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Posts do dia 27 outubro 2008

Lição de cinema

27 de outubro de 2008 0

Ana Maria esteve em Porto Alegre no fim de semana/Fernando Gomes

Segue a íntegra da entrevista com a jornalista Ana Maria Bahiana, publicada no Segundo Caderno desta segunda-feira.

Para quem hoje tem o universo do saber ao alcance de um clique é difícil ter idéia da importância da carioca Ana Maria Bahiana para o jornalismo cultural brasileiro. Escrevendo para os mais importantes jornais e revistas do centro do país a partir do começo da década de 1970, Ana Maria, 57 anos, colocou gerações de jovens em sintonia com efervescentes momentos da música e do comportamento. Em 1987, ela se mudou para Los Angeles, onde acrescentou ao trabalho outra paixão, o cinema.
Como correspondente em Hollywood, a jornalista esteve por 20 anos no epicentro da indústria cinematográfica. O que ela viu, ouviu e aprendeu por lá é compartilhado com os cinéfilos no curso
Como Ver um Filme, que ministrou na Capital neste fim de semana.
Autora do Almanaque dos Anos 70, sucesso editorial que alavancou a onda de celebração memorialista pop no Brasil, Ana Maria se lançou como roteirista e produtora de cinema no longa 1972 (2006), filme com traços autobiográficos dirigido por seu ex-marido, o também jornalista José Emílio Rondeau.
No momento passando mais tempo no Brasil do que nos EUA, Ana Maria segue alimentando seu
blog de cinema e tocando novos projetos literários, como a versão impressa de seu curso e a tradução brasileira de Easy Riders, Raging Bulls, sobre o cinema americano dos anos 1970, época que revelou nomes como Coppola, Scorsese e Spielberg — ambos com lançamento previsto para o ano que vem.
Em entrevista a Zero Hora, a jornalista fala da experiência em Hollywood e do cinema brasileiro.

Zero Hora — Como é fazer a cobertura de cinema no principal centro de produção mundial?

Ana Maria Bahiana — Você é jogado no olho do furacão. É decifra-me ou devoro-te. Quem vai cobrir aquilo tem de entender do assunto. Isso me levou a estudar muito, a fazer cursos, a conversar com profissionais, a ficar perguntando no set de filmagem. Eu tive de entender de finanças, produção, assuntos legais. Era a oportunidade de ver as coisas acontecendo e, seis meses depois, ver o resultado na tela. Comandei o escritório da Screen International, uma  revista "trade", da indústria, que durante os grandes festivais tem edição diária. 

Zero Hora — Você é uma das pioneiras no jornalismo cultural brasileiro, na área musical. Como foi essa migração para o cinema?

Ana Maria — Sempre gostei das duas coisas. Mas na época em que comecei no jornalismo, a música era uma coisa muito forte mas não tinha cobertura da mídia brasileira, por isso me dedicaque mais área musical. Comecei a trabalhar com cinema em 1987, quando fui enviada pela editora Abrir para Los Angeles, para ser correpondente em Hollywood, onde fiquei por 20 anos. Ali comecei a fazer cobertura de música para a revista Bizz e de cinema para a revista Set. 

ZH — De volta ao Brasil, como você vê a produção nacional?

Ana Maria —  A noção de que Hollywood ainda é um nucleozinho lá na Califórnia é errada. A indústria agora é internacional, o dinheiro circula por todos os cantos, produz filmes em todos os continentes. O Brasil tem que se elevar ao nível desse diálogo. Temos técnicos capazes, atores e diretores excelentes. Mas temos que trazer nossa estrutura de cinema para um padrão internacional. Não temos indústria, temos um artesanato.

ZH — Mas como se elevar a esse padrão internacional?

Ana Maria — O cinema brasileiro tem dependências crônicas que atrapalham esse processo. Essa dependência do incentivo fiscal é nociva. O pessoal lá fora não compreende muito esse negócio de disputar concursos, editais. Temos de ser mais agressivos na formação de platéia, pensar no nosso ponto fraco, que é o planejamento, do desenvolvimento do roteiro à adequação financeira do projeto. O filme tem de sair do papel pensado. É uma etapa custosa, mas custa menos do que fazer o filme, levá-lo ao cinema e ver que ele não funciona. Outro dia tive um almoço com uma passoa importante do setor, que me falou dos fundos que estão sendo criados para produção, para construção de salas.Perguntei: "Por que você não cria um fundo para desenvolvimento de roteiro?". E essa pessoa olhou para mim com cara de ponto de interrogação. Estamos levando para público projeto que não estão prontos.

