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Posts de abril 2008

O Brasil em Cannes

30 de abril de 2008 0

Ontem, quando chegou a confirmação que Ensaio sobre a Cegueira havia sido confirmado na mostra competitiva do Festival de Cannes, foi aquela correria. Conseguimos falar por e-mail com o sempre solícito e gente fina Fernando Meirelles, papo que pode ser conferido no Segundo Caderno de ZH desta quinta-feira.

Como Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas,  já havia sido anunciado na primeira lista de filmes concorrentes à Palma de Ouro, ficou a dúvida: quantas vezes o Brasil colocou dois diretores (certo, são três com a Daniela), ou dois filmes na principal mostra do mais importante festival do mundo? Deu um trabalho do cão pesquisar ano a ano as 61 edições de Cannes, mas trabalho é nosso nome do meio. Antes, é preciso dizer que Ensaio sobre a Cegueira representa o Canadá na disputa.

Bom, dobradinha 100% brasileira, filme e diretor, teve duas: em 1964, com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber  Rocha, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos (que dupla!!!), e em 1970, com O Alienista, outra vez Nelson, e O Palácios dos Anjos, de Walter Hugo Khouri. Em 1954, tivemos dois representantes do Brasil: O Canto do Mar, de Alberto Cavalcanti, e Feitiço do Amazonas, mas esse dirigido pelo polonês que andava por aqui Zygmunt Sulistrowski.

Breve, quando sobrar um tempinho, sei lá quando, coloco aqui, e  só aqui, a lista de todos os representantes do Brasil na disputa da Palma de Ouro, saldo da trabalheira - não esqueçam que já temos uma, para O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, em 1962. 

Postado por Marcelo Perrone

Tempo certo para curtir

30 de abril de 2008 0

Conheço o trabalho do Carlos Schmidt desde meados dos anos 1980, quando eu freqüentava o Ponto de Cinema Sesc, espaço por adminstrado por ele na Alberto Bins e que muitos filmes maravilhosos somou à minha lista. Bom, sem nenhuma relação com ele além da profissional, acho importante destacar o trabalho que o Schmidt tem feito desde 1995 na Rede Guion.

O Schmidt sabe identificar o potencial de um filme – seja ele %22de arte%22 típico (em geral europeus e orientais) ou aquele pequeno tesouro a ser lapidado (como um despretensioso filme indie americano) - e dar a ele o tempo necessário para %22emplacar%22, paciência que as grandes redes não costumam ter com bons títulos que às vezes são apressadamente tirados de cartaz para dar lugar aos próximos da fila. Nesse mercado cada vez mais volátil que é exibir filme em cinema, a estratégia nem sempre dá certo, mas costuma produzir seus pequenos grandes sucessos.

O Guion tem recordes de permanência que dificilmente serão batidos: Tudo Sobre Minha Mãe, com 32 semanas em cartaz, e o japonês Dança Comigo, com 27. O Carteiro e o Poeta, As Invasões Bárbaras, O Tempero da Vida e Piaf são outros grandes sucessos da casa. O Schmidt nos manda agora um ranking atualizado de filmes ainda em cartaz que se sustentam, além de suas qualidades, pela sempre eficiente propaganda boca a boca, que exige um pouco de paciência para funcionar. Os dois que lideram são Across de Universe (19 semanas), belo musical que inexplicavelmente nem a trilha dos Beatles ajudou a ter melhor sorte no circuito, e o longa alemão A Vida dos Outros (18), que não deixa de atrair público mesmo já estando disponível em DVD há várias semanas.

Postado por Marcelo Perrone

Entrevista com Rodrigo Plá, de Zona do Crime

30 de abril de 2008 0

Alan Chávez no filme mexicano que está em cartaz em Porto Alegre

Como prometido na edição impressa do Segundo Caderno desta quinta-feira, aí vai o bate-papo com o cineasta mexicano Rodrigo Plá, que assina a direção do contundente Zona do Crime (La Zona, México, 2007), uma das estréias do feriado nos cinemas de Porto Alegre.

O filme é ótimo. O título original é uma referência ao nome de um condomínio fechado de luxo que está rodeado de favelas, na Cidade do México, mas a tradução não força barra nenhuma: a trama parte de um assalto mal-sucedido, cometido por três adolescentes que vivem em uma favela vizinha.

Aproveitando-se de uma tempestade, que provocou uma pane no circuito de câmeras de vigilância, e da queda de um outdoor sobre o muro que cerca o local, eles invadiram uma casa do condomínio. Foram flagrados pela proprietária e acabaram matando-a. O que se segue é uma sucessão de decisões equivocadas, a começar pela deliberação de uma assembléia extraordinária, que revelou a vontade dos condôminos de não acionar a polícia e, assim, fazer justiça com as próprias mãos – mesmo que os infratores não passem de crianças.

Não somente as desigualdades são levadas ao extremo em Zona do Crime. Os preconceitos, a corrupção dos policiais, a complacência do Estado, tudo opera para a criação de uma situação-limite – que pode parecer exagerada, mas faz parte da provocação do diretor.

Plá é apontado como uma das maiores promessas do cinema latino-americano. Antes de Zona do Crime, ele havia assinado apenas o curta El Ojo en la Nuca, com Gael García Bernal e Daniel Hendler, que venceu o Oscar da categoria. Seu segundo longa, Desierto Adentro, com Diego Cataño e Memo Dorantes, vai encerrar a semana da crítica da próxima edição do Festival de Cannes, em maio.

As seis perguntas foram respondidas por e-mail:

Zero Hora – Bairros de luxo isolados da cidade, como La Zona, também são comuns nas grandes cidades brasileiras, incluindo Porto Alegre. Seu filme, no entanto, não fala pura e simplesmente desses condomínios, mas do problema da violência e da desigualdade dessas metrópoles. No Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, entregue há duas semanas, Wagner Moura, que recebeu o prêmio de melhor ator por Tropa de Elite, disse que não vê problema social mais grave do que este atualmente. Foi mais ou menos essa idéia que você seguiu ao filmar La Zona?

