Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.

Posts de julho 2008

Brasil em Veneza

29 de julho de 2008 0

Saiu a lista da mostra competitiva do Festival de Veneza, de 27 de agosto a 6 de setembro (veja abaixo). Se a seleção de 21 títulos que disputam o Leão de Ouro não perece muito estimulante em termos de nomes conhecidos - já tem crítico resmungando, provavelmente sem conhecer filme algum das lista, vá saber -, fora de competição a coisa muda de figura. Tem o novo filme dos recém-oscarizados irmãos Joel e Ethan Coen (Burn After Reading) e trabalhos recentes de cineastas aclamados como Abbas Kiarostami (Shirin), Agnés Varda (Les Plages D`Agnès) e Manoel de Oliveira (o curta-metragem Do Visível ao Invisível, em co-produção com o Brasil).

A turma escalada para as mostras paralelas de Veneza tem dois representantes brasileiros. A Encarnação do Demônio, novo filme José Mojica Marins, traz de volta da profundezas o célebre Zé do Caixão – entra em cartaz no Brasil no dia 8 de agosto, mas poderá ser conferido em primeira mão no próximo sábado, em sessão à meia-noite no Cine Santander, dentro da programação do Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre (Fantaspoa) – Mojica estará na Capital apresentando o filme.

Outro longa nacional em Veneza é A Erva do Rato, novo trabalho de Júlio Bressane, em parceria com Rosa Dias, sua mulher - Bressane é um dos homenageados este ano pelo Festival de Gramado.

Curiosamente, o Brasil está representado na mostra principal por tabela, em dois filmes rodados no país e co-produzidos pela produtora paulista Gullane Filmes: Plastic City, do chinês Yu Lik-wai, sobre o violento submundo do contrabando no bairro da Liberdade, em São Paulo, e Birdwatchers, do italiano Marco Bechis, filmado no Mato Grosso do Sul  e com foco na tensa relação entre índios e fazendeiros na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.

 

Saiba mais sobre estes filmes no texto abaixo enviado pela Gullane Filmes:

Produtora de sucessos do cinema brasileiro como “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, “Bicho de 7 Cabeças” e “Chega de Saudade”, a Gullane Filmes, dos irmãos Caio e Fabiano Gullane, teve duas de suas co-produções internacionais selecionadas para a competição do próximo Festival de Veneza: Birdwatchers, drama dirigido pelo italiano Marco Bechis, e Plastic City, misto de drama e artes marciais dirigido pelo chinês Yu Likwai.

Além dos dois filmes em competição, a Gullane Filmes ainda terá Encarnação do Demônio, novo filme de José Mojica Marins (o Zé do Caixão), exibido na seção especial Midnight Movies. O filme estréia no Brasil no dia 12 de agosto.

Plastic City é uma produção da Gullane com a chinesa Xstream Pictures, que tem entre seus sócios Jia Zhang-Ke – diretor dos premiados “O Mundo” e “Em Busca da Vida” (Leão de Ouro em Veneza) – em co-produção com a Sundream Motion Pictures, a Bitters End e a distribuidora brasileira Paris Filmes, em produção associada com o canal francês Arte. O filme conta a história de Kirin, um gângster chinês (vivido pelo ator japonês Odagiri Joe) que controla com seu pai o contrabando de produtos piratas no bairro da Liberdade, em São Paulo. Quando o império ameaça ruir, o pai simula sua própria morte e foge para a floresta amazônica; Kirin parte então em seu encalço. No elenco, estão ainda Alexandre Borges, Milhem Cortaz (de “Tropa de Elite”), Antônio Petrin e Phellipe Haagensen (de “Cidade de Deus”) .

Filmado no Mato Grosso, Birdwatchers é uma produção da Classic em co-produção com a Gullane Filmes, a RAI Cinema (braço de cinema do canal italiano) e a Karta Film. O filme de Marco Bechis (diretor do premiado “Garagem Olimpo”) é um drama sobre as relações humanas que se estabelecem entre os índios Guarani-Kaiowás, que vivem na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, e uma família de fazendeiros (Leonardo Medeiros e a italiana Chiara Caselli). Um conflito entre os fazendeiros, que apenas possuem a terra, e os índios, que são a própria terra. O elenco ainda tem Matheus Nachtergaele.

Além dos filmes citados, a Gullane Filmes co-produziu com o canal pago HBO a minissérie Alice, com direção de Karim Aïnouz (de “Madame Satã”) e Sérgio Machado (de “Cidade Baixa”), que estréia no dia 21 de setembro na HBO.

   

Festival de Veneza  – Longas em competição

The Wrestler, de Darren Aronofsky (EUA). “Depois do fiasco A Fonte, ele precisa arrebentar com este. Quem acredita?”

The Burning Plain, de Guillermo Arriaga (EUA). “Primeiro longa do roteirista dos filmes do mexicano  Alejandro González Iñárritu – Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. Arriaga rompeu com ele dizendo que não ganhava o devido destaque com co-autor, pois, segundo ele, estas obras se sustentam sobre seus roteiros elípticos. A ver que tinha razão.

Hurt Locker, de Kathryn Bigelow (EUA)

Rachel Getting Married, de Jonathan Demme (EUA). “O que ele fez de melhor nos últimos anos foi o documentário Heart of Gold, com o Neil Young.

Vegas: Based on a True Story, de Amir Naderi (EUA)

Il Papà di Giovanna, de Pupi Avati (Itália). “O último filme dele que passou por aqui foi mezzo mezzo Um Coração para Sonhar, de 2003.

Birdwatchers, de Marco Bechis (Itália). Diretor italiano nascido no Chile que viveu tempos em Buenos Aires e São Paulo. Autor do elogiado Garagem Olimpo (1999), sobre a relação de uma prisioneira da ditadura militar argentina com seu torturador.

