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Posts do dia 23 outubro 2008

Filmes estrangeiros no Oscar

23 de outubro de 2008 0

A partir desta sexta, então, o público brasileiro pode assistir nos cinemas ao filme selecionado para representar o país na corrida do Oscar 2009.

Deixa eu aproveitar a estréia de Última Parada 174, o 18º longa de Bruno Barreto, que por sinal ainda não vi, para dar uns pitacos que julgo ser relevantes.

No total, 67 países indicaram representantes para aquela que é - é bom que isso fique ressaltado -, para os norte-americanos, a categoria menos importante da premiação da sua academia de cinema.

Grande coisa que o número seja recorde: diferentemente dos anos anteriores, quando uma comissão formada pela academia fazia uma pré-seleção com 9 filmes, em 2009 essa comissão selecionará apenas 6 longas.

Os outros 3 títulos que vão completar a lista dos pré-selecionados serão indicados por outra comissão, formada justamente para "corrigir" algumas possíveis distorções.

Uma delas: a não-indicação de Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, por parte do Brasil. Caso essa segunda comissão julgue que uma produção como Linha de Passe deva estar entre os nove, mesmo que ela não tenha estado entre as 67 indicações de cada país, Linha de Passe lá estará.

É o mesmo caso de dois filmes argentinos que acabaram ficando de fora da corrida, ambos colocados em segundo e terceiro lugares na votação da comissão que indica o representante do país vizinho: Ninho Vazio, o novo Daniel Burman, e A Mulher sem Cabeça, o novo Lucrécia Martel. Não vi o segundo, mas vi o primeiro, e asseguro que é tão bom - embora bem diferente - quanto o escolhido, Leonera, de Pablo Trapero, que também já assisti e que, garanto, é um belíssimo filme.

É dos nove pré-selecionados que saem os cinco finalistas - escolhidos por uma terceira comissão nomeada pela academia dos EUA.

A lista completinha dos 67 que disputam seis vagas entre as nove destinadas aos pré-selecionados (!) vai abaixo. Com um destaque especial para aqueles que, pelo que tem se falado após pré-estréias, exibições em festivais internacionais etc., são os filmes que mais chamaram a atenção até aqui: Gomorra (de Matteo Garrone, Itália) e Entre les Murs (de Laurent Cantet, França).

