São filmes que cinéfilos de todas as idades não se cansam de rever. Mais: fazem estes invejar os que ainda estão por ter o primeiro contato com a obra de mestres como Alain Resnais, François Truffaut e Jean-Luc Godard. São nomes de frente da nouvelle vague, a nova onda que se formou há exatos 50 anos na França para escrever um dos capítulos mais importantes da história do cinema. O encontro com eles e outros grandes diretores tem como palco uma grande mostra que entra em cartaz hoje na Sala Redenção (Campus Central da UFRGS), com entrada franca.
Sob o título Nouvelle Vague: Uma Câmera na Mão e uma Ideia na Cabeça, a mostra vai exibir durante todo o mês de julho 25 títulos, entre clássicos seminais do movimento e longas assinados por realizadores que ainda estão na ativa, como Resnais e Claude Chabrol. O filme que abre o ciclo, com sessão hoje, às 19h, é também aquele que foi um dos primeiros a levantar o estandarte da nouvelle vague: Os Incompreendidos (1959), que apresentou o talento do então crítico François Truffaut, consagrado com o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes daquele ano.
Traffaut era um dos criadores que se insurgiram, primeiro nos textos e depois atrás da câmera, contra a estagnação do cinema francês à época, simbolizada por filmes acadêmicos e presos a convenções estéticas e narrativas da dramaturgia clássica, com forte influência do cinemão americano.
Costuma se associar a nouvelle vague, sobretudo, à roupagem estética daqueles filmes ambientados nas ruas de Paris, registrados com câmera portátil, som direto e orçamento curto, que colocavam em primeiro plano a inquietação daquela juventude que brotou no pós-guerra e ensaiava a grande revolução comportamental no embalo do rock’n’roll. Mas o próprio Truffaut destacava que nouvelle vague foi um termo imposto à revelia da turma, formada por diretores que tinham diferentes propostas. De fato, nem todos militavam na crítica, que tinha como farol a publicação Cahiers du Cinéma. A ambição estética radical de Alain Resnais em Hiroshima, meu Amor, também de 1959, era diferente da de Truffaut. Os filmes de Chabrol nada tinham a ver com os de Louis Malle.
E não ter se prendido a dogmas e fórmulas que não os limites da liberdade criativa foi o que fez a nouvelle vague ser tão diversa e influente. De sua linha de produção saíram tanto sucessos de bilheteria quanto filmes experimentais, romances e manifestos políticos. Ecos do movimento foram absorvidos de diferentes formas, perto e longe do epicentro, como no Free Cinema da Inglaterra e no Cinema Novo do Brasil.
A mostra é um iniciativa do Departamento de Difusão Cultural da UFRGS em parceria com a Aliança Francesa, e tem curadoria de Tânia Cardoso e Christophe Benest. Hoje, a sessão de Os Incompreendidos contará com a presença do professor de cinema e montador Milton do Prado, que comentará o filme, a importância e o legado da nouvelle vague.
Truffaut ganha mostra exclusiva em outubro
Todos os filmes da mostra sobre a nouvelle vague serão exibidos em DVD. Embora sejam títulos que estão ao alcance de todos nas locadoras, a chance de assisti-los na tela grande e, principalmente, agrupados sob o mesmo recorte temático é rara – e a qualidade da projeção, já que muitos longas tiveram cópias restauradas para o lançamento em DVD, é bastante aceitável, muito melhor que antigos ciclos em película com cópias ruins e incompletas.
Truffaut está representado apenas por Os Incompreendidos, obra com traços autobiográficos que acompanha o menino Antoine Doinel em sua insurgência contra a família, a escola e o reformatório no qual é internado - o diretor seguiria os passos do personagem e seu intérprete, Jean-Pierre Léaud, até a maturidade em outros quatro longas. Truffaut vai ganhar sua própria retrospectiva na Sala Redenção em outubro, em razão dos 25 anos de sua morte. A mostra traz obras de Louis Malle, Jacques Rivette, Eric Rohmer, Alain Resnais e Jean-Luc Godard.
