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Posts de outubro 2009

MJ precisou morrer para mostrar que estava vivo

31 de outubro de 2009 4

Ninguém acreditava, mas Michael Jackson estava pronto para arrebentar/Columbia Pictures

Cinco minutos de projeção bastam para que se engula cada palavra dita e pensada sobre ser This is It mais uma oportunista pá de cal jogada sobre o túmulo de Michael Jackson, um novo capítulo do circo mórbido que cercou a morte daquele um dia entronizado Rei do Pop. A grata surpresa diante desse tributo póstumo é ver que diante da tela não está mais a figura decrépita que teve sua persona pública reduzida à caricatura de um freak show turbinado por bizarrices, excentricidades e escândalos que desenharam sua morte artística ainda vida.

Longe disso. O MJ que salta aos olhos, aguça os ouvidos e faz bater os pés no filme, acreditem crianças que não o viram no auge, é o soberano em plena forma e alto-astral.

MJ parecia ter a certeza de que o espetáculo que ensaiava ao morrer era sua derradeira chance de volta ao topo. Não apenas para aliviar suas dívidas milionárias, mas especialmente pela chance de redenção junto aos fãs que, justiça seja feita, nunca desistiram dele.

Michael e a enorme equipe presente no ginásio sentem que os 50 shows que estavam por realizar em Londres seriam históricos. Na busca pelo nota certa, pelo compasso perfeito, pela coreografia exata, ele é exigente consigo e com o time de excepcionais músicos e bailarinos. Mostra-se generoso com os parceiros e atento às sugestões, mesmo que todos saibam quem é que manda. “Deus te abençoe”, “Eu te amo” e “Obrigado” são as palavras que mais se escuta por ali, soletradas com genuína sinceridade pelo artista.

This is It começa com depoimentos dos jovens dançarinos que encaram a mais rigorosa seleção que já se teve notícia no universo pop. Chegados de várias partes do mundo, passam pela exaustiva peneira diante do próprio MJ. Os selecionados desabam de felicidade. Choram e lembram quando imitavam o ídolo diante da TV e nem em sonhos poderiam se ver ao seu lado sobre o palco. Quando a gurizada entra em ação nos ensaios, percebe-se que o faro de MJ para garimpar talentos segue apurado. Que o diga a guitarrista australiana Orianthi Panagaris, bela e competente loira de 24 anos que o astro descobriu pelo YouTube e recrutou para sua banda.
Quando Michael entra em cena, mandando ver
Wanna Be Startin’ Somethin, o queixo começa a cair. O groove exige as caixas de som do cinema ao limite. Às vésperas dos 50 anos, ele dança, flana e requebra como nos velhos tempos. A câmera vira para o lado e flagra o entusiamo da equipe. “Ele está de volta e temos o privilégio de ver nascer algo que vai assombrar o mundo”, esse é o pensamento que, entre os olhares embasbacados que se cruzam, parece ecoar uníssono pelo ginásio. Se a voz soa frágil, Michael assume que está se poupando para a marotona de shows que se aproxima.
Dirigido pelo Kenny Ortega (coreógrafo com boa ficha de serviços em Hollywood, como a recente franquia
High School Musical), também responsável pelo espetáculo, o documentário combina os bastidores do show que nunca estrearia com a realização dos filmes que seriam exibidos nos telões. Cada um deles uma superprodução, como o que MJ contracena com os grandes ídolos dos filmes noir, Humphrey Bogart e Edward G. Robinson entre eles, e uma versão em 3D do clássico videoclipe de Thriller.

Talvez nunca se saiba o custo físico e mental que todo esse empenho teve sobre Michael, ou a quantidade de exercícios, drogas e medicamentos que seu corpo franzino suportou para se mostrar tão ágil e elástico. Nada do que se vê no filme dá pistas de que aquele homem estaria morto na manhã seguinte depois de mostrar o vigor de canções eternas como Billy Jean, Man in the Mirror, Beat It e I’ll Be There.

E não deixa de ser tragicamente irônico ver Michael reproduzir a imagem icônica dos zumbis que deixam suas tumbas para cair na dança em Thriller. O Rei do Pop precisou morrer para mostrar o quanto estava vivo.

 

Postado por Marcelo Perrone

Um pequeno (e pouco visto) grande filme

31 de outubro de 2009 0

A passagem de Goodbye Solo pelos cinemas de Porto Alegre é tão discreta que falar em cinemas de Porto Alegre, no plural, é quase um erro. O longa do norte-americano de origem iraniana Ramin Bahrani só passou nas salas tradicionais em sessões de pré-estreia, entrando em cartaz apenas no Instituto NT. Apesar da beleza do novo espaço e da projeção impecável que ele oferece - ainda que digital -, trata-se de muito pouco para um filme com tantas qualidades, reconhecidas com o prêmio da crítica no Festival de Veneza de 2008.

Narrador dos dramas dos imigrantes em busca do sonho americano, chamado - pelo prestigiado crítico Roger Ebert - de "o novo grande cineasta dos EUA", Bahrani é um filho desgarrado do fundador do cinema independente do país, John Cassavetes (1929 - 1989). Goodbye Solo lembra o mestre mais pela abordagem melancólica da vida e das relações interpessoais do que pela inventividade na construção de planos e sequências. Suas proposições formais são outras - mas nem por isso menos nobres, ao contrário: cheiram a algo com ainda mais frescor.

O enredo é semelhante ao do igualmente ótimo O Visitante (2008), outro destaque discreto desta temporada: conta a amizade possível entre o velho e carrancudo William (Red West) e o alegre e jovial Solo, um senegalês sonhador interpretado pelo imigrante Souleymane Sy Savane. Eles se encontram quando o segundo, que é motorista de táxi, é contratado pelo primeiro para levá-lo, numa viagem só de ida, a uma região montanhosa onde há uma famosa rocha gigantesca e vento em abundância. A ironia é que o "solo" do título combina mais com William - mas o que o deixou nesse estado de solidão e letargia capaz de querer abandonar a própria vida?

Goodbye Solo narra a tentativa do chofer de desvendar o mistério com um roteiro rígido porém cheio de elipses que convida o espectador, a todo instante, a adentrar nesse processo de aproximação. Trata-se de algo que tem a ver com o que já foi chamado de neoneorrealismo: um despojamento que faz o filme ser construído, em sua proposta estética, a partir da experiência do set. Tudo está e também não está no script - e só restará no resultado final se "acontecer" quando o diretor gritar "ação". É um caminho eficiente para atingir a "verdade" da história e de seus protagonistas. Mais ainda quando a vivência de um ator parece com a de seu personagem - não é à toa que a performance de Savane, ator não-profissional, é um dos destaques do longa.