ZH — Como se ensina alguém a ver um filme?

Ana Maria — O curso é uma bula, um guia de instruções. Explico como é o processo de criação do filme, o que é o roteiro, o que faz diretor, quais são as ferramentas pelas quais o filme conta a história e dialoga com o espectador. O objetivo é criar uma platéia inteligente, que sai da passividade do tipo "li no jornal que é bom", mas depois fica vendo um negócio que não entende ou que não gosta, percebe que perdeu duas horas de sua vida. Numa segunda parte do curso, que espero trazer para Porto Alegre também, mostro como essas ferramentas tomam forma nos diferentes gêneros.

ZH — Fala-se que ir ao cinema é um hábito condenado à extinção, diante das novas tecnologias que oferecem diferentes maneiras de se assistir a um filme, de outras formas de entretenimento, da pirataria. Mas já se disse isso outras vezes, quando surgiu a televisão e, depois, o videocassete. Essa condenação não é um exagero?

Ana Maria — Tenho muito cuidado como as palavras nunca e sempre. O ser humano é absolutamente viciado na experiência da narrativa, seja o xamã contando um mito em volta da fogueira, um bardo recitando poema épico ou diante de um filme na sala escura do cinema. Temos necessidade disso, é parte da nossa fiação neurológica. Acho que o hábito de ver um filme ao lado de outras pessoas, principalmente um filme visualmente estimulante, vai continuar por bastante tempo.

ZH — O atual modelo de exibição, com grandes complexos concentrados em grandes cidades, se volta cada vez vais para os filmes comerciais? 

Ana Maria —  A crise que existe atualmente no cinema atinge a distribuição do filme que não é blockbuster, ou seja de dois terços da produção cinematográfica. É uma situação que, temo, vai piorar com essa crise financeira. Até há pouco, a indústria seguia um sistema colocado em ação nos anos 1970, que se solidificou nos 1990 e funcionava bem. Tinha o filme arrasa quarteirão, o filme comercial médio e uma série de filmes com orçamento mínimo. O mesmo estúdio que fazia a A Múmia distribuía um filme autoral chinês. Isso está diminuindo cada vez mais.

ZH — A indústria do cinema já passou por várias crises e sempre se adaptada. A bilheteria já não é mais o único parâmetro para avaliar o sucesso de um blockbuster, que fatura com o DVD, na TV e com uma cada vez maior série de produtos licenciados.

Ana Maria — Mas tem as duas faces da história. Isso torna o filme desprovido de poder. O filme deixa de ser um fim em si mesmo e se torna um gerador de outros produtos. O filme mais autoral, que não é para vender pipoca, é muito prejudicado com esse modelo.

ZH — Alguns executivos de Hollywood apostam que a volta do cinema em três dimensões vai revigorar a indústria. Você concorda? 

Ana Maria — Eles têm de fazer essa zorra toda para vender o peixe e ganhar dinheiro. Não sou assim tão entusiasta do 3D. Esse querer ser igual à realidade pode ser até frustrante. Existe algo na retirada do realismo da imagem que é interessante. É o prazer que você tem de ver um filme em preto-e-branco. A experiência do cinema é um curto-circuito com a experiência dos sonhos. E nem todos os sonhos são coloridos e tridimensionais. Pelo menos não os meus.

ZH — O crítico ainda  tem o poder de determinar o sucesso ou fracasso de um filme?

Ana Maria — O crítico é crítico para o filme pequeno. De um certo nível em diante, o papel do crítico é completamente irrelevante.

ZH — Você tem um  fez o roteiro e produziu o longa 1972. É uma ambição sua, depois de falar sobre cinema, fazer cinema?

Ana —  Sim. Mas não tenho intenção de dirigir, que é talento específico que eu não tenho. Sou atráida pela história, pela narrrataiva. Quero ser a pessoa que conduz a história, como roteirista e e produtora.

ZH — Qual o tipo de filme que mais lhe atrai?

Ana Maria — Os mais variados possíveis, do mais pipoca ao mais cabeça. Gosto de cinema bem feito, em que sinto a inteligêcia do diretor em ação, e essa inteligência pode estar tanto a serviço de um blockbuster quanto de uma obra abstrata. O filme que mais que encantou recentemente foi um checo, I Served the King of England, inédito no Brasil, que é maravilhoso, difícil até de definir.

 

 

Postado por Marcelo Perrone