Afeganistão: Opium War, de Siddiq Barmak
África do Sul: Jerusalema, de Ralph Ziman
Albânia: The Sorrow of Mrs. Schneider, de Piro Milkani and Eno Milkani
Alemanha: Der Baader Meinhof Komplex, de Uli Edel
Argélia: Masquerades, de Lyes Salem
Argentina: Leonera, de Pablo Trapero
Áustria: Revanche, de Gotz Spielmann
Azerbajão: Fortress, de Shamil Nacafzada
Bangladesh: Aha!, de Enamul Karim Nirjhar
Bélgica: Eldorado, de Bouli Lanners
Bósnia: Snow (Snijeg), de Aida Begic
Brasil: Última Parada 174, de Bruno Barreto
Bulgária: Zift, de Javor Gardev
Canadá: The Necessities of Life, de Benoit Pilon
Cazaquistão: Tulpan, de Sergey Dvortsevoy
Chile: Tony Manero, de Pablo Larrain
China: Dream Weavers - Beijing 2008, de Gun Yu
Cingapura: My Magic, de Eric Khoo
Colômbia: Dog Eat Dog (Perro Come Perro), de Carlos Moreno
Coréia do Sul: Crossing (Keurosing), de Kim Tae-gyun
Croácia: No One`s Son (Niciji Sin), de Arsen A. Ostojic
Dinamarca: Worlds Apart (To Verdener), de Niels Arden Oplev
Egito: The Island (El Gezira), de Sherif Arafa
Eslováquia: Blind Loves (Slepe lasky), de Juraj Lehotsky
Eslovênia: Rooster`s Breakfast (Petelinji Zajtrk), de Marko Nabersnik
Espanha: The Blind Sunflowers, de Jose Luis Cuerda
Estônia: I Was Here (Mina Olin Siin. Esimene Arest), de Rene Vilbre
Filipinas: Ploning, de Dante Nico Garcia
Finlândia: The Home of Dark Butterflies (Tummien Perhosten Koti), de Dome Karukoski
França: The Class (Entre les Murs), de Laurent Cantet
Geórgia: Mediator, de Dito Tsintsadze
Grécia: Correction (Diorthosi), de Thanos Anastopoulos
Holanda: Dunya and Desie, de Dana Nechustan
Hong Kong: Painted Skin (Wa Pei), de Donnie Yen
Hungria: Iska`s Journey, de Csaba Bollok
Islândia: White Night Wedding (Bruoguminn), de Baltasar Kormakur
Índia: Stars on Earth (Taare Zameen Par), de Aamir Khan
Irã: The Song of Sparrows, de Majid Majidi
Israel: Waltz With Bashir, de Ari Folman
Itália: Gomorra, de Matteo Garrone
Japão: Departures (Okuribito), de Yojiro Takita
Jordânia: Captain Abu Raed, de Amin Matalqa
Quirquistão: Blue Heavens (Tengri), de Marie Jaoul de Poncheville
Letônia: Defenders of Riga (Rigas Sargi), de Aigars Grauba
Líbano: Under the Bombs, de Philippe Aractingi
Lituânia: Loss (Nereikalingi zmones), de Maris Martinsons
Luxemburgo: Nuits d`Arabie, de Paul Kieffer
Macedônia: I`m From Titov Veles (Jas Sum Od Titov Veles), de Teona Strugar Mitevska
México: Arrancame la Vida, de Roberto Sneider
Morrocos: Goodbye Mothers, de Mohamed Ismail
Noruega: O`Horten, de Bent Hamer
Palestina: Salt of This Sea (Milh Hadha al-Bahr), de Annemarie Jacir
Polônia: Tricks (Sztuczki), de Andrzej Jakimowski
Portugal: Our Beloved Month of August (Aquele Querido Mês de Agosto), de Miguel Gomes
Reino Unido: Hope Eternal, de Karl Francis
República Checa: Karamazovs (Karamazovi), de Petr Zelenka
Romênia: The Rest Is Silence, de Nae Caranfil
Rússia: Mermaid (Rusalka), de Anna Melikyan
Sérvia: The Tour (Turneja), de Goran Markovic
Suécia: Everlasting Moments, de Jan Troell
Suíça: The Friend, de Micha Lewinsky
Tailândia: Love of Siam (Rak haeng Siam), de Chookiat Sakveerakul
Taiwan: Cape No. 7, de Wei Te-sheng
Turquia: Three Monkeys (Uc Maymun), de Nuri Bilge Ceylan
Ucrânia: Illusion of Fear, de Aleksandr Kiriyenko
Uruguai: Kill Them All (Matar a Todos), de Esteban Schroeder
Venezuela: The Color of Fame (El Tinte de la Fama), de Alejandro Bellame Palacios

Postado por Daniel Feix

Entrevista com Bruno Barreto

23 de outubro de 2008 0

Bruno Barreto (de pé) dirige Michel Gomes e Gabriela Luiz/Paula Prandini/Divulgação

Realizador do maior sucesso de bilheteria do cinema brasileiro de todos os tempos - Dona Flor e seus Dois Maridos (1978) foi visto por mais de 12 milhões de espectadores -, Bruno Barreto chega a seu 18º longa-metragem com Última Parada 174, filme que entra em cartaz em todo o Brasil nesta sexta-feira (24/10).

Morando em São Paulo e confessando-se atualmente distante de Hollywood - onde rodou o belo drama Atos de Amor (1995), mas também a desastrada comédia Voando Alto (2003), filme em que não teve o corte final -, Barreto recriou em ficção uma tragédia brasileira real: "Muitas vezes, uma abordagem ficcional dos fatos pode ajudar a tentar organizar um pouco a realidade e, dessa forma, começar a entendê-la".


Na entrevista na seguir, concedida no lançamento de Última Parada 174 no Festival do Rio, Barreto, 53 anos, fala sobre a produção do filme, do protagonista do seqüestro do ônibus no Rio televisionado para todo o país e de sua carreira.