Ao final, a sensação é de que muitas sugestões sobre o passado de William e as aventuras presentes de Solo não passaram disso mesmo, sugestões. A Bahrani, assim como a inúmeros autores ao redor do mundo - no Brasil, por exemplo, Walter Salles (em Linha de Passe) e Beto Brant (em Cão sem Dono) -, parecem menos interessantes as explicações literais sobre detalhes da trama do que a sensação que determinados vazios narrativos podem provocar no público. A coerência, aqui, está na busca por essa verdade cênica, e não nas relações mais convencionais de causa e efeito. O que é ótimo.

As fotos são de divulgação da distribuidora Imovision. A seguir, o trailer do filme:

Postado por Daniel Feix

40 anos do AI-5

27 de outubro de 2009 1


A criação do Ato Institucional número 5 pelo general Costa e Silva apresentaria a partir da virada daquele ano a face mais sombria e violenta da ditadura militar que tomou o poder com o golpe de 1964.
O cinema nacional tem se debruçado sobre esse conturbado período em bons títulos, como alguns reunidos na mostra que o CineBancários exibe de hoje a 8 de novembro, com entrada franca.

A programação na sala localizada na General  Câmara, 424, no Centro, tem como destaque uma produção inédita na Capital, Cidadão Boilesen, com sessão única hoje, às 19h. Grande vencedor da mostra nacional do É Tudo Verdade 2008, o mais importante festival de documentários da América Latina, o filme dirigido pelo carioca  Chaim Litewski – chefe do departamento de Televisão na ONU, em Nova York – tem como personagem uma figura emblemática e pouco conhecida: o dinamarquês Henning Albert Boilesen, empresário que ajudou a financiar a repressão dos militares quando esses, por conta do AI-5, tornaram-se senhores absolutos do Brasil com a violação de direitos civis e políticos (leia mais sobre o filme abaixo).
A mostra tem entre os seus 14 filmes registros biográficos de personagens reais perseguidos pela ditadura, caso de Frei Betto (Batismo de Sangue) e da estilista Zuzu Angel (no filme homônimo), na ficção, e do jornalista Vladimir Herzog (Vlado – 30 Anos Depois), e do presidente deposto João Goulart (no já clássico Jango, de 1984).
Como complemento à programação de cinema, o CineBancários coloca em exposição a mostra fotográfica Verdade Memória – A Ditadura Militar no Brasil, com trabalhos do premiado fotojornalista Evandro Teixeira, como o que ilustra essa página.

O executivo na sala de tortura

Amigos, simpatizantes e o filho lembram dele como o bonachão estrangeiro apaixonado pelo Brasil, o empresário competente que apontava a rota para o então país do futuro navegar próspero e sereno. Lamentam que sua história tenha chegado ao fim de forma tão violenta, com o corpo metralhado, caído numa sarjeta de São Paulo.
Outros guardam na memória a figura do grandalhão dinamarquês Henning Albert Boilesen como o anticomunista feroz que passava o chapéu entre os poderosos endinheirados para financiar a caça aos opositores da governo militar. Defendem que o justiçamento daquele homem que confraternizava com os carrascos nos centros de tortura e assistia com prazer sádico aos suplícios dos prisioneiros serviu de alerta àqueles que reforçavam o caixa da Operação Bandeirantes (Oban), a grande ação paramilitar criada na esteira do AI-5.
Cidadão Boilesen segue o manual do bom documentário costurado como uma grande, reveladora e contundente reportagem. Ouve todos os lados e empilha farta documentação, garimpada em acervos públicos e particulares e até mesmo nos escaninhos de embaixadas estrangeiras. Muita coisa vem a público pela primeira vez. Ao reconstruir passo a passo a figura privada e pública de Boilesen, ex-presidente da Ultragaz, o filme levanta o véu que cobre um capítulo obscuro da nossa história recente, puxa o fio que conecta parte do grande empresariado nacional ao golpe de 1964.

Confira o trailer do filme

PROGRAMAÇÃO

AI-5 – O Dia que Nunca Existiu, de Paulo Markun (2001, 56 minutos, documentário)
Dirigido pelo jornalista Paulo Markun, o documentário trata do episódio vivido pelos brasileiros durante o golpe militar de 1964, responsável pela vigência do Ato Institucional nº 5, considerado o mais cruel e discricionário dos atos introduzidos pelos militares ao longo da ditadura.

Arquivos da Cidade, de Felipe Diniz e Luciana Knijnik (2009, 30 minutos, documentário)
Documentário que apresenta, 45 anos depois, histórias de resistência à ditadura militar com o foco no Rio Grande do Sul, contadas pelos próprios protagonistas. Através de depoimentos de seis militantes, presos políticos e familiares, o documentário revela como essas pessoas vivem hoje e as marcas que carregam, tornando públicas trajetórias desconhecidas.

Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton (2006, 110 minutos, ficção)
Filme baseado no livro homônimo de Frei Betto que retrata a luta dos frades dominicanos contra o regime militar. Prêmio de melhor direção no Festival de Brasília.

Cabra-Cega, de Toni Venturi (2004, 108 minutos, ficção)
Estamos em setembro de 1971, a organização está debilitada e discute o abandono da estratégia armada. Escondidos no apartamento de Pedro, Thiago e Rosa, dois jovens militantes da luta armada, vivem o sonho e o pesadelo do projeto revolucionário.

Caparaó, de Flávio Frederico (2007, 77 minutos, documentário)
Após o golpe de 1964, a Guerrilha do Caparaó foi a primeira tentativa de luta armada organizada contra a ditadura militar implementada no Brasil. O movimento foi patrocinado por Fidel Castro e organizado por Leonel Brizola, durante seu exílio no Uruguai. Para reprimir o movimento o governo usou cerca de 4 mil homens do exército, aeronáutica e das polícias militares de Minas Gerais e do Espírito Santo, em uma das maiores operações militares realizadas no país até hoje. O documentário de Flávio Frederico, que venceu o festival É Tudo Verdade em 2007, recupera esta história.

Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski (2009, 93 minutos, documentário)
Grande vencedor do festival É Tudo Verdade este ano, o documentário de Chaim Litewski resgata a história do empresário dinamarquês Henning Albert Boilensen, morto por miltantes de esquerda devido à sua colaboração com o governo militar.

