O Segundo Caderno desta quinta publica uma entrevista com César Charlone, que entre outras coisas foi indicado ao Oscar pela fotografia de Cidade de Deus (2002), filme de Fernando Meirelles. Charlone, uruguaio radicado no Brasil, está em cartaz em Porto Alegre com O Banheiro do Papa, longa que ele co-dirigiu com o conterrâneo Enrique Fernández, sobre a visita de João Paulo II à pequena cidade de Melo, na fronteira do Uruguai com o Rio Grande do Sul, em 1988.
ZH traz boas curiosidades sobre essa visita na sua edição do dia (link acessível apenas durante a quinta-feira). Aqui, no blog de cinema do jornal, o plano era disponibilizar trechos não publicados da conversa, em uma edição diferente. Mas a correria e o aumento de espaço que o filme ganhou na edição impressa, meio em cima da hora do fechamento, nos fizeram mudar de idéia. Vai, abaixo, a íntegra do bate-papo - ou melhor, a íntegra da transcrição, porque houve coisas, mas nada tão importante assim, que literalmente não deu tempo de passar para o papel:
No elevador do hotel em que se hospedou em Porto Alegre, antes de falar com Zero Hora, César Charlone sugere à reportagem que as fotos feitas diante do espelho no lobby, duplicando sua imagem, poderiam ilustrar bem esta entrevista, "já que as perguntas de vocês certamente irão para essa coisa de eu ser meio uruguaio e meio brasileiro". Dirigir a ação parece mesmo ser a vocação desse montevideano radicado há mais de 30 anos no Brasil.
Indicado ao Oscar de direção de fotografia pelo filme Cidade de Deus (2002), Charlone, 58 anos, acabou sendo descoberto por Hollywood um tanto tardiamente. Assinou a fotografia do telefilme Sucker Free City (2004), de Spike Lee, e chegou a trabalhar em Chamas da Vingança (2004), de Tony Scott - mas abandonou as filmagens logo no começo. "Entre Spike Lee e Fernando Meirelles, sou mil vezes Meirelles", justifica Charlone, elogiando o cineasta com quem trabalhou ainda em O Jardineiro Fiel (2005) e no inédito Ensaio Sobre a Cegueira (2008). Dispensando convites para assumir a direção de fotografia de grandes produções internacionais como Invasão de Domicílio, A Rainha, Across the Universe e Na Natureza Selvagem, Charlone resolveu voltar-se para o que chama de seu "útero uruguaio" em sua estréia como realizador: co-dirigido por Enrique Fernández, o filme O Banheiro do Papa (2007) é uma tocante história sobre luta pela sobrevivência de uma comunidade esquecida pela globalização, inspirada na verídica visita do papa João Paulo II em 1988 à localidade uruguaia de Melo, na fronteira com o Rio Grande do Sul.
Exibido com sucesso no Festival de Cannes, O Banheiro do Papa levou sete Kikitos no último Festival de Gramado - ganhando inclusive o prêmio de melhor filme latino do júri popular ("Pra minha felicidade, o filme estreou no Brasil aqui. Meu lado brasileiro é gaúcho", confessa o diretor, sem sotaque espanhol nenhum). Mas afinal, Cesar Charlone é uruguaio ou brasileiro? "Fiquei sete anos num divã pra ver essa coisa de nacionalidade, e não consegui".
Zero Hora - O Banheiro do Papa parte de um episódio que de fato aconteceu, mas cujos personagens e cujas situações são ficcionais. O que há de imaginação e o que há de realidade no filme?
César Charlone - Objetivamente: as imagens do Papa, que aparecem via aparelho de televisão, e as reportagens sobre a sua vinda, são reais; o resto é ficção. Os cenários também dizem respeito aos locais onde realmente se passou a história, os próprios personagens são inspirados em gente de verdade - mas são construções ficcionais. Fizemos cenas em vídeo para misturar com as imagens documentais, mas nada ali foi inspirado em coisas que não aconteceram.
ZH - Você já conhecia esses locais e esses personagens?
Charlone - Não, nada. A história é a seguinte: o Enrique (Fernández, co-diretor) é de Melo e sempre pensou em fazer um filme sobre a visita do Papa e sobre os personagens da cidade que fazem parte de suas lembranças de infância. Ele me chamou para trazer um olhar de alguém "de fora". Eu sou muito uruguaio, como todos os uruguaios - tomo mate, ouço música do meu país todos os domingos de manhã etc. Também pensava há anos em fazer um filme que contemplasse as paisagens do pampa, vejo-as e fico encantado com elas em minhas viagens de carro de São Paulo a Montevidéu. Mas, de fato, estou há 38 anos longe do Uruguai, quanto mais de Melo - então minha visão é bem mais distanciada que a do Enrique. O Banheiro do Papa é a mistura dessas duas visões, a minha e a dele. Um exemplo: enquanto amigos brasileiros que viram o filme questionaram aqueles portraits dos personagens depois que o Papa foi embora, dizendo que aquilo era sentimental demais, uruguaios disseram que esses portraits eram a sua melhor parte. Essa é uma síntese possível do sentimento de um uruguaio em relação àquelas pessoas e àquele lugar e do sentimento de um brasileiro - um vê as coisas com mais dramaticidade, outro não se sente tão confortável com isso, prefere a alegria, fica mais à vontade vendo a luz no fim do túnel.