Veja a programação completa (material distribuído pela Sala Redenção):
Os incompreendidos (França, 1959, 99 min) de François Truffaut
01 de julho – 19h
02 de julho - 16h
Cultuado como a obra-prima da carreira do cineasta francês François Truffaut, o filme Os Incompeendidos (1959), marcou a estréia do jovem e irriquieto diretor , que, ao retratar a saga vivida nas ruas de Paris, por um garoto de 12 ou 13 anos, Antoine Doinel, interpretado por Jean -Pierre Léaud, acabou por criar uma obra autobiográfica. Desprezado e odiado pela mãe e ignorado pelo padrastro, o personagem de Jean- Pierre Léaud (Antoine Doinel) vive de forma realista o drama da rejeição e da inadequação. A obra-prima de François Truffaut marca definitivamente a cinematografia francesa e mundial pela linguagem vibrante, envolvente e telúrica.
Ascensor para o cadafalso (França, 1957, 88 min) de Louis Malle
02 de julho – 19h
03 de julho – 16h
Florence ama Julien Tavernier e não ao seu marido, Simon Carala, homem rico e totalmente dedicado a seus negócios. Os amantes planejam o crime perfeito: Julien cria um álibi incontestável, assassina Simon Carala e faz seu ato criminoso parecer um suicídio. Mas, o destino intervém e Julien fica preso dentro do elevador – e o porteiro desliga a chave da corrente elétrica. Enquanto tenta escapar do interior do elevador, um casal de namorados rouba seu carro e mata dois turistas alemães. A partir daí, Julien é procurado pelo homicídio que não cometeu. Será ele condenado? Mais um belo filme, bem no estilo do mestre Louis Malle, perfeito em cada take. Com o toque e o charme do cinema francês.
Zazie no metrô (França, 1960, 89 min) de Louis Malle
03 de julho – 19h
04 de julho – 16h
Zazie dans Le Metrô é uma adaptação do romance homônimo do poeta e escritor francês Raymond Queneau. Louis Malle dirige esta comédia leve e divertida e ao mesmo tempo satírica do modo de vida parisiense da época. Zazie, uma garota do interior da França, tem a chance de conhecer Paris pela primeira vez, passando dois dias na capital francesa. Hospedada na casa de seu pouco convencional tio Gabriel, Zazie cultiva um sonho: andar de metrô, mas uma greve dos metroviários frusta seu plano. No táxi, de Charles, um amigo de seu tio, ela inicia seu contato (e suas aventuras) pela cidade-luz.
Lacombe Lucien (França, Alemanha e Itália, 1974, 137 min) de Louis Malle
04 de julho – 19h
06 de julho – 16h
Em junho de 1944, durante a II Guerra Mundial, os aliados desembarcam na Normandia, numa cidadezinha do sudoeste da França. Lucien, um rapaz de dezessete anos, trabalha num asilo de idosos e passa por vários dissabores; ao visitar sua cidade natal é rejeitado pela família e também não é aceito pela Resistência. Ao retornar à cidade onde mora, o pneu de sua bicicleta fura e, como chegara na hora do toque de recolher, Lucien é preso pelos auxiliares franceses da polícia alemã. Com o tempo, ele se torna colaborador da Gestapo, e assim, adquire certo padrão de vida. É apresentado ao alfaiate judeu Albert Horn e se apaixona por sua filha, France. Aos poucos se torna íntimo, e, justamente no dia em que vai pedir a moça em casamento, Albert se entrega à Gestapo. Durante uma batida policial, France e sua avó são presas, mas Lucien mata os soldados alemães e refugia-se com ela numa fazenda abandonada. Depois de alguns meses de felicidade vivendo como camponeses, Lucien é preso pela Resistência. Com um final surpreendente, e inédito no mercado latino, mais uma obra-prima do mestre Malle.
Adeus meninos (França, 1987, 103 min) de Louis Malle
06 de julho – 19h
07 de julho – 16h
França, inverno de 1944. Julien Quentin (Gaspard Manesse) é um garoto de 12 anos que frequenta o colégio Sr. Jean-de-la-Croix, que enfrenta grandes dificuldades devido a 2ª Guerra Mundial. Lá ele se torna o melhor amigo de Jean Bonnett (Raphael Fejto), um introvertido colega de classe que Julien posteriormente descobre ser judeu. A tragédia chega à escola quando a Gestapo invade o local, prendendo Jean, outros dois alunos e ainda o padre responsável pelo colégio.