Condor, de Roberto Mader (2007, 106 minutos, documentário)
Revelador documentário sobre a cooperação entre militares sul-americanos durante o período da ditadura, conhecida como Operação Condor. Entre as diversas histórias reveladas, está a dos bastidores do seqüestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Diaz em Porto Alegre.

Hércules 56, de Sílvio Da-Rin (2006, 93 minutos, documentário)
Documentário que resgata a história dos 15 presos políticos que foram trocados pelo embaixador americano Charles Burke Elbrick, sequestrado no Brasil em 1969.

Jango, de Sílvio Tendler (1984, 115 minutos, documentário)
Clássico do documentário brasileiro sobre a trajetória de João Goulart, presidente deposto pelo golpe militar em 1964.

O Que é Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto (1997, 105 minutos, ficção)
Drama de ficção inspirado nas memórias de Fernando Gabeira, um dos membros do grupo de militantes de esquerda responsável pelo seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick. Produção de sucesso, indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro, com Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Selton Mello e Alan Arkin.

Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat (2004, 102 minutos, ficção)
Miguel é um Senador da República que visita seu amigo de infância Jorge, que se tornou um poderoso traficante de drogas do Rio de Janeiro, para lhe propor um projeto social nas favelas. Nos anos 70 eles já haviam se encontrado na prisão de Ilha Grande, quando Miguel era preso político e Jorge cumpria pena por um crime comum. Premiado drama político, com roteiro assinado por Paulo Lins, autor do romance Cidade de Deus.

Trago Comigo, de Tata Amaral (2009, 180 minutos, ficção)
Série em quatro episódios produzida pela TV Cultura que conta a história de Telmo Marinicov (vivido por Carlos Alberto Riccelli), diretor de teatro e ex-guerrilheiro às voltas com a perda de uma parte importante de sua memória de ativista político durante a ditadura militar. Com direção de Tata Amaral, a premiada diretora de Um Céu de Estrelas e Antônia, a série será exibida em sua versão integral.

Vlado – 30 Anos Depois, de João Batista de Andrade (2005, 85 minutos, documentário)
Morto pela ditadura militar, o jornalista Vladimir Herzog é objeto deste tocante documentário dirigido por João Batista de Andrade. O filme é um apanhado da vida, carreira e morte de Vlado, contando com depoimentos de amigos e familiares.

Zuzu Angel, de Sérgio Rezende (2006, 103 minutos, ficção)
A luta da famosa estilista Zuzu Angel (vivida por Patrícia Pillar) para descobrir o que aconteceu com seu filho Stuart (Daniel de Oliveira), jovem militante de esquerda preso e torturado até a morte pelos militares.

GRADE DE HORÁRIOS

Primeira Semana

27 de outubro (terça-feira)
15:00 – Batismo de Sangue
17:00 – Cabra-cega
19:00 – Cidadão Boilesen, seguido de debate com o Produtor do filme, Pedro Asbeg

28 de outubro (quarta-feira)
15:00 – Jango
17:00 – Zuzu Angel
19:00 – Condor

29 de outubro (quinta-feira)
15:00 – Hércules 56
17:00 – O Que é Isso, Companheiro?
19:00 – Quase Dois Irmãos

30 de outubro (sexta-feira)
15:00 – Vlado – 30 Anos Depois
17:00 – Batismo de Sangue
19:00 – AI-5 – O Dia que Nunca Existiu + Arquivos da Cidade

31 de outubro (sábado)
15:00 – Condor
17:00 – Jango
19:00 – Cabra Cega

1º de novembro (domingo)
15:00 – Cabra-cega
17:00 – Caparaó
19:00 – Trago Comigo

Segunda Semana

3 de novembro (terça-feira)
15:00 – Quase Dois Irmãos
17:00 – Hércules 56
19:00 – O Que é Isso, Companheiro?

4 de novembro (quarta-feira)
15:00 – AI5-O Dia que nunca existiu + Arquivos da Cidade
17:00 – Caparaó
19:00 –Zuzu Angel

5 de novembro (quinta-feira)
15:00 – Zuzu Angel
17:00 – Jango
19:00 – Vlado – 30 Anos Depois

6 de novembro (sexta-feira)
15:00 – O Que é Isso, Companheiro?
17:00 – Quase Dois Irmãos
19:00 – Hércules 56

7 de novembro (sábado)
15:00 – Batismo de Sangue
17:00 – AI-5 – O Dia que Nunca Existiu + Arquivos da Cidade
19:00 – Trago Comigo

8 de novembro (domingo)
15:00 – Vlado – 30 Anos Depois
17:00 – Condor
19:00 – Caparaó

Postado por Marcelo Perrone

CineEsquemaNovo: um balanço possível

25 de outubro de 2009 2

Ressaca, de Bruno Vianna/Divulgação

Foi um bom festival este sexto CineEsquemaNovo (CEN), que terminou este fim de semana em Porto Alegre (aqui nesta materinha de ZH há a lista dos filmes vencedores).

Não consegui assistir a todos os curtas em competição, mas vi os quatro longas-metragens da mostra competitiva e pude perceber que a irregularidade dos títulos selecionados segue sendo uma marca do evento. Também pude perceber uma pequena queda da qualidade dos longas, na comparação com a seleção exibida no ano passado.

Digo "pequena" queda porque Ressaca, o maior vencedor do festival, e também o bom documentário A Casa de Sandro, ambas produções cariocas, são filmes bem-realizados, maduros e de alto nível - além, é claro, de serem títulos inventivos do ponto de vista formal, uma exigência da linha curatorial do CEN para a composição das duas mostras competitivas.

Não se pode negar que o longa de Bruno Vianna acabou sendo um evento à parte na programação. Ressaca teve duas exibições no festival, e quem como eu pôde acompanhar ambas percebeu que não se trata de um único filme.

Com seu longa anterior, Cafuné (2005), Vianna já demonstrava inquietações quanto às possibilidades de explorar diferentes sensações no espectador a partir de uma história múltipla - o filme foi lançado em duas versões bastante diferentes entre si. Agora, ele radicalizou: concebeu Ressaca com 120 cenas, das quais seleciona, ao vivo e ao lado da tela de cinema, entre 60 e 70 para serem exibidas a cada sessão. Isso tudo possibilitado por um equipamento desenvolvido especialmente para o projeto, que permite a reorganização das sequências conforme quiser o diretor.

