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Posts de agosto 2008

O fascínio da ação contínua

28 de agosto de 2008 3

Como mostrou o Segundo Caderno desta quinta, o cineasta porto-alegrense Gustavo Spolidoro estréia amanhã seu Ainda Orangotangos, o primeiro longa-metragem feito no Brasil a partir de um plano-seqüência, ou seja, com uma tomada única sem cortes. Ao longo de 81 minutos, Spolidoro percorre 15 quilômetros da Capital mostrando breves histórias que se intercruzam. A complexa operação técnica e logística mobilizou mais de 180 pessoas, que dividiram funções precisas e detalhadamente ensaiadas. Foram seis tentativas de fazer o plano. Três deram certo. A melhor, registrada em 8 de dezembro de 2006, é a que está nas telas. Eu acompanhei uma das que valeram e guardo a experiência como uma das mais excitantes que já testemunhei em um set de filmagem. Detalhe: não bastasse a dificuldade da empreitada, Spolidoro promoveu ainda uma revolução no conceito de plano-seqüência, já que a ação de seu filme não se passa em tempo real. Lá pelo meio ele encena o pesadelo de uma personagem – o que exigiu uma espetacular montagem de cenário em ritmo de pit stop (uma sala foi decorada em apenas um minuto) – e uma passagem de tempo que avança a narrativa da manhã para a noite.

Como homenagem ao Spolidoro e equipe, segue uma galeria com três clássicos planos-seqüência do cinema - já fizemos uma grande lista por aqui tempos atrás, por razão que não lembro, mas é o tipo de coisa que ninguém se cansa de ver.  

O assunto já foi tema de um especial no site Daily Film Dose. Confira já a enorme lista deles aqui, ilustrada (alguns links não funcionam mais, mas o YouTube resolve).

Ah, dá uma espiada no site de Ainda Orangotangos, tem muita coisa interessante lá.

Aos filmes:

A Marca da Maldade (1958), de Orson Welles

 

O Jogador (1992), de Robert Altman

Profissão: Repórter (1974), de Michelangelo Antonioni

Postado por Marcelo Perrone

Nome próprio

23 de agosto de 2008 1

Leandra Leal tem desempenho impressionante/Downtonwn Filmes

Comentário sobre Nome Próprio quando da recente exibição do filme de Murilo Salles no Festival de Gramado. O longa entrou em cartaz em Porto Alegre na sexta passada. Para quem não sabe, Nome Próprio ganhou três Kikitos: melhor filme, atriz (Leandra Leal) e direção de arte.  

Apelar para o suporte digital é o caminho que muitos cineastas brasileiros estão buscando para diminuir custos de produção. Pena que a preocupação com o orçamento não ande de mãos dadas com as boas idéias. Um dos efeitos colaterais deste fazer “filme em vídeo” a rodo que o suporte digital permite é uma enxurrada de produções que ninguém, fora seus autores, sabe dizer por que foram feitas e por quem serão vistas.

Com Nome Próprio, longa que abre a competição pelos Kikitos em Gramado neste domingo, Murilo Salles mostra como forma e conteúdo podem se complementar na criação de uma obra cultural relevante.
A proposta narrativa do diretor, radiografar a geração que vive, se relaciona e se comunica pela internet, com foco no universo particular e em permanente conflito de um aspirante à escritora, encontrou na agilidade e na imagem imperfeita do digital a mais adequada tradução visual.

A equipe enxuta e a câmera pequena, empunhada pelo próprio Salles, permitiram a ele flagrar, com calor e intimidade, sobretudo nas cenas de interiores, todas as matizes dramáticas de sua inconstante personagem. Diante do pleno domínio da forma com que se propôs a realizar Nome Próprio, Salles exibe ainda um antológico desempenho de Leandra Leal, daqueles só possíveis quando, afora o talento dos envolvidos, a cumplicidade e entrega entre ator e diretor é plena.

Gostar ou não gostar do que se vê em Nome Próprio, filme que assume o risco de se sustentar apenas na atuação catártica de Leandra e de provocar algum desconforto com uma narrativa que jorra sobre o espectador o fluxo de consciência de sua personagem, é uma forma de avaliação simples, imediata e, por que não, justa.

Mas é interessante procurar ver o filme de Murilo Salles atentando para o empenho do diretor em criar uma obra na qual pulsa energia, sangue jovem, que é urbana e contemporânea, que é tão próxima da vida real – mas incrivelmente tão distante das lentes do cinema brasileiro.