Quem sabe? (França e Alemanha, 2001, 147 min) de Jacques Rivette
07 de julho – 19h
08 de julho – 19h
Neste filme do veterano Jacques Rivette, todos os personagens têm algo em comum: são inteligentes, espertos e cultos. Camille (Jeanne Balibar) é uma atriz de uma companhia de teatro italiana que está em Paris para apresentar a peça Come Tu Mi Vuoi, de Pirandello. Seu namorado, Ugo (Sergio Castellitto) é o diretor do grupo e o protagonista da peça. A viagem, no entanto, é fachada para outros propósitos: Camille vai encontrar seu ex, Pierre (Sergio Castellitto), um professor de Filosofia; Ugo está à procura de uma suposta peça perdida de Goldoni. Durante suas pesquisas, o ator é ajudado por pela bela Do (Hélène de Fougerolles), por quem se apaixona. Não bastando todo o quiproquó, o meio-irmão de Do, o dramaturgo Arthur (Bruno Todeschini), rouba um caro anel da esposa de Pierre, Sonia (Marianne Basler).
Quem matou Leda (França e Itália, 1959, 110 min) de Claude Chabrol
09 de julho – 16h
13 de julho – 16h
Este é o terceiro filme de Chabrol, e seu debute no thriller psicológico, gênero também de seus dois próximos filmes: Les Bonnes Femmes e L“Enfer. Usando com perícia os flashbacks e vinhetas, Chabrol cria um pertubador enredo de infidelidade, obsessão e assassinato num vinhedo em Provença. O negociante Henri Marcoux tem um caso amoroso com uma bela e jovem vizinha, bem debaixo do nariz da sua esposa Thérèse. A linda filha de Henri, ao conhecer o húngaro fica apaixonada, enquanto o filho voyeur de Henri começa a ter liberdades com a amante do pai. Com o amadurecimento das paixões na família, deslumbra-se uma tragédia. Obra-prima no gênero.
Uma garota dividida em dois (França e Alemanha, 2007, 115 min) de Claude Chabrol
09 de julho – 19h
10 de julho – 16h
Gabrielle Aurore Deneige (Ludivine Sagnier) tem 25 anos e vive em Lyon com sua mãe Marie (Marie Bunel), que a criou sozinha, cercada por muitos livros. Inteligente e charmosa, Gabrielle trabalha no canal de televisão a cabo local. Um dia ela conhece o grande escritor Charles Saint-Denis (François Berléand), durante o evento de promoção do novo livro dele. Homem bem-apessoado e reconhecido, ele não encontra dificuldades em seduzir a jovem, apesar de ser casado e de ser trinta anos mais velho. Aos poucos, no entanto, percebe que se apaixonou profundamente e que terá que disputar seu amor com Paul (Benoît Magimel), um jovem milionário e desequilibrado.
A teia de chocolate (França, 2000, 96 min) de Claude Chabrol
10 de julho – 19h
11 de julho – 16h
A Teia de Chocolate é uma interessante combinação de maldade, brincadeira e paixão, oculta sob a superfície calma e rica da burguesia suíça. Milka Muller (Isabelle Hupert, melhor atriz no Festival de Montreal) é a diretora geral da empresa Chocolate Muller e vive na Suíça com seu marido André Polonski - um prestigiado pianista -, e Guillaume, filho do primeiro casamento de André. Jeanne Pollet é uma jovem pianista que ainda não começou seus estudos no conservatório e que um dia descobre que, quando nasceu, esteve a ponto de ser trocada no hospital por Guillaume. Decidida a desvendar os mistérios que envolvem sua origem, ela visita André e eles se entendem em pouco, graças ao amor que ambos têm pela música. Pequenos gestos, porém, chamam a atenção da jovem para o que ela suspeita ser um comportamento estranho em Mika. O resultado desta trama é nada menos que brilhante.