Rodrigo Plá – Sim. Quando Laura Santullo (mulher do cineasta, autora do conto que inspirou o filme) e eu criamos o argumento de Zona do Crime, nunca havíamos visitado um bairro fechado. Não sabíamos exatamente o que era isso, queríamos apenas falar do aumento das desigualdades sociais. Queríamos levar essas desigualdades ao extremo. Ou seja: o bairro La Zona foi criado a partir da nossa imaginação. A surpresa veio quando fomos a um desses bairros: a realidade não só correspondia a nossa fantasia como ia ainda mais adiante do que imaginávamos.

ZH – Em sessões realizadas para estudantes, alguns moradores de condomínios de luxo saíram indignados em meio à projeção do filme. Que avaliação você faz desse tipo de recepção?

Plá – Acho muito positivo. Não quero que ninguém saia indiferente do cinema. Tentamos fazer um thriller social que pudesse ser desfrutado como filme de suspense mas, ao mesmo tempo, que provoca o espectador, que o faz pensar, refletir.

ZH – Você tem dito que só o que espera é que, ao ver um filme seu, ninguém saia do cinema indiferente. Zona do Crime foi feito buscando causar esse impacto no espectador?

Plá – Sim. Foi isso: quisemos unir o aspecto de thriller a um questionamento social. Nesse sentido, nosso filme tem pontos em comum com O Violino (El Violín, de Francisco Vargas, México, 2005), pois ambas levam a tela questionamentos sobre valores e juízos sociais.

ZH – De Desierto Adentro, seu segundo filme, que foi selecionado para o Festival de Cannes, pode-se esperar o mesmo impacto? Fale mais sobre este projeto, por favor.

Plá – Bom, me sentirei feliz se Desierto Adentro conseguir que os espectadores não saiam do cinema indiferentes, como vem ocorrendo com Zona do Crime. Fora isso, é um filme de época, mas que trata de um tema muito atual: o fanatismo religioso. O protagonista é um homem que acredita ter cometido um grande pecado e que Deus vai, como castigo, matá-lo e matar todos os seus filhos. Para pagar seus pecados, o protagonista decide construir uma igreja no meio do deserto. E vamos descobrindo como o fanatismo religioso vai destruindo a família.

ZH – Desde os grandes velhos filmes de Arturo Ripstein, somos apresentados a diversos filmes mexicanos – nos últimos tempos, entre outros, conhecemos os de Alejandro González Iñarritu e os de Alfonso Cuarón. Mas não vemos algo contínuo, que se estabeleceu com força como a cinematografia da Argentina, por exemplo. Por quê?

Plá – Creio que o cinema mexicano contemporâneo se caracteriza sobretudo por sua diversidade. Ele traz temas diversos e abordagens diferentes principalmente no que diz respeito à linguagem cinematográfica. Em vez de ser monolítico, o cinema mexicano cada vez mais tende a ser plural – e é nesta pluralidade que está a suia riqueza.

ZH – Na sua opinião, qual a receita ideal para cinematografias latinas, como a mexicana e também a brasileira, se afirmarem no cenário internacional?

Plá – O que nós latinos temos de fazer é ser fiéis às nossas próprias histórias. Não podemos imitar as receitas de Hollywood. Essas receitas me interessam muito pouco. Zona do Crime começou como um projeto desenvolvido pela Columbia Pictures, depois se tornou uma co-produção mexicana-espanhola. Mas é uma história nossa, um conto que Laura escreveu baseando-se na realidade mexicana. Tanto que Laura e eu já pensamos em ir aos Estados Unidos fazer um filme falado em inglês – mas só queremos chegar a outro país quando já tivermos falado bastante sobre o nosso, sobre o México. Ou seja: temos que ser fiéis à nossa história. Foi um pouco por isso que Iñarritu (diretor de Amores Brutos e Babel) obteve tanto êxito. Mesmo que envolvidos em co-produções internacionais, não podemos abrir mão das reflexões sobre a nossa realidade. É o que Zona do Crime propõe.

Postado por Daniel Feix

Dobradinha brasileira em Cannes

29 de abril de 2008 0

Surpresos com a indicação para Cannes?/Fox/Divulgação
Acaba de ser confirmada a presença de Ensaio Sobre a Cegueira no Festival de Cannes. O filme dirigido por Fernando Meirelles abrirá a 61ª edição do evento - que vai rolar de 14 a 26 de maio. Ensaio Sobre a Cegueira é uma adaptação do romance homônimo do escritor português José Saramago, e conta com um elenco internacional que inclui Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover, Sandra Oh, o mexicano Gael García Bernal e a brasileira Alice Braga.

O filme conta a história de uma misteriosa epidemia de cegueira que se abate sobre uma cidade moderna e anônima. Meirelles foi incluído na seleção oficial do festival junto do francês Laurent Cantet, com o filme Entre les Murs, e do americano James Gray, com Two Lovers.

Cantet, de 46 anos, é o terceiro diretor francês selecionado por Cannes neste ano. Seu filme, protagonizado por François Begaudeau, narra a jornada diária de um professor de francês em um colégio de reputação difícil. Já Two Lovers, estrelado por Joaquin Phoenix e Gwyneth Paltrow, é a terceira participação do cineasta americano no festival, após Caminho sem Volta (The Yards), em 2000, e Os Donos da Noite (We Own the Night), em 2007.

Quem entregará a Palma de Ouro ao melhor filme da competição será o ator americano Robert De Niro - estrela de What Just Happened, filme de Barry Levinson que será exibido no encerramento de Cannes, fora do concurso.

O outro concorrente brasileiro na competição oficial é Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, cujos personagens são quatro irmãos e uma mãe grávida que compartilham o drama da ausência do pai.