ZH - Por favor, fale um pouco mais sobre a sua ligação com o Uruguai e com o Brasil, sobre a sensação de pertencimento - ou não pertencimento - a cada um desses lugares.
Charlone - O Uruguai é um país pequeno não-industrializado localizado entre dois gigantes industrializados. Vendo essa situação com bom humor, dá para dizer que nós, uruguaios, temos uma vocação natural para o contrabando (risos). Era muito comum, quando eu era criança e passava férias em Punta del Este, dar uma esticadinha para o Chuí para comprar material escolar, doces etc. mais baratos. Jovens, ainda hoje, casam e preferem ir a um leilão comprar móveis do século 18 para equipar suas novas casas - porque lá não há tantas lojas que dêem a oportunidade de comprar não-usados com facilidade. Melo é uma cidade que vive isso com intensidade. Isso está em mim e não tem jeito de tirar. E viver longe do meu lugar, do meu país me marcou muito. Fiz sete anos de terapia - em espanhol, com um psicanalista argentino que vive em São Paulo - para resolver isso. Eu diria que sou um cidadão brasileiro, vivi a maior parte da minha vida aqui, não tem jeito. Aprendi a entender este país e a estar dentro dele, envolvido com ele. Mas minha alma é uruguaia.
ZH _ O filme reúne atores profissionais e atores amadores. É verdade que o trabalho de vocês, para buscar uma homogeneização das interpretações, foi feito no sentido de deixar os profissionais mais rudes, amadores mesmo, para que eles ficassem melhor adaptados ao ambiente de Melo - ou seja, o contrário do que usualmente acontece?
Charlone - Sim. Mas, na verdade, esse é o caminho mais fácil - transformar amadores em profissionais é que é o mais complicado. Também acho que o registro naturalista combina muito mais com o cinema que a gente vê mais freqüentemente hoje em dia - fugir dele e tentar alguma alternativa me parece mais difícil.
ZH - Como foi a escolha desses atores?
Charlone - O Enrique escolheu muitos atores antes de eu entrar no processo, inclusive o César Troncoso para o papel do Beto, o protagonista. Mas, em resumo, o processo foi o seguinte: selecionar alguns profissionais, poucos, para os papéis mais difíceis; depois pôr anúncios em jornal e em rádios buscando os demais. Aqui também ficaram evidentes nossas visões diferentes da mesma história: enquanto o Enrique queria, por exemplo, para o papel do Valvulina, um cara super digno, sério, eu preferia a malandragem, a ironia do Mario Silva, que acabou sendo o escolhido. Dignidade, seriedade - isso a gente trabalha depois. Fundamental era ter essa ginga que para mim é muito importante na situação em que os personagens se encontravam. Sobre esse mesmo ator, que era muito pobre e nunca havia entrado numa sala de cinema antes, há uma história para mim muito triste: ao vê-lo algum tempo depois, ele veio todo feliz me dizer que continuava trabalhando em set de filmagens. Perguntei o que ele estava fazendo. "Sou guarda noturno do set", ele respondeu.
ZH - Ele é de Melo?
Charlone - De Montevidéu. Mas os outros bicicleteiros são de Melo, sendo que o Jose Arce (Tica) era bicicleteiro, mesmo. A Rosario dos Santos (Teresa) também é de lá.
ZH - O que te fez aceitar o desafio de fazer um filme sobre pobres numa cidadezinha como Melo e negar convites como o de fotógrafo de Na Natureza Selvagem, do Sean Penn, e A Rainha, do Stephen Frears, entre outros vindos diretamente de Hollywood?
Charlone - Eu já fazia roteiros e direção - fiz dois episódios de Cidade dos Homens com o Jorge Furtado, por exemplo, o que foi uma honra imensurável. Só não havia assinado nenhum longa porque acho que, para ser diretor de um filme, é preciso se tratar de uma história muito pessoal. No meu caso, era absolutamente necessário ser um filme uruguaio ou, no mínimo, sobre imigração. Não me vejo dirigindo uma comédia romântica sobre a crise de um casal paulista de classe média. Isso eu não farei, não tenho vontade, não é a minha praia. Como faria um filme do jeito que eu queria morando no Brasil e dependendo de leis de incentivo nacionais para me financiar? O Banheiro do Papa caiu como uma luva. Fiz apenas três exigências: poder mexer no roteiro, dando essa cara mais distanciada e menos dramática ao filme; fazer um trabalho de preparação dos atores com profissionais de fora; fazer a pós-produção toda no Brasil, para, justamente, deixar o filme mais internacional, com maior facilidade de comunicação com outros países e outros locais. Cidade de Deus (2002) me ensinou muitas coisas. Uma delas: é preciso falar com os outros países, saber se comunicar com pessoas de outros lugares. Isso é bom para um filme, eu diria fundamental. No caso d`O Banheiro do Papa, técnicos como músicos e o montador foram escolhidos com essa mentalidade. Fez a diferença.