A dama de honra (França, Alemanha e Itália, 2004, 111 min) de Claude Chabrol
11 de julho – 19h
O bom moço Philippe vive com a mãe, que é cabeleireira, e as duas irmãs, Sophie, a irmã mais velha que vai casar–se, e Patrícia, a mais nova, é uma típica rebelde. No casamento da irmã, Philippe conhece Senta, uma das damas de honra, prima do noivo. Naquele mesmo dia, os dois iniciam um romance, envolvente. Senta transporta o convencional Philippe para seu insano, fantasioso e instável universo. Mas será que ela mente quando, com um sorriso, sugere que para provar o amor é preciso matar? O premiado cineasta Claude Chabrol (Mulheres Diabólicas), com um grande elenco, transforma a adaptação do romance homônimo da inglesa Ruth Rendell num suspense romântico, irônico e perturbador sobre as profundezas da natureza humana.
A carreira de Suzanne (França, 1963, 54 min) de Eric Rohmer
13 de julho – 19h
14 de julho – 16h
Bertrand e Guillaume são universitários de Paris. Bertrand não gosta do jeito rude que o amigo trata sua namorada, Suzanne, uma garota muito inocente. Além disso, desconfia que ela está interessada nele. Porém, ele é apaixonado por Sophie, que o despreza.
Conto de outono (França, 1998, 110 min) de Eric Rohmer
14 de julho – 19h
A viúva Magali (Béatrice Romand), de 45 anos, é uma produtora de vinho no sul da França. Isabelle (Marie Rivière), sua melhor amiga, resolve encontrar um novo marido para Magali: põe anúncio num jornal local e até encontra Gérald (Alain Lisbolt), um homem decente. No casamento da filha de Isabelle, Magali conhece Gérald. Mas o problema é que na mesma ocasião ela também conhece Étienne (Didier Sandre), um outro homem.
Pauline na praia (França, 1983, 94 min) de Eric Rohmer
15 de julho – 19h
16 de julho – 16h
Pauline (Amanda Langlet) tem 15 anos e vai passar as férias de outono com Marion (Arielle Dombasle), sua prima mais velha. Elas vão para a costa francesa do Atlântico, onde Marion reencontra um velho amigo, Pierre (Pascal Greggory). Apesar do interesse dele, Marion prefere ficar com o aventureiro Henri (Féodor Atkine), apesar de saber que o relacionamento deles não tem futuro. Paralelamente Pauline mantém um romance com o adolescente Sylvain (Simon de la Brosse). Até que Henri decide usar Sylvain para se livrar de um problema que teve com Marion, o que atrapalha seu namoro com Pauline.
O raio verde (França, 1986, 94 min) de Eric Rohmer
16 de julho – 19h
17 de julho – 16h
Marie Rivière (também roteirista do filme) é Delphine, uma secretária que mora em Paris. Duas semanas antes de tirar férias, a companhia de viagem onde ela trabalha fecha. Sem ter o que fazer e sem muitos amigos, ela tenta uma série de passeios insólitos para tentar passar o tempo, mas o destino final sempre acaba sendo a capital francesa. Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza de 1986.
O amigo da minha amiga (França, 1987, 103 min) de Eric Rohmer
17 de julho – 19h
18 de julho – 16h
Blanche (Emmanuelle Chaulet) é uma jovem balconista, que fica amiga de Lea (Sophie Renoir), uma técnica de computação. Lea está namorando Fabien (Eric Viellard), mas Blanche no momento não está com alguém. Até que ela conhece Alexandre (François-Eric Gendron), um belo engenheiro por quem se apaixona de imediato. Porém, quando Lea rompe com Fabien, ele começa a demonstrar um forte interesse por Blanche.
Conto de primavera (França, 1992, 110 min) de Eric Rohmer
18 de julho – 19h
20 de julho – 16h
Jeanne (Anne Teyssèdre) é uma professora de filosofia um tanto temperamental, mas de espírito aberto. Seu noivo está viajando e ela não quer ficar no apartamento dele. Como alugou seu próprio apartamento para um primo, ela termina aceitando o convite de Natasha (Florence Darel), uma estudante de música que conheceu numa festa, para dormir na sua casa. Ela se instala no quarto de Igor (Hugues Quester), o pai de Natasha, que por sua vez passa todas as noites com a namorada. Natasha conta a Jeanne a história do sumiço de seu colar e da suspeita de que a namorada do pai o tenha roubado. Mais tarde todos se encontram num jantar, na casa de campo de Igor, onde confusões serão desbaratadas e suspeitas esclarecidas.