Fora de competição, o Brasil terá ainda na mostra paralela Um Certo Olhar, a segunda mais importante do festival, dois representantes: Afterschool, primeiro longa do brasileiro-americano Antonio Campos, e A Festa da Menina Morta, estréia na direção do ator Matheus Nachtergaele. Na mostra Cinéfondation, emplacamos o curta O Som e o Resto, do carioca André Lavaquial.

Postado por Roger Lerina

Será que eles lêem?

28 de abril de 2008 3

Achei que fosse o livro vermelho do Camarada Mao, mas pelo jeito me enganei
Olha, este post deveria ter ido para o ar na semana passada, mas eu vivo me enrolando e fazendo as coisas com atraso, e a reflexão em si sobre o que eu ia comentar não perde por causa disso.

Na última terça-feira, dia 22, a Câmara Rio-grandense do Livro, entidade responsável por congregar representantes do mercado livreiro no Estado, realizou uma noite de premiação a personalidades que se destacaram durante o ano em prol do livro e da leitura aqui no Rio Grande. Antes que você pense que está no blog errado, explico que o %22tema%22 da cerimônia foi a relação entre o livro e o cinema, e a solenidade foi intercalada com uma colagem exibida em um telão de cenas de cinema nas quais o personagem aparece em uma biblioteca ou em uma livraria ou apenas recostado em algum lugar lendo um livro (como no caso da foto ao lado, a mais à mão que encontrei, do Jim Carrey lendo o livro vermelho que é o mote central do horrendo filme O Número 23).

O que me chamou a atenção, contudo, dado o caráter eminentemente regional e local da premiação, é que não havia, na montagem, cena alguma de filme nacional. Nenhuma. Ao escrever a matéria no dia seguinte, e ao mencionar isso no texto, repassei mentalmente os filmes nacionais de que eu me lembrava e percebi que, aparentemente, os heróis do cinema brasileiro não parecem ter lá muita intimidade com a palavra escrita – vou tentar não enxergar nisso um indício de algo, prometo. Acho que nem no Bonitinha mas Ordinária, na qual uma suposta frase do cronista Otto Lara Resende era parte importante da trama baseada em Nelson Rodrigues um livro dá as caras em cena.

Em um breve e apressado recorrido mental, me lembrei de:

* algumas cenas de Alma Corsária, do Carlão Reichenbach (no qual os protagonistas além de serem eles próprios poetas idealistas também citam com freqüência o poeta português Cesário Verde)

* uma cena na sala do personagem vivido pelo Domingos Oliveira no filme dele próprio Amores, na qual um amigo chega para visitá-lo e o encontra lendo Dostoiéwski.

* A cena à mesa do jantar em Lavoura Arcaica, na qual o patriarca vivido por Raul Cortez lê a história do mendigo e do homem rico.

E foi isso. Deixo o garimpo de outros exemplos, se os há, para os meus colegas mais qualificados ou mesmo para a nossa audiência idem: lembram de alguma cena de filme brasileiro na qual o personagem principal LÊ alguma coisa que não seja jornal?

Postado por Carlos André Moreira

O (mais ou menos) novo Woody Allen

28 de abril de 2008 0

Ewan McGregor e o diretor, nas filmagens de O Sonho de Cassandra
Vicky Cristina Barcelona, primeiro filme de Woody Allen rodado na Espanha, com Penélope Cruz, Javier Bardem e Scarlett Johansson, já está em fase de finalização. Enquanto isso, o terceiro longa que o diretor rodou na Inglaterra, O Sonho de Cassandra (Cassandra%27s Dream, 2007), está chegando aos cinemas de Porto Alegre esta semana. A primeira sessão do filme será nesta terça à noite, no GNC Moinhos, e a estréia no circuito está marcada para o feriado do dia primeiro.

No filme, Cassandra%27s Dream é o nome de um barco adquirido por dois irmãos (interpretados por Ewan McGregor e Colin Farrell) e que vai servir de palco para alguns dos acontecimentos mais importantes da trama. A dupla está com problemas financeiros, que podem ser resolvidos se eles aceitarem a proposta surpreendente de um tio rico (Tom Wilkinson). A partir de seus dilemas éticos e morais, Allen conduz a narrativa explorando como cada um lida com a idéia de se envolver com um crime – e o castigo que isso pode acarretar.

O Sonho de Cassandra é um drama, mas as tiradas e aquele senso de humor típico do cineasta estão presentes, como sempre. Um filme na linha dos excelentes Crimes e Pecados (1989) e Match Point (2005). Recomendo.

Abaixo, dois trailers veiculados nos cinemas.

Postado por Daniel Feix

Da série "Cara certo para o filme errado"

23 de abril de 2008 0


Este até já foi retratado em um filme recente, mas ainda assim acho que a comparação procede. Prestes a completar 30 anos, o poeta Paul Verlaine (1844 – 1896) era um sujeito confortavelmente instalado numa vidinha burguesa européia de meia idade – aquela tão bem descrita nas obras de Balzac, Flaubert e Zola – quando conheceu o jovem Arthur Rimbaud, então com 19 anos. Consta que com o rosto quase feminino e olhos de azul desconcertante, Rimbaud era um jovem muito bonito, e isso fulminou nosso amigo Verlaine, que abandonou a família para viver com o jovem mancebo.

Desconfortável no papel de sua nova inclinação sexual e uma década mais velho, Verlaine viveu a relação de forma insegura e passional, e a devastação provocada em sua vida social pela saída intempestiva do armário destroçou seu frágil ego. Numa briga de ciúmes Verlaine atingiu Rimbaud com um tiro, que não foi mortal mas provocou sua prisão.