Na sexta à noite, o público embarcou na comédia adolescente sobre os ritos de passagem de um garoto (João Pedro Zappa, em atuação excelente, vivendo as quatro fases do protagonista) durante o período de turbulência econômica e hiperinflação do país, entre os anos 1980 e 1990. No sábado, no entanto, Ressaca virou um drama existencial sobre a vida do menino, com menos cenas engraçadas e a exploração de outros conflitos aos quais a sessão do dia anterior havia dado menos atenção. Pior para os espectadores que viram esta segunda versão - diferentemente da sexta-feira, o longa foi recebido de maneira fria, o que não se pode dizer que tenha sido algo surpreendente dado aquilo que se viu na tela.

Apesar dessa, digamos, irregularidade entre uma exibição e outra, é inegável o mérito do projeto. A experiência estética proporcionada pelo filme é muito interessante e, se isso é possível graças ao aparato técnico, também pode-se dizer que só é alcançado graças à qualidade de cada uma das sequências, com seus diálogos espirituosos e uma direção de cena bastante satisfatória. Os prêmios concedidos pelos três júris fizeram justiça a Ressaca - e agora só nos resta esperar que os programadores do circuito alternativo porto-alegrense façam o mesmo que já fizeram os de Recife e Belo Horizonte, ou seja, tragam o longa para ser exibido na programação de suas salas, em pelo menos uma sessão diária, é claro, com a presença e as intervenções do realizador.

Agora, talvez mais que isso, é de se festejar o passo à frente que deu o CEN com a programação das novas mostras paralelas internacionais. As seleções Zona Livre e Cine En Construción permitiram ao público ver, na sala de cinema, alguns títulos cultuados em circuitos alternativos, principalmente a internet - títulos estes que dificilmente poderiam ser vistos de outra maneira em Porto Alegre.

Um exemplo é o trabalho inquieto e muito interessante do diretor norte-americano Cory McAbee, de quem se pôde ver o longa The American Astronaut (2001) e o novíssimo Stingray Sam (2009), exibido em pré-estreia internacional antes da cerimônia de premiação, no encerramento do festival. Antes ainda, durante o Minuto CineEsquemaNovo, vídeo com notícias do evento, houve a exibição de uma rápida entrevista com o próprio McAbee, que ajudou o espectador a conhecer um pouco mais do cineasta.

Como em todas as outras cinco edições, o CEN seguiu prezando pelos debates, seminários e oficinas, realizados diariamente após as sessões e em horários diferenciados. Algo absolutamente necessário se levarmos em conta a opção pelos filmes que se arriscam a apontar alguns caminhos possíveis - especialmente os mais radicais - da linguagem cinematográfica. Longa vida ao CineEsquemaNovo - Festival de Cinema de Porto Alegre!

Algumas dicas para saber mais dos filmes do CEN:

> Site oficial de Ressaca

> Canal do CEN no YouTube, com trailers e videonotícias do festival

> Site oficial do CEN, com as fichas técnicas de todos os filmes

> Site oficial de Cory McAbee

Postado por Daniel Feix

CineEsquemaNovo: dicas do curador

16 de outubro de 2009 5

Gustavo Spolidoro, que entre os cinco organizadores do CineEsquemaNovo (CEN) é aquele que responde pela curadoria do festival porto-alegrense de cinema, mandou suas oito dicas do evento, que começa amanhã, sábado, e prossegue até o fim da próxima semana.

Segue a mensagem, com as caixas altas originais enviadas pelo curador:

1. MOSTRA ZONA LIVRE: Tiramos os filmes da internet e colocamos no cinema. Traremos oito filmes que são cults entre a gurizada plugada do mundo todo (a curadoria é do Davi Pretto e Bruno Carboni, diretores do curta QUARTO DE ESPERA). Filmes a maioria inéditos no Brasil e totalmente inéditos em Porto Alegre (pelo menos em salas, mas obviamente não na internet). Legal que todos têm autorização dos realizadores: um dos filmes mais comentados e cultuados, EX-DRUMMER, da Bélgica; um revolucionário filme observacional, o húngaro HUKKLE; o norte-americano sem noção AMERICAN ASTRONAUT; o argentino adolescente e sexualmente transmissível GLUE; o filme sobre o FUGAZI (INSTRUMENT), feito pelo cultuado JEM COHEN; e três curtas/médias: o japonês HAZE; INFLUENZA, do Koreano Bong Joon-Ho; e VIBROBOY, do francês Jan Kounen.

2. Também descoberto pelos curadores da Zona Livre, o filme de ENCERRAMENTO DO CEN é praticamente uma estreia internacional (o filme começou sua carreira em festivais em setembro): STINGRAY SAM, do Core McAbee, mesmo diretor de AMERICAN ASTRONAUT;

3. MOSTRA CINE EN CONSTRUCCIÓN: parceria com os festivais de Toulouse e San Sebastián. Esta mostra vai exibir sete premiados longas latinos que participaram do Cine En Construcción, uma das principais janelas para filmes das Américas do Sul e Central na Europa e que serve para destacar e premiar projetos em finalização. Estará presente ao CEN a diretora do Cine En Construcción, Eva Morsh, que participará de debate e encontros com realizadores gaúchos e com os convidados do CEN. Os filmes em exibição são: CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS; FAMILIA TORTUGA (MEX); TE CREÍS LA MAS LINDA (MAS ERES LA MAS PUTA) (CHI); EL ASALTANTE (ARG); LA NANA (CHI/MEX); LA SOMBRA DEL CAMINANTE (COL); e ALMA MATER (URU), que conta com o Werner Schünemann no elenco;

4. SEMINÁRIOS com os jurados: Uma das idéias mais importantes que implantamos este ano é aproveitar ao máximo as presenças no CEN 2009. Neste caso, os cinco jurados do festival apresentarão suas experiências em forma de seminário (do dia 20 ao dia 24, das 11h às 13h); As inscrições são gratuitas e devem ser feitas pelo email seminarios@cineesquemanovo.org, enviando o nome e a profissão ou a universidade/escola. Os seminários estão linkados à MOSTRA AULA DE CINEMA, que acontece nas mesmas datas e locais, das 10h às 11h.

5. MOSTRA COLEÇÃO CINEMA MARGINAL: exibiremos os quatro filmes lançados até o momento (em DVD) pela LUME e HECO. Além, dos filmes, o grande destaque talvez seja a exibição completa dos extras, que incluem curtas metragens dos diretores Rogério Sganzerla, Andrea Tonacci, Elyseu Visconti e André Luiz Oliveira, além de entrevistas e outros materiais raros. Os longas são: SEM ESSA ARANHA (Sganzerla), METEORANGO KID (André Luiz), BANG BANG (Tonacci) e OS MONSTROS DE BABALOO (Visconti). Os DVDs estarão à venda durante o festival.

