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Posts do dia 11 abril 2008

Da série cara certo para o filme errado

11 de abril de 2008 2


Parece haver uma certa fórmula vigente nos estúdios de Hollywood hoje segundo a qual biografias de artistas precisam seguir mais ou menos o mesmo roteiro.

Muitas vezes, o roteiro enquadra seu pergonagem no clichê do gênio temperamental (como o Picasso, vivido por Anthony Hopkins) ou desajustado (Ed Harris como Pollock) . Ajuda também se o biografado tiver como ramo de atividade algo mais familiar ao moderno showbiz, como músicos (veja o novo Beethoven, por exemplo, também gênio temperamental – e também vivido por Ed Harris) e, principalmente, astros de rock, já que no rock ainda se encontra toda uma mitologia de segunda mão que faz a delícia dos roteiristas, como ascensão fulminante, queda estrondosa e recuperação heróica – ou fim trágico, o que dá no mesmo.

A lista é imensa e inclui desde Ray, com Jamie Foxx como Ray Charles, e Johnny e June, com River Joachim Phoenix como Johnny Cash (que parecem ter o mesmo roteiro com atores diferentes: infância pobre, difícil, obsessão por irmão morto na infância, mergulho nas drogas e redenção) até o exemplar nacional Cazuza, que transforma seu personagem vivido por Daniel Oliveira não em uma pessoa, mas em uma máquina de produzir frases de efeito.

Quero dizer com toda essa introdução que, dado esse estatuto vigente, biografias de escritores só ganham as telas quando o próprio escritor já não era lá muito bom da cabeça, como a Sylvia Plath vivida por Gwyneth Paltrow ou a Íris Murdoch de Kate Winslet/Judi Dench. O que infelizmente retira muito das chances de um dia vermos no cinema a vida de um dos maiores contistas de todos os tempos, o médico russo Anton Tchekhov – ao contrário de um Dostoiéwski torturado ou de um Tolstói messiânico, ele foi um sujeito que ganhou a vida escrevendo, trabalhou duro a maior parte do tempo e, se tragédia houve em sua história, ela está no fato de que ele morreu com apenas 44 anos.

Pena. Se a tal biografia rolasse, Edward Norton, o ator certo para o papel, já estaria por aí, dando sopa, como vocês podem ver nas imagens deste post.

Ah, sim. Como vocês devem imaginar, Tchekhov, que viveu no século 19, antes da invenção do filme colorido, portanto, é o da foto preto-e-branco.

Postado por Carlos André Moreira

Retiro serrano, sai ou não sai?

11 de abril de 2008 0

Castelar e Nélson Dantas no País dos Generais foi o vencedor da edição passada do Festival de Cinema de Gramado. Além do Kikito de melhor filme, a produção ganhou ainda uma minitemporada na cidade para o desenvolvimento de um novo projeto. Já estamos em abril de 2008 e ainda não há a definição de quem virá para Gramado usufruir do clima serrano para escrever um roteiro. A organização do festival diz que já entrou em contaro com Carlos Prates, diretor de Castelar e Nélson Dantas... Prates, no entanto, em entrevista por telefone, nega que alguém tenha lhe procurado.

- Não tô pensando nisso agora. Tô mais preocupado com a Petrobras que precisa depositar as parcelas atrasadas para que eu possa organizar o lançamento comercial do filme - desconversa.

Postado por Marcelo Mugnol

O bom selvagem

11 de abril de 2008 1

Emilie Hirsch em Na Natureza Selvagem, quarto longa dirigido por Sean Penn

O diretor Sean Penn levou 10 anos até obter a autorização da família de Christopher McCandless para filmar Na Natureza Selvagem. Nesse período, refez todos os passos do garoto, da Dakota do Sul ao Alasca, encontrando-se com as mesmas pessoas com as quais ele havia se encontrado e colhendo todas as informações que conseguisse para se manter fiel à biografia homônima de Jon Krakauer (lançada em 1997). Seu envolvimento com a aventura foi tamanho – e durou tanto tempo – que permite questionar se ele tomou o distanciamento adequado para levá-la ao cinema.

Afinal, quem foi o jovem exemplar de 23 anos que, surpreendendo a todos, doou os dólares que tinha, queimou a própria carteira de identidade, adotou o pseudônimo Alex Supertramp e entre 1990 e 1992 atravessou os EUA para buscar no contato com a natureza as realizações que não obtivera com as pessoas a sua volta? Aos olhos de um diretor como Werner Herzog (o isolamento final do personagem torna inevitável a lembrança de O Homem Urso, de 2005), as esquisitices de McCandless talvez tivessem sido potencializadas – ou, ao menos, sua imaturidade e seu idealismo cego teriam sido ressaltados. Aos olhos de Penn, a história de McCandless é contada com poesia e, sobretudo, romantismo – e o protagonista é um menino antes de qualquer coisa doce e generoso, capaz de encantar a todos com quem cruza ao longo da jornada.

Penn comprou o discurso meio rebelde, meio hippie de McCandless. Mesmo que a partir de um ponto de vista limitado, no entanto, não deixou de mergulhar profundamente em sua história. A câmera do diretor de fotografia Eric Gautier (de Diários de Motocicleta e Medos Privados em Lugares Públicos) literalmente adentra a neve, o mato e até a água para acompanhar o protagonista, integrando de maneira orgânica as paisagens à trama. A trilha sonora do roqueiro Eddie Vedder (da banda Pearl Jam) é, no mínimo, emocionante. A montagem de Jay Cassidy (de Uma Verdade Inconveniente), impecável. E o grande elenco de apoio (destaque para o veterano Hal Holbrook no papel do sentimental Ron Frantz), com raras exceções, está plenamente afinado.

Ainda assim, nada que se compare ao grande trabalho realizado por Emilie Hirsch. Para se transformar em McCandless, ele perdeu 18 quilos, passou por provações físicas e psicológicas – e acabou alcançando um desempenho raro de se ver, em se tratando de um ator de apenas 22 anos. Não é por pouca coisa que Na Natureza Selvagem tem conquistado a simpatia de tantos espectadores.

Postado por Daniel Feix