Il Seme Della Discordia, de Pappi Corsicato (Itália)

Un Giorno Perfetto, de Ferzan Özpetek (Itália)

Achilles and the Tortoise, de Takeshi Kitano (Japão). “Dos excelentes Brother e Zatoichi

Ponyo on Cliff by the Sea, de Hayao Miyazaki (Japão), desenho animado

The Sky Crawlers, de Oshii Mamoru (Japão) , desenho animado

L`Autre, de Patrick Mario Bernard e Pierre Trividic (França)

Teza, de Haile Gerima (Etiópia/Alemanha/França)

Süt, de Semih Kaplanoglu (Turquia/França/Alemanha)

Jerichow, de Christian Petzold (Alemanha)

Inju, la Bête dans L`ombre, de Barbet Schroeder (França). “Do elogiado documentário O Advogado do Terror, ainda inédito em Porto Alegre”.

Bumažnyj Soldat, de Aleksey German Jr. (Rússia)

Nuit de Chien, de Werner Schroeter (França/Alemanha)

Gabbla, de Tariq Teguia (Argélia/França)

Plastic City, de Yu Lik-wai (Brasil/China/Hong Kong/Japão)

Postado por Marcelo Perrone

Da série Filmes que deveriam ser feitos

22 de julho de 2008 1

Um livro que acabei de ler abre com uma cena empolgante: no ano de 1904, em volta da praça central da cidade caucasiana de Tiflis (que hoje se chama TIbilissi), um município de tamanho médio, que mistura mercados árabes e caravançás dignos do Oriente Médio com prédios de arquitetura neo-clássica de inspiração italiana, duas garotas flertam com uma dupla de cossacos enquanto um oficial de cavalaria faz sua montaria trotar em volta da praça, sabre pendurado ao cinto. Se fosse olhado com mais atenção, seriam perceptíveis no lado esquerdo de sua face feias cicatrizes de queimadura e um olho cego que volta e meia gira em uma órbita não-natural. Nas esquinas do perímetro, guardas armados estão estrategicamente posicionados. Dobrando uma esquina, uma taberna de má reputação está cheia, mas ainda assim o proprietário não recusa entrada a ninguém. O que ele recusa é a saída. Quem entra é convencido a ficar por ali e só sair quando o dono do lugar der o seu consentimento.

Quando uma nuvem de pó se avizinha no horizonte, as garotas fazem sinal a um homem em uma esquina que por sua vez faz acena para a taberna, da qual sai um grupo de sujeitos mal encarados portando carabinas e pistolas. Quando a nuvem de pó se torna uma diligência escoltada por cossacos que estaciona na frente do edifício do banco da cidade, o grupo, incluindo o oficial de cavalaria, um cúmplice disfarcado, cai matando em cima do comboio e, depois de um sangrento tiroteio, foge levando o carregamento em dinheiro e ouro da diligência.

O assalto foi tão violento e fantástico para os padrões da época que repercutiu na imprensa internacional, com artigos em jornais da distante Inglaterra. O oficial de cavalaria, um sujeito violento, psicótivo, que trazia no rosto as marcas de uma bomba que ele próprio estava montando e que explodiu em sua cara, era o lugar-tenente do planejador do roubo, um georgiano de nome Iossif Djugachvili. Que todo mundo mais tarde conheceria pelo último de seus muitos pseudônimos: Stálin.

Recentemente lançado, o livro é O Jovem Stálin, do historiador Simon Sebag Montefiore, que recupera os dias de infância e juventude do ditador russo, sua passagem pelo seminário ainda na sua cidade natal, suas primeiras ações como revolucionário e sua ascensão como o homem de ação dos comunistas caucasianos, organizando assaltos e roubos cada vez mais ousados para arranjar dinheiro para a revolução. Vendido por sua propaganda oficial como líder, nessa época, de uma ativa célula revolucionária, Stálin e seu bando, por origem, relações e modus operandi, mais se assemelhavam a um bando de gângsters. 


Na imagem, a ficha do jovem Stálin na Okhrana, datada de 1908

Sei que Stálin foi personagem ele próprio de dois ambiciosos filmes nas últimas duas décadas: Taurus(2001), no qual Alexandr Sokurov retratava os últimos dias de Lênin à beira da morte em sua dacha, e O Círculo do Poder (1991), de Andrey Konchalowski, sobre um sujeito que, como projecionista particular do ditador, testemunhada o isolamento paranóico ao qual o tirano se recolhia. São duas poderosas produções sobre a natureza do poder e sua própria volatilidade. Mas confesso que depois de ler isso fiquei bastante curioso em especular como seria um filme que retratasse esse assalto e o jovem Stálin, ao estilo do popular gênero conhecido como “filme de roubo”. Seria melhor ainda, um “filme histórico de rouco”. Se já tivemos The Italian Job, então por que não The Georgian Job?

Tudo bem, foi só uma idéia…

Postado por Carlos André Moreira

Direto para a locadora

22 de julho de 2008 0

Mais dois filmes importantes para a galeria dos títulos que chegam ao DVD sem antes passar pelos cinemas de Porto Alegre:

Armênia (2006), de Robert Guédiguian, é o primeiro longa em que o cineasta francês investiga as origens de seus antepassados. Guediguián é autor de uma obra consistente moldada sobre tramas que se passam em sua Marselha natal (para mim seu melhor filme é A Cidade Está Tranqüila, de 2000). Dizia conhecer pouco da Armênia - até ser convidado a ir ao país apresentar seus filmes. A viagem o marcou tanto que ele voltou, repetidas vezes, e sobre as experiências dessas passagens rodou Armênia (Vouyage en Armènie, ou, “viagem à Armênia” no original). O roteiro, sobre a história de uma filha que parte em busca do pai, foi escrito em parceria com sua atriz-fetiche, Ariane Ascaride. A protagonista é médica, o velho está morrendo e, num último esforço, quer reencontrar as suas raízes. O percurso da jovem é feito atrás do pai - ele vai em busca das origens, ela  da família. Realmente lamentável que Porto Alegre tenha ficado de fora também dessa.