ZH - Como foi filmar com o Tony Scott e o Spike Lee?
Charlone - Sou mil vezes mais o Fernando Meirelles (com quem também filmou O Jardineiro Fiel, de 2005, e Ensaio sobre a Cegueira, de 2008). Somos da mesma praia, compartilhamos de visões de mundo mais próximas, falamos a mesma língua, queremos fazer as mesmas coisas. Fora o fato de que posso ficar mais próximo da minha família ao trabalhar, não preciso largar tudo. Foi por causa da distância e dessas diferenças que não aguentei terminar o Chamas da Vingança. Para fazer Na Natureza Selvagem eu teria de ficar nove meses longe dos meus filhos. Não dá. Se Cidade de Deus tivesse chegado antes na minha vida, eu aceitaria outros trabalhos, teria outra cabeça, acho. Mas agora não tenho mais vontade de projetos que não sejam pessoais.
ZH - Com que idade você saiu do Uruguai?
Charlone - Vinte anos. Depois dessa idade, não parei mais. Fui para Cuba, para a Europa, viajei bastante, às vezes morando longe da mulher e dos filhos, até me estabilizar em São Paulo.
ZH - É fácil entender as tuas motivações quanto ao conteúdo de O Banheiro do Papa. Mas, e quanto à forma? Por que a opção por um filme tão ligado à estética neo-realista?
Charlone - Enrique e eu somos da mesma geração, crescemos vendo não só os neo-realistas, mas sobretudo os pós-neo-realistas - Ettore Scola, Francesco Rosi, Gillo Pontecorvo. São nossas maiores referências, os filmes dos nossos tempos de escola. Aprendemos com eles. A partir desse tema, não tinha comom fugir dessa estética. Agora, um filme sobre o qual pensamos muito durante a realização foi o Histórias Mínimas (Argentina, 2002), do Carlos Sorin. Queríamos muito a delicadeza, o quase minimalismo desse título incorporado à nossa produção, nosso roteiro pedia isso.
ZH - Como foi vender um projeto desses para os distribuidores internacionais?
Charlone - Sabe que não foi tão difícil assim? Dizer que tínhamos um filme uruguaio, com atores desonhecidos, sobre a história de uma cidade inteira que se endividou para comprar salsichas para vender durante a visita do Papa, e que um cara se achou mais esperto porque teve a idéia de construir um banheiro para os peregrinos usarem, isso foi sempre recebido com empolgação, todos achavam que havia muita coisa a explorar aí. Os distribuidores internacionais preferem tiros, drogas etc. quando se trata de América Latina. Mas O Banheiro do Papa foi exceção - por incrível que pareça.
ZH - Quais são teus próximos projetos?
Charlone - Estou escrevendo um longa com a Dainara Toffoli - que aliás é gaúcha - sobre a Operação Condor. Eu já dirigi, mas sem assinar, para preservar a minha vida, um documentário sobre o tema, nos anos 70. Vou retomá-lo, sou apaixonado por essa coisa da esquerda de juntar toda a América Latina - algo que os militares conseguiram para reprimi-la. O projeto ainda está no início, mas já é concreto. Além disso, olhem que bacana: por ocasião do bicentenário das independências dos países latinos, a TVE, da Espanha, está produzindo uma série de sete longas sobre os libertadores da América. Vou dirigir um deles, sobre (José Gervásio) Artigas. Felicíssimo. Tem coisa mais uruguaia - ou seja, fascinante, para mim _ do que Artigas? Neste momento, não.
ZH - Como anda a produção uruguaia?
Charlone - Bem. Faz-se quatro, cinco longas por ano no Uruguai. O que, proporcionalmente, é bastante. O Banheiro do Papa fez mais de 80 mil espectadores por lá - comparando com o Brasil, equivaleria a 7 milhões de pessoas. É um número ótimo. Há problemas de distribuição, entre outros - para mostrar nosso filme em Melo, tivemos de levar um projetor e instalá-lo provisoriamente por lá, pois não há sala de cinema na cidade. Mas, em termos de produção, me parece que as coisas vão bem.
ZH - Como foram as exibições em Melo?
Charlone - Muito legais. Fizemos sessões contínuas desde às 10h da manhã. As pessoas pagavam 1kg de alimento não perecível para entrar. Foi uma loucura, a sala sempre cheia, o dia inteiro. Todo mundo lá assistiu ao filme. E reagiu de maneira positiva.
Postado por Daniel Feix