(entrevista publicada originalmente no caderno Cultura deste sábado)
O 36º Festival de Cinema Gramado, que começa hoje, tem desde já uma polêmica: a homenagem, com o Troféu Eduardo Abelim, ao diretor Júlio Bressane. A iniciativa de entregar o prêmio ao autor de uma das mais consistentes filmografias do país coincide com o esforço dos organizadores do evento de recuperar o prestígio que ficou para trás nos últimos anos. Mas lembra também o tempo em que, apesar de ser um dos cineastas brasileiros mais reconhecidos na Europa, Bressane poucas vezes esteve em Gramado - culpa, conforme o realizador, do próprio festival, que estabeleceu "uma política equivocada de desprivilegiar o cinema em nome dos holofotes".
- Gramado sempre foi antipático comigo - diz o diretor, em entrevista concedida por telefone do Rio, poucos dias antes do desembarque no festival que é alvo de sua crítica.
Bressane estreou no cinema como montador e assistente de direção em Menino de Engenho (1965), de Walter Lima Jr. Seu primeiro longa é Cara a Cara (1967), mas foi com Matou a Família e Foi ao Cinema e O Anjo Nasceu, ambos lançados em 1969, que ele se tornou uma das referências do movimento conhecido como Cinema Marginal.
Nos anos 1970, assinou diversas produções de baixo orçamento realizadas pela Belair Filmes, que fundou em parceria com Rogério Sganzerla. Amor Louco e Memórias de um Estrangulador de Loiras, os dois de 1971, foram rodados em parte em Londres, onde viveu rápido exílio. Depois, fez um filme sobre um encontro ficcional entre Lamartine Babo e Oswald de Andrade (Tabu, 1982), outro sobre a obra de Machado de Assis (Brás Cubas, 1985), mais outro sobre o padre Antônio Vieira (Sermões, 1989) e também sobre São Jerônimo (São Jerônimo, 1999) e Nietzsche (Dias de Nietzsche em Turim, 1999).
Miramar (1997) e Filme de Amor (2003) foram premiados no Festival de Brasília, onde ele é habitué e onde em 2007 estreou Cleópatra, ainda inédito no circuito gaúcho. A Erva do Rato, seu novo filme, já foi confirmado numa mostra não-competitiva do próximo Festival de Veneza, um dos três mais importantes do mundo ao lado de Cannes e Berlim.
Como Gramado vai reagir ao seu discurso crítico é algo a ser observado. Com tantos serviços prestados ao cinema brasileiro, conviria no mínimo que se prestasse atenção nas reflexões que Bressane propõe. Foi a partir de análise não muito diferente, afinal, que, há três anos, Gramado resolveu mudar.
Zero Hora - Seus primeiros filmes são dos anos 1960, época em que, na comparação com a realidade atual, havia mais experimentação formal e uma maior proximidade entre o grande público e esse experimentalismo. Você no entanto continua apostando num cinema autoral e de investigação estética coerente com o que fazia 40 anos atrás. Suas motivações ainda são as mesmas?
Júlio Bressane - A pergunta é ótima, mas para respondê-la eu precisaria de tempo e espaço que essa entrevista não me permite ter. Vou tentar de maneira resumida, dizendo, em primeiro lugar, que todo passado, na comparação com o presente, é pior. Sempre. Porque nossa obrigação é andar para a frente. Sempre tive dificuldades para fazer meus filmes - dificuldades financeiras, de produção etc. Insisto com o cinema porque, para mim, trata-se de uma necessidade. Preciso do cinema para me expressar. Isso do ponto de vista pessoal. Pensando de maneira ampla, acho o seguinte: o naufrágio da relação entre filmes e espectadores está ligado à idéia de filmar pensando em se aproximar do público. Quando os realizadores tiveram essa idéia - que é cafajeste, oportunista, porque é uma idéia de ascensão profissional, de busca por status - afundaram o cinema, levaram-no a esse nada em que o cinema se encontra.
ZH - Você se refere a fazer concessões?
Bressane - Me refiro a concessões não para o público, mas para si mesmo. Os realizadores de cinema enganam a si mesmos com essa tentativa de aproximação. Não se filma para o público, e sim para si próprio. Se faz arte para si próprio. Há uma diferença gritante entre fazer filmes que possam ser vistos pelo público e fazer filmes que vão aonde o público está. É uma bobagem pensar que o espectador quer filmes que venham aonde ele está. Ele quer, isso sim, filmes que estejam um pouco acima dele, para que possa crescer com eles, aprender, produzir reflexões e ter sensações, emoções que levem-no a outros níveis de compreensão e pensamento. Qual é a vantagem de ser levado a sentir aquilo que se pode sentir fora do cinema? O que estou dizendo é que os cineastas, de uma maneira geral, não fazem concessões ao público. Eles são assim - porque a busca por ascensão e status é intrínseca ao ser humano. O cinema, para mim, é um elemento de transformação, uma espécie de síntese das outras disciplinas artísticas. Isso é para mim. Para tantos outros, em nome do equívoco que é ir ao encontro do público e, com isso, ganhar notoriedade, espaço nos jornais etc., o cinema está cada vez mais longe disso. Não é transformador de nada, não faz a síntese de quaisquer outros elementos - a forma como se pensa cada elemento de um filme, imagem, som, palavra, é cada vez mais rasa.
ZH – Seus filmes recentes, Cleópatra (2007) talvez seja o melhor exemplo, têm um rigor de enquadramento, luz e texto que hoje são, de fato, cada vez mais raros.