Michael Caine faz o papel de um escritor de sucesso, enquanto Jude Law interpreta um jovem ator que rouba sua mulher. Quando se fecha a porta da mansão vitoriana na qual o romancista abandonado recebe o ator, começa o jogo infernal de gato e rato entre os dois. Essa é a sinopse de Um Jogo de Vida ou Morte, título brasileiro de Sleuth, refilmagem dirigida pelo ator Kenneth Branagh do clássico homônimo que Joseph L. Mankiewicz adaptou da peça de Anthony Shaffer em 1972. Bem recebido – embora não premiado - no Festival de Veneza do ano passado, o novo Sleuth tem roteiro de Harold Pinter e é um projeto bastante pessoal de Caine, que mais de três décadas antes interpretara o jovem amante – o papel do escritor consagrado coube a Laurence Olivier. Remakes bem menos credenciados, bem menos elogiados pela crítica e menos vistos lá fora já estrearam nos cinemas por aqui.

Postado por Daniel Feix

De Bergman, sobre Antonioni

18 de julho de 2008 0

Dia 30 as mortes de Ingmar Bergman (1918 – 2007) e Michelangelo Antonioni (1912 – 2007), dois dos maiores autores do cinema, completam um ano. Aproveitei que, a partir de hoje, sexta-feira, a Cinemateca Paulo Amorim está homenageando os dois mestres com a exibição, em cópias em 35mm!, de Morangos Silvestres (1957) e Gritos e Sussuros (1972), do sueco, e A Noite (1961) e O Passageiro: Profissão Repórter (1975), do italiano, para adiantar aqui uma pequena homenagem.

Trata-se de um trechinho bem curto de uma entrevista na qual Bergman comenta sobre novos autores de cinema, ao que tudo indica, falando para uma emissora de tevê norte-americana, em 2002. Em meio a uma resposta, em meio a uma crítica mais que pertinente aos novos autores como um todo, o diretor de Persona (1966) e Monika e o Desejo (1953) citou uma bela frase proferida pelo diretor de A Aventura (1960) e Blow Up (1966). Vale a pena ver abaixo, aproveitando também para conferir quais eram os dois filmes de Antonioni preferidos do sueco. As legendas estão em inglês, mas está fácil de sacar a lição do grande cineasta, que por sinal teria completado 90 anos de idade esta semana, se vivo fosse.

Os horários das sessões do Ciclo Bergman e Antonioni, em cartaz em duas salas da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, estão diariamente no roteiro de cinema do Guia hagah.

 

Postado por Daniel Feix

Os filmes de Gramado

15 de julho de 2008 0

Com o anúncio dos cinco filmes estrangeiros, feito no início da noite desta segunda-feira, está completa a seleção de longas-metragens concorrentes do 36º Festival de Cinema de Gramado, que será realizado entre 10 e 16 de agosto próximos na Serra. Serão 11 títulos na disputa pelos Kikitos, numa seleção que surpreende pela grande diversidade. Confere abaixo uma ficha rápida de cada um deles e veja se não é verdade.

> PERRO COME PERRO (Colômbia, 2008, 106min)
De Carlos Moreno, com Marlon Moreno, Oscar Borda, Álvaro Rodriguez e Paulina Rivas. Filme exibido no último Festival de Sundance e bem cotado na cotação dos leitores do IMDB. Sinopse: No mundo do crime da Colômbia há uma lei não oficial. Quando Víctor e Eusebio, dois criminosos que trabalham extorquindo dinheiro, desrespeitam as regras, inconscientemente assinam suas próprias sentenças de morte.

> MUÑECA (Chile, 2008, 83min)
De Sebastian Arrau, com Benjamin Vicuña, Ana Fernandez, Marcial Tagle e Maria de los Angele Garcia. Estréia do roteirista de tevê Arrau na direção. Sinopse: Dois homens de 30 anos e uma mulher de 40 encontram-se no dia da eleição para presidente da República. Trata-se de um encontro às escuras, planejado por Manuel, que busca encontrar um pai para o futuro filho de Gabriela. Manuel está convicto que Pedro é o homem certo para essa finalidade e o inspira a dar um passo nunca antes imaginado por um homossexual conservador: a paternidade.

> POR SUS PROPRIOS OJOS (Argentina, 2007, 79min)
De Liliana Paolinelli, com Maximiliano Gallo, Ana Carabajal, Luisa Núñez e Mara Santucho. Primeiro longa da diretora argentina, levou um prêmio coletivo de melhor atriz para o elenco feminino no Festival de Biarritz. Sinopse: Uma estudante de cinema, Alicia, tenta fazer um documentário sobre um tema nada fácil: as mulheres dos presos. Em geral as mulheres se resistem a ser filmadas por temor à condenação social. No meio dessa dificuldade, Alicia conhece Elsa, que tem seu filho preso. É a partir do vínculo que se estabelece entre elas que tudo passa a fluir como a menina quer.

> COCHOCHI (México, 2007, 87min)
De Israel Cardenas e Laura Guzman, com Luis Antonio Torres, Evaristo Torres, Jose Ignácio Rodriguez e Cristobal Nevares. Filme de estréia na direção da dupla de fotógrafos, foi premiado no Festival de Toronto, entre outros, mas não está bem cotado na avaliação dos leitores do IMDB. Sinopse: Evaristo e Tony, irmãos indígenas do noroeste do México têm apenas o ensino fundamental concluído quando recebem uma tarefa do seu avô: entregar medicamento no outro extreme da Serra Tarahumara. Tony e Evaristo, receando a estrada pela frente, decidem pegar o cavalo do avô e partem em uma viagem mais longa do que esperavam.