Postado por Marcelo Perrone

Poema/Cinema

19 de agosto de 2008 0

Em 2000, o poeta português Fernando Pinto do Amaral, pouco conhecido aqui no Brasil mas que lá na terrinha é nome de vulto na crítica literária, na poesia, tradutor de As Flores do Mal, de Baudelaire, e professor universitário, publicou um extenso calhamaço reunindo toda sua poesia produzida entre os anos 1990 e 2000. Era um livro dividido em outros livros, alguns deles inéditos, outros já publicados. Um deles, em particular, A Cinza do Último Cigarro, havia sido concluído em 2000 (a cinza em questão faz alusão ao iminente fim de milênio), e que se dividia em alguns ciclos poéticos belíssimos, que dialogavam intertextualmente com outros livros, com músicas e com filmes de cinema. 

Exato. Uma das seções do livro, chamada justamente Planos e Seqüências, trazia sete poemas que não apenas tinham o cinema em geral como tema (algo mais comum), mas recontavam em poesia o essencial da trama de filmes específicos. Às vezes, a voz poética é a de um personagem que no filme ocupa papel secundário ou de antagonismo, às vezes é a do próprio protagonista. Em todos, porém, é comum uma certa sensação de perda, uma melancolia de um mundo perdido e sem condição de ser recuperado.

Em alguns dos poemas, referentes a filmes mais antigos ou conhecidos por um público mais restrito, o título do poema já é o do filme, é o caso de Ordet, referente a clássico do cinema de Dreyer, Olhos Negros, filme de Nikita Mikhailov com Mastroianni, e Pont-Neuf, referente ao filme polêmico do megalomaníaco Leos Carax, nos anos 1990. Em outros, apenas pistas espalhadas pelo poema, como a descrição de uma cena, o nome de um personagem, ajudam a situar o leitor sobre o poema que serviu de tema. É o caso de Bess McNeill, transposição poética do filme Ondas do destino, de Lars Von Trier; Dia de Ação de Graças, tirado do filme de Jodie Foster Feriados em Família, e do poema que transcrevo abaixo, e que vocês, provavelmente, saberão reconhecer.

Apenas para cruzarmos neste blog poesia e cinema, um cruzamento que normalmente é feito mais na tela do que na página. É sempre interessante ver o processo inverso. Ah, sim preservei, obviamente, a ortografia da edição portuguesa. O livro, infelizmente, não foi publicado no Brasil.

Quatro Dias

Chegou quase perdido. Procurava
estranhas pontes cobertas de madeira
queria fotografá-las e ao longo
das pradarias ou dos milheirais
comecei a sentir que nascêramos
absolutamente um para o outro:
convidei-o a entrar. Aquela tarde
amanheceu em nós os mais antigos sonhos,
os que nunca deixaram de ser sonhos
e guardámos num poço no olhar
à espera de que fosse a própria vida
a revelar-nos uma parte, a nossa,
do seu segredo imenso, tão maios
do que a alma ou o corpo e sempre, sempre
infiel às palavras que soubéssemos
balbuciar a medo. Em quatro dias
vivemos toda a nossa vida verdadeira
longe das leis do tempo ou dos limites
de uma cidadezinha igual às outras
onde a partir daquela sexta-feira
tudo haveria de voltar aos ritmos
dessa lenta e suave anestesia
e que às vezes gostamos de chamar família

Ninguém soube quem fui. Estarei já morta
quando lerem as frases que enterrei
no fundo do baú sempre fechado
que é o meu coração. Agora livre,
só vos peço que lancem de Roseman Bridge
as minhas cinzas, pra que nessa água
a paixão nos ensine outra vez o esplendor
e a música do sol que há-de acolher-nos
a sós, no paraíso que perdemos
e ganhámos há mais de trinta anos.

Postado por Carlos André Moreira

Contra uma cinematografia global

18 de agosto de 2008 0

Wim Wenders, que fará conferência no Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem hoje, defende os filmes de autor e a autenticidade das cinematografias periféricas - e revela-se um otimista quanto ao futuro do cinema


Uma das presenças mais aguardadas no Fronteiras do Pensamento 2008, o  cineasta alemão Wim Wenders (foto acima) falará hoje, a partir das 19h30min, para o público do Salão de Atos da UFRGS (os ingressos estão esgotados). Pouco antes de embarcar para o Brasil, o autor de O Estado das Coisas (1982), Paris, Texas (1984) e Asas do Desejo (1987) deu um tempo na produção de seu novo filme, Miso Soup, que será sendo rodado no Japão, e respondeu parte da sabatina enviada pela reportagem de ZH. A entrevista foi concedida por e-mail.