6. HORA-EXTRA: também dentro da idéia de aproveitar ao máximo os convidados do CEN 2009, vamos ter, diariamente, das 18h as 19h, no lounge do festival, na Usina do Gasômetro, um espaço/horário para apresentação de outros trabalhos além dos filmes em competição. Por exemplo: o diretor do longa RESSACA vai exibir e explicar como funciona o equipamento que permite que ele monte o filme na hora (sim, este longa SERÁ MONTADO NA HORA DA PROJEÇÃO); além disso, instalações, shows e performances estão previstos para a HORA-EXTRA.

7. A tradicional MOSTRA DA MEIA-NOITE terá quatro sessões este ano, com 24 filmes realizados por pessoas envolvidas no CEN, convidados, jurados e equipe. Destaque a sessão com curtas de alunos da PUC, que apresentará QUARTO DE ESPERA, recentemente selecionado para o Festival de Estocolmo, e MARESIA, escolhido como o representante brasileiro do Kodak Film School.

(acréscimo meu: entre os títulos exibidos nas sessões da meia-noite da Sala P.F. Gastal está também MORRO DO CÉU, o novo longa-metragem do próprio Spolidoro, um documentário muitíssimo interessante focado no dia a dia de um adolescente e seus amigos no interior do município de Cotiporã, no Rio Grande do Sul)

8. E o festival finaliza com um DEBATE GERAL (que já foi excelente em 2008) com todos os realizadores presentes e público, no sábado, 16h, sobre CINEMA ENQUANTO ARTE. Um debate aberto e livre, sem mediação, onde quem quiser pode trazer e discutir aquilo que pensa sobre o fazer ver e viver cinema.

Postado por Daniel Feix

The Ladies Man

16 de outubro de 2009 0

Black Dynamite, esse sim é o cara  Foto: Divulgação

Meses atrás, numa matéria sobre a mostra de filmes da blaxploitation na Sala P.F. Gastal, citei Black Dynamite como novo exemplo de tributo ao gênero. Até então, o filme só havia sido exibido no Festival de Sundance, onde havia tido uma recepção bastante positiva, diante da peculariedade de sua proposta. Estreou no começo de setembro nos EUA e há pouco foi exibido no Festival do Rio.

Qual é a do filme?  Além da homenagem a um gênero de culto que viveu sua grande fase no comecinho dos anos 1970 - tal qual Tarantino fez em Jackie Brown -, o diretor Scott Sanders recria a blaxploitation com extrema fidelidade e em tom de carinhosa paródia, colocando no liquidificar todos os elementos fundamentais daqueles filmes estrelados, dirigidos, produzidos musicados por negros: o detetive malandro bom de briga e de cama, minas gostosas, traficantes, cafetões, soul music de primeira e até referências políticas.

Black Dynamite (interpretado por Michael Jai White) é um veterano do Vietnã e ex-agente da CIA que se mete numa trama rocambolesca e vira o herói da comunidade quando seu irmão é assassinado. Sua cruzada contra o crime organizado o leva até a Casa Branca, onde o bravo e marrento The Ladies Man dá umas bifas no presidente Richard Nixon.

O filme ainda não tem previsão de lançamento no Brasil. Dá uma conferida no trailer e sente o clima dessa mistura de Shaft com Jones, o Faixa Preta (dois clássicos dos bons tempos das sessões do Corujão/Domingo Maior da Globo.

UPDATE: Black Dynamite tem distribuição garantida no Brasil, pela Europa, com lançamento previsto para fevereiro de 2010.

Postado por Marcelo Perrone

Tudo sobre o CineEsquemaNovo

14 de outubro de 2009 0

Vale a pena conferir o site do CineEsquemaNovo – Festival de Cinema de Porto Alegre, cuja sexta edição tem início neste sábado (17) e se prolonga até o final da próxima semana (dia 24).

É muito bonito, é funcional e tem muitas informações sobre tudo o que é importante no festival – como a série muito interessante de seminários que será oferecida todas as manhãs durante a realização do evento, como a oficina de crítica cinematográfica da qual participarei, como todas as mostras de filmes, especialmente as duas competições, de longas e de curtas-metragens, e as duas mostras paralelas internacionais, a Zona Livre e a Cine En Construcción.

O site não disponibiliza os trailers desses filmes, mas estão lá as fichas técnicas completas, com sinopses, fotos, suportes de captação e outros detalhes de cada produção, e a grade de programação de todas as mostras.

Trailers, de qualquer forma, há em abundância no YouTube – ainda mais dos títulos das - promissoras - mostras paralelas internacionais, que incluem médias e longas-metragens que ganharam status de cult graças a circuitos para lá de alternativos como a... internet. Visite o canal do CineEsquemaNovo por lá e confira.

Aqui, vou deixá-los com uma dica extra, ou melhor, uma inquietação: Ressaca, um dos quatro brasileiros integrantes da mostra competitiva de longas. Não vi o filme, que é do carioca Bruno Vianna e que passou no Festival do Rio do ano passado, mas estou curioso para saber que proposta é essa de manipular recursos de pós-produção como cortes e a inserção de imagens em meio à própria projeção. Dizem os organizadores que o cineasta estará em Porto Alegre de posse do equipamento concebido exclusivamente para a realização desse filme, que o permite fazer essas intervenções tornando cada sessão do longa única, não-repetível.

No site oficial de Ressaca há mais informações sobre o projeto como um todo e explicações - em vídeo! - sobre como funciona a proposta de interferência em todas as exibições. Dê uma olhada e aproveite para espiar também, abaixo, uma montagem com trechos de gravações de espectadores em sessões que contaram com as intervenções ao vivo de Bruno Vianna.

Como dizem as legendas, no início o diretor está na primeira fila, manipulando a edição com um mouse, e depois trabalha em uma pequena tela, por meio do sistema touch screen. Também há músicos no palco executando, igualmente ao vivo, a trilha sonora de Ressaca. O equipamento luminoso circular que aparece no canto inferior é a própria geringonça que permite as interferências de Vianna.

A conferir que tipo de experiência cinematográfica surge a partir disso tudo.

Postado por Daniel Feix

Olho vivo na tela do cinema

14 de outubro de 2009 1

Atire o primeiro rolo de filme o cinéfilo mais tarimbado que nunca sofreu diante de uma má projeção, aquela em que o negativo deteriorado, a lâmpada fraca, o operador vacilão e o som abafado tornavam a sessão um martírio. Quantos clássicos não foram vistos em versões distantes das imaginadas por seus autores? Quem já não bateu pé na sala de cinema gritando "foco, foco!" ?