> MINDELO ATRAVÉS DO HORIZONTE (Cabo Verde, 2008, 74min)
De Alexis Tsafas. Documentário do mesmo diretor do musical Dançando com Raidel (2002), inédito no Brasil. Sinopse: o filme retrata uma pequena cidade-porto de Cabo Verde, chamada Mindelo e situada no meio do Oceano Atlantico. A câmara segue a vida contemporânea da ilha procurando a cultura crioula do seu povo. Sem comentários, sem entrevistas, sem narração.

> JUVENTUDE (Rio de Janeiro, 2008, 75min)
De Domingos Oliveira, com Domingos Oliveira, Paulo José e Aderbal Freire-Filho. Em seu filme mais confessional, o grande diretor e dramaturgo (clique aqui e confira a sensacional entrevista que concedeu recentemente a ZH) relata a velhice de três velhos amigos, por meio de recordações em um encontro na casa de um deles.

> NOME PRÓPRIO (Rio de Janeiro, 2007, 120min)
De Murilo Salles, com Leandra Leal, Juliano Cazarré, Munir Kanaan e Rosane Mulholland. Sinopse: baseado nos escritos da blogueira e escritora gaúcha radicada em São Paulo Clarah Averbuck, o filme conta a história de uma jovem mulher que dedica a vida a sua paixão, escrever. Camila é intensa, complexa e corajosa. Para ela, o que interessa é construir uma trajetória como ato de afirmação. Nome Próprio é um filme sobre a paixão de Camila e sua busca por redenção.

> VINGANÇA (Rio de Janeiro, 2008, 116min)
De Paulo Pons, com Erom Cordeiro, Bárbara Borges, Branca Messina, José de Abreu e Márcio Killing. Primeiro filme do projeto de filmes de baixo orçamento Pax, chamado pela imprensa de “dogma brasileiro”. Sinopse: em uma pequena cidade do interior gaúcho (Pons é do RS), Camila, filha de um rico fazendeiro, é violentada e abandonada na beira de um rio. Meses depois, Miguel, um rapaz misterioso e solitário, chega ao Rio de Janeiro e passa a perseguir uma jovem carioca, Carol, com quem inicia um relacionamento. Carol tem um irmão, Bruno, que mora na Austrália e que acabara de chegar ao Rio para passar alguns dias. Juntos, em uma festa, ao lado de outros personagens, eles conhecem Camila, que chega ao Rio e faz revelações que conduzem a história a um novo e inesperado caminho.

> A FESTA DA MENINA MORTA (Rio de Janeiro, 2008, 110min)
De Matheus Nachtergaele, com Daniel Oliveira, Jackson Antunes, Juliano Cazarré, Cássia Kiss e Dira Paes. Primeiro filme do consagrado ator de 39 anos. Sinopse: o filme conta a história de Santinho, alçado à condição de líder espiritual numa comunidade ribeirinha do alto Amazonas, a partir de um “milagre” realizado por ele após o suicídio de sua própria mãe. O filme procura ser o retrato íntimo dos envolvidos nesta seita e da capacidade infinita do homem em “criar” fé e buscar um sentido diante de seu horror à morte.

> NETTO E O DOMADOR DE CAVALOS (Rio Grande do Sul, 2008, 95min)
De Tabajara Ruas, com Werner Schünemann, Tarcísio Filho, Fernanda Carvalho Leite, Lu Adams e Denizeli Cardoso. Segundo filme da trilogia do general Netto, que começara em 2001 com o bom Netto Perde sua Alma. Sinopse: o filme reconta a mais popular lenda rio-grandense, a do Negrinho do Pastoreio. No início da Guerra dos Farrapos, o general Netto descobre que um antigo parceiro de guerras, o sargento Torres, está preso. Para libertá-lo, busca a ajuda de escravos rebelados, entre eles, o negrinho, o melhor ginete da fronteira.

> PACHAMAMA (Rio de Janeiro, 2008, 105min)
De Eryk Rocha. Documentário do talentoso filho de Glauber Rocha, que já dirigiu o longa Rocha que Voa. Sinopse: Pachamama (título que significa para os indígenas andinos “mãe-terra” e designa a deusa agrária dos camponeses) narra a viagem de um cineasta, o próprio diretor, através da floresta brasileira em direção ao Peru e à Bolívia, onde encontra a realidade de povos historicamente excluídos do processo político de seus países e que pela primeira vez na história buscam uma participação efetiva na construção do seu próprio destino. É uma pequena odisséia de 30 dias pela realidade amazônica e andina, que revela um continente em ebulição, perpassado pela cultura milenar andina, que irradia pelo continente sul-americano substância primordial na constituição de novos paradigmas políticos.

Postado por Daniel Feix

Do Outro Lado

11 de julho de 2008 0

A estréia imperdível da semana nos cinemas de Porto Alegre é Do Outro Lado, de Fatih Akin, que ganhou o prêmio de melhor roteiro em Cannes 2007. Trata-se de um verdadeiro mosaico de personagens direta ou indiretamente ligados com imigrantes vindos da Turquia que vivem na Alemanha, amarrado de maneira absolutamente brilhante pelo grande diretor Akin, ele próprio natural de Hamburgo porém filho de pais turcos. A imigração, aliás, a busca pela identidade perdida, sempre foi o tema preferido do cineasta – desde antes do Urso de Ouro que ele ganhou em Berlim, em 2004, com Contra a Parede – cinéfilos mais atentos vão lembrar de filmes como Rápido e Indolor (1998), In July (2000), Solino (2002) ou o documentário Atravessando a Ponte – O Som de Istambul (2005). Do Outro Lado, naturalmente, mistura falas em turco e em alemão – mas também tem diálogos inteiramente em inglês, que por sinal basearam o trailer abaixo, feito para vender o filme para o público internacional:

Postado por Daniel Feix

Uma semana de fama

09 de julho de 2008 0

Um jurado enquadrado/Mauro Vieira/Banco de Dados - 9/8/2007

Confira aqui o depoimento do Eduardo Nozari, estudante de jornalismo de São Leopoldo escolhido por Zero Hora para representar o jornal no Júri Popular do Festival de Cinema de Gramado de 2007:

Há quase um ano, quando vi em Zero Hora a promoção do Júri Popular do Festival de Gramado, duvidei que tivesse chances de ganhar. Mesmo assim, resolvi arriscar e enviei meu texto. E, quem diria, fui o escolhido! Então, se você também é um cinéfilo - mesmo que indeciso, como eu -, não se acanhe e participe. Vale a pena, e eu explico por quê.