Confira:

ZH - Em Palermo Shooting, seu último filme, lançado em maio no Festival de Cannes, o protagonista desiste do que construiu para começar uma vida nova. São recorrentes nos seus trabalhos o gênero road movie e os personagens erráticos à procura de algo. Você recentemente até foi convidado a participar de um debate sobre esse tipo de filme com o brasileiro Walter Salles, que está trabalhando numa adaptação do livro
Na Estrada, de Kerouak. O que lhe fascina no tema da viagem?

Wenders - O que acontece, quando você está na estrada, é que nunca pára de ser surpreendido. Nunca cai nas armadilhas de uma rotina. Viajar constitui um estado privilegiado da mente, vale a pena fazê-lo não pelo destino final, mas pelo próprio ato de viajar. Sinto-me muito mais acordado quando estou viajando. Quanto ao Walter, desejo-lhe sorte nesse projeto. Considero Diários de Motocicleta (2004) um ótimo exemplar do gênero road movie.


ZH - Em Cannes, você criticou a indústria do cinema, acusando-a de ser um obstáculo para os jovens diretores fazerem filmes mais pessoais, autorais. Como mudar esse cenário?

Wenders - Encorajando os novos diretores de que eles têm algo a dizer, insistindo muito com isso, com a idéia de que eles têm uma voz única, cada um é diferente do outro e precisa dar vazão a essa voz, não deve desistir disso mesmo diante dos obstáculos.

 

ZH - Você é um pioneiro do uso das câmeras de vídeo digital no cinema. Concorda com aqueles que dizem que seu uso é um caminho de volta e que a tecnologia digital vai mudar o cinema?

Wenders - Atualmente, para cada filme que você for fazer, tem o incrível privilégio de escolher o caminho que quiser, que mais se adequar a esse filme, seja ele película 35mm, 16mm, vídeo digital, HDTV, o que for. Você pode olhar para o seu projeto e seu conteúdo e determinar como ele vai ser esteticamente a partir de uma gama enorme de opções, maior do que aquela que havia tempos atrás. Mas isso está acontecendo agora. No futuro, a película será realmente obsoleta e a tecnologia digital vai nos oferecer as únicas formas de produzir, distribuir e exibir um filme.

 

ZH - Steven Spielberg diz que a chave para manter os jovens ligados no cinema, hoje, é entender que ele compete com outros meios audiovisuais, como os vídeo-games. O que você pensa sobre isso?

Wenders - Spielberg não está errado. Mas não existem apenas jovens que têm o comportamento modificado pela existência, por exemplo, de brinquedos digitais e do YouTube. Há muito mais jovens neste planeta que não têm acesso a isso. Esse é, na verdade, o grande desafio de filmar hoje: entender a imensa desigualdade que há no mundo, a grande distância entre os mais ricos e os mais pobres.

 

ZH - No Fronteiras do Pensamento do ano passado, o cineasta Peter Greenaway disse que o cinema está morto porque não desenvolveu sua linguagem usando as novas tecnologias como outras linguagens artísticas fizeram. Como você avalia esse raciocínio?

Wenders - Concordo com Greenaway. Mas não compartilho de seu pessimismo. Essa evolução não terminou, não se trata de um caminho sem volta. A arte do cinema está em constante mutação. Tudo ainda é possível. Veja o gênero documentário: dez anos atrás, não havia mais documentários nas salas de cinema. Era uma arte morta, que deveria encontrar novos espaços para se comunicar com o público. Hoje, documentários incríveis, tão extraordinários quanto algumas ficções, estão sendo mostrados nas salas de cinema. Mais que isso, há um novo público para os documentários, um público jovem que deseja ver a realidade na tela, que vai ao cinema não apenas para se deixar levar pela fantasia. Quem poderia prever que essa reviravolta aconteceria?

 

ZH - As co-produções internacionais são uma característica das cinematografias periféricas atualmente - as da América Latina, por exemplo. Em que sentido esses diálogos entre lugares, culturas e autores podem contribuir para o cinema contemporâneo?

Wenders - O único cinema no qual estou interessado é justamente aquele que provoca uma comunicação real entre culturas diferentes. Isso só acontece quando você faz um filme com um sentido muito próprio de lugar, trazendo conhecimento, histórias e o próprio sabor desse lugar - é aí que esse filme vai se comunicar com outras culturas. Enquanto as co-produções ajudarem a manter as "cinematografias locais", em oposição ao que poderíamos chamar de "uma única cinematografia global", estou dentro!