O casal Rimbaud e Verlaine já foi interpretado no cinema nos anos 90, respectivamente, por Leonardo diCaprio e pelo inglês David Thewlis no drama Eclipse de uma Paixão (Total Eclipse, 1999), dirigido pela cineasta Agnieszka Holland e baseado em uma peça de Christopher Hampton (roteirista de As Ligações Perigosas e diretor de Carrington: dias de paixão). Verlaine também já teve o rosto do recentemente falecido Jean-Claude Brially, nome sempre associado ao movimento da Nouvelle Vague e que atuou em obras como Os primos, de Claude Chabrol, Uma mulher é uma mulher, de Godard e Os incompreendidos, de Truffaut. Brialy encarnou Verlaine no filme de 1970 Uma Estação no Inferno, que também retrata o romance entre os dois poetas e no qual Rimbaud era vivido por Terence Stamp.

Mas, como mostram as fotos selecionadas acima, outra boa escolha para viver o atormentado personagem teria sido John Malkovich, que pode até ter querido ser ele mesmo, mas talvez não quisesse ser Verlaine (ou não, também, nunca se sabe).

Postado por Carlos André Moreira

Brasil em Cannes

23 de abril de 2008 0

Logo após a conquista do Urso de Ouro no Festival de Berlim com Tropa de Elite, o cinema brasileiro garante presença no 61º Festival de Cannes, a mais prestigiada mostra competitiva internacional, que se realiza de 14 a 25 de maio na França. Anunciado hoje entre os 19 concorrentes à Palma de Ouro – um 20º longa será confirmado em breve-, Linha de Passe é dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas. A última vez que o Brasil participou da disputa principal em Cannes foi em 2004, com Diários de Motocicleta, do próprio Salles.

Fora de competição o Brasil terá na mostra paralela Um Certo Olhar, a segunda mais importante do festival, dois representantes: Afterschool, primeiro longa do brasileiro-americano Antonio Campos, e A Festa da Menina Morta, estréia na direção do ator Matheus Nachtergaele. Na Mostra Cinefondation emplacamos o curta O Som e o Resto, do carioca André Lavaquial.

Walter Salles e Daniela Thomas retomam parceria iniciada no longa Terra Estrangeira (1996) e que também rendeu o curta Loin du 16ème, do filme coletivo Paris, Te Amo (2006). Linha de Passe tem como personagens quatro irmãos e uma mãe grávida que compartilham o drama da ausência do pai. O destaque do elenco formado por jovens atores é Vinícius de Oliveira, que interpreta o irmão que tenta vencer na vida como jogador de futebol. Ele foi revelado ainda menino por Salles em Central do Brasil (1998). Hoje com 22 anos, Vinícius preferiu seguir carreira atrás das câmeras e estuda cinema – sua única presença em filme antes havia sido uma ponta em Abril Despedaçado (2001), de Salles.

Além do filme brasileiro, o cinema sul-americano terá outros dois concorrentes à Palma de Ouro: La Mujer sin Cabeza, de Lucrecia Martel, e Leonera, de Pablo Trapero, filme produzido por Salles. A seleção deste ano reúne ainda nomes como o alemão Wim Wenders (The Palermo Shooting), os americanos Steven Soderbergh (Che), Clint Eastwood (Changeling) e os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne (Le Silence de Lorna).

Por e-mail, de Los Angeles, Salles comentou a indicação, a sua, e a do amigo Trapero:

%22Linha de passe%22 é um filme com jovens atores que fazem sua estréia no cinema e uma equipe técnica também muito jovem. É a eles que Daniela e eu devemos e dedicamos essa seleção em Cannes- e à Fátima Toledo, que fez um trabalho de preparação primoroso do elenco. Para um filme que se quer pequeno como %22Linha%22, a Seleção na Mostra Competitiva já é um prêmio, independente do resultado final. Como terminamos a montagem há pouco tempo e tivemos problemas no corte de negativo, estávamos planejando ter o filme pronto em junho. Agora vamos ter que correr para ver se ele fica pronto para o Festival, em final de maio. Uma possibilidade é a de fazer a projeção em digital, com uma mixagem temporária. Quanto à seleção na mesma Mostra Competitiva de %22Leonera%22, de Pablo Trapero, não poderíamos estar mais felizes. É o terceiro filme de Pablo que co-produzimos. Além de ser um amigo próximo, Pablo é um dos melhores autores da sua geração, um cineasta de uma rara inteligência e integridade. Ninguém merece esse reconhecimento mais do que ele.%22

A lista abaixo mostra que não será moleza faturar essa Palma de Ouro. Mais adiante, se sobrar tempo, voltaremos para comentar alguns desses filmes e dar outras informações e pitacos sobre o festival.

Concorrentes à Palma de Ouro

The Palermo Shooting, de Wim Wenders (Alemanha)

La Mujer sin Cabeza, de Lucrecia Martel (Argentina)

Leonera, de Pablo Trapero (Argentina)

Le Silence de Lorna, de Jean-Pierre e Luc Dardenne (Bélgica)

Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas (Brasil)

Adoration, de Atom Egoyan (Canadá)

24 City, de Jia Zhangke (China)

My Magic, de Eric Khoo (Cingapura)

Changeling, de Clint Eastwood (EUA)

Che, de Steven Soderbergh (EUA)

Synechdoche New York, de Charlie Kaufman (EUA)

Serbis, de Brillante Mendoza (Filipinas)

La Frontiere de L%27Aube, de Philippe Garrel (França)

Un Conte de Noel, de Arnaud Desplechin (França)

Delta, de Kornel Mundruczo (Hungria)

Waltz with Bashir, de Ari Folman (Israel)

Gomorra, de Matteo Garrone (Itália)

Il Divo, de Paolo Sorrentino (Itália)

 Uc Maymunm, de Nuri Bilge Ceylan (Turquia)

Postado por Marcelo Perrone

Testemunhas do suicídio

22 de abril de 2008 0


Por Ticiano Osório

Antes que você comece a ler este texto sobre o documentário A Ponte (The Bridge, EUA, 2006), inédito nos cinemas gaúchos e já lançado em DVD, aviso: vou citar passagens que podem estragar o prazer cinematográfico de quem ainda não assistiu. Se é que pode haver %22prazer%22 em um filme sobre suicídio – e eis um dos pontos polêmicos da estréia como diretor de Eric Steel, co-produtor de outros dois longas de temática mórbida, As Cinzas de Ângela (de Alan Parker) e Vivendo no Limite (de Martin Scorsese), ambos de 1999.