As salas de cinema melhoraram muito suas condições técnicas nas últimas décadas, mas é, vejam só, justamente um recente avanço tecnológico que reacende o debate sobre a qualidade das projeções. Graças ao sistema de projeção digital da Rain foi possível democratizar e baratear a distribuição de filmes no Brasil. Mas esse mesmo sistema tem apresentado deficiências que agora, ao longo do Festival do Rio, formaram a gota d`água que fez transbordar a indignação de críticos de todo o Brasil.

Por iniciativa do jornalista Pedro Butcher, crítico da Folha de São Paulo e editor do portal Filme B, um fórum integrado por críticos que atuam nas mídias impressa e online elaborou a carta aberta que segue abaixo. Quem está familiarizado com as duas salas do Unibanco Arteplex aqui da Capital que fazem uso da projeção Rain vai ter melhor noção do que cobra o documento. Às vezes a projeção está aceitável (na tela pequena), às vezes é muito ruim (na tela grande), prejudicando gravemente a percepção do espectador. E é uma pena que o espectador menos atento não perceba o quanto o filme ao qual assiste, em alguns casos, está seriamente comprometido e distante da obra original idealizada por seu realizador.

 São várias particularidades técnicas envolvidas no processo, e estas envolvem não apenas o sistema e o exibidor, mas também o distribuidor quando este fornece uma matriz de baixa qualidade. O recém-inaugurado Instituto NT tem projeção Rain e já vi lá (em tela pequena) filmes com excelente projeção. O GNC Moinhos também apresenta agora uma sala com o sistema, e os relatos de quem lá viu as óperas do Metropolitan são bem satisfatórios. 

Por fim, vale lembrar que essa projeção digital em uso no Brasil é de um padrão intermediário. Não é o mesmo sistema que está sendo implantado nos EUA, o de alta definição com padrão de qualidade homologado pelos grandes estúdios (chamado 2K ou 4K), que deve aposentar, em médio prazo, definitivamente, o centenário processo de filmagem/revelação/transporte/projeção em película. Lá, porque aqui, devido aos custos, deve demorar bem mais - embora as salas equipadas com 3D, tecnicamente, já tenham dado um passo importante para a complementação da projeção digital "quente", que, dizem, pois ainda não vi, é semelhante à melhor projeção em 35mm.

Bom, leia a carta abaixo e, de preferência, dê sua opinião.

CARTA ABERTA AOS RESPONSÁVEIS PELA PROJEÇÃO DIGITAL NO BRASIL

A projeção digital chegou ao Brasil com a missão de democratizar o acesso aos filmes e libertar os distribuidores da dependência de cópias em 35 milímetros, cuja confecção e transporte são notoriamente caros. A instalação de projetores digitais permitiria ao público assistir a títulos que dificilmente seriam lançados nas condições tradicionais e ainda ofereceria condições para que espectadores situados longe do eixo Rio-São Paulo (onde se concentram quase 50% das salas de cinema do país) tivessem acesso aos mesmos títulos simultaneamente.

O que estamos vendo, no entanto, é uma total falta de respeito ao espectador no que se refere à exibição do filme propriamente dita. As razões são basicamente duas: projeções incapazes de reproduzir fielmente os padrões de cor e textura da obra e/ou projeções incapazes de exibir os filmes no formato em que foram originalmente concebidos. Sem falar no som, que muitas vezes ganha uma reprodução abafada, limitada ao canal central, muito diferente de seu desenho original.

A adoção da projeção digital pelos dois maiores festivais internacionais do Brasil (o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo) e por outros festivais do país, infelizmente, não respeitou o que seriam critérios mínimos de qualidade de projeção de filmes em cinema – algo que é observado com atenção em qualquer festival internacional que se preze. Trata-se de uma situação particularmente alarmante tendo em vista o papel de formadores de plateia que esses eventos desempenham.

Sucessivamente, temos visto um autêntico massacre ao trabalho de cineastas, fotógrafos, diretores de arte, figurinistas, técnicos de som e até mesmo de atores. Apenas para citar um exemplo: Les herbes folles, o novo filme de Alain Resnais, originalmente concebido no formato 2:35:1, foi exibido no Festival do Rio, com projeção digital, no formato 1:78. Isso representou o corte da imagem em suas extremidades, resultando em enquadramentos arruinados, movimentos de câmera deformados e rostos dos atores cortados. Um pouco como se A santa ceia, de Leonardo Da Vinci, tivesse suas pontas decepadas, deixando alguns discípulos de Jesus fora de campo – e da história. Para completar o desrespeito, não há qualquer aviso em relação às condições de exibição e o preço cobrado pelo ingresso não sofre qualquer alteração.

Não nos cabe, aqui, pregar a “volta ao 35mm” nem defender determinada resolução mínima para a projeção digital. Sabemos que, se respeitados determinados critérios técnicos – ou seja, se a empresa responsável pela projeção digital receber do distribuidor o master no formato adequado, se o processo de encodamento for feito corretamente, e se os ajustes necessários para a exibição de cada filme forem realizados cuidadosamente –, a projeção digital pode ser uma experiência perfeitamente satisfatória para o espectador.

Não é isso, porém, que tem ocorrido. Exibidores, distribuidores e os fornecedores do serviço da projeção digital são responsáveis pela má qualidade da projeção e coniventes com esse lamentável descaso geral, que tem deixado críticos e amantes de cinema indignados. É um desrespeito ao cinema e aos seus criadores, mas, sobretudo, ao espectador e consumidor final, que saiu de casa e pagou ingresso para ver um filme.

A situação chegou a um ponto intolerável. Pedimos a todos os profissionais envolvidos com a projeção digital que tomem providências para que tais deformações não se repitam.

Postado por Marcelo Perrone

Oui, oui, Tarantino

10 de outubro de 2009 0

Léa Seydoux e Christophe Waltz em /Universal

É só uma pontinha, dura os minutos iniciais de Bastardos Inglórios. Mas como é bom ver a gracinha Léa Seydoux emoldurada pelos closes de Tarantino - a protagonista de A Bela Junie vive uma das filhas do camponês interrogado pelo coronel alemão nessa fantástica sequência de abertura. Falando em bela, a estrela de Bastardos Inglórios é outra jovem musa francesa, Mélanie Laurent (foto do post abaixo), que está em cartaz também em Paris, como a estudante que vira a cabeça de um sessentão. Oui, oui, monsieur Tarantino...