Pergunta - Por que você quis filmar essa história?
Bruno Barreto - Quis saber quem era essa mulher que quis adotar um delinqüente e colocá-lo na casa dela. Depois, a expressão dela no Jornal Nacional segurando uma rosa vermelha ao lado do coveiro e do caixão do Sandro me convenceu que ela não estava enterrando um filho adotivo, mas um filho verdadeiro. O José Padilha então me contou a história dela e disse que só isso já rendia um documentário à parte. Fiquei tão impactado com essa história que pensei que só uma versão ficcional poderia começar a responder todas as perguntas que eu tenho. Quando eu procurei o Bráulio (Mantovani, roteirista do filme), eu já tinha bem claro que queria contar a história de uma mãe que perde o filho e de um filho que perde a mãe. Quis investigar as diferentes motivações das pessoas envolvidas nessa história. O ônibus 174 é apenas o clímax da história que eu queria contar. O filme não é sobre a violência no Rio de Janeiro, é sobre as conseqüências da violência.

Pergunta - Você teve contato com as verdadeiras pessoas envolvidas nessa história?
Barreto -
Fiz questão de não ter nenhum contato. Não queria ficar escravo da realidade. A única pessoa com quem tive contato foi a Elza, a mãe adotiva do Sandro.

Pergunta - O filme redime de alguma maneira o Sandro?
Barreto -
Essa não foi minha intenção em momento nenhum. Nossa intenção sempre foi mostrar todos os lados da história. Acho que todos nós perdemos naquele episódio. A Geisa (Firmo Gonçalves, refém) e o Sandro morreram, mas todos nós morremos um pouco também. É uma tristeza para a humanidade aquilo que aconteceu.

Pergunta - Por que você escolheu o Bráulio Mantovani para roteirizar Última Parada 174?
Barreto -
O roteiro de Última Parada 174 ficou pronto muito antes do roteiro de Tropa de Elite, demorou cinco anos pra ser feito, foi o filme mais difícil de conseguir financiamento da minha carreira. Do Bráulio, só tinha visto antes o Cidade de Deus, e achei brilhante o trabalho complexo dele. Tem uma cena no Cidade de Deus que eu adoro e me fez chamar o Bráulio: aquela em que o Zé Pequeno não consegue pegar mulher no baile funk. Poxa, ele faz a gente sentir pena daquele personagem terrível!

Pergunta - Quais são suas expectativas quanto à possibilidade do filme ser indicado ao Oscar?
Barreto -
Não esperava por isso, tinha apenas esperanças. Fiquei contente, porque a escolha de Última Parada 174 para representar o Brasil na disputa de uma vaga para o Oscar de filme estrangeiro não foi influenciada por bilheterias ou críticas. Ele foi julgado pelo que o filme é. O filme tem um viés humano muito forte, e a Academia (de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood) gosta disso, de se emocionar no cinema. Agora, se o filme realmente for indicado, temos o trabalho de dar visibilidade pra ele.

Pergunta - Você acha que a massiva presença da televisão no Brasil prejudica o cinema nacional?
Barreto -
Acho que a televisão só ajudou o cinema, criando uma dramaturgia brasileira, o que é muito saudável. A TV criou para o brasileiro o hábito de se ver na tela, falando em português, ainda que às vezes essa imagem seja distorcida. Não vejo a TV como concorrência ao cinema. O DVD, sim, é uma concorrência.

Pergunta - Você disse que teve dificuldades para levantar o orçamento do filme, mesmo sendo um realizador internacionalmente conhecido e oriundo de uma família de produtores consagrados.
Barreto -
É difícil para um filme brasileiro falado em português levantar dinheiro lá fora. Eu consegui 400 mil euros no Exterior, o que é excepcional. No Brasil, Última Parada 174 foi eliminado de três editais da Petrobrás. Apenas metade do orçamento total (R$ 8 milhões) teve incentivo. Talvez por preconceito, pela idéia de que "é Barreto, já levou demais"... É o que eu ouço falar, mas não perco muito tempo com isso. Prefiro fazer do que reclamar.

Pergunta - Você já dirigiu filmes dos mais variados gêneros, tanto no Brasil quanto no Exterior. Qual seria a marca autoral do seu trabalho?
Barreto -
Os dois filmes meus que mais gosto são Romance da Empregada e Atos de Amor. Sou um autor versátil, sempre admirei a cinematografia americana de diretores polivalentes como Howard Hawks e John Huston. A marca dos meus filmes é o comportamento humano. Não sou um autor exibicionista. Meu trabalho é bom quando ele não é notado.

 

Assita ao trailer de Última Parada 174:

Ouça a íntegra da entrevista com o cineasta Bruno Barreto e o roteirista Bráulio Mantovani

Postado por Roger Lerina