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Posts do dia 8 abril 2008

O cinema na era de sua retaliabilidade técnica

08 de abril de 2008 0

Aproveito a gentileza do pessoal de cinema, que me deixa vir aqui de vez em quando e escrever umas coisas, para fazer uma provocação e tentar iniciar um debate.

Li recentemente mais de um texto em revistas sobre cinema informando que a %22versão extensa%22 de uma determinada obra cinematográfica, ou o %22corte do diretor%22, como dizem lá fora, parecia melhor do que a versão que foi para as telas, muitas vezes por pressões do estúdio, inconformado com estouros de orçamento, de prazos, ou simplesmente porque há uma noção mercadológica de que um filme muito longo afasta espectadores – cada vez menos considerada, diga-se. Li opiniões a esse respeito sobre Quarteto Fantástico (acho brabo) e Cruzada (mais brabo ainda), dizendo que as versões ampliadas dariam mais tempo para desenvolver a história e evitariam coisas como superficialidade e saltos abruptos.

Sei não... Stanley Kubrick já dizia – ecoando o que muito antes o próprio Eisenstein havia especulado ao formulas seu conceito de montagem ideológica – que a grande contribuição narrativa do cinema para a arte era justamente o processo de corte, edição e montagem. Para Kubrick, a imagem e sua captação vieram da fotografia. A interpretação dos atores, do teatro. O roteiro e os diálogos, da literatura e também do teatro. Muitas técnicas de câmera que o cinema utiliza nada mais são que a aplicação visual de artifícios literários narrativos. Já a montagem e a edição seriam em sua visão cinema puro, o momento em que se pega 20 horas de material filmado e se reduz a duas, uma e meia – três se o diretor for o Peter Jackson.

É hora de juntar tudo o que se disse acima para refletir um pouco sobre o efeito da aparição do mercado de DVD na indústria do cinema. Parece que o DVD surge, na arte, como um sintoma da síndrome de acumulação sensorial infantil que acomete a nossa época: a ilusão de que, com tantas opções à disposição, pode-se ter tudo, abolindo o processo de escolha. No cinema isso me parece refletido nessa glorificação do entulho que muitas vezes se confunde com negação da obra. Se cinema é um filme montado, com uma duração específica e com uma estrutura definida – ou %22abandonada%22 como dizem alguns cineastas querendo fazer pose – eu promovo com o DVD o acessório em detrimento do essencial.

Por quê? porque o filme que vai para o DVD é outro filme, muitas vezes melhor do que o produzido para o cinema (o que mostra o quanto o cinema como indústria hoje em dia parece desleixado com seu %22consumidor%22). Em outra circunstância, entope-se o disco com os chamados %22extras%22 e o filme em si passa a segundo plano – tanto que as críticas em revistas especializadas consideram pobre, mixuruca e adjetivos quetais o disco que vier %22só%22 com o filme. Mas peralá, cara-pálida. O filme era pra ser o centro da parafernália.

É como o sujeito que compra um livro e não gosta porque o volume traz só a história, e não toda a fortuna crítica nem as ilustrações nem o diário e os esboços do escritor. Na Literatura há um exemplo considerado clássico desse tipo de discussão: o romancista John Fowles (de quem a Objetiva está lançando aqui no Brasil uma nova tradução de A Mulher do Tenente Francês) reescreveu completamente seu livro O Mago, provocando uma exacerbada discussão sobre qual das duas versões deveria ser considerada a que vale (não é como no caso de Bob Dylan, que é cantor, compositor e considera a performance no palco uma forma de arte diversa da música em si, por isso muda sempre o arranjo das músicas. Escritor entrega ao leitor seu livro, senão seria o caso de colocar escritores numa vitrine e cobrar ingresso para vê-los escrever, o que seria um tédio).

E para mim o nó dessa discussão se resume a duas instâncias. A primeira é que o consumidor de DVD quer ver no disco as cenas que o diretor achou que deveria cortar do filme, ou seja, eu quero algo que contraria o processo de escolha que rege uma obra. A segunda é que, como o filme é indústria coletiva e sempre tem um para dar pitaco, sempre houve casos de filmes cuja produção foi atravancada por colegiados de %22executivos%22 que exigiram modificações ou as um impuseram na marra. E com o DVD parece que isso ficou ainda mais claro: corta, corta, corta, e o que não couber guarda rpa versão em DVD.

A comparação anterior com livros me fez lembrar que com edições escritas há processos semelhantes, mas a comparação dos originais – quando há originais para comparar, obviamente –, é feita para entender o processo criativo do autor, e não me parece que seja a mesma coisa. Quem compara originais são uns 10 ou 12 acadêmicos, e muita gente não está nem aí pra quantas vezes Flaubert escreveu e reescreveu o primeiro capítulo de Madame Bovary. O livro é a obra, já %22montada%22, digamos assim, e esse cinema da era do DVD me parece lançar um livro com apêndices em que se inclua todos os capítulos que o escritor cortou.

Talvez não haja nada de mais nisso, no fim. Mas eu particularmente não deixo de achar estranho.

Postado por Carlos André Moreira