Mas, enfim, o que se propõe aqui é menos um comentário e mais uma conversa sobre A Ponte. A ponte do título é a famosa Golden Gate, em São Francisco (EUA). Já entrando no terreno das interpretações, também poderia ser a ponte para outra vida. Um dos entrevistados por Steel arrisca uma explicação sobre o fascínio que a célebre construção exerce sobre os suicidas: %22Ela contém uma falsa promessa romântica%22. Outro diz entender porque o amigo escolheu saltar de uma altura de 69 metros rumo às aguas do Pacífico: %22É mais simples, é um passo sem volta%22 (em oposição, complementa uma terceira pessoa, a formas mais complexas ou sem a garantia de sucesso, como dar um tiro na cabeça ou tomar uma overdose de pílulas – %22Acordar em um hospital seria horrível%22). E há quem recorde que, afinal, muitos suicidas estão na verdade tentando ser salvos – qual lugar melhor do que o cartão-postal de uma cidade?

Os sinceros e tocantes depoimentos colhidos por Steel – incluindo de sobreviventes de tentativas de suicídio – esclarecem por que essas pessoas desistiram da vida (%22Para nós%22, diz a amiga de uma das vítimas, %22o sol nasce, e amanhã é outro dia%22, mas para outros o sofrimento é brutal). Por outro lado, o filme carece de mais dados sobre seu cenário. Eu gostaria de saber, por exemplo, quando foi o primeiro suicídio da Golden Gate registrado, e qual o impacto desses casos sobre a população de São Francisco. O Perrone, por sua vez, ficou espantado pelo fato de que, apesar de ser a coisa mais comum do mundo na cidade californiana (%22Acontece toda hora%22, afirma um policial), as autoridades nunca tomaram alguma iniciativa, do tipo colocar grades de proteção. A Bia, minha mulher, logo perguntou: o cara ficou lá filmando suicídios e não fez nada para evitar?

 Pois é, talvez seja esta a questão mais controversa de A Ponte: até que ponto um diretor pode ficar à espreita da morte? Ao decidir rodar um documentário sobre suicídio, certamente Steel se deparou com esse dilema ético (e aqui não se está dizendo que ele não poderia, ou não deveria, fazer o filme; de fato, há depoimentos ali que podem confortar famílias traumatizadas ou, quem sabe, dissuadir suicidas em potencial). Em cena, a discussão chega a ser ensaiada pelo fotógrafo que salvou uma garota de quem tirara fotos se preparando para pular: %22Uma hora você tem que lembrar que o que está acontecendo diante da câmera é real%22, diz ele. Em entrevistas para jornais, o diretor assegurou que ele e sua equipe se comportaram primeiro como %22seres humanos misericordiosos%22, e só depois como cineastas – sempre teria acionado a polícia para alertar sobre suspeitas de suicídio.

Não é isso, contudo, o que transparece no documentário. Pelo contrário: senti um certo pendor ao voyeurismo sádico na maneira como Steel estrutura seu filme, exibindo em imagens recorrentes, desde seu início, a figura de Gene Sprague, todo vestido de preto, de óculos escuros e longa cabeleira negra, vagando de lá para cá sobre a ponte, tentando se decidir. Ao empregar uma tática dos filmes de suspense (sublinhada por uma trilha sonora realmente desnecessária em um documentário sobre tema tão grave), o diretor acaba escorregando para o sensacionalismo, para a espetacularização – noção reforçada pelo uso, na cena final, de uma segunda câmera para mostrar a queda de Gene. Quer dizer, Steel sabia que ele era um suicida e se preparou para filmar sua morte do melhor ângulo possível. Não consigo pensar em outra palavra que não seja %22abutre%22.

 

Postado por Ticiano Osório

David Lynch é o cara em Cannes

21 de abril de 2008 0

Cartaz do 61º Festival de Cannes/Reprodução
Enquanto não são anunciados os concorrentes à Palma de Ouro em 2008, lista que pode trazer o nome do brasileiro Fernando Meirelles com Blindness, o Festival de Cannes vai revelando partes de sua programação, de 14 a 25 de maio, na Rivera Francesa.

O homenageado da 61ª edição do evento será o cineasta americano David Lynch. E o recém divulgado cartaz do festival, criado pelo artista gráfico Pierre Collier, traz uma foto tirada pelo próprio Lynch, que lembra muito o clima de sua obra-prima Cidade dos Sonhos.

David Lynch tem uma boa história em Cannes. Em 1990, ele ganhou a Palma de Ouro com Coração Selvagem - nos extras do DVD, ele se diverte lembrando que %22invadiu%22 a cabine de projeção para regular o volume de som do filme, que deveria estar no máximo para garantir o bizarro efeito sonoro que ele queria nas cenas em que o fósforo é aceso. Em 2001, Lynch ganhou o prêmio de direção com Cidade dos Sonhos.

Como é tradição, o festival será aberto por um grande lançamento fora de competição: Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal, retomada da clássica parceria entre o diretor Steven Spielberg e o ator Harrison Ford. Para o encerramento, está programada a exibição da comédia sobre os bastidores do cinema What Just Happened?, dirigida por Barry Levinson e protagonizada por Robert De Niro, que vive um poderoso produtor de Hollywood em uma semana de cão.

Postado por Marcelo Perrone

Cadê o Tarantino?