Postado por Marcelo Perrone

Tarantino e o fetiche da película

09 de outubro de 2009 4

Mélanie Laurent vive uma dona de cinema judia em

Escrevo no Segundo Caderno desta sexta sobre a estréia de Bastardos Inglórios. A correria do fechamento, a ordenação de idéias sobre o filme visto no dia anterior e ainda em depuração e as limitações de tempo e espaço, por vezes, deixam a forte sensação de que o mais relevante ficou fora do texto impresso. É do jogo.

Bastardos Inglórios vai render muito assunto para quem é fã de Tarantino e, sobretudo, do cinema de gênero ao qual ele vive a pagar tributo. Da trilha aos enquadramentos, de situações a nomes de personagens, toda a gramática do longa brota das referências acumuladas por seu conhecimento cinéfilo enciclopédico e do carinho que o diretor tem, sobretudo, por aquelas obras classificadas entre as classes B e Z. Como já disse o semiólogo italiano Umberto Eco, fazer uso de um clichê isolado costuma resultar no ridículo, mas costurar com habilidade uma porção de clichês, como faz Tarantino, pode originar uma obra-prima.

Se tudo isso parece mais do mesmo para quem acompanha Tarantino desde Cães de Aluguel, tem Pulp Fiction como o Cidadão Kane de seu tempo e viu no díptico Kill Bill o suprassumo da usina de reciclagem tarantinesca da cultura pop, Bastardos Inglórios surge um tanto diferente. A reverência, em meio à violência, ao humor e ao apuro visual e narrativo recorrentes, abriga agora, mais que o cinema de gênero – no caso o faroeste espaguete temperado com filmes de guerra de missões impossíveis – , um tributo ao cinema em escala macro, tanto a grande arte quanto o espaço transcendente da sala de projeção.

São muitos os momentos de Bastardos Inglórios que merecem ser destrinchados (podem ler, risco de spoiler sob controle):

1)    A maravilhosa sequencia inicial, com o esgrima psicológico entre o camponês francês e o oficial nazista.  

2)     A atuação espetacular do austríaco Christoph Waltz, premiado como melhor ator em Cannes, que faz do coronel nazista caçador de judeus Hans Landa um dos grandes personagens do cinema contemporâneo.

3)    Brad Pitt, mesmo ofuscado pelo então desconhecido Waltz, tem momentos iluminados com o bronco tenente americano Aldo Raine, líder do pelotão de soldados americanos judeus que barbarizam os nazistas na França ocupada. Numa composição que combina Zé Buscapé com o Don Corleone de Marlon Brando, Pitt protagoniza uma hilária sequência quando os americanos precisam se passar por italianos para completar uma fase da missão.

4)    O fetiche de Tarantino por loiras maravilhosas, detalhado em closes nos pés da alemã Diane Kruger e nos olhos e boca da francesa Mélanie Laurent.

5)    A capacidade única do diretor em criar uma trilha sonora arrebatadora. Essa vai de uma seleção de Ennio Morricone a David Bowie, presente com Cat People (Putting Out Fire), tema do filme A Marca da Pantera.

Entre essas e tantas outras pautas que Tarantino oferta para dar início a saborosas conversas após a sessão, a que mais me chamou atenção é a declaração de amor que ele faz ao cinema. “Na França nós respeitamos os diretores” é uma frase dita no filme, que talvez indique que ao americano Tarantino interessa hoje obter respaldo como grande autor mais na Europa do que em seu próprio país. Um indicativo disso é ele, mesmo diante da aversão dos compatriotas às legendas, ter em seu filme muitos diálogos em alemão e francês.

Também são muitas as citações ao cinema alemão dos anos 20 e 30, que evocam nomes como os diretores Leni Riefenstahl e George W. Pabst e o ator Emil Jannings, o expressionismo, os ingênuos “filmes de montanha” e a mítica produtora UFA. 

Detrator do cinema digital, suporte que para ele se presta tão-somente à televisão e ao registro de festas de família, Tarantino explicita também seu fetiche pelo filme em película. A ponto, inclusive, de fazer os rolos de negativos e a emulsão em nitrato terem “papeis relevantes” no enredo.

Por fim, vale lembrar o fato de Tarantino, em sua imensa e delirante criatividade e pleno domínio das ferramentas audiovisuais, sublinhar que no universo mágico do cinema tudo é permitido. Inclusive mudar o curso da história para consumar uma vingança ainda que tardia.

Assista a Bastardos Inglórios e passe por aqui para deixar sua opinião. Esse é tipo de filme do qual compartilhar impressões costuma ser tão prazeroso quanto ver.

Postado por Marcelo Perrone

Longa vida aos vampiros

05 de outubro de 2009 1

Lina Leandersson, a espetacular jovem atriz de

A sinopse em duas linhas do tijolinho do jornal pode ser praticamente a mesma para Crepúsculo, nova onda pop a flertar com o universo fantástico, e Deixa Ela Entrar, filme sueco que está desde sexta em cartaz na Capital após cumprir carreira internacional sob aclamação de crítica e público - gerou estusiasmadas comunidades de fãs na internet e alcançou rapidamente o status de filme de culto.

Ao mesmo tempo terno e perturbador, o longa do sueco Tomas Alfredson busca, assim como seu par americano, renovar um dos gêneros mais clássicos do terror colocando como protagonistas vampiros juvenis. Nesta visão, as criaturas da noite refletem em sua maldição muitas das inquitudes e descobertas da adolescência, contrastando a presença da morte com a fase mais evervescente da vida – ou, para alguns, a mais infernal.

Mas afora também compatilhar a origem numa matriz literária, estas duas produções não poderiam ser mais diferentes em suas ambições como cinema. Deixa Ela Entrar passa ao largo do registro romântico edulcorado de Crepúsculo, que pode ser eficiente como fênomeno de consumo teen mas nada acrescenta ao gênero. Já a releitura de Alfredson resulta assustadoramente sombria – e sem deixar de ser romântica – não só pela imersão no cultuado ambiente dos mortos-vivos, mas muito pelo que revela do terror cotidiano sob o olhar de uma criança.

É este olhar que surge primeiro, com Oskar (Kåre Hedebrant), menino de 12 anos que vive com a mãe em um apartamento no subúrbio de Estocolmo. O solitário garoto tem seus pesadelos diários na escola, onde apanha e é humilhado por colegas. Em uma noite gelada no pátio do condomínio, planejando uma vingança que não tem coragem para consumar, Oskar conhece Eli (Lina Leandersson), menina da mesma idade recém-chegada ao prédio.

