Duas semanas editando o caderno da Feira do Livro de Porto Alegre encartado diariamente em ZH e o que eu fiz de mais divertido nesse trabalho foi... uma brincadeira muito legal envolvendo cinema.
É que publicamos no suplemento uma série intitulada AZ - dos contos, das HQs, dos livros-reportagem, dos poemas, das adaptações cinematográficas. Esta última fiz com muito prazer, puxando pela memória filmes que adoro e consultando sites de referência, em casa, numa manhã em que o Centro Velho se iluminava de sol e um clima deliciosamente ameno, tomando um mate bem amargo e bem quente, ao lado de dois gatos felizes por poderem lagartear com a minha presença.
Antes de voltar à labuta no dia-a-dia do cinema e do Segundo Caderno (minha dica da semana é o longa italiano Caos Calmo, que vi ontem e é excelente, pena que está em cartaz apenas no Aeroguion), e como precisei dar uma cortadinha no texto que saiu no Caderno da Feira, se não me engano, da última quinta, compartilho com vocês a relação como a havia escrito originalmente:
a: ANTONIONI, Michelangelo. Dirigiu Blow Up, provavelmente a melhor das adaptações de Julio Cortázar.
b: BERTOLUCCI, Bernardo. Dirigiu A Estratégia da Aranha, provavelmente a melhor das adaptações de Jorge Luis Borges.
c: CAIN, James, e CHANDLER, Raymond. O primeiro escreveu o romance original e o segundo, o roteiro da adaptação dirigida por Billy Wilder. O título em questão é a obra-prima dos filmes noir Pacto de Sangue.
d: DAVID Lean, um especialista - levou às telas, entre outros, Charles Dickens, HG Wells, Boris Pasternak e Pierre Boulle.
e: ÉLUARD, Paul. Aconteceu de uns poemas seus (do livro Capitale de La Douleur) originarem um muito interessante longa de ficção científica de Jean-Luc Gordard (Alphaville).
f: FAHRENHEIT 451º é a temperatura a que um livro deve ser submetido para pegar fogo - e o título do romance de Ray Bradburry transformado num excelente filme por François Truffaut.
g: GRACILIANO Ramos, autor dos livros que deram origem aos dois melhores trabalhos do diretor Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas e Memórias do Cárcere).
h: HORAS, As. Belo filme de Stephen Daldry a partir do romance que Michael Cunningham escreveu a partir de outro romance de Virginia Woolf.
i: “ISTO que você vai ver deveria se chamar Os Filhos de Marx e da Coca-Cola” - é como os créditos iniciais anunciam Masculino, Feminino, filme que Jean-Luc Godard concebeu a partir das histórias de Guy de Maupassant.
j: JABOR, Arnaldo. Seu Toda Nudez Será Castigada é considerado por muitos a melhor transposição de Nelson Rodrigues para o cinema.
k: KUBRICK, Stanley. Só o mais obscuro de seus 12 longas lançados no Brasil (A Morte Passou por Perto) não é adaptação literária. É consenso que todos, exceto talvez apenas Lolita (transposição de Wladimir Nabokov), são superiores aos textos originais.
l: LA ROCHELLE, Pierre Drieu. Foi esse memorialista francês que escreveu Le Feu Follet, o texto a partir do qual Loius Malle dirigiu aquela que para mim é a sua obra-prima, 30 Anos Esta Noite.
m: M - O Vampiro de Düsseldorf, clássico que Fritz Lang filmou a partir de uma história publicada na imprensa alemã por Egon Jacobson.
n: NASSAR, Raduan. 100% de seus (dois) livros foram adaptados, sendo 50% deles (Lavoura Arcaica) de maneira brilhante.
o: ORSON Welles - para além de Cidadão Kane, levou às telas Othelo, Hamlet, Moby Dick, Dom Quixote e O Processo de Kafka.
p: PODEROSO Chefão, O. Um dos casos mais notáveis em que a transposição, de Francis Ford Coppola, é mais interessante que a obra original, de Mario Puzo.
q: QUEM Tem Medo de Virginia Woolf?, primeiro grande filme de Mike Nichols, dirigido a partir da obra de Edward Albee.
r: RAN, título do Rei Lear shakespeareano adaptado por Akira Kurosawa - o cineasta oriental que mais buscou inspiração nas obras clássicas da literatura ocidental.
s: SCHLÖNDORFF, Volker. Só ele e Raoul Ruiz (com o alemão mais elogiado do que o chileno) levaram partes de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, ao cinema.
t: TENNESSEE Williams - De Repente num Domingo, Gata em Teto de Zinco Quente, Um Bonde Chamado Desejo, Vidas em Fuga... Só bons filmes.
u: URBINO, Fermina, protagonista de O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García-Márquez, recentemente adaptado por Mike Newell, sobre o célebre amor do passado: “Florentino Ariza não é humano. É uma sombra”.
v: VISCONTI, Lucchino. Dava para falar mais, mas fiquemos “só” com suas transposições de O Leopardo de Lampedusa e Morte em Veneza de Thomas Mann.
y: YVETTE Biro: a responsável pela adaptação de A Jangada de Pedra, único outro longa adaptado do único Nobel de língua portuguesa, José Saramago, além de Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles.
x: X, Malcom, filme de Spike Lee baseado na autobiografia do líder negro - um dos raros filmes baseados em autobiografias e bem-sucedidos.
w: WRIGHT, Joe. Representante da nova geração de cineastas britânicos que não deixa morrer a tradição do país de lançar adaptações dos grandes romances - já dirigiu Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação.
z: ZONA do Crime. Filme mexicano, um dos melhores de 2008 a estrear em Porto Alegre, que o diretor Rodrigo Plá transpôs dos contos de sua mulher Laura Santullo. Dica: já está disponível em DVD.
Postado por Daniel Feix