Bressane - Em se tratando de cinema brasileiro, afirmo com convicção: a imagem, nos filmes que o país produz, está esterilizada. A impressão que tenho é de que não há mais sensibilidade artística de parte dos realizadores. Começou com a criação da Embrafilme (em 1969). De lá para cá, primeiro com a pornochanchada, depois de uma maneira mais generalizada, há uma banalização no uso dos elementos que compõem a linguagem cinematográfica. As imagens apenas cumprem funções - nada nobres. O problema do cinema brasileiro é esse: os artistas estão afastados da direção dos filmes. Quem dirige, hoje, são na verdade semi-executivos. Quem tem temperamento artístico foi afastado. Em nome da mediocridade. Os cineastas brasileiros de hoje são conformados com a sua condição de homens medíocres. Que fazem filmes para um público que muitas vezes nem quer ver esses filmes.
ZH – Muito se defende que o grande problema do cinema brasileiro hoje é a distribuição. Você acredita que o xis da questão está, antes disso, na própria produção?
Bressane - É claro que há um problema grave de distribuição, causado pela supremacia das produções norte-americanas. Esse problema existe no mundo inteiro. O xis da questão, na verdade, é que, em vez de essa condição de país invadido pela cultura dominante orientar a nossa produção, no sentido de nos levar a encontrar um caminho próprio, diferente, acabou nos levando a compartilhar da mesma filosofia de produção de Hollywood, a baixar a cabeça para ela. Nossos filmes hoje só conseguem notoriedade de distribuição se seguirem o mesmo esquema do produto internacional. E veja como é irônico: para entrar nesse esquema os filmes precisam ter um número enorme de cópias, o que faz com que encareçam a um ponto absurdo e, por conseqüência, se tornem fracassos ainda mais retumbantes. O cinema brasileiro hoje parece viver um campeonato de fracassos. Há uma quantidade imensa de filmes caros, de R$ 8 milhões, R$ 10 milhões, todos lançados em 120, 140 salas, que sequer conseguem pagar as suas cópias. Esses filmes até atingem boa repercussão nos jornais, mas o que fazem além disso é nada, a não ser tornar mais fundo o fosso em que nossa produção se encontra, deixar a nossa cinematografia mais distante do caminho que deveria ter seguido.
ZH – Você é o maior vencedor do Festival de Brasília (com Cleópatra, no ano passado, levou pela terceira vez o prêmio de melhor filme). Em Gramado, no evento que tem o mesmo formato e longevidade semelhante, é raro ver seus filmes inscritos. Por que essa diferença? E como recebe essa homenagem do festival gaúcho?
Bressane - Gramado foi sempre extremamente antipático comigo. Sempre recusou os meus filmes e, na única vez em que me deixou apresentar um trabalho, Brás Cubas (1985), chegou ao ponto de conceder o prêmio de melhor fotografia sem sequer citar o filme na cerimônia de entrega dos Kikitos – foi como se a fotografia valesse independentemente do longa em si. Se Gramado chegou aonde chegou, ao fim da linha, à sepultura, foi por causa de opções como essas de seus organizadores, que estabeleceram uma política equivocada de desprivilegiar o cinema em nome dos holofotes. Foi de dois ou três anos para cá que se deram conta do erro e deram início à tentativa de remover o cadáver do túmulo. Eu só aceitei a homenagem porque o festival retomou o rumo e se esforça muito para apagar o horror do passado. Vou com prazer receber o troféu. Mas faço questão de lembrar que ele vem de um evento que nunca me dera nada e sempre, para dizer o mínimo, foi muito antipático comigo.
ZH – O que despertou seu interesse pelo mito da rainha Cleópatra?
Bressane - Não sei exatamente. Talvez o fato de o mito nunca ter sido apropriado pela língua portuguesa. Minha idéia foi fazer um recriação do mito em português. Mas não faço um filme sabendo o que ele vai ser e onde vai me levar. Filmo tentando descobrir porque o tema em questão me inquieta. Se eu soubesse onde ele me levaria não teria por que filmar.
ZH – Chama a atenção o radicalismo estrutural do filme e, em contraposição a isso, um elenco composto de figuras conhecidas da tevê, atores de telenovela e até mesmo ligados ao que já se chamou de "besteirol" – caso de Miguel Falabella. Por favor, fale mais sobre essa dicotomia.
Bressane - Em primeiro lugar, escolhi esses atores porque eles são grandes atores. A Alessandra Negrini podia ser a protagonista da novela das oito à época das filmagens, mas já havia sido escolhida para ser a Cleópatra bem antes disso – porque é uma grande atriz. Digo o mesmo do Falabella (Júlio César) e do Bruno Garcia (Marco Antônio). O que é externo ao filme implica muito pouco no trabalho, acontece independentemente do filme propriamente dito. Mas, diante da mediocrização absoluta da arte hoje em dia, é inevitável acabar vinculado de alguma forma a esse sistema tirano de produção cultural. Se o uso desses atores em outra configuração que não aquela com a qual eles se tornaram conhecidos produz ou não outros significados, é algo que não me diz respeito e que não interfere no meu trabalho.
ZH – A Erva do Rato, seu mais novo longa, será exibido no próximo Festival de Cinema de Veneza. O que dá para adiantar desse projeto?
Bressane - É uma história que escrevi baseada nos contos A Causa Secreta e O Esqueleto, de Machado de Assis – no primeiro, há a convivência com o esqueleto. No segundo, o horror ao rato. A ficção que construí em torno desses dois lugares-comuns leva o título de um velho veneno indígena, tangaracá, que os portugueses chamavam de "erva do rato". Os atores são Alessandra Negrini e Selton Mello. Sobre a sinopse, não me peça para falar. Não tenho muitas palavras para descrever meus trabalhos. Não consigo fazer isso. Este, em particular, não tem enredo. Meus filmes foram feitos para serem vistos, e não para serem descritos.