Acossado (França, 1959, 86 min) de Jean-Luc Godard
20 de julho – 19h
21 de julho – 16h
Em seu filme de estréia, Godard desconsiderou as formas convencionais e inovou a arte cinematográfica. Em uma narrativa fragmentada, apresenta Michel Poiccaard (Jean-Paul Belmondo), um típico ladrão parisiense e admirador de Humprey Bogart.
Ao longo da trama ele se envolve com a jovem norte-americana Patrícia (Jean Seberg), que o ajudará a escapar da polícia. Um filme de perseguição espirituoso, romântico e inovador, e que abriu as portas para a nouvelle vague. Com roteiro de François Truffaut, Acossado é uma obra-prima da cinematografia francesa.
Carmen de Godard (Suíça, 1983, 80 min) de Jean-Luc Godard
21 de julho – 19h
23 de julho – 16h
Vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza, em 1983, Carmen de Godard, o eterno enfant terrible do cinema francês, é sobre um grupo de jovens assaltantes que pretendem roubar um banco, no começo da década de 80, para financiar a produção de um filme. Carmen, vivida pela belíssima holandesa Maruschka Detmers, é um dos assaltantes. No decorrer da história, ela acaba se envolvendo com Joseph, um dos guardas que fazem a segurança do banco. O tio dela, um cineasta recluso, é interpretado pelo próprio Godard. O romance dos dois acaba justificando longas cenas de nudez, usadas por Godard como um belo exercício de uso da imagem. Paralelamente, Godard conta a história de um quarteto de instrumentistas que estão ensaiando uma peça de Beethoven. Carmen de Godard na verdade é uma história sobre os conflitos da juventude na década de 80, sobre a interação entre o cinema e os recursos financeiros, além de um belíssimo ensaio sobre o corpo humano - quer esteja ele tocando instrumentos, fazendo amor ou violência.
Banda à parte (França, 1964, 97 min) de Jean-Luc Godard
23 de julho – 19h
24 de julho – 16h
É para gente como Godard que existe o cinema: para que possam expressar toda a sua criatividade e genialidade. Godard é ainda um dos grandes responsáveis pelo cinema contemporâneo como o conhecemos, depois de encabeçar a Nouvelle Vague. Este é o mais acessível filme do diretor, com sequências antológicas (o filme de Godard para quem não gosta de Godard), mas não é por isso que deixa de ser uma das suas melhores pérolas. Nele, Godard mantém de forma simples e eficaz as suas principais características e da nouvelle vague - levando a experimentação ao extremo apenas num momento: a mítica cena do (literal) minuto de silêncio, que influenciou a cena do don’t be so square de Uma Thurman em Pulp Fiction, ou desconstruindo a linearidade narrativa com o recurso a um narrador onipresente. Nele desenha-se um triângulo amoroso, cúmplice. Indiscutivelmente: obra de arte no sentido mais amplo da palavra.
Viver a vida (França, 1962, 80 min) de Jean-Luc Godard
24 de julho – 19h
27 de julho – 16h
Um relato episódico da curta vida de uma jovem prostituta (Anna Karina), Viver a Vida é a primeira das obra-primas de Jean-Luc Godard, na maturidade. Como em toda sua obra, este filme é supremamente analítico e supremamente sensual, conseguindo uma beleza austera e gelada. Os primeiros pontos de referência são a rigorosa espiritualidade de cineastas como Carl Theodor Dreyer e Robert Bresson, e o paraíso perdido do cinema mudo. Ambos se juntam de maneira marcante quando a heroína (Anna Karina) antevê o seu futuro martírio ao visionar o clássico mudo de Dreyer, O Martírio de Joana D’Arc.
A chinesa (França, 1967, 96 min) de Jean-Luc Godard
27 de julho – 19h
28 de julho – 16h
Paris, verão de 1967. Alguns tentavam aplicar os princípios que romperam com a burguesia da URSS e dos partidos comunistas ocidentais em nome de Mao Tse Tung. Imersos no pensamento de Mao e em literatura comunista, um grupo de estudantes franceses começa a questionar a sua posição no mundo e as possibilidades de o mudar, mesmo que isso signifique considerar o terrorismo como uma via possível. Em A Chinesa, por exemplo, muitos tentam ver no filme um pastiche ou a glorificação dos personagens marxistas-leninistas que se enfurnam durante as férias num apartamento burguês para aprender a fazer a revolução maoísta na França. Caso notório de tentar ressignificar conteúdos ao invés de tentar ver o que lá está: os personagens de A Chinesa, jovens em processo de encontrar seu lugar no mundo, tateiam no escuro à procura de verdades, mas o que Godard filma é justamente a verdade dessa procura. Intrigante obra-prima.