O Júri Popular do Festival de Gramado tem tudo para ser o grupinho de pessoas mais felizes do mundo, pelo menos durante aquela semana. São sete dias de doses possantes de cinema na veia. Acredito que, assim como foi para mim, é muito gratificante para qualquer admirador da sétima arte poder prestigiar produções latino-americanas em primeira mão, e ainda ter a honra de decidir o destino de alguns Kikitos.

Viver esse clima cinematográfico em uma das cidades mais aconchegantes do Brasil já seria o bastante. Mas tem mais. Com acesso liberado a praticamente todos os eventos do Festival, o jurado popular tem a oportunidade de encontrar, fotografar e, quem sabe, até trocar umas idéias com seus artistas favoritos.
Isso tudo, claro, graças à louvável parceria do Festival de Gramado com jornais de todo o país, que escolhem os membros do Júri Popular. Ser jurado é uma experiência que, definitivamente, não tem preço.

Eduardo Nozari/Especial

 

Postado por Roger Lerina

Quer ser jurado do Festival de Gramado?

09 de julho de 2008 0

Oi, eu sou o Kikito, o Deus Sol!/Divulgação

Chega a sua terceira edição uma das iniciativas mais elogiadas do Festival de Cinema de Gramado. Desde 2006, o Júri Popular da competição é formado por leitores cinéfilos de alguns dos principais jornais brasileiros, entre eles Zero Hora, que elegem o vencedor de um dos mais importantes Kikitos do certame.
ZH lança hoje uma promoção para escolher o representante do jornal nesse júri _ no ano passado, o escolhido foi o estudante de jornalismo Eduardo Nozari, de São Leopoldo (leia no post acima o relato de sua experiência).

O número de integrantes do Júri Popular vem crescendo desde que foi criado o novo formato: em 2007, foram 12 jurados, escolhidos por veículos de imprensa de nove Estados; agora, na 36º edição do festival, o grupo será formado por 15 leitores. De 10 a 16 de agosto, esses jurados terão que assistir a 11 longas-metragens (seis brasileiros e cinco latino-americanos), entre os quais decidirão que títulos levarão os prêmios de melhor filme nacional e estrangeiro.

Zero Hora está outra vez integrada ao concurso. Para participar, é só clicar aqui e escrever sua opinião sobre o melhor filme brasileiro que você tenha visto recentemente. O texto deve ser enviado até o dia 31 deste mês e ter no máximo 950 caracteres. O vencedor será escolhido pela equipe do Segundo Caderno e ganhará da organização do Festival de Gramado translado, estadia e alimentação _ assumindo, em contrapartida, o compromisso de assistir a todos os filmes das mostras competitivas de longa-metragem.

Em 2006, o primeiro jurado eleito por ZH para o Festival de Gramado foi o santa-cruzense Tiago Rech, então estudante de jornalismo que atualmente estuda cinema em Los Angeles, nos EUA. No ano passado, foi a vez de Eduardo Nozari, que mantém o blog de cinema sobretudocinema.wordpress.com, representar os leitores do jornal na competição.

Ah, o vencedor não vai precisar pagar o mico de circular em Gramado vestido de Kikito dourado que nem na foto acima, ok?

Postado por Roger Lerina

Dois filmes nacionais em cartaz

07 de julho de 2008 0

O Segundo Caderno desta terça sai com uma matéria sobre a volta, em cópia restaurada, de O Homem que Virou Suco (1981), clássico sobre a migração nordestina a São Paulo dirigida pelo mineiro João Batista de Andrade. O filme foi premiado em Gramado e Brasília e levou a Medalha de Ouro no Festival de Moscou. Recuperado em 2006, ano em que seu lançamento completou 25 anos, volta a em cartaz em apenas uma sessão diária na Cinemateca Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, o que é uma pena – e também difícil de se entender, à medida que Sex and The City: O Filme ocupa mais horários da grade da cinemateca mesmo estando em cinco salas de shopping da cidade. De qualquer maneira, vale o esfoço para ver O Homem que Virou Suco. Abaixo, o trailer do filme, seguido do trailer de outro lançamento nacional de 2006 que só agora chega a Porto Alegre – a cinebiografia de Noel Rosa (1910-1937) Noel, o Poeta da Vila, de Ricardo van Steen.

Postado por Daniel Feix

Direto para a locadora

03 de julho de 2008 0

Seguindo a idéia de listar aqui filmes que não passaram nos cinemas de Porto Alegre, chegando na cidade diretamente nas prateleiras das locadoras, aí vão mais dois títulos importantes praticamente ignorados pelos distribuidores brasileiros. Praticamente porque o primeiro passou no último Festival de Verão, em fevereiro, na Capital, e o segundo ainda vai ser exibido este mês em sessões diárias no Cine Santander – foi mesmo do circuito comercial daqui que eles foram excluídos.

Do segundo falamos na página dedicada aos lançamentos de DVD do Segundo Caderno de sexta-feira passada. Do primeiro falaremos um pouco mais na sexta desta semana, no mesmo espaço. Ambos valem a locação.