19 de abril de 2008 1

Que o projeto Grindhouse foi lançado nos EUA há cerca de um ano, não deu certo (na bilheteria) e foi desmembrado em dois para tentar recuperar o prejuízo, todo mudo sabe. Planeta Terror, o segmento assinado por Robert Rodriguez em tributo aos filmes de zumbi, chegou ao Brasil e já tem em DVD. Mas a parte de Quentin Tarantino, À Prova de Morte, após ganhar várias datas de lançamento por aqui – a última era para o final de março - foi temporariamente para a gaveta. A última vez que falei com o Maneco, da Europa Filmes, distribuidora brasileira do longa, ele ainda não tinha  previsão de estréia.

À Prova de Morte foi o filme-sensação do Festival de Cannes e das mostras internacionais de São Paulo e Rio. Quem acompanha a trajetória desse brilhante cineasta pode estranhar um pouco o ritmo do filme, mais centrado nos diálogos aparentemente banais mas que são um saboroso suco de cultura pop. Ação mesmo, como em Kill Bill, por exemplo, tem pouco, mas quando tem…

Confesso que esperava mais (ação e violência), mas depois que o filme depurou na minha cabeça percebi que é mais uma grande obra do cara. Errado estava eu em assistir a um filme do Tarantino esperando o previsível. Ah, À Prova de Morte presta homenagem aos filmes B de carrões envenenados e mulheres gostosas dos anos 70. Em resumo, é sobre um dublê serial killer que persegue com sua caranga, literalmente à prova de morte, carros conduzidos por mulheres.

O faro de Tarantino continua apurado para escalar seu elenco – aqui um time feminino espetcular liderado por Rosario Dawson, Rose McGowan e uma nova deusa, Vanessa Ferlito, e um astro já quase aposentado em um papel para ser lembrado eternamente, Kurt Russell – e montar uma trilha sonora supimpa com pérolas tiradas da sua própria discoteca.

Enquanto não se sabe se À Prova de Morte chegará aos cinemas daqui ou vem direto pro DVD, segue uma palhinha que resume o espírito do filme: mulheres gostosas, música boa e violência de fechar os olhos. A trilha é de um grupo obscuro dos anos 60, Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich, com a saborosa canção Hold Tight, justamente o assunto discutido em cena pelas minas. Logo abaixo segue um clipe da época.

ATENÇÃO: a cena é bastante violenta, não recomendável aos não adultos e aos mais sensíveis. O filme certamente terá classificação 18 anos.  

Postado por Marcelo Perrone

Grandes momentos do cinema

17 de abril de 2008 0

Aproveitando a série de relançamentos dos filmes do grande Stanley Kubrick (1928-1999) em DVD, que teve nas edições especiais de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968) e Nascido para Matar (1987) seus dois últimos capítulos, vale lembrar outra das obras-primas do diretor – aquele que talvez seja meu preferido entre seus filmes -, em duas de suas cenas mais marcantes.

Para quem ainda não viu – e não tem idéia do que está perdendo: trata-se de uma comédia de humor negro sobre um ataque nuclear %22acidental%22 sobre a antiga União Soviética comandado por um general norte-americano fora de si, que está convencido de que os comunistas estão poluindo os %22preciosos fluidos corporais%22 da América.

Concebido numa época em que a Guerra Fria e a paranóia que ela provocava estavam no auge, o filme é marcado por um desfile de figuras excêntricas, entre elas um premiê soviético bêbado e um cientista conselheiro do presidente dos EUA que é ex-colaborador dos nazistas – o Dr. Fantástico do título, interpretado pelo excelente comediante Peter Sellers, que aliás dá um show, ou melhor, três, já que, além desse, empresta seu talento a outros dois personagens centrais da trama.

Um desses outros personagens, por sinal, está na primeira cena abaixo, ao lado do próprio Dr. Fantástico - se você não identificar, clique aqui, no link do filme no IMDB, e confira lista dos atores e seus respectivos papéis, entre outras informações preciosas sobre a produção.

No original Dr. Fantástico tem o curioso nome de Dr. Strangelove – Or How Do I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, ou %22como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba%22. Em época de paranóia terrorista, invasões de Iraque e Afeganistão, é um filme que permanece incrivelmente atual – além de uma aula de cinema, em todos os aspectos.

A primeira cena marca a hilária aparição de Dr. Fantástico, chamado pelo presidente dos EUA, Merkin Muffley, e de sua mão direita %22incontrolável%22. A segunda, que reproduz fielmente o interior de um avião B-52, bem, melhor assistir que ela fala por si só.

Pena somente não ter encontrado trechos com legendas em português. Os trejeitos das falas, sobretudo do personagem-título, de fato dificultam a sua compreensão – mas nada que não possa ser solucionado assistindo ao filme, que por sinal está nas melhores locadoras.

Coisa de gênio.

Postado por Daniel Feix

Sobre Medo da Verdade

16 de abril de 2008 0

Amy Ryan, como mãe da menina raptada, concorreu ao Oscar/Buena Vista
Li comentários bastante favoráveis em ZH, na Set e na Veja a Medo da Verdade (Gone Baby Gone no original), lançado recentemente direto em DVD. Não sei se minha opinião é diametralmente oposta porque - ao contrário do Perrone, por exemplo – li o romance policial no qual se baseia o filme, escrito pelo ótimo Dennis Lehane, o mesmo de Sobre Meninos e Lobos (já filmado por Clint Eastwood) e Paciente 67 (que será levado ao cinema por Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio no papel principal).

Mas a Bia, minha mulher, para quem eu não tinha contado nada da história, também viu os mesmos sérios problemas nessa estréia de Ben Affleck como diretor. De saída, a escolha de seu irmão caçula, Casey Affleck, como o protagonista. Pode parecer frescura de quem moldou na imaginação seu próprio detetive Patrick Kenzie, mas a voz esganiçada do ator não condiz com o cinismo do personagem, assim como as explosões de bravura do Kenzie do cinema não traduzem a coragem suicida do Kenzie do papel – aliás, o filme carece de cenas de ação, o que é no mínimo estranho, já que há tantas no livro (e descritas de modo cinematográfico). Tampouco é suficientemente verbalizado o autoquestionamento católico (o escritório do detetive fica no campanário de uma igreja), fundamental nas tramas de Lehane.