Logo é revelado as razões da aparêcia e estranho comportamento da menina: Eli é uma vampira aprisionada no corpo de criança e sobrevive graças aos brutais assassinatos cometidos pelo pai (o homem com quem vive é uma definição mais precisa), que sangra suas vítimas para alimentar a garota. Quando preciso, ela própria vai à caça, colorindo de vermelho a neve incessante que cobre a cidade.

Oskar e Eli descobrem que, tão diferentes, compatilham aflições e nutrem um pelo outro uma forte atração - diante da idade dos personagens, obviamente, a tensão sexual recorrente nos filmes de vampiro é tangenciada em valores como amizade e companheirismo. Ele admira o poder e a coragem da amiga. Ela espelha nele a vida plena que poderia ter e torna-se sua protetora.

O registro de Alfredson é preciso, tanto na técnica – da espetacular fotografia aos efeitos especiais, mínimos mas impressionantes – quanto na parceria que o diretor estabelece no casal de excelentes atores, Kåre Hedebrant (Oskar) e a espetacular Lina Leandersson (Eli). Mas o que impera em Deixa Ela Entrar é a força de uma narrativa que seduz aos poucos, entregando uma cena memorável após outra até o arrebatamento definitivo - descrevê-las é antecipar um impacto que deve ser sentido na sala de cinema.

Criar uma obra original em um gênero batido, que já tem sua cota de clássicos na história do cinema, foi um desafio plenamente vencido pelo cineasta sueco, que não abriu mão de seguir convenções consagradas, mas também foi inventivo na hora de driblar os clichês visuais e narrativos dos filmes de vampiro. Se depender de obras vigorosas como Deixa Ela Entrar, a imortalidade dos herdeiros de Drácula no cinema está assegurada.

Atualização: notícia que chega agora, via Filme B.

Deixa ela entrar terá refilmagem americana
A elogiada produção sueca Deixa ela entrar, que a Filmes da Mostra acaba de lançar em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba, ganhará um remake nos Estados Unidos. A nova versão terá direção de Matt Reeves (Cloverfield) e será produzida pela independente Hammer Films, com lançamento da Overture. Estão confirmados no elenco Richard Jenkins, Kodi Smit-McPhee and Chloe Moretz.

Postado por Marcelo Perrone

Gaúcho não é tão cinéfilo assim

04 de outubro de 2009 3

Gaúcho não gosta de cinema nacional, como já discutimos em outro post neste blog, e como se pode ler no Segundo Caderno da ZH desta segunda-feira. Mas será que é só de cinema nacional que gaúcho não gosta?

Diz Paulo Sérgio Almeida, diretor do portal Filme B, maior referência da análise do mercado cinematográfico brasileiro, que as bilheterias dos longas produzidos no país são de uma forma geral menores na Região Sul do que no restante do país. Em Curitiba, no entanto, esse cenário está em processo de mudança, aponta o Filme B - repetindo o que já houve em São Paulo, cidade que gostava menos de cinema nacional quando a produção era concentrada sobretudo no Rio de Janeiro.

Sendo assim, nada mais natural que o Sul, e principalmente Porto Alegre, não recebam alguns filmes nacionais simultaneamente a outras praças - caso de Salve Geral, uma das principais estreias do ano no cinema brasileiro, que desde sexta-feira está em cartaz em diversos Estados, e não no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná (veja o trailer do filme dois posts abaixo). Distribuidores e produtores preferem encarar inicialmente o público lá de cima, menos, digamos, preconceituoso quanto à produção brasileira, para depois encarar os gaúchos.

As exceções são os fenômenos, longas que vendem mais de 1 milhão de ingressos: esses são tão vistos por aqui quanto em qualquer outra parte do Brasil. Parece que, quando se tem certeza de que um título foi devidamente aprovado por outras plateias, os porto-alegrenses se sentem mais à vontade para ir ao cinema. O tiro é mais certeiro, há menos chance de que o filme para o qual se comprou o ingresso é "diferenciado" no cenário nacional.

Trata-se de uma estupidez: o melhor filme brasileiro de 2009, arrisco-me a dizer, é A Erva do Rato, longa que Júlio Bressane realizou com pouquíssimos recursos, ou seja, na medida para não ser visto por conta do preconceito para com a produção nacional, muito embora tenha um requinte visual e um apuro técnico incomuns. A Erva do Rato foi visto, até aqui, onde estreou, por pouca gente. Creio que não mais que 10 mil pessoas. O que nos permite concluir que talvez não estreie tão cedo a Porto Alegre.

Bem, mas, além dessa relação problemática do gaúcho com o cinema nacional, é preciso dizer que outro fator explica o atraso na chegada de filmes brasileiros ao circuito local: Porto Alegre é uma das capitais que menos têm salas de projeção digital (o sistema Rain). Como, por uma questão de redução de custos e competitividade, as produções nacionais têm sido cada vez mais lançadas em cópias digitais, suas opções de exibição na capital gaúcha são cada vez mais restritas.

Isso só torna o problema (o atraso na chegada dos filmes brasileiros) maior. Mas ainda pior é outro dado advindo do Filme B. Paulo Sérgio Almeida defende que ainda estamos vivenciando uma revolução no conceito das salas de exibição, a revolução dos Multiplex. Já tem um tempinho que entramos nessa nova era, na qual os ingressos são mais caros e o conforto proporcionado ao espectador é maior, na qual dançaram os cinemas de rua e triunfaram os de shopping. Mesmo assim, afirma Almeida, ainda estamos vivendo a adaptação a essa realidade.

Pois essa adaptação está sendo mais lenta no Sul. Em outras palavras, o gaúcho tem ido menos ao cinema não apenas quando se trata de filme nacional. Pesquisas mais detalhadas nesse sentido parece que ainda não foram realizadas, mas a impressão do diretor do Filme B, que lida diariamente com os números de bilheteria dos cinemas do país, é a de que outras praças que não Porto Alegre se adaptaram melhor, ou mais rapidamente, às novas salas.

Talvez o gaúcho fosse mais apegado às salas de calçada. Talvez o gaúcho não vá tanto assim às salas de shopping por uma questão de ideologia. Talvez o gaúcho baixe mais filmes na internet do que o restante dos brasileiros e por isso esteja frequentando menos os cinemas. Talvez o gaúcho seja mais acomodado.

Talvez.

O que é fato é que o gaúcho, ou o porto-alegrense, não é tão cinéfilo quanto chegou a ser em outros tempos, ou quanto se pensava que fosse.

Postado por Daniel Feix