Em Busca da Vida (Sanxia Haoren, 2006). De Jia Zhang-Ke. Drama, China/Hong Kong, 108 minutos.

Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2006 (ao lado da Palma de Ouro de Cannes e do Urso de Ouro de Berlim dos três maiores prêmios dos festivais de cinema), o filme dirigido e roteirizado por Zhang-Ke (um dos principais realizadores chineses da chamada sexta geração, autor de, entre outros, Pickpocket e Prazeres Desconhecidos) passou nos cinemas de Porto Alegre apenas na programação do Festival de Verão deste ano. Em Busca da Vida conta a história de uma enfermeira (Zhao Tao) e de um trabalhador de minas de carvão (Han Shamming) que decidem retornar ao local onde ficava a cidade de Fengjie, que acabou submersa para a construção de uma represa, na intenção de reencontrar seus namorados. Ela não vê o parceiro há dois anos; ele não vê a parceira há 16. A história dos dois tem inúmeras outras diferenças, mas o que eles verão trará conseqüências igualmente impactantes para os dois.

XXY (XXY, 2007). De Lucía Puenzo. Drama, Argentina, 86 minutos.

Filme de estréia na direção da roteirista Lucía Puenzo, 34 anos, filha de Luis Puenzo, o diretor do clássico A História Oficial (1986), única produção argentina a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro. Estréia com louvor: XXY colecionou distinções internacionais como os prêmios de melhor filme da Mostra de São Paulo e da Semana da Crítica do Festival de Cannes do ano passado. O roteiro enxuto conta a história de Alex (Inés Efron), uma garota de 15 anos que vive com os pais (Ricardo Darín e Valeria Bertuccelli) em uma pequena praia uruguaia. Sabe-se que saíram de Buenos Aires insatisfeitos com a intolerância alheia e que a menina tem algum problema de saúde – as gavetas de seu criado-mudo são cheias de remédios, como ela faz questão de mostrar para Álvaro (Martín Piroyansky), o guri com quem vai compartilhar suas primeiras descobertas sexuais. Aos poucos, com a delicadeza que o assunto pede, revela-se a encruzilhada da família: Alex é hermafrodita e seus velhos estão indecisos sobre fazer ou não uma cirurgia que a permita levar uma vida, na media do possível, normal – ou então deixá-la decidir seu próprio futuro. Tramas sobre esse tipo de história são difíceis, mas a realizadora a conduz com serenidade, explorando a qualidade de seus atores – os destaques são o sempre bom Darín e a protagonista, que depois de XXY já emendou participações nos mais novos filmes de Dnaiel Burman (o excelente El Nido Vacío) e Lucrecia Martel (La Mujer Sin Cabeza, selecionado para o Festival de Cannes deste ano), ainda inéditos no Brasil.

Postado por Daniel Feix

Charlone e o belo O Banheiro do Papa

02 de julho de 2008 2

O Segundo Caderno desta quinta publica uma entrevista com César Charlone, que entre outras coisas foi indicado ao Oscar pela fotografia de Cidade de Deus (2002), filme de Fernando Meirelles. Charlone, uruguaio radicado no Brasil, está em cartaz em Porto Alegre com O Banheiro do Papa, longa que ele co-dirigiu com o conterrâneo Enrique Fernández, sobre a visita de João Paulo II à pequena cidade de Melo, na fronteira do Uruguai com o Rio Grande do Sul, em 1988.

ZH traz boas curiosidades sobre essa visita na sua edição do dia (link acessível apenas durante a quinta-feira). Aqui, no blog de cinema do jornal, o plano era disponibilizar trechos não publicados da conversa, em uma edição diferente. Mas a correria e o aumento de espaço que o filme ganhou na edição impressa, meio em cima da hora do fechamento, nos fizeram mudar de idéia. Vai, abaixo, a íntegra do bate-papo – ou melhor, a íntegra da transcrição, porque houve coisas, mas nada tão importante assim, que literalmente não deu tempo de passar para o papel:

No elevador do hotel em que se hospedou em Porto Alegre, antes de falar com Zero Hora, César Charlone sugere à reportagem que as fotos feitas diante do espelho no lobby, duplicando sua imagem, poderiam ilustrar bem esta entrevista, “já que as perguntas de vocês certamente irão para essa coisa de eu ser meio uruguaio e meio brasileiro”. Dirigir a ação parece mesmo ser a vocação desse montevideano radicado há mais de 30 anos no Brasil.
Indicado ao Oscar de direção de fotografia pelo filme Cidade de Deus (2002), Charlone, 58 anos, acabou sendo descoberto por Hollywood um tanto tardiamente. Assinou a fotografia do telefilme Sucker Free City (2004), de Spike Lee, e chegou a trabalhar em Chamas da Vingança (2004), de Tony Scott - mas abandonou as filmagens logo no começo. “Entre Spike Lee e Fernando Meirelles, sou mil vezes Meirelles”, justifica Charlone, elogiando o cineasta com quem trabalhou ainda em O Jardineiro Fiel (2005) e no inédito Ensaio Sobre a Cegueira (2008). Dispensando convites para assumir a direção de fotografia de grandes produções internacionais como Invasão de Domicílio, A Rainha, Across the Universe e Na Natureza Selvagem, Charlone resolveu voltar-se para o que chama de seu “útero uruguaio” em sua estréia como realizador: co-dirigido por Enrique Fernández, o filme O Banheiro do Papa (2007) é uma tocante história sobre luta pela sobrevivência de uma comunidade esquecida pela globalização, inspirada na verídica visita do papa João Paulo II em 1988 à localidade uruguaia de Melo, na fronteira com o Rio Grande do Sul.
Exibido com sucesso no Festival de Cannes, O Banheiro do Papa levou sete Kikitos no último Festival de Gramado - ganhando inclusive o prêmio de melhor filme latino do júri popular (“Pra minha felicidade, o filme estreou no Brasil aqui. Meu lado brasileiro é gaúcho”, confessa o diretor, sem sotaque espanhol nenhum). Mas afinal, Cesar Charlone é uruguaio ou brasileiro? “Fiquei sete anos num divã pra ver essa coisa de nacionalidade, e não consegui”.

