ser destacadas, enfim...

As horas de material extra destrincham 2001 do início do projeto, lá por 1964, mostram a obsessão de Kubrick pela precisão visual e científica da sua antevisão do futuro – que envolveu renomados cientistas e os melhores técnicos em efeitos especiais da época – relembram os bastidores das filmagens em Londres, trazem entrevistas atuais com técnicos, críticos e cineastas que foram abduzidos por 2001, abordam a narrativa filosófica-mística-existencial e prestam reverência à genialidade visionária de Kubrick - Steven Spielberg e George Lucas dizem até hoje se perguntar: “como ele fez isso?”.

Dois temas, entre tantos abordados, chamam a atenção: como um filme de ficção científica de 1968 consegue se mostrar arrojado ainda hoje, tanto na narrativa quanto no visual? O quanto do que foi prospectado para o ano de 2001 de fato se concretizou?

(continua)

Postado por Marcelo Perrone

Lumière e companhia

19 de março de 2008 0

Falou-se, alguns posts atrás, no projeto coletivo Cada um com seu Cinema, que está passando aos sábados em Porto Alegre, todas as semanas, nas habituais sessões de pré-estréia do Unibanco Arteplex. Pois o filme - que reúne 30 curtas de três minutos assinados por alguns dos melhores diretores da atualidade, todos bastante pessoais da relação de cada um deles com o cinema - está longe de ser o primeiro do gênero.

Outros filmes recentes que seguem a mesma linha são Paris, te Amo, com episódios sobre a cidade francesa, e 11 de Setembro, que tem como tema o ataque terrorista às torres gêmeas, em Nova York. Mas há outro que lembra ainda mais Cada um com seu Cinema: Lumière e Companhia, filme que reúne 40 cineastas internacionais, vários deles presentes em Cada um com seu Cinema, todos seguindo a diretriz de filmar um curta relacionado ao... cinema.

Cada um com seu Cinema foi concebido para marcar o aniversário de 60 anos do Festival de Cannes, em 2007. Já Lumière e Companhia, para marcar o centenário da primeira projeção de cinema, em 1995. O mais divertido é que, diferentemente do projeto mais recente, a liberdade dos autores ficou bastante restrita: eles tiveram de utilizar a mesma câmera inventada pelos irmãos Lumière que deu origem ao filme projetado em 1895 e foram obrigados a se valer de condições técnicas semelhantes às utilizadas cem anos antes. Além disso, nenhum episódio podia ultrapassar os 52 segundos de duração.

Não vi o filme inteiro, só alguns desses episódios, todos garimpados no Youtube. O que se pode fazer com a maior facilidade: basta acessar youtube.com e digitar no campo de pesquisa a expressão %22lumiere & company%22 ou então %22lumiere et compagnie%22, que praticamente todos os curtas aparecerão listados. Há trabalhos de Peter Greenaway, Spike Lee, Wim Wenders e Abbas Kiarostami, entre muitos outros. Abaixo, um aperitivo: o de David Lynch. Esquisitão, como de costume.

Postado por Daniel Feix

Sabia escrever

19 de março de 2008 0

Arthur C. Clarke (1917-2008)
Além de Anthony Minghella, outro que merece uma homenagem é Arthur C. Clarke, o escritor de ficção científica de quase uma centena de livros publicados e um roteiro que resultou num dos grandes filmes da história do cinema. O autor morreu ontem, aos 90 anos, no Sri Lanka, onde morava desde a década de 50.

O roteiro referido é o de 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968), escrito por Clarke em parceria com o diretor do filme, o mestre Stanley Kubrick, a partir de sua obra. Este ano, por sinal, 2001 completa 40 anos de seu lançamento - razão pela qual está ganhando um DVD comemorativo, que, coincidentemente, está chegando às locadoras esta semana.

É uma ótima oportunidade para rever o filme - e perceber o quanto, apesar de a realidade imaginada pelos autores ser muito distante da que se vê atualmente, ele continua atual nas reflexões suscitadas e na crítica social que exercita.

Abaixo, uma seqüência da %22alvorada do homem%22, na parte inicial do filme - bem antes da aparição do célebre computador Hal 9.000 e da luta pela vida no espaço. Preste a atenção, no trecho a partir de 5min30seg, na sensacional montagem de Ray Lovejoy. A cena funciona como alegoria da descoberta da tecnologia por parte do ancestral humano - que vai desencadear tudo o que o espectador verá dali para a frente.

Postado por Daniel Feix

Sabia filmar

19 de março de 2008 0

Anthony Minghella (1954-2008)
Vai aqui uma homenagem nossa a Anthony Minghella, diretor de O Paciente Inglês (1996), O Talentoso Ripley (1999) e Cold Mountain (2003), que morreu hoje vítima de uma hemorragia cerebral - ele lutava contra um câncer nas amídalas e já havia sido operado na semana passada.

Um dos mais talentosos cineastas britânicos da atualidade, Minghella tinha 54 anos e estava no auge: construía uma obra sólida na linha dos grandes dramas épicos tradicionais daquele país, nos quais chamava a atenção a sua grande capacidade de dirigir atores - seus três maiores filmes são prova contundente dessa qualidade.

Ele também dirigiu Um Romance do Outro Mundo (1990), Um Amor de Verdade (1993), Play (2000) e Invasão de Domicílio (2006) e deixou pronto The nº 1 Ladies Detective Agency, filme adaptado da obra de Alexander McCall Smith que tem estréia prevista para este ano nos EUA e na Europa. Estava filmando New York, I Love You e ainda tinha outro projeto em mente, The Ninth of Louis Drax.