 

ZH - Seu próximo filme, Miso Soup, é um thriller sobre um serial killer norte-americano em Tóquio. O que lhe atraiu nesse projeto?

Wenders - O que me atrai mais do que qualquer coisa: a possibilidade de tomar contato com algo que ainda não conheço. Esse filme me soa como um thriller de horror que usa elementos como o medo como veículo para abordar outros temas maiores. A possibilidade de lidar com isso me pareceu extremamente interessante.

 

ZH - Em 1983, você filmou Tokyo-Ga, um sensível registro da sociedade japonesa contemporânea. Como está sendo retornar àquele país 25 anos depois?

Wenders - Pois é, trata-se exatamente de um quarto de século de distância. Nesse período, a sociedade japonesa mudou enormemente, o que já é um motivo para uma nova visita. Mas por lá eu também filmei Caderno de Notas de Roupas e Cidades (1989) e grande parte de Até o Fim do Mundo (1991), o que dá um indício do meu interesse constante pelo Japão. Desta vez, no entanto, vou rodar boa parte do filme na Coréia.

 

ZH - Incomoda o fato de que seus filmes mais recentes não tenham alcaçado o mesmo reconhecimento do que os mais antigos? E o que lhe estimula a fazer cinema hoje?

Wenders - Muitos dos meus filmes mais antigos encontraram seu público apenas muito tempo depois de lançados. E alguns dos meus filmes favoritos, Tão Longe, Tão Perto (1993), por exemplo, jamais encontraram. Mas, enquanto eu continuar com vontade de dizer aquilo que realmente importa para mim, continuar usando o cinema como uma forma de expressão artística, e não como um negócio, não tenho tenho do que reclamar. Serei sempre feliz enquanto eu puder continuar a dizer aquilo que digo desde que tinha 24 anos e fiz meu primeiro filme.

Postado por Daniel Feix

Polêmica à vista

10 de agosto de 2008 0

Júlio Bressane/Reprodução

(entrevista publicada originalmente no caderno Cultura deste sábado)

O 36º Festival de Cinema Gramado, que começa hoje, tem desde já uma polêmica: a homenagem, com o Troféu Eduardo Abelim, ao diretor Júlio Bressane. A iniciativa de entregar o prêmio ao autor de uma das mais consistentes filmografias do país coincide com o esforço dos organizadores do evento de recuperar o prestígio que ficou para trás nos últimos anos. Mas lembra também o tempo em que, apesar de ser um dos cineastas brasileiros mais reconhecidos na Europa, Bressane poucas vezes esteve em Gramado - culpa, conforme o realizador, do próprio festival, que estabeleceu "uma política equivocada de desprivilegiar o cinema em nome dos holofotes".

- Gramado sempre foi antipático comigo - diz o diretor, em entrevista concedida por telefone do Rio, poucos dias antes do desembarque no festival que é alvo de sua crítica.

Bressane estreou no cinema como montador e assistente de direção em Menino de Engenho (1965), de Walter Lima Jr. Seu primeiro longa é Cara a Cara (1967), mas foi com Matou a Família e Foi ao Cinema e O Anjo Nasceu, ambos lançados em 1969, que ele se tornou uma das referências do movimento conhecido como Cinema Marginal.

Nos anos 1970, assinou diversas produções de baixo orçamento realizadas pela Belair Filmes, que fundou em parceria com Rogério Sganzerla. Amor Louco e Memórias de um Estrangulador de Loiras, os dois de 1971, foram rodados em parte em Londres, onde viveu rápido exílio. Depois, fez um filme sobre um encontro ficcional entre Lamartine Babo e Oswald de Andrade (Tabu, 1982), outro sobre a obra de Machado de Assis (Brás Cubas, 1985), mais outro sobre o padre Antônio Vieira (Sermões, 1989) e também sobre São Jerônimo (São Jerônimo, 1999) e Nietzsche (Dias de Nietzsche em Turim, 1999).

Miramar (1997) e Filme de Amor (2003) foram premiados no Festival de Brasília, onde ele é habitué e onde em 2007 estreou Cleópatra, ainda inédito no circuito gaúcho. A Erva do Rato, seu novo filme, já foi confirmado numa mostra não-competitiva do próximo Festival de Veneza, um dos três mais importantes do mundo ao lado de Cannes e Berlim.