Zero Hora - O Banheiro do Papa parte de um episódio que de fato aconteceu, mas cujos personagens e cujas situações são ficcionais. O que há de imaginação e o que há de realidade no filme?
César Charlone -
Objetivamente: as imagens do Papa, que aparecem via aparelho de televisão, e as reportagens sobre a sua vinda, são reais; o resto é ficção. Os cenários também dizem respeito aos locais onde realmente se passou a história, os próprios personagens são inspirados em gente de verdade - mas são construções ficcionais. Fizemos cenas em vídeo para misturar com as imagens documentais, mas nada ali foi inspirado em coisas que não aconteceram.

ZH - Você já conhecia esses locais e esses personagens?
Charlone -
Não, nada. A história é a seguinte: o Enrique (Fernández, co-diretor) é de Melo e sempre pensou em fazer um filme sobre a visita do Papa e sobre os personagens da cidade que fazem parte de suas lembranças de infância. Ele me chamou para trazer um olhar de alguém “de fora”. Eu sou muito uruguaio, como todos os uruguaios - tomo mate, ouço música do meu país todos os domingos de manhã etc. Também pensava há anos em fazer um filme que contemplasse as paisagens do pampa, vejo-as e fico encantado com elas em minhas viagens de carro de São Paulo a Montevidéu. Mas, de fato, estou há 38 anos longe do Uruguai, quanto mais de Melo - então minha visão é bem mais distanciada que a do Enrique. O Banheiro do Papa é a mistura dessas duas visões, a minha e a dele. Um exemplo: enquanto amigos brasileiros que viram o filme questionaram aqueles portraits dos personagens depois que o Papa foi embora, dizendo que aquilo era sentimental demais, uruguaios disseram que esses portraits eram a sua melhor parte. Essa é uma síntese possível do sentimento de um uruguaio em relação àquelas pessoas e àquele lugar e do sentimento de um brasileiro - um vê as coisas com mais dramaticidade, outro não se sente tão confortável com isso, prefere a alegria, fica mais à vontade vendo a luz no fim do túnel.

ZH - Por favor, fale um pouco mais sobre a sua ligação com o Uruguai e com o Brasil, sobre a sensação de pertencimento - ou não pertencimento - a cada um desses lugares.
Charlone -
O Uruguai é um país pequeno não-industrializado localizado entre dois gigantes industrializados. Vendo essa situação com bom humor, dá para dizer que nós, uruguaios, temos uma vocação natural para o contrabando (risos). Era muito comum, quando eu era criança e passava férias em Punta del Este, dar uma esticadinha para o Chuí para comprar material escolar, doces etc. mais baratos. Jovens, ainda hoje, casam e preferem ir a um leilão comprar móveis do século 18 para equipar suas novas casas - porque lá não há tantas lojas que dêem a oportunidade de comprar não-usados com facilidade. Melo é uma cidade que vive isso com intensidade. Isso está em mim e não tem jeito de tirar. E viver longe do meu lugar, do meu país me marcou muito. Fiz sete anos de terapia - em espanhol, com um psicanalista argentino que vive em São Paulo - para resolver isso. Eu diria que sou um cidadão brasileiro, vivi a maior parte da minha vida aqui, não tem jeito. Aprendi a entender este país e a estar dentro dele, envolvido com ele. Mas minha alma é uruguaia.

ZH _ O filme reúne atores profissionais e atores amadores. É verdade que o trabalho de vocês, para buscar uma homogeneização das interpretações, foi feito no sentido de deixar os profissionais mais rudes, amadores mesmo, para que eles ficassem melhor adaptados ao ambiente de Melo - ou seja, o contrário do que usualmente acontece?
Charlone - Sim. Mas, na verdade, esse é o caminho mais fácil - transformar amadores em profissionais é que é o mais complicado. Também acho que o registro naturalista combina muito mais com o cinema que a gente vê mais freqüentemente hoje em dia - fugir dele e tentar alguma alternativa me parece mais difícil.

ZH - Como foi a escolha desses atores?
Charlone -
O Enrique escolheu muitos atores antes de eu entrar no processo, inclusive o César Troncoso para o papel do Beto, o protagonista. Mas, em resumo, o processo foi o seguinte: selecionar alguns profissionais, poucos, para os papéis mais difíceis; depois pôr anúncios em jornal e em rádios buscando os demais. Aqui também ficaram evidentes nossas visões diferentes da mesma história: enquanto o Enrique queria, por exemplo, para o papel do Valvulina, um cara super digno, sério, eu preferia a malandragem, a ironia do Mario Silva, que acabou sendo o escolhido. Dignidade, seriedade - isso a gente trabalha depois. Fundamental era ter essa ginga que para mim é muito importante na situação em que os personagens se encontravam. Sobre esse mesmo ator, que era muito pobre e nunca havia entrado numa sala de cinema antes, há uma história para mim muito triste: ao vê-lo algum tempo depois, ele veio todo feliz me dizer que continuava trabalhando em set de filmagens. Perguntei o que ele estava fazendo. “Sou guarda noturno do set”, ele respondeu.

ZH - Ele é de Melo?
Charlone -
De Montevidéu. Mas os outros bicicleteiros são de Melo, sendo que o Jose Arce (Tica) era bicicleteiro, mesmo. A Rosario dos Santos (Teresa) também é de lá.

