
Parece haver uma certa fórmula vigente nos estúdios de Hollywood hoje segundo a qual biografias de artistas precisam seguir mais ou menos o mesmo roteiro.
Muitas vezes, o roteiro enquadra seu pergonagem no clichê do gênio temperamental (como o Picasso, vivido por Anthony Hopkins) ou desajustado (Ed Harris como Pollock) . Ajuda também se o biografado tiver como ramo de atividade algo mais familiar ao moderno showbiz, como músicos (veja o novo Beethoven, por exemplo, também gênio temperamental – e também vivido por Ed Harris) e, principalmente, astros de rock, já que no rock ainda se encontra toda uma mitologia de segunda mão que faz a delícia dos roteiristas, como ascensão fulminante, queda estrondosa e recuperação heróica – ou fim trágico, o que dá no mesmo.
A lista é imensa e inclui desde Ray, com Jamie Foxx como Ray Charles, e Johnny e June, com River Joachim Phoenix como Johnny Cash (que parecem ter o mesmo roteiro com atores diferentes: infância pobre, difícil, obsessão por irmão morto na infância, mergulho nas drogas e redenção) até o exemplar nacional Cazuza, que transforma seu personagem vivido por Daniel Oliveira não em uma pessoa, mas em uma máquina de produzir frases de efeito.
Quero dizer com toda essa introdução que, dado esse estatuto vigente, biografias de escritores só ganham as telas quando o próprio escritor já não era lá muito bom da cabeça, como a Sylvia Plath vivida por Gwyneth Paltrow ou a Íris Murdoch de Kate Winslet/Judi Dench. O que infelizmente retira muito das chances de um dia vermos no cinema a vida de um dos maiores contistas de todos os tempos, o médico russo Anton Tchekhov – ao contrário de um Dostoiéwski torturado ou de um Tolstói messiânico, ele foi um sujeito que ganhou a vida escrevendo, trabalhou duro a maior parte do tempo e, se tragédia houve em sua história, ela está no fato de que ele morreu com apenas 44 anos.
Pena. Se a tal biografia rolasse, Edward Norton, o ator certo para o papel, já estaria por aí, dando sopa, como vocês podem ver nas imagens deste post.
Ah, sim. Como vocês devem imaginar, Tchekhov, que viveu no século 19, antes da invenção do filme colorido, portanto, é o da foto preto-e-branco.
Postado por Carlos André Moreira




