Chegam de Cannes compilações de como a crítica recebeu Ensaio Sobre a Cegueira, filme do brasileiro Fernando Meirelles que abriu a disputa pela Palma de Ouro. Quem costuma dar bola para opinião de crítico vai ficar (ainda mais) confuso, tal a discordância com que, curiosamente, destacam as mesmas coisas, ora como mérito, ora como equívoco.
> %22Esperava de Meirelles um filme de arte. Mas não um filme de arte tão provocador%22. Stephen Schaefer, do jornal americano Boston Herald.
> %22Ensaio Sobre a Cegueira parece formar com Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel uma espécie de trilogia sobre o holocausto humano. O primeiro filme mostrava isso nas favelas. O segundo, com a opressão das grandes corporações. Agora, ele mostra os cegos em um local de confinamento que parece um campo de concentração%22. Giovanna Grassi, do jornal italiano Corriere della Sera.
> %22Mesmo com algumas soluções óbvias, esse filme pode ser entendido de vários modos, filosófica e politicamente. Visto como uma espécie de ficção científica apocalíptica, ele fica mais forte. Com uma vantagem: Meirelles controlou os tiques de câmera que trouxe de Cidade de Deus%22. Eurico Barros, do jornal português Diário de Notícias.
> %22O filme não consegue estabelecer o tom angustiante do extraordinário romance distópico de José Saramago, embora o roteiro mantenha fidelidade ao original. A regra se reafirma: grande literatura raramente é traduzida em grande cinema%22. Amir Labaki, da Agência Folha.
> %22Impacto minimizado e excesso estilístico. Raramente atinge a força visceral da prosa de Saramago, que resistiu por muito tempo à idéia de que sua obra de arte fosse adaptada para o cinema. Meirelles provou que os instintos do escritor português estavam infelizmente corretos%22. Justin Chang, da revista americana Variety.
> %22É é um drama com imagens soberbas, alucinantes de colapso urbano. Tem, em seu centro, uma verdadeira espiral de horror, ainda assim, é iluminado com delicadeza e humor. É cinema corajoso, magistral%27%27. Peter Bradshaw, do jornal britânico The Guardian.
> %22Na verdade, só um diretor com a particular combinação de talentos de Meirelles poderia ter levado com êxito à tela a mistura de desespero e esperança do livro%22. Kenneth Turan, do jornal americano Los Angeles Times.
> %22Na adaptação do livro de Saramago para a tela, o diretor brasileiro teve um extraordinário plano visual e consideráveis desafios cinematográficos a vencer. Portanto, há muita coisa aqui para acelerar a pulsação e envolver a mente%27%27. É cinema provocador, mas também previsível: choca, mas não surpreende%27%27. Kirk Honeycutt da revista Hollywood Reporter.
> %22Meirelles parece lutar para encontrar um tom, e Ensaio sobre a Cegueira fatalmente perde tensão antes da escalada para um bizarro sentimentalismo no ato final%22. Fionnuala Halligan, da revista inglesa Screen.
> %22Prometia uma reflexão antes de se estragar numa metáfora de autodestruição%27%27. Dominique Borde, do jornal francês Le Figaro.
> %22Decepcionante. Charme teórico da ambição anunciada nos primeiros minutos de Ensaio sobre a Cegueira se volta rapidamente contra o filme, como se Meirelles só tivesse colocado o bastão tão alto para estar certo de que passaria por baixo dele%22. Olivier Séguret, do diário francês Libération.
> %22Foi a abertura mais deprimente para um festival internacional que eu já vi. Depois da glamurosa esteira rolante de estrelas no ano passado, para comemorar os 60 anos sensacionais de estréias de filmes artísticos, o festival apagou as %27luzes de Natal%27, apertou o cinto e voltou ao austero negócio de mostrar os auto flagelados diretores-autores do futuro. Um choque azedo e inesperado%22. James Christopher, do jornal britânico The Times.
> %22O filme é bastante óbvio em sua apresentação de um universo sórdido e em sua denúncia da manipulação, da miséria e da precariedade da sociedade contemporânea. Além disso, não consegue transmitir os climas e a emoção que levaram o romance original publicado em 1995 pelo ganhador do Prêmio Nobel à consideração mundial. Em vista do medíocre resultado final do filme, o notável autor de O Evangelho Segundo Jesus Cristo tinha razão em temer a adaptação%22. Crítica do jornal argentino La Nación, referindo-se à a antiga relutância de Saramago em ceder os direitos de adaptação do livro.
Postado por Marcelo Perrone