Pior – para a personagem e para o próprio filme – aconteceu com a parceira do detetive, Angela Gennaro. Tudo bem que Kenzie ganhe mais espaço em Medo da Verdade, afinal, ele é o narrador dos livros da dupla (já são cinco editados no Brasil; além de Gone Baby Gone, recomendo ainda Sagrado e Dança da Chuva). Mas no longa ela foi reduzida a um objeto de cenário. Um pecado, pois é através de Angie, imbuindo-se de seu insuspeitado instinto materno, que nos envolvemos mais e mais no misterioso e aflitivo desaparecimento da menininha Amanda em um subúrbio de Boston (EUA) – e seu papel também é determinante para estabelecer o dilema moral de Kenzie no final.

Em Medo da Verdade, a gente quase não sofre (se com o livro viramos páginas avidamente para saber como tudo termina – em busca de redenção? -, com o filme foi um certo tédio que despertou na Bia a vontade de avançar as cenas). O que redime um pouco o filme é sua última cena, perfeita tradução da consciência embaraçada de Kenzie, e de muitos que, aqui do lado de fora, teriam agido da mesma maneira (%22Bem feito, seu idiota!%22, disse a Bia, expressando um sentimento não muito distante daquele que toma conta de Angie após a decisão de seu parceiro).

Postado por Ticiano Osório

Sobre os melhores do cinema brasileiro

16 de abril de 2008 0

Eduardo Coutinho e Fernanda Torres em Jogo de Cena, a obra-prima ignorada
O melhor filme nacional não %22apenas%22 de 2007, mas de mais tempo, bem mais, chama-se Jogo de Cena. Pois não é que o documentário de Eduardo Coutinho saiu do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, o nosso Oscar, entregue há pouco, no Rio, sem qualquer prêmio? A melhor diretor Coutinho sequer estava concorrendo, uma injustiça clamorosa. Ao troféu de documentário do ano até estava, mas perdeu para Santiago, de João Moreira Salles, outro grande título de outro mestre do cinema não-ficcional, mas ainda assim incomparável com o trabalho de investigação de linguagem único do realizador que antes já assinara Edifício Master, Santo Forte e Cabra Marcado para Morrer.

Também se pode considerar estranho Tropa de Elite ter ganhado oito prêmios, alguns em categorias indiscutíveis, outros nem tanto, e acabar perdendo justo o troféu mais importante, o de filme do ano - quem levou foi O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, do Cao Hamburger, que por sinal já havia sido eleito pela mesma Academia Brasileira de Cinema, que distribui os prêmios, o nosso representante na última edição Oscar, em Hollywood, desbancando o filme de José Padilha.

Está certo que em premiações como esta, em que um grande colegiado envia seus votos sem saber o que seus %22colegas de júri%22 estão elegendo, as incongruências, as composições improváveis de vencedores, como neste caso, são perfeitamente previsíveis – fosse num festival de cinema, por exemplo, os jurados, não mais que dez pessoas, sentariam em volta de uma mesa e distribuiriam de maneira planejada os vencedores em cada categoria. Mas não deixa de ser estranho que aqueles que votaram em Tropa de Elite em quase todas as categorias nas quais o filme estava concorrendo não tenham votado nele como melhor produção do ano.

Enquanto Tropa levou oito prêmios, O Ano saiu com três. Além de Santiago, foram lembrados também os ótimos O Céu de Suely, de Karim Aïnouz, O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, Cartola – Música para os Olhos, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, e a animação gaúcha Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock %27n%27 Roll, de Otto Guerra. Acabaram esquecidos, além de Jogo de Cena, outras produções igualmente ótimas: Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, Mutum, de Sandra Kogut, e Cão sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca. O que só atesta a alta qualidade das principais produções nacionais, ao menos as lançadas entre o final de 2006 e 2007.

As homenagens a Grande Otelo e Renato Aragão foram uma justa lembrança à vertente popular, tão forte historicamente no nosso cinema, seja pelas comédias da Atlântida, pelas pornochanchadas ou pelos filmes dos grandes artistas, das duplas sertanejas e regionalistas a ídolos pop como Roberto Carlos. E a entrega do prêmio de melhor filme estrangeiro ao alemão A Vida dos Outros também é mais que merecida: trata-se, talvez, do grande filme europeu a estrear por aqui nos últimos meses.

Uma das notas tristes foi a ausência de Padilha na cerimônia. O diretor, que alegou problemas de saúde, está com sintomas de dengue.

A seguir, a lista dos premiados:

> Melhor filme: O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger.
> Melhor documentário: Santiago, de João Moreira Salles.
> Melhor diretor: José Padilha, por Tropa de Elite.
> Melhor ator: Wagner Moura, por Tropa de Elite.
> Melhor atriz: Hermilla Guedes, por O Céu de Suely.
> Melhor ator coadjuvante: Milhem Cortaz, por Tropa de Elite.
> Melhor atriz coadjuvante: Sílvia Lourenço, por O Cheiro do Ralo.
> Melhor roteiro original: Cláudio Galperin, Cao Hamburger, Bráulio Mantovani e Anna Muylaert, por O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.
> Melhor roteiro adaptado: Heitor Dhalia e Marçal Aquino, por O Cheiro do Ralo.
> Melhor fotografia: Lula Carvalho, por Tropa de Elite.
> Melhor direção de arte: Cássio Amarante, por O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.
> Melhor trilha sonora: Cartola, por Cartola – Música para os Olhos.
> Melhor montagem (ficção): Daniel Rezende, por Tropa de Elite.
> Melhor montagem (documentário): Eduardo Escorel, por Santiago.
> Melhor maquiagem: Martin Macias, por Tropa de Elite.
> Melhor figurino: KIka Lopes, por Zuzu Angel.
> Melhor som: Leadro Lima, por Tropa de Elite.
> Melhores efeitos especiais: Bruno Van Zeebroeck, por Tropa de Elite.
> Melhor animação: Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock %27n%27 Roll, de Otto Guerra.
> Melhor filme estrangeiro: A Vida dos Outros (Alemanha), de Florian Henckel von Donnersmarck.
> Melhor filme brasileiro pelo júri popular: Tropa de Elite.
>
Melhor filme estrangeiro pelo júri popular: Pequena Miss Sunshine (EUA), de Johnatan Dayton e Valerie Faris.
> Melhor curta-metragem (ficção): Beijo de Sal, de Fellipe Barbosa.
> Melhor curta-metragem (documentário): A Cidade e o Poeta, de Luelane Corrêa.
> Melhor curta-metragem (animação): Vida Maria, de Márcio Ramos.