Como Gramado vai reagir ao seu discurso crítico é algo a ser observado. Com tantos serviços prestados ao cinema brasileiro, conviria no mínimo que se prestasse atenção nas reflexões que Bressane propõe. Foi a partir de análise não muito diferente, afinal, que, há três anos, Gramado resolveu mudar.

Zero Hora - Seus primeiros filmes são dos anos 1960, época em que, na comparação com a realidade atual, havia mais experimentação formal e uma maior proximidade entre o grande público e esse experimentalismo. Você no entanto continua apostando num cinema autoral e de investigação estética coerente com o que fazia 40 anos atrás. Suas motivações ainda são as mesmas?

Júlio Bressane - A pergunta é ótima, mas para respondê-la eu precisaria de tempo e espaço que essa entrevista não me permite ter. Vou tentar de maneira resumida, dizendo, em primeiro lugar, que todo passado, na comparação com o presente, é pior. Sempre. Porque nossa obrigação é andar para a frente. Sempre tive dificuldades para fazer meus filmes - dificuldades financeiras, de produção etc. Insisto com o cinema porque, para mim, trata-se de uma necessidade. Preciso do cinema para me expressar. Isso do ponto de vista pessoal. Pensando de maneira ampla, acho o seguinte: o naufrágio da relação entre filmes e espectadores está ligado à idéia de filmar pensando em se aproximar do público. Quando os realizadores tiveram essa idéia - que é cafajeste, oportunista, porque é uma idéia de ascensão profissional, de busca por status - afundaram o cinema, levaram-no a esse nada em que o cinema se encontra.

ZH - Você se refere a fazer concessões?

Bressane - Me refiro a concessões não para o público, mas para si mesmo. Os realizadores de cinema enganam a si mesmos com essa tentativa de aproximação. Não se filma para o público, e sim para si próprio. Se faz arte para si próprio. Há uma diferença gritante entre fazer filmes que possam ser vistos pelo público e fazer filmes que vão aonde o público está. É uma bobagem pensar que o espectador quer filmes que venham aonde ele está. Ele quer, isso sim, filmes que estejam um pouco acima dele, para que possa crescer com eles, aprender, produzir reflexões e ter sensações, emoções que levem-no a outros níveis de compreensão e pensamento. Qual é a vantagem de ser levado a sentir aquilo que se pode sentir fora do cinema? O que estou dizendo é que os cineastas, de uma maneira geral, não fazem concessões ao público. Eles são assim - porque a busca por ascensão e status é intrínseca ao ser humano. O cinema, para mim, é um elemento de transformação, uma espécie de síntese das outras disciplinas artísticas. Isso é para mim. Para tantos outros, em nome do equívoco que é ir ao encontro do público e, com isso, ganhar notoriedade, espaço nos jornais etc., o cinema está cada vez mais longe disso. Não é transformador de nada, não faz a síntese de quaisquer outros elementos - a forma como se pensa cada elemento de um filme, imagem, som, palavra, é cada vez mais rasa.

ZH – Seus filmes recentes, Cleópatra (2007) talvez seja o melhor exemplo, têm um rigor de enquadramento, luz e texto que hoje são, de fato, cada vez mais raros.

Bressane - Em se tratando de cinema brasileiro, afirmo com convicção: a imagem, nos filmes que o país produz, está esterilizada. A impressão que tenho é de que não há mais sensibilidade artística de parte dos realizadores. Começou com a criação da Embrafilme (em 1969). De lá para cá, primeiro com a pornochanchada, depois de uma maneira mais generalizada, há uma banalização no uso dos elementos que compõem a linguagem cinematográfica. As imagens apenas cumprem funções - nada nobres. O problema do cinema brasileiro é esse: os artistas estão afastados da direção dos filmes. Quem dirige, hoje, são na verdade semi-executivos. Quem tem temperamento artístico foi afastado. Em nome da mediocridade. Os cineastas brasileiros de hoje são conformados com a sua condição de homens medíocres. Que fazem filmes para um público que muitas vezes nem quer ver esses filmes.

ZH – Muito se defende que o grande problema do cinema brasileiro hoje é a distribuição. Você acredita que o xis da questão está, antes disso, na própria produção?