Ano passado em Marienbad (França e Itália, 1961, 94 min) de Alain Resnais
28 de julho – 19h
30 de julho – 16h
Ambientado em um hotel europeu, este filme tem três personagens principais: (1) o Narrador, que faz voice-over do filme; (2) a Mulher, por quem o Narrador é obcecado; e (3) o Outro Homem, com quem a Mulher veio para o hotel. O Narrador fala repetidamente para a Mulher, que eles passaram o ano anterior juntos e implora que ela parta com ele. A Mulher se mantém dizendo que desconhece o que ele está falando, mas seu comportamento demonstra o contrário. Enquanto isso, a presença do outro Homem no Hotel, complica a vida da Mulher e do Narrador. Este filme, não delineia os personagens nem tem argumento com tradicionalmente conhecemos, mas é considerado um filme intelectualmente e emocionalmente engajado. Em primeiro plano, o filme nos dá consciência: das nossas próprias confusões emocionais, nossos anseios conflitantes e das nossas recordações nebulosas. E um filme interativo, cada um que assistir tirará o seu próprio conceito. Seu lançamento em Cannes, causou furor na imprensa e na crítica mundial, fato este que foi encarado com extrema naturalidade pelo diretor. Experimental e único. Fantástico!
Hiroshima meu amor (França, 1959, 90 min) de Alain Resnais
29 de julho – 19h
Participando de um filme sobre a paz, em Hiroshima, nos anos 50, atriz francesa passa a noite com um arquiteto japonês. Tudo isso, traz lembranças de sua juventude, na cidade de Nevers, durante a Segunda Guerra Mundial. Período, no qual foi perseguida, quando se apaixonou por um soldado alemão. História de difícil compreensão, criada para um público específico. baseada nas crônicas de Marguerite Duras, que também escreveu o roteiro e os diálogos. A fotografia em tons de cinza de Sacha Vierny, e a música romântica de Giovanni Fusco e George Delerue, realçam o realismo póético das belas imagens deste filme de Resnais. Foi um dos filmes que mais influenciaram os jovens intelectuais, engajados politicamente, nos anos 60. Belíssimo filme anti-guerra. Obra-prima inquestionável.
Amores parisienses (França, 1997, 120 min) de Alain Resnais
30 de julho – 19h
31 de julho – 16h
Vários personagens e seus problemas cotidianos têm seus destinos cruzados pelas ruas de Paris. A executiva Odile (Sabine Azéma) despede um funcionário que acabara de contratar para dar uma oportunidade para o irmão de Nicolas (Jean-Pierre Bacri), seu ex-namorado. Já Nicolas é hipocondríaco e não consegue se decidir qual apartamento deve alugar, por mais que o corretor de imóveis Simon (André Dussollier) lhe apresente opções interessantes. Enquanto isso, Camille (Agnès Jaoui), irmã de Odile, descobre que passou vários anos de sua vida pesquisando sobre um assunto que não interessa a ninguém. Ao mesmo tempo, se apaixona por Marc (Lambert Wilson), o patrão de Simon. Por meio de mal-entendidos, Alain Resnais cria situações ora cômicas, ora dramáticas.
Medos privados em lugares públicos (França e Itália, 2006, 120 min) de Alain Resnais
31 de julho – 19h
Vários personagens, apresentados de forma individual, mas cada um deles mantendo uma interconexão com os demais, interagem e têm suas vidas entrelaçadas e seus compromissos misturados. Os desejos secretos de cada um são expressos em situações inesperadas e inusitadas, numa história enganosamente simples e sorrateiramente construída. A locação principal é Bercy, uma área de Paris que foi grandemente renovada e modernizada. Baseado no livro "Private Fears in Public Places", de Alan Ayckbourn.