Nem sei se é do interesse de algum dos milhões de leitores do Primeira Fila, mas resolvi compartilhar. Vou falar de três momentos cinematográficos dos últimos 20 dias, mais ou menos, tempo em que passei viajando por algumas cidades da Europa, longe de ZH, longe deste tão estimado blog. São três das boas recordações do período, como se pode ler a seguir.

A melhor compra de toda a viagem, em Londres, foi a de uma caixa de DVDs gigantesca de Hitchcock. Gigantesca porque são 14 longas-metragens (ponha nessa lista todos os melhores filmes do mestre, como Um Corpo que Cai, Os Pássaros, Janela Indiscreta, Frenesi, Psicose, O Homem que Sabia Demais etc.) e um documentário extra sobre sua obra. Ou seja, 15 discos. O box custava originalmente algo como 100 Pounds. Mas estava à venda por 20 Pounds na HMV. Na verdade, depois de feita a compra, vasculhei a internet e descobri que a mesma caixa está em promoção em diversas outras lojas, e pode inclusive ser comprada online por preços muito parecidos com o que paguei. Ainda assim, achei uma barbada. (Aliás, já que falo em DVDs comprados no Exterior, uma lembrança: para assistir, no aparelho de casa, a um disco produzido em outra zona que não a do Brasil, é preciso que esse aparelho esteja preparado para isso. Mas é bem simples "prepará-lo", abri-lo para que rode DVDs de todas as zonas. Uma assistência técnica autorizada faz isso rapidamente, e sem cobrar muito caro - anos atrás, paguei R$ 20 pelo serviço.)

A melhor sessão de cinema, em Madri, foi a de Los Abrazos Rotos, novo longa de Almodóvar. A crítica está bem dividida, mas eu gostei. Não tem aquela - maravilhosa - overdose de emoção de um Fale com Ela ou de um Volver, mas isso não é necessariamente ruim, embora muitos não tenham entendido dessa forma. É que se trata de um filme um tanto mais cerebral, que lida com a ironia, por exemplo, como Almodóvar fazia com mais frequência em seus tempos de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. A história é complexa, tem vaivéns no tempo e diversos personagens, mas vou tentar resumi-la: um escritor e roteirista (Lluís Homar) vive com o trauma de um acidente de carro sofrido ao lado da mulher de sua vida (Penélope Cruz). Cego desde o episódio, ele decidiu esquecer completamente o passado, adotando inclusive um pseudônimo para sua nova produção intelectual. É um filme pretensioso, recheado de simbologias e variações de gênero, que aborda temas como amor, traição, culpa, medo, abuso de poder... Exige um pouco de paciência do espectador, mas vale a pena. Nem precisa ser um grande fã do realizador espanhol para entrar na sua onda - o Almodóvar maduro é um narrador muito mais hábil do que aquele realizador irregular de 20 e tantos anos atrás.

A melhor imersão na obra de alguém, digamos assim, foi proporcionada pela Cinemateca Francesa, em Paris. É que por lá está rolando, desde o início de abril, uma grande retrospectiva de Jacques Tati. Eu disse grande retrospectiva. De um realizador francês cuja obra é cheia de signos visuais interessantes. Na Cinemateca Francesa. Em Paris. A programação é realmente impressionante: há uma mostra completa com absolutamente todos os seus filmes projetados em película, todos restaurados, mais um ciclo de conferências com todos os maiores especialistas em sua obra, mais uma mostra paralela com 30 longas referenciados ou que serviram de referência para o universo de Tati, de Godard a David Lynch, mais uma "exposição cenografada" que inclui desde objetos pessoais do realizador até cenas excluídas de seus filmes, passando por cartazes, fotografias, maquetes etc., entre diversas outras atividades pontuais que estão sendo realizadas quase que semanalmente até... agosto! E isso sem falar nos muitos souvenirs sobre Tati à venda na lojinha da Cinemateca. Enfim, um dossiê completo. Mesmo. Já usei o adjetivo, mas vou usar de novo: impressionante.
Postado por Daniel Feix