Postado por Daniel Feix

Nove bons filmes na PF Gastal

15 de abril de 2008 0

2046 - Os Segredos do Amor, de Wong Kar-wai (foto), está ao lado de Crash - Estranhos Prazeres, entre outros, no projeto Big
Em cartaz a partir de hoje em três sessões diárias até 27 de abril, nove filmes integram o Big – A Metrópole no Século 21, na Sala PF Gastal da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. O projeto consiste em duas exposições, uma de fotografia (dos brasileiros Ricardo Schetty e Pier Balestrieri), outra de videoarte (do belga Ben Marzys), e longas-metragens lançados nos últimos que abordam a situação das grandes cidades atualmente – e, sobretudo, nos próximos anos.

Dois filmes são inéditos nos cinemas de Porto Alegre: Shortbus, de John Cameron Mitchell (EUA, 2006), e O Signo da Cidade (de Carlos Alberto Riccelli, Brasil, 2007). Apesar de serem duas produções com a característica de painéis dos personagens da metrópole, há na seleção um claro predomínio dos longas que vislumbram um futuro sombrio por meio da ficção científica.

Abaixo vai as sinopses de cada um dos nove longas. 2046 – Os Segredos do Amor e Crash – Estranhos Prazeres eu recomendo com entusiasmo. Confira os horários das sessões no guia hagah encartado no Segundo Caderno da ZH.

> Shortbus, de John Cameron Mitchell. EUA, 2006, 101 minutos. Um grupo de personagens excêntricos que costuma se encontrar em um clube nova-iorquino revela os novos modos e possibilidades de relacionamentos afetivo-sexuais no século 21. Exibição em 35mm.

> O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Riccelli. Brasil, 2007, 95 minutos. Em São Paulo, uma astróloga (Bruna Lombardi) comanda um programa noturno de rádio, funcionando como ligação entre várias histórias e personagens, cada um deles representando diferentes aspectos da vida na grande metrópole. Exibição em 35mm (sessão única).

> Renaissance, de Christian Volckman. França/Luxemburgo/Inglaterra, 2006, 105 minutos. Paris, ano 2054. Uma cidade labiríntica, em que todos os movimentos dos indivíduos são monitorados, e a beleza e a juventude são os valores máximos da sociedade. Elogiado desenho animado de ficção-científica, em preto e branco, apresentando uma visão sombria do futuro na capital francesa. Exibição em 35mm.

> Crash - Estranhos Prazeres, de David Cronenberg. Canadá/Inglaterra, 1996, 100 minutos. Em um futuro não muito distante, um grupo de pessoas dedica-se a jogos sexuais envolvendo carros, excitando-se com a velocidade e a possibilidade de acidentes. Inspirado no romance homônimo de J.G. Ballard, uma perturbadora reflexão sobre as mudanças que a tecnologia e a vida nas grandes cidades provocam nas sensibilidades individuais. Exibição em DVD (sessão única), com legendas em espanhol.

> 2046 - Os Segredos do Amor, de Wong Kar-wai. China/França/Alemanha/Hong Kong, 2004, 129 minutos. Escritor tranca-se em quarto de hotel para escrever um romance de ficção científica, que se passa no ano de 2046, mesmo número do quarto onde está hospedado. Nesta espécie de continuação de Amor à Flor da Pele, Kar-wai realiza uma ciranda amorosa envolvendo seu protagonista e quatro mulheres, numa Hong Kong futurista e melancólica. Exibição em 35mm.

> Cloverfield - Monstro, de Matt Reeves. EUA, 2008, 85 minutos. A cidade de Nova York é devastada por um monstro, cujo ataque será registrado por uma câmera amadora. Um filme eletrizante, que metaforiza a crescente paranóia norte-americana em relação às ameaças de novos ataques terroristas. Exibição em 35mm.

> Extermínio 2, de Juan Carlos Fresnadillo. Inglaterra/Espanha, 2007, 99 minutos. Meses depois de ter sido devastada por um vírus que transformou sua população em mortos-vivos, Londres começa a ser repovoada. Uma falha no sistema de segurança, no entanto, faz com que o vírus volte a se manifestar, com resultados ainda mais devastadores. Exibição em 35mm.

> Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo. Brasil, 2007, 60 minutos. Uma noite de sábado na cidade de Fortaleza, uma das capitais de crescimento populacional mais acelerado do país. Realizado para o projeto Doc TV, o documentário de Ivo Lopes Araújo causou enorme polêmica quando de sua exibição na capital cearense, devido à sua radical experimentação. Premiado no Festival de Tiradentes. Exibição em DVD.

> Le Weekend, de Timothy Smith. Inglaterra, 2007, 15 minutos. Um estudante francês de cinema vai passar o final de semana em Londres. Guiado por um jovem que conhece na rua e sempre com uma câmera na mão, acaba entrando em contato com um lado desconhecido da cidade e dele próprio. Exibição em DVD.

 

Postado por Daniel Feix