ZH - O que te fez aceitar o desafio de fazer um filme sobre pobres numa cidadezinha como Melo e negar convites como o de fotógrafo de Na Natureza Selvagem, do Sean Penn, e A Rainha, do Stephen Frears, entre outros vindos diretamente de Hollywood?
Charlone -
Eu já fazia roteiros e direção - fiz dois episódios de Cidade dos Homens com o Jorge Furtado, por exemplo, o que foi uma honra imensurável. Só não havia assinado nenhum longa porque acho que, para ser diretor de um filme, é preciso se tratar de uma história muito pessoal. No meu caso, era absolutamente necessário ser um filme uruguaio ou, no mínimo, sobre imigração. Não me vejo dirigindo uma comédia romântica sobre a crise de um casal paulista de classe média. Isso eu não farei, não tenho vontade, não é a minha praia. Como faria um filme do jeito que eu queria morando no Brasil e dependendo de leis de incentivo nacionais para me financiar? O Banheiro do Papa caiu como uma luva. Fiz apenas três exigências: poder mexer no roteiro, dando essa cara mais distanciada e menos dramática ao filme; fazer um trabalho de preparação dos atores com profissionais de fora; fazer a pós-produção toda no Brasil, para, justamente, deixar o filme mais internacional, com maior facilidade de comunicação com outros países e outros locais. Cidade de Deus (2002) me ensinou muitas coisas. Uma delas: é preciso falar com os outros países, saber se comunicar com pessoas de outros lugares. Isso é bom para um filme, eu diria fundamental. No caso d`O Banheiro do Papa, técnicos como músicos e o montador foram escolhidos com essa mentalidade. Fez a diferença.

ZH - Como foi filmar com o Tony Scott e o Spike Lee?
Charlone -
Sou mil vezes mais o Fernando Meirelles (com quem também filmou O Jardineiro Fiel, de 2005, e Ensaio sobre a Cegueira, de 2008). Somos da mesma praia, compartilhamos de visões de mundo mais próximas, falamos a mesma língua, queremos fazer as mesmas coisas. Fora o fato de que posso ficar mais próximo da minha família ao trabalhar, não preciso largar tudo. Foi por causa da distância e dessas diferenças que não aguentei terminar o Chamas da Vingança. Para fazer Na Natureza Selvagem eu teria de ficar nove meses longe dos meus filhos. Não dá. Se Cidade de Deus tivesse chegado antes na minha vida, eu aceitaria outros trabalhos, teria outra cabeça, acho. Mas agora não tenho mais vontade de projetos que não sejam pessoais.

ZH - Com que idade você saiu do Uruguai?
Charlone -
Vinte anos. Depois dessa idade, não parei mais. Fui para Cuba, para a Europa, viajei bastante, às vezes morando longe da mulher e dos filhos, até me estabilizar em São Paulo.

ZH - É fácil entender as tuas motivações quanto ao conteúdo de O Banheiro do Papa. Mas, e quanto à forma? Por que a opção por um filme tão ligado à estética neo-realista?
Charlone -
Enrique e eu somos da mesma geração, crescemos vendo não só os neo-realistas, mas sobretudo os pós-neo-realistas - Ettore Scola, Francesco Rosi, Gillo Pontecorvo. São nossas maiores referências, os filmes dos nossos tempos de escola. Aprendemos com eles. A partir desse tema, não tinha comom fugir dessa estética. Agora, um filme sobre o qual pensamos muito durante a realização foi o Histórias Mínimas (Argentina, 2002), do Carlos Sorin. Queríamos muito a delicadeza, o quase minimalismo desse título incorporado à nossa produção, nosso roteiro pedia isso.

ZH - Como foi vender um projeto desses para os distribuidores internacionais?
Charlone -
Sabe que não foi tão difícil assim? Dizer que tínhamos um filme uruguaio, com atores desonhecidos, sobre a história de uma cidade inteira que se endividou para comprar salsichas para vender durante a visita do Papa, e que um cara se achou mais esperto porque teve a idéia de construir um banheiro para os peregrinos usarem, isso foi sempre recebido com empolgação, todos achavam que havia muita coisa a explorar aí. Os distribuidores internacionais preferem tiros, drogas etc. quando se trata de América Latina. Mas O Banheiro do Papa foi exceção - por incrível que pareça.

ZH - Quais são teus próximos projetos?
Charlone -
Estou escrevendo um longa com a Dainara Toffoli - que aliás é gaúcha - sobre a Operação Condor. Eu já dirigi, mas sem assinar, para preservar a minha vida, um documentário sobre o tema, nos anos 70. Vou retomá-lo, sou apaixonado por essa coisa da esquerda de juntar toda a América Latina - algo que os militares conseguiram para reprimi-la. O projeto ainda está no início, mas já é concreto. Além disso, olhem que bacana: por ocasião do bicentenário das independências dos países latinos, a TVE, da Espanha, está produzindo uma série de sete longas sobre os libertadores da América. Vou dirigir um deles, sobre (José Gervásio) Artigas. Felicíssimo. Tem coisa mais uruguaia - ou seja, fascinante, para mim _ do que Artigas? Neste momento, não.

ZH - Como anda a produção uruguaia?
Charlone -
Bem. Faz-se quatro, cinco longas por ano no Uruguai. O que, proporcionalmente, é bastante. O Banheiro do Papa fez mais de 80 mil espectadores por lá - comparando com o Brasil, equivaleria a 7 milhões de pessoas. É um número ótimo. Há problemas de distribuição, entre outros - para mostrar nosso filme em Melo, tivemos de levar um projetor e instalá-lo provisoriamente por lá, pois não há sala de cinema na cidade. Mas, em termos de produção, me parece que as coisas vão bem.

ZH - Como foram as exibições em Melo?
Charlone -
Muito legais. Fizemos sessões contínuas desde às 10h da manhã. As pessoas pagavam 1kg de alimento não perecível para entrar. Foi uma loucura, a sala sempre cheia, o dia inteiro. Todo mundo lá assistiu ao filme. E reagiu de maneira positiva.

Postado por Daniel Feix