Em 2000, o poeta português Fernando Pinto do Amaral, pouco conhecido aqui no Brasil mas que lá na terrinha é nome de vulto na crítica literária, na poesia, tradutor de As Flores do Mal, de Baudelaire, e professor universitário, publicou um extenso calhamaço reunindo toda sua poesia produzida entre os anos 1990 e 2000. Era um livro dividido em outros livros, alguns deles inéditos, outros já publicados. Um deles, em particular, A Cinza do Último Cigarro, havia sido concluído em 2000 (a cinza em questão faz alusão ao iminente fim de milênio), e que se dividia em alguns ciclos poéticos belíssimos, que dialogavam intertextualmente com outros livros, com músicas e com filmes de cinema.
Exato. Uma das seções do livro, chamada justamente Planos e Seqüências, trazia sete poemas que não apenas tinham o cinema em geral como tema (algo mais comum), mas recontavam em poesia o essencial da trama de filmes específicos. Às vezes, a voz poética é a de um personagem que no filme ocupa papel secundário ou de antagonismo, às vezes é a do próprio protagonista. Em todos, porém, é comum uma certa sensação de perda, uma melancolia de um mundo perdido e sem condição de ser recuperado.
Em alguns dos poemas, referentes a filmes mais antigos ou conhecidos por um público mais restrito, o título do poema já é o do filme, é o caso de Ordet, referente a clássico do cinema de Dreyer, Olhos Negros, filme de Nikita Mikhailov com Mastroianni, e Pont-Neuf, referente ao filme polêmico do megalomaníaco Leos Carax, nos anos 1990. Em outros, apenas pistas espalhadas pelo poema, como a descrição de uma cena, o nome de um personagem, ajudam a situar o leitor sobre o poema que serviu de tema. É o caso de Bess McNeill, transposição poética do filme Ondas do destino, de Lars Von Trier; Dia de Ação de Graças, tirado do filme de Jodie Foster Feriados em Família, e do poema que transcrevo abaixo, e que vocês, provavelmente, saberão reconhecer.
Apenas para cruzarmos neste blog poesia e cinema, um cruzamento que normalmente é feito mais na tela do que na página. É sempre interessante ver o processo inverso. Ah, sim preservei, obviamente, a ortografia da edição portuguesa. O livro, infelizmente, não foi publicado no Brasil.
Quatro Dias
Chegou quase perdido. Procurava
estranhas pontes cobertas de madeira
queria fotografá-las e ao longo
das pradarias ou dos milheirais
comecei a sentir que nascêramos
absolutamente um para o outro:
convidei-o a entrar. Aquela tarde
amanheceu em nós os mais antigos sonhos,
os que nunca deixaram de ser sonhos
e guardámos num poço no olhar
à espera de que fosse a própria vida
a revelar-nos uma parte, a nossa,
do seu segredo imenso, tão maios
do que a alma ou o corpo e sempre, sempre
infiel às palavras que soubéssemos
balbuciar a medo. Em quatro dias
vivemos toda a nossa vida verdadeira
longe das leis do tempo ou dos limites
de uma cidadezinha igual às outras
onde a partir daquela sexta-feira
tudo haveria de voltar aos ritmos
dessa lenta e suave anestesia
e que às vezes gostamos de chamar família
Ninguém soube quem fui. Estarei já morta
quando lerem as frases que enterrei
no fundo do baú sempre fechado
que é o meu coração. Agora livre,
só vos peço que lancem de Roseman Bridge
as minhas cinzas, pra que nessa água
a paixão nos ensine outra vez o esplendor
e a música do sol que há-de acolher-nos
a sós, no paraíso que perdemos
e ganhámos há mais de trinta anos.
Postado por Carlos André Moreira