Bressane - É claro que há um problema grave de distribuição, causado pela supremacia das produções norte-americanas. Esse problema existe no mundo inteiro. O xis da questão, na verdade, é que, em vez de essa condição de país invadido pela cultura dominante orientar a nossa produção, no sentido de nos levar a encontrar um caminho próprio, diferente, acabou nos levando a compartilhar da mesma filosofia de produção de Hollywood, a baixar a cabeça para ela. Nossos filmes hoje só conseguem notoriedade de distribuição se seguirem o mesmo esquema do produto internacional. E veja como é irônico: para entrar nesse esquema os filmes precisam ter um número enorme de cópias, o que faz com que encareçam a um ponto absurdo e, por conseqüência, se tornem fracassos ainda mais retumbantes. O cinema brasileiro hoje parece viver um campeonato de fracassos. Há uma quantidade imensa de filmes caros, de R$ 8 milhões, R$ 10 milhões, todos lançados em 120, 140 salas, que sequer conseguem pagar as suas cópias. Esses filmes até atingem boa repercussão nos jornais, mas o que fazem além disso é nada, a não ser tornar mais fundo o fosso em que nossa produção se encontra, deixar a nossa cinematografia mais distante do caminho que deveria ter seguido.

ZH – Você é o maior vencedor do Festival de Brasília (com Cleópatra, no ano passado, levou pela terceira vez o prêmio de melhor filme). Em Gramado, no evento que tem o mesmo formato e longevidade semelhante, é raro ver seus filmes inscritos. Por que essa diferença? E como recebe essa homenagem do festival gaúcho?

Bressane - Gramado foi sempre extremamente antipático comigo. Sempre recusou os meus filmes e, na única vez em que me deixou apresentar um trabalho, Brás Cubas (1985), chegou ao ponto de conceder o prêmio de melhor fotografia sem sequer citar o filme na cerimônia de entrega dos Kikitos – foi como se a fotografia valesse independentemente do longa em si. Se Gramado chegou aonde chegou, ao fim da linha, à sepultura, foi por causa de opções como essas de seus organizadores, que estabeleceram uma política equivocada de desprivilegiar o cinema em nome dos holofotes. Foi de dois ou três anos para cá que se deram conta do erro e deram início à tentativa de remover o cadáver do túmulo. Eu só aceitei a homenagem porque o festival retomou o rumo e se esforça muito para apagar o horror do passado. Vou com prazer receber o troféu. Mas faço questão de lembrar que ele vem de um evento que nunca me dera nada e sempre, para dizer o mínimo, foi muito antipático comigo.


ZH – O que despertou seu interesse pelo mito da rainha Cleópatra?

Bressane - Não sei exatamente. Talvez o fato de o mito nunca ter sido apropriado pela língua portuguesa. Minha idéia foi fazer um recriação do mito em português. Mas não faço um filme sabendo o que ele vai ser e onde vai me levar. Filmo tentando descobrir porque o tema em questão me inquieta. Se eu soubesse onde ele me levaria não teria por que filmar.

ZH – Chama a atenção o radicalismo estrutural do filme e, em contraposição a isso, um elenco composto de figuras conhecidas da tevê, atores de telenovela e até mesmo ligados ao que já se chamou de "besteirol" – caso de Miguel Falabella. Por favor, fale mais sobre essa dicotomia.

Bressane - Em primeiro lugar, escolhi esses atores porque eles são grandes atores. A Alessandra Negrini podia ser a protagonista da novela das oito à época das filmagens, mas já havia sido escolhida para ser a Cleópatra bem antes disso – porque é uma grande atriz. Digo o mesmo do Falabella (Júlio César) e do Bruno Garcia (Marco Antônio). O que é externo ao filme implica muito pouco no trabalho, acontece independentemente do filme propriamente dito. Mas, diante da mediocrização absoluta da arte hoje em dia, é inevitável acabar vinculado de alguma forma a esse sistema tirano de produção cultural. Se o uso desses atores em outra configuração que não aquela com a qual eles se tornaram conhecidos produz ou não outros significados, é algo que não me diz respeito e que não interfere no meu trabalho.

ZH – A Erva do Rato, seu mais novo longa, será exibido no próximo Festival de Cinema de Veneza. O que dá para adiantar desse projeto?

Bressane - É uma história que escrevi baseada nos contos A Causa Secreta e O Esqueleto, de Machado de Assis – no primeiro, há a convivência com o esqueleto. No segundo, o horror ao rato. A ficção que construí em torno desses dois lugares-comuns leva o título de um velho veneno indígena, tangaracá, que os portugueses chamavam de "erva do rato". Os atores são Alessandra Negrini e Selton Mello. Sobre a sinopse, não me peça para falar. Não tenho muitas palavras para descrever meus trabalhos. Não consigo fazer isso. Este, em particular, não tem enredo. Meus filmes foram feitos para serem vistos, e não para serem descritos.

Postado por Daniel Feix