Também investia na carreira de produtor - entre outros, assinou a produção de dois concorrentes ao Oscar 2008, Conduta de Risco e Desejo e Reparação (no qual também faz uma ponta, como o apresentador do programa de televisão das cenas finais).

A cena abaixo, quem não lembra?, é uma das mais marcantes de O Paciente Inglês, com Ralph Fiennes e Kristin Scott Thomas, vencedor de nove Oscar, incluindo melhor filme, diretor, fotografia, montagem, direção de arte e atriz coadjuvante (para Juliette Binoche).

Postado por Daniel Feix

Propriedade Privada

15 de março de 2008 0

Isabelle Huppert, Yannick e Jérémie Renier no filme de Joachim Lafosse/Imovision
Nas primeiras cenas de Propriedade Privada (2006), em cartaz no AeroGuion 3, o diretor belga Joachim Lafosse abre para a platéia as portas da casa de uma família que parece incapaz de transpor os limites da propriedade, como no filme O Anjo Exterminador (1962). Diferentemente do clássico do cineasta Luis Buñuel, porém, o aprisionamento dos personagens na produção belga é psicológico, ambíguo - mas nem por isso menos paralisante do que o literal confinamento dos burgueses na história do mestre surrealista.

Em seu terceiro longa, o roteirista e realizador Lafosse criou um huis-clos de tensão dramática crescente, mostrando como o relacionando entre uma mãe e seus dois filhos crescidos vai aos poucos colapsando sob o peso da imobilidade. Pascale (Isabelle Huppert, em mais uma soberba atuação) engata um namoro com um vizinho (Kris Cuppens) e pensa em abrir uma pousada com o novo namorado, desfazendo-se da grande casa de campo herdada do ex-marido (Patrick Descamps), onde ela vive com os gêmeos bivitelinos Thierry (Jérémie Renier) e François (Yannick Renier). Apesar de já adultos, os irmãos passam quase todo o tempo dentro de casa e não planejam abandonar o lar tão cedo, reagindo negativamente tanto à notícia do namoro da mãe quanto à idéia de vender a propriedade. Mesmo decidida a mudar de vida, Pascale não consegue impor a vontade aos filhos, esquivando-se do confronto e submetendo-se aos caprichos e abusos dos dois - especialmente do irascível Thierry, que se apressa a colocar o pai contra a ex-mulher na questão.

Sob a moldura da câmera estática de Lafosse, as três figuras centrais de Propriedade Privada vão alimentando recalques e frustrações até que o periclitante laço que os une rompa-se em uma tragédia. Não é apenas metáfora a imagem de rancor alimentado - um dos elementos mais significativos do filme é a simbologia relacionada à comida: Thierry e François estão sempre comendo o que Pascale lhes prepara, as refeições à mesa são um campo de batalha onde cada um ataca e se defende do outro. A família se devora. Lafosse acerta ao observar esse gradual dilaceramento de maneira distanciada, sem sentimentalismos ou melodramas.

A ação se desenrola como um quadro diante do espectador, em que os personagens entram e saem de cena, sem perturbar a rigidez do enquadramento - em Propriedade Privada, o espectador é tão testemunha desse drama quanto a casa. Outro ponto a favor do filme é a curiosa ambivalência com que se dão as interações entre a mãe e os irmãos, em conjunto e separadamente: parece que as coisas funcionam melhor quando apenas dois deles estão se relacionando - é a chegada da terceira figura que destrói o diálogo. Ao mostrar pais e filhos que se eximem de suas responsabilidades e fogem de seus papéis, Propriedade Privada constrói um impressionante retrato de família estilhaçado.

Roger Lerina

Postado por Roger Lerina

Brizola no Festival do Recife

14 de março de 2008 4

Leonel Brizola no exílio, no Uruguai/Banco de Dados ZH

Surpreendente a seleção do documentário Brizola: Tempos de Luta, do Tabajara Ruas, paraa décima segunda edição do Cine-PE, o Festival do Recife, que acontece de 28 de abril a 4 de maio. Os oito longas-metragens concorrentes foram anunciados hoje pela organização do evento. Além do filme gaúcho, estão no páreo Bodas de Papel (SP), de André Sturm, Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife (documentário, PE), de Leo Falcão, Nossa Vida não Cabe num Opala (SP), de Reinaldo Pinheiro, O Retorno (doc., SP), de Rodolfo Nanni, Olhar de um Cineasta (doc., SC), de César Cavalcanti, Ouro Negro (RJ), de Isa Albuquerque, e Simples Mortais (DF), de Mauro Giuntini.

Brizola: Tempos de Luta, rodado em vídeo digital e finalizado apenas para distribuição em DVD, teve um lançamento discreto: foram produzidas poucas cópias, todas reservadas ou para exibições em sessões especiais ou para serem doadas a instituições culturais, e, ao menos inicialmente, não estava previsto qualquer lançamento no circuito tradicional das salas de cinema.

Mas o nome Brizola, e as próprias qualidades do filme - que, se é tradicional do ponto de vista da linguagem e exalta a figura do ex-governador, reproduz com rara felicidade alguns momentos de sua vida -, falaram mais alto. E Tempos de Luta acabou conquistando espaços maiores.

Ainda vai conquistar, na verdade - ou alguém duvida de que, tendo sido selecionado para o Cine-PE, e, além disso, tendo esgotado o número inicial de DVDs produzidos para a distribuição, a estratégia de lançamento não pode ser ampliada a ponto de o filme ganhar exibições direcionadas ao grande público e, quem sabe, o circuito comercial?

Embora bem mais jovem que os festivais de Gramado e Brasília, com os quais o Cine-PE compartilha semelhanças no que diz respeito a formato, a mostra recifense já se afirmou como uma das mais importantes do país. Tabajara deve estar vibrando - com toda a razão.

Postado por Daniel Feix